9 de fev de 2017

Levar 2018 para o tapetão é a última carta da coalizão que derrubou Dilma

Em meio à falência das elites, pretende-se tirar Lula da corrida presidencial. Mas somente o povo pode julgá-lo

Em janeiro de 2016, a coalizão que derrubou Dilma Rousseff tinha uma certeza e muitas esperanças. A primeira era de que os dias do governo petista estavam contados. Estavam mesmo.

Já em relação ao que esperavam do futuro, não foi igual. Tudo deu errado. Um ano depois, não se confirmou nenhuma das expectativas daquele conglomerado de interesses empresariais, oligopólios de comunicação, partidos antipetistas e setores do aparelho estatal.

Ela caiu, mas o cenário complicou-se para essas forças. Hoje, nada garante que conseguirão consolidar a vitória que obtiveram quando a tiraram da Presidência e assumiram as rédeas do Estado.

O problema é o tempo. De que adianta governar por alguns meses, sem um horizonte razoável de continuidade? Fora os negocinhos (e os negociões) que geram frutos imediatos, nada que realmente vale a pena traz retorno no curtíssimo prazo.

De que serve, por exemplo, uma mudança constitucional se seu futuro é incerto, se um novo governo pode revertê-la tão logo eleito, legitimado pelos milhões de votos recém-conquistados? Que serventia tem uma reforma como essa da Previdência, burra e cruel para com os mais frágeis, sujeita a ser cancelada logo após a promulgação?

Os vitoriosos de 2016 achavam que a história se repetiria e que Michel Temer seria um novo Itamar Franco. Que, apesar da insignificância, Temer poderia produzir um “novo fenômeno”, uma reencarnação de Fernando Henrique Cardoso, prontinho para salvar o primitivo capitalismo brasileiro, livrando-o dos perigos do “lulopetismo”.

O que tivemos, no entanto, foi a confirmação da velha regra, de que, na segunda vez, um episódio histórico se torna farsa. Temer é pior do que Itamar em qualquer quesito, a começar pela honorabilidade.

Henrique Meirelles, o candidato a novo FHC, que, no Ministério da Fazenda, assinaria uma espécie de novo Plano Real, foi um devaneio de banqueiros que não durou um mês. Seu programa econômico não funciona, é rejeitado pelo País e é mal recebido até pelo Fundo Monetário Internacional.

Deu também errado a aposta na morte da liderança de Lula e no fim do PT. Estavam convencidos de que nenhum dos dois resistiria aos ataques diários que sofrem na mídia conservadora, mas todas as pesquisas mostram que as intenções de voto em Lula crescem, enquanto afunda a avaliação do governo.

Frustrou-se a suposição de que a opinião pública aplaudiria a troca de Dilma por Temer. Achavam que a insatisfação era tamanha que a derrubada da petista desanuviaria os espíritos e aliviaria as tensões acumuladas durante os longos meses de crise política. Chegaram a acreditar em “manifestações de massa” a favor de Temer e repúdio ao PT. Não houve nenhuma.

Ainda no correr deste ano, entraremos na campanha aberta para as eleições presidenciais de 2018. Os vitoriosos no golpe de 2016, que supunham que, a esta altura, teriam boas cartas na mão, estão com um jogo micado. Seus candidatos iam mal e pioraram.

Queriam um Itamar e têm, no máximo, o José Sarney do quinto ano, com o mesmo formalismo vazio, a mesma falta de respaldo popular, a mesma incompetência e inoperância. Idênticos na dúvida que provocam de se vale a pena mexer nas instituições para terminar perambulando pelos corredores do Palácio do Planalto.

Proibidos de enunciar o nome de seus candidatos na eleição seguinte, para não terminar de inviabilizá-los.

Resta-lhes uma única carta, que não é boa, e nela depositam suas esperanças de permanecer no poder por mais tempo: tentar levar o jogo para o tapetão, fugindo do campo da disputa democrática.

