10 de fev de 2017

Cunha delatou Temer, mídia ignorou

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/02/9535/cunha-delatou-temer-midia-ignorou/

O fato da semana, do mês, do ano: Eduardo Cunha delatou Michel Temer.

A mídia chapa branca ignorou.

Cunha contou (vídeo disponível) que Temer participava de reuniões de nomeações da Petrobras.

Deu o serviço completo.

Apontou uma rebelião no PMDB, que impedia a votação da CPMF, por causa da supremacia petista em indicações na Petrobras. Temer mediou reunião e tudo se resolveu. Cunha detalhou, esmiuçou, comprometeu e lacrou.

A mídia governista, formada pelos jornalões de Rio de Janeiro e São Paulo, fez que não viu.

É a mesma mídia que ajudou a derrubar Dilma Rousseff.

Como teria atuado a mídia se Cunha tivesse dito que Lula participava de reuniões de nomeações na Petrobras?

Ou Dilma?

A mídia brasileira continua a mesma de 1954 e de 1964.

Um partido político.

Nada mais hilário do que o Jornal das 10 da Globo News.

É mais ou menos assim:

Renata Lo Prete – Alexandre Moraes vai para o STF…

Cristiana Lobo – Que coisa!

Gerson Camarotti – Foi a opção do Temer.

Mervel Pereira – Eh, hu, humm, sim, opção técnica.

Doni (lendo) – O presidente Temer examinou outros nomes.

Renata – Vai dar polêmica…

Cristiana – Que coisa!

Merval – Não foi a primeira nem a última vez…

Cristiana – Que coisa!

Doni (lendo) – Senado vai sabatinar Moraes.

Renata – Tem prós e contras.

Cristiana – Que coisa!

Brilhante. Os melhores comentaristas de todos os tempos.

Enquanto isso Eduardo Cunha delata Michel Temer e a mídia não vê.
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Nildo Ouriques entrevista Ariano Suassuna



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Globo não tem problemas em descartar Temer


Não é mais exagerado dizer que o golpe civil que sacou Dilma do governo pode ser atropelado por um golpe militar. O que está acontecendo em alguns estados, com destaque especial para o Espírito Santo, que é um dos menores do país, merece uma análise mais responsável daqueles que sabem que quando o caos se instaura, a saída em geral não é pela esquerda.

As polícias brasileiras funcionam quase que com a mesma estrutura e mentalidade dos ditos anos de chumbo, principalmente nas periferias. E os governos não só de direita, mas também os de centro e centro-esquerda fizeram muito pouco para transformá-las.

Da Bahia, que está no terceiro governo petista, a São Paulo que tem o mesmo grupo no poder desde 1982, não se têm nada muito diferente.

Ou seja, não se instalou um comando democrático na polícias e elas pouco serviram aos princípios de uma sociedade onde os direitos deveriam prevalecer sobre a força.

Isso faz com que essas polícias só entendam o comando da porrada. E que sejam facilmente manipuláveis por grupos interessados em aproveitar a fragilidade de governos bandidos para assumir de vez o poder.

É isso que pode estar ocorrendo hoje nas casernas do país e que poucos estão discutindo de forma explícita.

Há muito tempo venho escrevendo que um golpe não é, um golpe vai sendo. Inclusive vai mudando e ganhando nova roupagem com as oportunidades que surgem.

O que está acontecendo no Espírito Santo tem cheiro de evento teste, que pode se tornar apenas uma centelha de uma grande fogueira em pouquíssimo tempo.

Uma fogueira acendida pela Globo ao jogar tudo no impeachment de Dilma sabendo que entregaria o país a um bando de bandidos.

Um bando de bandidos que não tem compromisso algum com os rumos do país e que só busca se proteger das acusações de corrupção.

Um bando de bandidos que está liquidando o máximo de patrimônio público a preço de banana para ganhar mais dinheiro com a corrupção.

Um bando de bandidos que pode sim ter cometido um atentado criminoso contra o avião de Teori Zavascki.

Ou seria teoria da conspiração investigar profundamente um acidente como aquele? Ou não é muito estranho o que está se sucedendo depois de sua morte?

A Globo é a responsável direta pela desestabilização do país. E isso tem de ser dito e repetido a todo momento. Porque a Globo que hoje está com Temer não terá pudor algum em entregar a nossa democracia numa bandeja de prata para que a turma da força bote, supostamente, ordem na casa.

Foi assim no Egito. Tudo bem, o Brasil não é Egito. Mas do jeito que as coisas andam não estão ficando muito diferentes. E do jeito que o mundo anda, não haveria muito barulho por isso.

Ou você acha que o Trump iria ficar indignado e criar algum problema para a consolidação de um golpe militar no Brasil?

Renato Rovai
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Globo cria força-tarefa para atacar Lula e Dilma semana que vem


Jornalista de prestígio da Globo que, por razões óbvias, não quer se identificar, entrou em contato com este blogueiro e relatou o que chama de “estratégia cruel e desonesta” que diz que será usada pela emissora para criar nova onda de desmoralização dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. E disse, ao telefone, a seguinte frase:

— RIP (Repouse In Peace), jornalismo!