Como não conseguem derrotá-lo, perseguem Lula e procuram impedir sua candidatura na próxima eleição. Com julgamentos enviesados, acusações baseadas em “convicções” e fanfarronices de delegados.

Não há sintoma maior da falência das velhas elites brasileiras do que estarem completamente nas mãos de meia dúzia de juízes, promotores e delegados que parecem ignorar o bê-á-bá do direito. Depois de se verem como os mestres do universo, que tudo podiam e faziam, triste o ponto a que chegaram.

Mas existe um Brasil maior, de gente menos parcial, mais capaz de respeitar a democracia e menos manipulável, assim como existem sentimentos civilizados na comunidade internacional. Juntas, essas forças precisam agir.

Quem tem de julgar Lula é o povo, plenamente capaz de fazê-lo.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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FHC depõe como testemunha em ação da Lava Jato — assista


Fernando Henrique Cardoso depôs hoje ao juiz Sérgio Moro e, claro, disse que administrou o acervo presidencial da mesma forma que Lula, com recursos oferecidos por empresas como colaboração, até porque os ex-presidentes, que não recebem aposentadoria, não têm outra forma de fazê-lo.

Disse que, mesmo antes de deixar o mandato, teve reuniões com empresários, entre eles Emílio Odebrecht, para conseguir um espaço para o que seria, depois, o Instituto que leva seu nome.

Mais uma história do powerpoint de Deltan Dalagnol – a do armazenamento do acervo presidencial – vai “para o brejo”.

Então, o resumo da ópera, neste caso é que nenhum dos delatores – Nestor Cerveró, Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco – é capaz de dizer qualquer coisa sobre Lula ter se beneficiado dos negócios da Petrobras, nenhuma das testemunhas tem mais do que uma visita de Marisa Letícia para olhar o tal triplex, tudo o mais que se tem é fofoca de vizinhos e porteiros.

Além dos tais containers do acervo presidencial, cuja a guarda jamais poderia ser benefício pessoal.

O final do depoimento é patético: Sérgio Moro, por duas vezes, pergunta a Fernando Henrique se ele recebeu doação – a expressão é de Moro – “por fora”. Ora, será que alguém esperava que FHC fosse dizer: sim, doutor, recebi?

Fernando Brito



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Football

O futebol americano já foi descrito como rúgbi para moças. O rúgbi é mais violento do que o football e é jogado sem nenhuma proteção, em contraste com os capacetes, as máscaras de ferro e os outros protetores usados pelos americanos. A comparação é injusta: apesar de toda a proteção, há mais lesionados no football do que no rúgbi. É raro ver-se um jogador de rúgbi sendo atendido no campo, ou saindo de campo amparado, como é comum no football. Existe até um movimento para acabar com o football nos Estados Unidos, tantos são os casos de contusão cerebral de jogadores. Um movimento que, claro, não prosperará enquanto se repetirem espetáculos sensacionais como o do último Super Bowl.

A relativa ausência de mortos e feridos entre seus praticantes é um dos mistérios do rúgbi. O maior mistério, para mim, é a definição de falta num esporte em que, aparentemente, vale tudo. Dizem que num jogo de rúgbi, o juiz só apita falta se, além de derrubar, soquear e chutar um adversário, o jogador também insultar a sua mãe. No futebol americano também é difícil entender o que vale e o que não vale quando as linhas de ataque e defesa se chocam e se amontoam daquele jeito. Parece que, além de não insultar a mãe, não pode bolinar.

O “quarterback”, que comanda as ações do seu time, é uma espécie de idealização do homem americano, embora nem todos sejam bonitos e casados com a Gisele como o Tom Brady. Sua imagem é a de um intelectual orgânico, como o descreveria Gramsci se acompanhasse o football: um pensador arriscado a também ser derrubado, mas sem medo de se sujar com a vida. Nos combates medievais, um grito que ecoava com frequência quando as coisas se complicavam era “Protejam o rei!”. No football, também é assim: o time todo se mobiliza para proteger o rei. O rei é o “quarterback”. King Brady.

Curiosidades: os nomes de certos times de futebol americano têm ligação com a história ou a geografia dos lugares onde têm suas sedes. Os “Patriots” do Tom Brady têm este nome porque são da Nova Inglaterra, berço da guerra pela independência do país. Os “Seahawks” de Seattle se chamam Falcões do Mar porque Seattle é um importante porto no Pacífico. Já a explicação para o time de Baltimore se chamar “Ravens”, Corvos, é mais esotérica. Baltimore era a cidade de Edgar Allan Poe, cujo poema mais conhecido era O Corvo. Daí...

Luís Fernando Veríssimo
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Trump e a farsa da globalização

http://www.maurosantayana.com/2017/02/trump-e-farsa-da-globalizacao.html


O fato de o IED - Investimento Estrangeiro Direto - ter se mantido históricamente alto na era Lula-Dilma - (na faixa dos 60, 70 bilhões de dólares por ano) e estar conservando o mesmo patamar agora, no atual governo, mostra que o Brasil não precisa rastejar, como um verme, para conseguir capital externo.

E que, por mais que seja conservador, esse capital não pensa, radicalmente, o Brasil, com um viés cegamente ideológico, como certos segmentos mais mesquinhos e burros do capital nacional costumam fazer, de vez em quando, infelizmente, na maior parte das vezes, em detrimento próprio.

Os estrangeiros investem no Brasil não apenas porque se trata de um país atraente, e eventualmente mais barato, como está agora, para aquisições, por causa do câmbio, mas principalmente porque somos um dos mais importantes mercados do mundo, onde todos precisam estar se quiserem crescer.

Além de termos também a vantagem de poder contar com fundamentos macroeconômicos sólidos, como dívidas bruta, líquida e externa relativamente baixas, menores do que eram em 2002 e as sextas maiores reservas internacionais do planeta, que continuam nos conferindo, como mostram os dados oficiais do Tesouro dos EUA, a posição de quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos.

Desde que os ingleses impuseram aos chineses, com a vitória nas Guerras do Ópio, a obrigação de consumir essa substância, e a China teve que entregar Hong Kong à Inglaterra e abrir 50 portos ao comércio ocidental, muitos deles, a partir daí, ocupados permanentemente por navios de guerra britânicos, para assegurar o tráfico de drogas por parte da Grã Bretanha, ajudando a diminuir os déficits que os ingleses tinham com os chineses, que o mundo minimamente instruído sabe que o "livre" comércio é um subterfúgio colonial e uma tremenda balela.

Existe uma globalização construtiva, estabelecida pela integração e a cooperação, com a busca do desenvolvimento e da paz, principalmente no sentido sul-sul, como ocorre no caso do BRICS, da UNASUL e da CELAC, por exemplo.

E existe a globalização dos salões dos convescotes de Davos, da OCDE, do TPP e da malfadada Aliança do Pacífico, a globalização tout court.

Um conto do vigário que favorece as nações mais fortes contra as mais fracas, e, cada vez mais, o interesse das multinacionais e dos grandes grupos econômicos, em detrimento dos países e de seus povos, de forma a explorar seus mercados, insumos e recursos naturais, sua "vocação" e capacidade produtiva, sua mão de obra, seus indivíduos, não para obter um desenvolvimento mais equilibrado e justo da Humanidade, mas para alcançar o mais exagerado, avassalador e egoísta lucro possível.

O que distingue as nações bem sucedidas daquelas que chafurdam no barro do subdesenvolvimento é a presença do Estado como elemento fiscalizador e indutor do avanço nacional, para conduzir os países em meio aos desafios e oportunidades de um mundo cada vez menor, assegurando uma forte presença do capital estatal na economia, o decidido apoio a empresas locais, e a utilização de uma "livre" iniciativa que na verdade não pode ser absolutamente, totalmente "livre" na medida em que deve servir também como instrumento para a promoção social e estratégica do progresso nacional, em prol da criação de empregos, da melhora da renda, e da conquista do desenvolvimento, com investimentos induzidos, obrigatórios, se for o caso, em áreas como a infraestrutura, a tecnologia e a defesa, por exemplo.