A ofensiva em questão teria sido determinada em plena redação da emissora, em voz alta, pela diretora da Globo News Eugênia Moreyra.

http://memoriaglobo.globo.com/data/files/71/67/0D/6E/7F8335102417F035180808FF/fundo-mem_ria---2.jpg
Na imagem acima, Eugênia Moreyra, diretora da Globo News
Recebi da fonte a informação de que o ministro do STF Edson Facchin, novo relator da Operação Lava Jato, vai levantar o sigilo das delações da Odebrecht na semana que vem e que a diretora da Globo News supracitada irá a Brasília na segunda-feira para receber material para divulgação.

Eugênia teria entrado na redação da emissora para falar com a produtora e passou a ela a determinação. Segundo o relato da fonte desta página, devido ao tom de voz da diretora os jornalistas que ficam no setor da redação da Globo News que fica ao lado do banheiro ouviram o que ela disse.

Leia, abaixo, o que disse a diretora da Globo News Eugênia Moreyra à produtora que irá com ela a Brasília na semana que vem. O intuito da determinação da diretora à produtora ter sido comunicada para todos no entorno ouvirem foi no sentido de que os jornalistas que serão requeridos atuem da forma como foi determinada sem fazerem questionamentos.

Confira, abaixo, transcrição textual da determinação da diretora da GNEWS:
— (…) Fachin vai liberar todos os vídeos das delações [da Odebrecht] de uma só vez. Não dará tempo de decupar [analisar e editar] as imagens… Você vai liderar uma força-tarefa em Brasília. Sua equipe vai assistir a todos os vídeos das delações. Assim que ouvirem “Lula” ou “Dilma”, coloquem no ar, na hora, ao vivo, interrompendo qualquer programa, no Plantão. Depois a gente assiste o resto. Dilma e Lula têm que ser denunciados na frente de qualquer outro delatado
Segundo a fonte, aparecerão nomes de políticos importantes de todos os partidos, incluindo PSDB. A estratégia em questão serve para que Lula, Dilma e o PT não se beneficiem do prejuízo de imagem que terão seus adversários.

Eduardo Guimarães
No Blog da Cidadania
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Mudança estrutural na moralidade pública

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/02/9533/mudanca-estrutural-na-moralidade-publica/

Quando um político era acusado de corrupção cabia-lhe pedir afastamento do cargo até o esclarecimento.

Passada essa época, certamente mítica, coube ao governo afastar os suspeitos.

Entramos definitivamente numa nova era.

Agora, nestes tempos despudorados, quando um político é acusado de corrupção imediatamente o governo lhe consegue um cargo melhor, com promoção, dando-lhe foro privilegiado e colocando-o fora do alcance da primeira instância judicial. O paraíso é o STF, que não julga, por desinteresse, e portanto não condena. Tudo se inverte. O menor rigor está no topo.

Os mais altos postos da República abrigam delatados da Lava-Jato: presidência da República, presidência do Senado, presidência da Câmara dos Deputados, presidência da Comissão de Constituição e Justiça do Senado e ministérios.

Os mais notórios citados na Lava-Jato que estão no topo do poder são: Michel Temer,Rodrigo Maia, Eunício Oliveira, Édison Lobão, Moreira Franco, Renan Calheiros, etc.

Creio que o etc me processará por não ter sido delatado até agora.

O que há em comum entre os citados? São todos do PMDB.

Falso: Rodrigo Maia é do DEM.

Ainda bem que o Senado aprovou a reforma do ensino médio. A partir de agora filosofia, sociologia e artes serão opcionais. A escola é obrigada a oferecer, mas o aluno faz se quiser.

Quanto alunos escolherão sociologia? Depois de dois anos sem alunos querendo fazer sociologia e filosofia o que acontecerá? A escola deixará de oferecer por uma questão de custos, a chamada relação custo-benefício.

Em linguagem popular, deu para bola dessas disciplinas.

O resultado virá: não haverá muita gente no futuro para exigir o afastamento de políticos acusados de corrupção.

Como se sabe, isso é coisa de ex-alunos contaminados ideologicamente por leituras filosóficas e sociológicas.

Eis a grande contribuição do Senado de Calheiros e Eunício para o Brasil do futuro.

Essa turma delatada atende também por codinomes: Botafogo, Índio, etc.

Não, admito, o etc é inocente.
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A luta e a arte de mulheres palestinas

Conheça os projetos culturais e sociais coordenados por palestinas na Cisjordânia ocupada

Graffiti no muro que divide Israel e Palestina em Belém / Júlia Dolce/Brasil de Fato
No Ocidente, o estereótipo de mulheres árabes, principalmente as muçulmanas, quase sempre está atrelado a submissão e passividade. A noção de superioridade das nações ocidentais se fundamenta muitas vezes em uma suposta ideia de que vivemos em uma sociedade mais avançada em relação aos direitos e à igualdade social.

Baseado nesse estigma, até mesmo intervenções militares em países do Oriente Médio já foram justificadas. Na Palestina ocupada não é diferente: Israel se privilegia constantemente de uma máscara ‘democrática’ em relação às questões de gênero para desumanizar e oprimir a população palestina.