É isso que os EUA já faziam, antes de Trump, com a compra, com a utilização de bilhões de dólares do Tesouro, de ações de empresas norte-americanas para que estas não quebrassem, na crise de 2008.

Imaginem se fosse tentado fazer o mesmo com a Petrobras, no Brasil, com o uso de uma parte mínima, que fosse, do 1.5 trilhão de reais que temos em reservas internacionais, para fazer frente à crise que atingiu a companhia, sobretudo, com a queda do preço do petróleo.

O governo que tomasse essa atitude seria imediatamente taxado de comunista e os fascistas ocupariam as ruas com seus patos, bonecos infláveis e outros utensílios de borracha - para derrubar o Presidente da República.

No entanto, foi esse tipo de estratégia que a China adotou, de forma persistente, nas últimas quatro décadas, para superar séculos de domínio ocidental, e a que a está levando ao topo entre os principais países do mundo.

Confiantes no tamanho do seu mercado e no seu destino de potência, que existe como estado organizado há cinco mil anos, os chineses - ao contrário do que afirmam os trolls mendazes e desinformados que pululam em nossas redes sociais - fecharam, primeiro, no lugar de escancarar, suas fronteiras ao capital estrangeiro, depois da vitória da revolução e só as abriram, seletivamente, para parceiros escolhidos a dedo, quando se consideraram seguros o suficiente para isso, exigindo-lhes transferência de tecnologia e aporte de capital, em regime quase sempre de joint-venture minoritária com empresas estatais locais.

Ao mesmo tempo em que criavam, por outro lado, uma nova burguesia, capaz de competir e de vender ao resto do mundo, desde que ela se mantivesse submetida, políticamente, ao projeto nacional chinês, tanto do ponto de vista interno quanto do externo, na conquista de novos mercados e na compra, de forma regulada e dirigida, de empresas estrangeiras que pudessem contribuir estrategicamente para a vitoriosa consecução desse projeto.

A mesma burguesia que estamos destruindo no Brasil, neste momento, com a quebra programada, judicializada, de nossas maiores empresas, justamente as que possuíam uma forte presença internacional.

Ora, a diferença entre grandes e pequenos países, é que os primeiros perseguem continuamente seus interesses, e muitas vezes o fazem - quando não é possível estabelecer uma permanente aliança - colocando-os acima dos anseios da própria iniciativa privada, que deve se submeter, em última instância, à coletividade, ou, no mínimo, ao projeto de poder de suas nações de origem.

Independentemente de seu rancoroso anti-islamismo, de seu mal disfarçado apoio aos supremacistas brancos, de sua política fascista e higienista, que pretende expulsar e impedir a chegada de imigrantes e matar pobres e negros por falta de assistência médica, com o fim, entre outras coisas, do Obamacare; e de sua intenção de reabrir as prisões clandestinas da CIA; do ponto de vista econômico o que Trump quer fazer, desta vez de forma clara, descaradamente, sem subterfúgios, nos Estados Unidos, é, de certa maneira, a mesma coisa que os governos comunistas estão fazendo na China.

Ele vai aprofundar e organizar, minimamente, a relação siamesa que sempre houve entre a iniciativa privada norte-americana e os governos dos EUA, principalmente os mais conservadores, desde a Guerra de Independência contra a Inglaterra, usando como fator estratégico o seu vasto mercado, para fazer frente à "globalização".

Desse projeto faz parte exigir, em troca de acesso aos consumidores dos EUA, a manutenção de fábricas e a criação de empregos dentro do país, mesmo para as grandes empresas multinacionais originalmente norte-americanas, e obter contrapartidas de qualquer empresa estrangeira que queira exportar para os Estados Unidos, como a cobrança de impostos, por exemplo.