No entanto, de guerrilheiras como Leila Khaled, à poetisas como Rafeef Ziadah, as mulheres palestinas vêm destruindo esse estereótipo há décadas. Recentemente, o discurso poderoso da ativista palestina-estadunidense Linda Sarsour na Marcha das Mulheres, em Washington, no dia seguinte à posse de Trump, viralizou na internet. “Eu me coloco aqui em frente a vocês, sem remorsos por ser muçulmana-americana, sem remorsos por ser palestina-americana”.

Nessa reportagem, conversamos com três mulheres palestinas, que através da liderança de projetos sociais e culturais exemplificam seu empoderamento e força. Uma atriz, uma escritora, uma professora de culinária. Duas muçulmanas, uma agnóstica. Ativistas. Uma já foi presa e torturada em dois momentos da sua vida. A segunda é refugiada e desenvolve um projeto para mães de crianças com deficiência no Campo de Aida (Belém). A terceira já realizou performances em diversos países, mas quase perdeu seu show em Jerusalém por conta da restrição de locomoção imposta por Israel. Todas elas não hesitam em negar: “As mulheres palestinas têm muito poder”.

Sireen Khudairi


“Eu nasci no norte do Vale do Jordão (Cisjordânia, mas classificado, na sua maior parte, como “Área C”, o que significa que está sob o comando militar de Israel). Hoje eu moro no campo de refugiados de Dheisheh, em Belém, com meu marido. Eu era uma voluntária na Campanha de Solidariedade ao Vale do Jordão e fazia tours com turistas estrangeiros para eles saberem da nossa situação. Mas depois de um tempo, especialmente depois de ter sido presa duas vezes, foi difícil para mim voltar a fazer as mesmas coisas.

Eu comecei a pensar em como mudar isso e conquistar meu poder novamente. Então comecei a estudar teatro. Eu estudei o Teatro do Oprimido na companhia Ashtar Theatre, em Ramallah. Quando você repete a sua história, começa a olhar para ela, percebe que é só uma história. Eu lembrei de algo que meu irmão me contou depois da minha prisão. Ele disse: “A Ocupação pode destruir sua casa e tudo a sua volta, roubar sua água, sua eletricidade, seus direitos, te colocar na prisão. Mas eles não podem ocupar sua esperança”. A partir do momento em que ocupam sua esperança você realmente vive sob ocupação.

Então eu tive a ideia de um projeto para coletar histórias de diferentes pessoas, e contar os relatos para crianças e idosos. Eu comecei a coletar os relatos de pessoas do Vale do Jordão. Cada detalhe aqui na Palestina é uma história. Assim eu comecei a trabalhar como contadora de histórias. As pessoas gostam e precisam ser ouvidas, especialmente as mulheres. Elas têm histórias com detalhes mais profundos, porque são tudo na comunidade. Se você for para o Vale do Jordão vai ver que na prática as coisas são feitas pelas mulheres, mesmo nos lugares mais simples. Elas tomam conta dos animais, vendem os produtos, quando tem demolições pelo exército israelense são elas que começam a construção das casas. Elas têm muito poder.

Há muitos projetos feitos por mulheres na Palestina. Mas acho que nós temos que trabalhar mais com cultura, desenvolver projetos com significados de luta para nós, porque nós lutamos todos os dias, mas não sabemos disso. Às vezes eu perguntava para uma mulher o que ela fazia da vida e ela respondia ‘nada’, mesmo que fizesse muitas coisas. Agora eu estou começando a escrever um livro, juntando os relatos com a minha própria história.

A primeira vez que eu fui presa foi em 2013, no caminho de volta da universidade. Dois soldados me levaram para a solitária na prisão militar. Lá é o inferno… Não tem vida nenhuma, você tem que criar vida em um ambiente de um metro por dois metros, com uma latrina dentro. Fiquei lá por um mês e meio. Me lembro que a primeira vez que saí não conseguia abrir os olhos porque a luz era muito forte. Tem pequenos detalhes sobre a prisão que ninguém comenta, mas significam muito. Por exemplo, eu pedia coisas engraçadas para os soldados, tipo um espelho. Depois de um mês eu queria ver o meu rosto…

Dentro da solitária tinha um cano de água que ficava pingando a noite toda, era impossível dormir. Eu era interrogada o tempo todo, não me deixavam descansar. Eu ficava sentada na cadeira do detector de mentiras por 12 horas sem mexer um músculo, apenas respondendo ‘sim’ ou ‘não’. Perguntavam se eu amava os meus pais, se já havia mentido para a minha mãe. Claro que já menti. Eu fazia yoga durante os testes para aguentar… Eles falavam ‘você foi treinada para usar armas’. Falavam que eu estava em contato com inimigos de Israel em Gaza. Eu dizia que conhecia muitas pessoas lá, tenho familiares em Gaza e eles provavelmente já sabiam disso. Encontrei ativistas palestinas incríveis na prisão, como a Lena Jarboni, que está presa há mais de dez anos. Você não pode imaginar quanto poder ela tem…

Mas a minha segunda prisão foi a pior… O exército atacou a casa dos meus pais, a minha procura. Meu irmão me ligou e me disse para eu não voltar. Joguei meu telefone fora, fiquei foragida por três meses. Fui para uma casa pequena e fiquei pensando no que fazer com meu tempo. Tive a ideia de escrever um livro sobre o Vale do Jordão, mas acabei ele em uma semana. Então pensei que eu deveria visitar lugares que não conhecia na Cisjordânia. Tirei meu hijab, troquei a cor do meu cabelo, mudei de nome. Dizia nos checkpoints que meu nome era Maya.

Me prenderam na cidade de Nablus, em uma noite em que fazia -4 graus e nevava. Estavam tão irritados que pareciam que iriam me matar com o olhar. Me levaram para a prisão e foi o momento mais horrível da minha vida. Me colocaram em um lugar aberto, amarraram meus pés e me vendaram. Tiraram meus sapatos e meu casaco. Eu sentia pedras e agulhas no chão. Então pediram para eu correr. Soltaram cachorros atrás de mim. Eu corri e senti que tinha perdido toda a minha resistência. Até hoje, não consigo ouvir os latidos de cachorros.

Mas o teatro me devolveu meu poder. Quando eu estou no palco, sinto que tenho o poder de todas as pessoas do mundo, especialmente se tenho um público. Toda vez que termino uma performance sinto que nasci de novo. É um sentimento estranho. Quando o diretor pede para nos lembrarmos da voz dos opressores para o treinamento, é como uma revolução. Você tem que passar por isso para então poder resistir”.

Islam Jameel Abu Auda


“Nós começamos o projeto Noor Women’s Empowerment Group (Luz: Grupo de Empoderamento de Mulheres), em 2010, quando uma chef brasileira chamada Sandra veio aqui no campo de refugiados de Aida (Belém) com uma amiga belga e viram meu filho mais velho, que tem paralisia cerebral e epilepsia.

Elas tentaram ajudar meu filho e nós conversamos muito sobre ele e sobre as muitas crianças como ele aqui no campo. Nós falamos sobre como ajudar todas elas. Eu disse que não gostava que as pessoas dessem dinheiro para o meu filho. Ela pensou e teve a ideia de eu fazer um curso de culinária junto com outras mulheres do campo que tem filhos com deficiência, para arrecadar dinheiro para a reabilitação deles. Nós começamos na minha casa, nessa cozinha aqui. Eu gosto das aulas de culinária porque com ela nós ensinamos nossa cultura para os turistas, queremos que eles vejam nossa cultura e o que as mulheres podem fazer.

Mas era difícil para mim nas primeiras vezes. Eu tenho outros seis filhos e não falava inglês, era muito tímida. A Sandra precisava falar com as pessoas, mas eu não entendia. Depois ela trouxe um voluntário que nos ensinou inglês. Hoje em dia eu consigo me comunicar melhor e isso foi graças ao projeto.

A iniciativa cresceu e nós precisávamos de mais espaço porque minha casa era pequena. Meu marido me ajudou a montar os ambientes e depois de dois anos e meio nós saímos de dentro da minha casa. Nós fazemos muitas atividades ativas para mulheres. Bordado, trazemos psicólogas, ensinamos as mães e as crianças. O significado do nome ’empoderamento’ é porque nós começamos com 3, 5, 10, 13 e agora são 30 mães no projeto.

As mães precisam de alguém que venha ajudar, antes elas tinham medo de vir aqui, agora elas vêm ao projeto e dizem que precisavam de algo e de alguém para ajudar. Conseguimos até fazer uma escola, esse era o nosso sonho. Quando começamos o projeto com as aulas de culinária nós sonhávamos em fazer algo maior para as crianças. Meu filho hoje tem 17 anos e não consegue ir para a escola porque nós não temos escolas especiais para ele.

Agora temos 3 mulheres empregadas, trabalhando para 120 crianças. Uma fisioterapeuta, uma professora e uma psicóloga. É difícil e nós não temos nenhuma associação para vir e ajudar o projeto, apenas as mulheres. Para mim isso é incrível, porque as mulheres e as mães fazem tudo sozinhas.

Muitos maridos aqui tem medo até de carregar no colo os filhos com deficiência. Quem traz os filhos aqui? As mães. Quem vai trabalhar podem ser os maridos, mas muitos homens não trabalham, não têm empregos e mesmo assim não fazem nada. Eu fui até as casas e vi que quem cuida das crianças com deficiência são as mães.

A ocupação israelense é muito dura para todos, mas fica muito mais difícil quando você tem um filho com deficiência. Eu lembro uma noite em que os soldados israelenses jogaram gás dentro da minha casa. Meu filho não conseguia respirar e ele não pode andar. Nós tentamos abrir a porta e carregar meu filho, ele é pesado e todas as minhas crianças me ajudaram. Ele também desenvolveu trauma de sons de bombas. Às vezes o celular de alguém toca, ele fica com medo e começa a bater na própria cabeça. A professora ensina as crianças a brincarem, para se distraírem, mas eles sempre lembram do que acontece aqui, das crianças que foram presas e assassinadas. Nós tentamos mudar e solucionar isso, mas essa é a realidade da ocupação.