Se a China, segunda maior economia do mundo, faz isso todo o tempo, se a Europa é uma fortaleza protecionista, que sobretaxa ou regula até a entrada de alimentos, porque os EUA, como maior mercado do mundo, não se utilizariam dessa condição geopolítica em seu próprio benefício? - deve estar pensado, por baixo da peruca ruiva, o mais novo e topetudo ocupante da Casa Branca.

Na década de 1960, ficou famoso um comercial de fusca da Doyle Dane Bernbach, que, apresentando ao público norte-americano o carrinho projetado a pedido de Hitler pelo desenhista Ferdinand Porsche, dizia, simplesmente: PENSE PEQUENO - no sentido da defesa dos conceitos que se pretendia associar ao produto, de simplicidade, praticidade e economia.

No patético Brasil dos dias de hoje, as elites e a plutocracia estrategicamente medíocre que se assenhora cada vez mais da República, se acostumaram a pensar pequeno, não no sentido da conhecida peça publicitária da DDB, uma das maiores agências de publicidade do século passado, mas porque, infelizmente, pequena é a sua estatura moral e mental, escassos são seu patriotismo e hombridade e grande é a sua abjeção e seu complexo de vira-lata, desde a época em que seus predecessores se acostumaram, após servir, a comer as migalhas que caíam da mesa de banquete dos estrangeiros de turno no comando do Brasil.

Quando algum governo, empresa ou partido tenta pensar diferente, com visão estratégica, em defesa da criação de empregos, da estruturação de empresas estatais em busca da consecução dos grandes objetivos nacionais; muitas vezes minima e empiricamente definidos; ou em benefício de grandes empresas brasileiras, que possam fortalecer a Nação internamente - incluída sua capacidade de defesa - e projetá-la positivamente no exterior, no sentido de um Brasil mais respeitado e mais forte, uma velha e conhecida parcela da mídia que também pensa pequeno e subalternamente, aliada aos canalhas que odeiam e desprezam, bovina e estupidamente, o país, sempre se levanta e interfere, ajudando a montar e a promover o bloco da quinta-coluna que canta, ao som de rufos e tambores, o vergonhoso samba do entreguismo.

E nosso projeto de Nação, com as mais variadas desculpas, subterfúgios e bandeiras - principalmente a do combate à corrupção, costumeiramente usada contra Getúlio, Jango e JK - é mais uma vez interrompido, fazendo com que tenhamos que retroceder como caranguejos, enquanto outras nações de nosso porte ou maiores do que nós - é preciso não esquecer que ainda somos o quinto maior país em extensão e população e a nona economia do mundo - avançam, por não ter pejo em atuar descaradamente em defesa de seus interesses, sem levar em consideração - ou apenas usando-os como biombo, quando eventualmente lhes interessa - conceitos como o dessa pseudo "globalização".

Com a eventual saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e do NAFTA (cujas consequencias para o México foram déficits comerciais cada vez maiores e uma queda na renda da população, que hoje é menor, em dólar, do que era antes do acordo) Trump está abrindo, indubitavelmente - quer se goste ou não disso - uma nova era para os EUA.

Resta saber se de alguma forma isso servirá de lição para as elites, a plutocracia e o governo brasileiros, sempre tão babosos com tudo o que ocorre nos Estados Unidos da América do Norte, abrindo-lhes os olhos para o que está acontecendo no mundo, no sentido da necessidade de um projeto estratégico, nacionalista e desenvolvimentista para este país, ou se isso servirá para que o Brasil vista definitivamente, agora com suas grandes empresas e projetos praticamente destruídos - sela, freio, pelego, cabresto e ferraduras, para aprofundar nossa abjeta subalternidade e a entrega de nossas riquezas e mercados ao exterior, por meio entre outras medidas impensadas, de uma acelerada entrada do país no TPP, e em um precipitado ou mal negociado acordo, entre o Mercosul e a União Europeia.

Na contramão do que estão fazendo as nações e regiões mais poderosas e mais fortes (não há ninguém mais protecionista que os EUA, a China e a Europa) que dividem conosco o primeiro pelotão da economia mundial ao fim deste primeiro quarto do século XXI.
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O paradoxo Cunha: diz estar preso quando não deve; não estava preso quando devia


Nada poderia ser mais vergonhoso para as instituições brasileiras do que o artigo de Eduardo Cunha na Folha de S. Paulo.

Porque não há vergonha maior do que ver mãos gatunas defendendo o respeito ao processo legal diante de “mãos limpas” que só fazem agredi-lo.

Cunha reclama que está preso indevidamente, porque não existem as condições para que ele destrua provas e se valha de seu poder para representar ameaça à ordem pública, porque não tem mais poder algum.

É tão verdadeiro quanto dizer que esteve solto por um ano inteiro em que pôde fazer isso: como presidente da Câmara, tinha poder para isto e para muito mais, como provou deflagrando e conduzindo o processo de impeachment que, depois, pela inércia da manada parlamentar em marcha, tornou-se irreversível.

Pode ter toda a razão legal a nossa Corte Suprema em querer agir com muita prudência, não prendendo ou cassando mandatos sem que haja outra alternativa.

Não há, porém, nenhuma razão moral para que se aja assim quando ela tolera, permite e homologa o “prende todo mundo e enfia na cadeia até que diga o que a gente quer” praticado em Curitiba, nas suas barbas.

É como a santidade daquela imagem de Nossa Senhora, banhada de luz mortiça, que se punha nas pilastras e paredes dos bordéis do passado: desde que se preserve a sacralidade do nicho supremo, faça-se a reverência da vela acesa, do copo d’água e da rosa posta a seus pés, estão abençoadas todas as trampolinagens em torno dele.

Vergonha suprema para nosso país e para a sua Justiça que a razoável e equilibrada aplicação da lei tenha de ser defendida por um bandido como Eduardo Cunha, enquanto os santos homens violam, profanam e façam mofar no cárcere – o de grades e o da humilhação pública a outros que, segundo seus próprios critérios ou desejos, possam ser matéria prima para sua volúpia de poder e de vingança política.

A verdade, mesmo quando ela sai de uma boca imunda como a de Cunha, é sempre clara e luzidia em sua crua nudez.

Quem pode discordar do que ele diz ao escrever que a legalidade “tornou-se mero detalhe em Curitiba, já que basta prender para tornar o fato ilegal em consumado”?

Ou que que a pressão exercida pelas “alongadas prisões”, do dizer de Gilmar Mendes são o azeite da confissão dirigida, inclusive com a transferência a um  presídio daqueles “que não aceitam se tornar delatores, transformando a carceragem da Polícia Federal em um hotel da delação”.?

Eduardo Cunha pode ser um rato nos desvãos da corrupção, uma serpente peçonhenta nas salas do poder, mas quando a verdade sai da boca de um porco e não da dos homens de toga, só os cúmplices ou imbecis podem dizer que ela é mentira pela lama do seu focinho.

A prisão de Eduardo Cunha, meses atrás, quando foi pedida pela Procuradoria, já diante do mesmo rol de provas que se tem hoje, poderia ter evitado a destruição de provas e, com toda certeza, preservaria a ordem pública de nada menos que um golpe de Estado e a entrega da Nação a uma camarilha de reús, denunciados e investigados por corrupção, o que Dilma Rousseff nunca foi.

Agora, porém, ela se presta apenas a atender ao compreensível clamor público por punição a um ladravaz cínico. E, sobretudo, para dar ao país a impressão pública de que temos uma Justiça “erga omnes”, igual para todos.