Nós mulheres mudamos muito, agora nós nos sentimos fortes, talvez já fossemos fortes antes, mas agora somos mais. Antes as pessoas não gostavam de falar que tinham crianças com deficiência, agora elas vêm aqui e perguntam se podemos ajudar. Eu me sinto muito orgulhosa.

A UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) não faz nada sobre isso. Se nós não tínhamos ninguém para nos ajudar, precisávamos trabalhar juntas. Se trabalharmos juntas, Inshallah (“Se Deus Quiser”, em árabe) que no futuro conseguiremos algo para as mães e para as crianças. As pessoas estão tão preocupadas com a ocupação que esquecem das crianças com deficiência e das mães delas”.

Riham Isaac


“Eu venho de uma família cristã, da cidade de Beit Sahour. As pessoas não sabem mas nem todos os palestinos são muçulmanos, e nem todas as muçulmanas escolhem usar o hijab. Mas eu não sou religiosa, minha religião é a arte. Ser uma mulher aqui e fazer arte foi muito desafiador, não é algo esperado de uma mulher. Eles esperam que a gente se gradue na escola, se case ou vá para a universidade arranjar um marido. São as expectativas para mulheres em muitos lugares do mundo, aqui não é diferente.

Foi uma surpresa para as pessoas quando comecei a fazer teatro. Sou graduada em fisioterapia e isso era respeitado, eu poderia trabalhar em um hospital e ganhar dinheiro. Mas minha família me apoiou muito. Se eu fosse escutar a sociedade eu não teria esse estúdio agora, não faria nada disso. O próprio estúdio virou fofoca na cidade, as pessoas vem ver quem eu sou, o que estou fazendo – mesmo que conheçam minha família. Perguntam se eu sou casada.

Na minha opinião, as mulheres palestinas são muito fortes, mesmo quando não estão elevando suas vozes em uma associação. Elas comandam as vilas, mas o estereótipo que sai para o mundo é que somos vulneráveis, fracas. Eu já encontrei muitas mulheres inspiradoras na Palestina. Elas trabalham no campo, coletam uvas, atravessam checkpoints diariamente, acordam cedo e trabalham duro. A Palestina é, de certa forma, baseada em muitas tradições que nos impedem de conseguir direitos e justiça. Mas também temos muita força. As coisas estão mudando, estamos estudando mais, trabalhando mais. Mas, como no resto do mundo, temos uma longa jornada pelos nossos direitos.

Para mim, foi natural que eu me afastasse da fisioterapia. Eu fazia teatro ao mesmo tempo e estava sobrecarregada. O meu projeto com que mais me identifico é o último que fiz, o “I Am You”, uma performance que junta música, dança, identidade e conexões. Ela questiona o fato de sermos todos um ser, sofrendo da mesma forma e nos sentindo sozinhos nesse mundo caótico. É uma apresentação ‘clown’, bastante independente. Meu palhaço é bastante normal, honesto e vulnerável. É um viajante do mundo, que tenta descobrir o que estamos fazendo aqui, de um jeito sensitivo. Eu não uso maquiagem, apenas o nariz vermelho.

Há muita pressão para que artistas palestinos façam arte política. As pessoas têm expectativas e nos colocam na moldura das vítimas, necessariamente. Eu já fiz diversas apresentações mais politizadas. Em uma delas, me vesti com as roupas de uma palestina de Belém, que foi fotografada atirando pedras na Primeira Intifada, e fiquei empurrando uma pedra enorme pelas ruas de Ramallah. Ela se vestia com um vestido preto, um lenço e sapatos amarelos. A foto é bastante famosa e eu me sinto muito orgulhosa dessa mulher, porque ela parecia muito elegante, comum, como se tivesse saído da missa e parado para participar um pouco da Intifada. Não queria me vestir com algo clichê para a performance, como uma Keffiyeh (lenço com bordado xadrez tradicional palestino).

Não sou contra fazer política, porque viver na Palestina faz com que eu seja muito conectada com esse lugar. Mas a arte não precisa ser feita dessa forma, e eu não preciso fazer algo sobre o muro, ou sobre checkpoints, apenas porque sou artista. Me senti muito livre quando saí desse ciclo e pude escolher como me expressar sobre a humanidade.

É muito importante para mim fazer arte em um lugar como este. Em um nível pessoal, quando você vive em um espaço limitado, sem poder se locomover livremente, a arte te dá espaço para sonhar e criar coisas novas. Eu ensino crianças e universitários aqui e sinto que estão sedentos por arte. Nosso sistema educacional é muito duro, até culturalmente, pelo jeito que nossa sociedade funciona.

Eu morei em Londres por um ano e fiz um mestrado em performance na Universidade de Goldsmiths. Me apresentei em diferentes países, inclusive no Brasil, em Belém do Pará. Vocês também têm uma Belém… Mas senti que eu precisava me reconectar com minhas raízes, e que deveria compartilhar coisas com o povo aqui. Há novas ideias emergindo no mundo e eu sinto que sou mais necessária aqui, apresentando essas iniciativas que não são esperadas, criando um novo movimento.

Mas aqui a ocupação funciona principalmente limitando nossa liberdade. Para mim, o mais crítico é não poder me locomover. É mais fácil para mim conseguir um visto do que me apresentar em Jerusalém, que fica a 15 minutos daqui. Meu último desafio foi conseguir me apresentar lá, em uma galeria, em janeiro. Fiquei esperando muito tempo por uma permissão de Israel, em certo ponto achei que não conseguiria. Tive que adiar o show, e todo o tempo eu pensava como era perto mas eu não podia simplesmente ir para lá. Consegui a permissão três dias antes do show. Depende puramente da vontade das Forças Armadas, eles podem muito bem te barrar se decidirem. Não há regras”.

Edição: Ivan Longo
Júlia Dolce e Victor Labaki para Brasil de Fato e Revista Fórum 
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Hipocrisia e atalho na era Temer

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Vamos resumir assim: tudo o que não podia antes, sendo considerado criminoso ou, ao menos, imoral, agora pode. As panelas repicaram nas ruas brasileiras contra atos que já não despertam qualquer repinique. Imaginem Dilma Rousseff nomear direto do Ministério da Justiça para o STF José Eduardo Cardoso! O mundo teria desabado. Todas as trombetas morais teriam soado. Todas as camisetas da CBF sairiam dos armários. Ondas de discursos moralizantes teriam lavado o país. Pois Michel Temer indicou, como se sabe, o seu ministro Alexandre de Moraes para a vaga de Teori Zavascki no Supremo. Daqui a pouco, Moraes, membro do atual governo e filiado ao PSDB, estará julgando o seu governo.

O PSDB, segundo a boca do povo, que se delicia com sua liberdade, ninguém julga. Moraes foi advogado de Eduardo Cunha e, conforme a crítica mais contundente que se faz a ele, do PCC. Em tese, defendeu que não se deveria nomear ao STF pessoa com vinculação partidária e integrante de governo. Salvo, claro, ele mesmo. Vamos combinar: a indicação de Alexandre Moraes para o STF é imoral, indecente, pornográfica, obscena e escandalosa. O leitor pode acrescentar outros adjetivos a seu gosto. Tão absurda quanto as indicações em outros momentos de Toffoli e Gilmar Mendes por seus parceiros políticos. Não, sejamos claros, mais absurda por acontecer em tempos de Lava Jato.

O que dizem agora aqueles que atacavam diariamente Toffolli? Que se foi possível com ele, por que não com Moraes? É a inversão oportunista. Michel Temer mostrou em três momentos que não tem o menor compromisso com moralidade, transparência e combate à corrupção: formou um ministério com o núcleo principal crivado de citações na Lava Jato e em outros rolos; blindou recentemente Moreira Franco com foro privilegiado de ministro para retirá-lo das garras da primeira instância judicial; coroou tudo com a promoção de Alexandre Moraes, incompetente como ministro da Justiça, para o STF. Trata-se de colocar o parceiro dos julgados na cortes dos juízes para equilibrar o conjunto.

Quando Dilma tentou blindar Lula, como todos se lembram, o PSB foi à justiça, a mídia berrou, as ruas se coloriram de verde-amarelo e as panelas mudaram de função. E agora? Cadê as panelas? Cadê o PSB? Cadê a mídia? Cadê o uniforme da CBF. Eram ingênuos ou hipócritas aqueles que rugiam ontem e hoje silenciam? A corrupção já não incomoda? Acabou? O STF blindou Renan Calheiros quando o ministro Marco Aurélio quis afastá-lo. Quem sabe Temer o coloca no posto de ministro da Justiça? Seria, como no caso de Moraes, uma decisão técnica? Michel Temer e seu grupo adotaram uma estratégia clássica: deixar passar um tempinho e enfiar goela abaixo. A plebe aceita. Por quê?

Vou repetir: porque o governo Temer oferece ao mercado e à mídia as reformas dos seus sonhos: desmantelamento da CLT e da Previdência. Reformas ideológicas que aliviarão os camarotes e ferrarão mais a plebe. O poder voltou às mãos dos seus donos por um atalho envolto no perfume do combate à corrupção. Pura marola. Atalho? Eles não se importam com isso. Até gostam. Sentem-se mais livres para emplacar seus programas não votados. Sem eleitores, não devem explicações a quem quer que seja. A indicação de Moraes, que será sabatinado por treze senadores enrolados na Lava Jato, é o golpe final: a prova de que o Brasil não se constrange com sua hipocrisia. Como sou ingênuo, ainda espero a orquestra de panelas romper nas avenidas. Quem sabe como bloco de carnaval no país das ilusões perdidas.
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Xadrez da fórmula Temer-Gilmar para a Lava Jato


Peça 1 – a descriminalização do caixa 2

O GGN foi o primeiro órgão de mídia a antecipar a estratégia política em relação a Lava Jato: a separação dos pagamentos em financiamento eleitoral via Caixa 2 e a propina propriamente dita (o pagamento em troca de um retorno objetivo, em geral percentual sobre obras públicas). A estratégia consistiria em descriminalizar o caixa 2 no segundo tempo do jogo.