Há esperança para Cunha. Os porcos são muitos e estão no poder. Com direito, inclusive, a colocar no nicho a  imagem que quiserem.

Fernando Brito
No Tijolaço
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O que estourou em Vitória é pedaço de realidade instalada país afora

Possível e fácil, a ocorrência em mais umas três capitais de algo como a arruaça em Vitória, e não se poderá contar com solução de razoável racionalidade para conter a conflagração. Será violência contra violência.

É essa uma visão pessimista do risco? Sim, para quem supõe que Vitória sucumbiu a motivações suas. Ou, se mais, a problemas do Espírito Santo. Mas o que estourou em Vitória é um pequeno pedaço de uma realidade instalada pelo país afora. Entre os depósitos de explosivos que são hoje tantas cidades brasileiras, Vitória estava até em melhores condições do que Porto Alegre, Rio, Natal, várias outras. O mais inquietante, no entanto, não está nessa realidade tão ameaçadora quanto pouco reconhecida.

O que mais agrava a ameaça subjacente no país é a total alienação do governo Michel Temer. Uma parte dele só se ocupa de politicagem partidária e parlamentar, compartilhamento de cargos e ganhos, manobras protetoras, na ilha afortunada que é Brasília. Michel Temer é o falso centro dessa parte do governo.

A outra parte é a área econômica, encabeçada pelo Ministério da Fazenda. Não é menos alienada do que a anterior. Nem na ilha está: vive no seu círculo fechado. O país afunda mais econômica e socialmente a cada hora, o desemprego real já está estimado em 20 milhões, cresce o número de estados e cidades incapazes de custear os serviços essenciais – e em nove meses de governo o ministro da Fazenda não tomou sequer uma medida singela, qualquer uma, para facilitar (facilitar, nem se pediria mais) uma reação ao esmagamento do país. Muito ao contrário, além de impedir os estimulantes investimentos governamentais, sob sua regência os bancos oficiais cortaram tudo que puderam do financiamento aos setores privados.

A alienação do Ministério da Fazenda é total. Com o desabamento do poder aquisitivo posto diante dos seus olhos, Meirelles e sua equipe se ocupam em criar penalidades para quem comprou imóvel em construção e precisa desistir do negócio. Querem fixar multa de 25%, um quarto do total já pago, a ser deixado no cofre do vendedor quando desfeita a compra. As desistências subiram de 20% no já ruim 2014 para 43,4% no ano passado, conforme as repórteres Ana Paula Ribeiro e Geralda Doca. Pequenos imóveis, na maioria de valor entre R$ 300 mil e R$ 800 mil. Comprados, está claro, por aqueles que haviam ascendido da pobreza para os primeiros degraus da baixa classe média.

Tão simples: o governo reduz ou elimina o rendimento, e castiga quem não tem mais o suficiente para honrar os compromissos da ascensão perdida. É a face do governo Temer + Meirelles.

O potencial explosivo está à mercê da sorte. Vitória não é uma diferença, é um risco comum que ali avançou mais. E o mais grave: não se pode contar com o governo, que de um parte se aliena como pasto da politicagem e, em outra, na absoluta irrealidade do seu mundo de cifrões.

Jamais

Passados os pasmos com as primeiras prisões intempestivas, Sérgio Moro tem se mostrado bastante previsível. Mesmo quando vai a extremos, como a divulgação ilegal de gravações telefônicas já também ilegais, ato inesperável na forma, mas sem surpresa no excesso. Na mais recente de suas tantas idas aos Estados Unidos, a regra se cumpriu, quando, por exemplo, deu resposta fugidia sobre seu alegre encontro com Aécio Neves. Ou na óbvia afirmação de que não tem responsabilidade alguma na causa da morte de Marisa Lula da Silva.

Esta, porém, é uma certeza que Sérgio Moro jamais terá como alcançar. Nem seus companheiros da Lava Jato poderão livrar-se da interrogação.

Janio de Freitas
No fAlha
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