O primeiro tempo foi o da destruição do PT e da destituição da presidente da República. O segundo tempo seria o do PSDB e demais autoridades com prerrogativa de foro.

1.     O caminho que está sendo montado é o de descriminalizar o caixa 2 sem permitir a retroatividade, para não beneficiar os réus do PT e os processos em andamento.

2.     Bloquear as delações que possam incriminar lideranças do PSDB nos esquemas de propinas.

3.     Montar uma estratégia de convencimento da opinião pública.

Peça 2 – movimentos iniciais

Movimento 1 – a indicação de Alexandre Moraes

O primeiro passo foi a indicação de Alexandre Moraes para o STF (Supremo Tribunal Federal). Um político polêmico, que pulou por três partidos em pouco tempo, com um histórico de exibicionismo, é indicado para o Supremo, onde terá a função de revisor das ações da Lava Jato que têm como principal réu o presidente que o indicou.

Movimento 2 – a tentativa de cooptação do Ministério Público Federal.

A receita de descriminalizar apenas daqui para diante contentará os procuradores da Lava Jato que, desde o primeiro momento, se fixaram no PT como alvo único.

Em 24/11/2016, o procurador Carlos Fernando – o mais jacobino dos procuradores da Lava Jato - assim se manifestou sobre a proposta de anistiar o Caixa 2 (http://glurl.co/n6q):

Pretendem com isso anistiar a corrupção. Isso acaba com a necessidade da Operação Lava Jato. Não posso investigar fatos que não são crimes. A partir do dia que essa lei for sancionada, esses fatos não serão crimes. Pior que isso, vamos ter que liberar muita gente presa. Vamos ter que liberar condenados do mensalão. José Dirceu, por exemplo, terá que ser liberado no dia seguinte a sanção dessa lei”, afirmou Santos Lima, que conclamou a população a reagir e impedir a aprovação desta e de outras propostas que criariam um salvo-conduto para corruptos”.

Ontem, em entrevista a O Globo, um novo Carlos Fernando se pronunciou assim sobre a anistia ao Caixa 2 (https://goo.gl/GLsYFM)

Pagamento direcionado a político a título de bom relacionamento, perto de uma campanha, deve ser tratado como caixa 2 ou é corrupção?

Neste mundo de pagamentos, temos que analisar a vontade das partes. Ouvir o depoimento do executivo para que diga se este pagamento estava vinculado a obra. Não estou dizendo que todo caixa dois seja crime de corrupção. Mas, se vinculado a uma obra, explicitamente ou implicitamente, seja ela do passado ou futura, vou ter que analisar e acho que é corrupção.

Isso não dá ao executivo um poder de definir o destino dos políticos que estão delatando? Ao omitir algo como um pagamento feito sem menção à campanha, embora a empresa tenha sido beneficiada...

É preciso ver as circunstâncias dos fatos: as reuniões que tiveram, as liberações que aconteceram, o depoimento de um colaborador é ponto de partida, não de chegada. É com ele que vamos conseguir analisar os dados.

Mais: elogiou a escolha de Alexandre de Moraes para Ministro do Supremo, por garantir a manutenção da prisão após julgamento em segunda instância:

Tínhamos uma preocupação natural com a posição do novo ministro em relação a temas como a execução de sentença e o segundo grau. Moraes tem posição que mantém a jurisprudência atual do Supremo. Por isso, nos sentimos tranquilos em relação à nomeação. É uma boa escolha, um constitucionalista de respeito.

Escancara-se o jogo político com uma desfaçatez poucas vezes vista na história do país.

Ao mesmo tempo, a sucessão de Rodrigo Janot na PGR, após o fim de seu mandato, já despertou o campeonato de lisonja entre vários procuradores. Ficou nítido esse jogo no apoio incondicional do presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) José Robalinho Cavalcanti (http://glurl.co/n6u), à indicação de Alexandre Moraes.

Jurista de notável saber jurídico, com passagem de mais de uma década pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes intermediou discussões importantes para o país à frente do Ministério da Justiça.

Antecessor de Robalinho na ANPR, para obter a indicação para PGR, enquanto o PT foi poder Rodrigo Janot tornou-se um desenvolvimentista de carteirinha e um petista por adoção, um apaixonado por José Genoíno. Foi perceber a mudança de ventos e a absoluta incapacidade da dupla Dilma-Cardozo de exercitar o poder, para a limalha se deslocar rapidamente para o polo PSDB e se tornar um antipetista rancoroso – lembrando a piada sobre jagunços nordestinos que precisam ser tomados de ódio pela vítima, para matar "por convicção”.

Movimento 3 - o esvaziamento do grupo da Polícia Federal

Nos próximos dias haverá uma ofensiva tripla sobre os delegados da Lava Jato, especialmente os mais boquirrotos. Inquéritos que se arrastavam há dois anos – como o caso do grampo ilegal na cela do doleiro Alberto Youseff – foram acelerados para desfecho breve.

Movimento 4 – a tentativa de blindar o PSDB

A estratégia da descriminalização do Caixa 2 estava montada há tempos, como se depreende da atuação de  Janot no caso OAS, visando preservar as lideranças do PSDB para se beneficiarem da nova interpretação.

As duas delações mais aguardadas eram as da Odebrecht e da OAS. A Odebrecht optou, por tática, revelar apenas os financiamentos via Caixa 2, o que caiu como uma luva na estratégia de preservação dos tucanos.

O presidente da OAS, Léo Pinheiro, dispôs-se a falar sobre as propinas. E sua delação atingia diretamente Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves, podendo comprometer a estratégia da descriminalização do Caixa 2.

A maneira de anular a delação da OAS foi primária. Vazou-se para a revista Veja uma informação irrelevante sobre o Ministro Dias Toffolli. E o PGR simulou um momento de grande indignação precedendo o cancelamento do acordo com Pinheiro.

A simulação de indignação foi ridícula:

1.     O que mais ocorreu em toda a Lava Jato foram vazamentos e nenhum deles resultou em anulação de delação.

2.     Nenhum procurador isento abriria mão de informações preciosas, como maneira de “punir” o delator.

A delação de Léo Pinheiro se tornou um tabu. Ninguém menciona, nem Janot, nem os procuradores da Lava Jato, nem a mídia.

Peça 3 – o imponderável

Embora parte dos movimentos seja combinado, hoje em dia há tal erosão da disciplina, tal desmanche do país, criando diversas ameaças à estratégia.

Perda de controle dos vazamentos

Todo o cuidado com que Janot preserva José Serra e Aécio Neves não foi suficiente. Houve vazamentos de delações da Odebrecht para a imprensa, colocando ambos no centro dos pagamentos, Serra com o pagamento de R$ 23 milhões em contas da Suiça; Aécio, com as propinas na construção da Cidade Administrativa. O vazamento não foi feito por procuradores ou delegados. Vazando, Janot foi obrigado a agir, mandando bloquear a conta de Serra na Suíça. E a informação de que Aécio cobrava percentuais dos gastos na Cidade Administrativa, exigirá do "mineirinho" Janot malabrismos complexos para varrer para baixo do tapete. A tática previsível será andar com o inquérito lentamente.

Mesmo agora, com o enorme contingente de procuradores que participaram da construção das delações da Odebrecht, será impossível a Janot e à Lava Jato controlar os vazamentos. Daí a adesão tanto de Janot quanto do procurador Carlos Fernando à tese de de divulgar todas as delações. Fazendo isso, o controle das ênfases ficará com eles e a mídia, já que o vazador não terá mais o appeal da informação exclusiva para oferecer.

Reação do Supremo

O golpe foi articulado por um grupo heterogêneo, do qual participaram:

1.     A mídia (basicamente a Globo), como instrumento do mercado.

2.     Os dois PMDBs, o de Temer e o de Renan-Jucá.

3.     A Lava Jato e o PGR.

4.     O PSDB.

5.     O STF, Gilmar, mais dez intimidados.

Há uma clara identidade entre Lava Jato-PGR, mídia e PSDB, este como um mero apêndice, sem qualquer capacidade de formulação ou de protagonismo.

A reação de Janot à indicação de Moraes foi o pedido de indiciamento de Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney, no inquérito em que são acusados de tentativa de obstruir a Justiça. Aliás, no fim do ano, a promessa de Janot a amigos de BH era de que até abril o caos estaria tão grande que dele nasceria a luz de um novo recomeço.

O endosso do Ministro Luiz Edson Fachin, autorizando o indiciamento, mostra que o Supremo aceita Alexandre, mas não quer perder o protagonismo. A opinião pública ainda continua fator decisivo.

Aparentemente, poupar-se-á Temer enquanto continuar entregando o desmanche do Estado social. Mas a decisão de Fachin mostra que o STF não pretende abrir mão de poder.

O desmanche da Nação

A greve de policiais no Espírito Santo mostra bem os resultados da Lava Jato – destruindo parte da economia nacional – e da maluquice do ajuste fiscal indiscriminado em período recessivo.

Há um desmanche amplo da Nação, uma rebelião descontrolada, que se manifesta na selvageria nos presídios, em Vitória, no Recife, na possibilidade da greve das polícias atingir outros estados. 

Ao mesmo tempo, juízes de primeira instância estão se manifestando em várias partes do país no episódio Moreira Franco, impedindo a concretização do pacto por cima.

O que está acontecendo agora é um pequeno ensaio do que o país vai se tornar com a PEC 55, o arrocho no orçamento e os cortes na Previdência Social. A tentativa da Globo, através de Mirian Leitão (entrevistando o desastrado governador Paulo Hartung) mostra que a tática diversionista será atribuir as crises a setores específicos, anti-modernizantes. Terão que gastar muita saliva para explicar o alastramento das rebeliões, em um país convulsionado.

Os economistas estão destruindo o país. Está mais do que claro que Temer não tem a menor condição de segurar o desmanche. E o PSDB foi incapaz de apresentar um programa alternativo.

O desmanche social está vindo com a força de um tsunami. Esse poderá ser o grande fator dos próximos meses a ameaçar no futuro da democracia.

Luís Nassif
No GGN
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