5 de fev de 2017

Nunca deixe de ser, ou ao menos, tentar parecer, um ser humano


"Estive em são Bernardo do Campo para uma palestra no Instituto Mauá. A cidade já tinha alguma movimentação em função do velório de dona Marisa. A divergência política e o contraditório são excelentes para a democracia. Todo choque tem algumas barreiras. Uma é a ética: divergir não implica atacar. 

Outra, muito importante, é a morte. Nada existe além dela. Extinguem-se as animosidades. Termina o ódio no túmulo. Atacar ou ter felicidade pela morte de um ser humano é uma prova absoluta de que a dor e o ressentimento podem enlouquecer alguém. Se você sente felicidade pela morte de um inimigo, guarde para si. Trazer à tona torna pública sua fraqueza, sua desumanidade. Acima de tudo, mostra que este inimigo tinha razão ao dizer que você era desequilibrado. 

Contestem, debatam, critiquem: mas enderecem tudo isto a quem possa revidar. Por enquanto temos apenas um homem que perdeu sua companheira, filhos órfãos e netos sem a avó. Entre os vivos, surgem divergências e debates. 

Diante da morte, impõe-se silêncio e respeito. Nunca deixem de ser, ou ao menos, tentar parecer, um ser humano. Quando você não tiver uma palavra de conforto para quem perdeu a mãe ou a esposa, simplesmente, cale a boca. 

Sinto-me envergonhado por coisas que li na internet."

Leandro Karnal
No Esquerda Caviar
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O nazismo midiático que assola o país


Essa onda nazista que assola o Brasil, por culpa de uma campanha midiática interminável e irresponsável contra o PT, precisa ser contida. Não são mais casos isolados. Já se tornou um fenômeno social avassalador, que levou ao golpe, levou ao caos político e econômico, e está transformando milhões de brasileiros em chacais, sem moral, sem senso de solidariedade ou fraternidade, desprovidos de qualquer espírito democrático.

É a coisa mais satânica, antirreligiosa e anticristã que se possa imaginar.

Cristo morreu pregando o amor, inclusive e sobretudo em relação ao inimigo. Ou seja, Cristo inaugura a luta contra o punitivismo e contra o “direito penal do inimigo”. Ele tentava pôr fim a uma cultura de barbárie de milhares de anos, em que a humanidade se afundava em guerras, massacres, matanças indiscriminadas, às vezes por motivos fúteis.

A culpa do que acontece no Brasil, hoje, é da grande mídia. Ela vai pagar o preço histórico maior por sua irresponsabilidade, por ter criado esse exército de zumbis nazistas que infestam, como moscas, qualquer lugar. Que vão até a porta de hospital, que zombam da morte alheia, que não respeitam a privacidade de ninguém, que infernizam até mesmo em cerimônias fúnebres.

O segundo culpado são as castas da burocracia. Um procurador como esse aí da matéria abaixo tinha de ser imediatamente demitido pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), sem direito a aposentadoria, sem direito a nada, e em seguida processado pelo Estado por crime de incitação à violência.

A impunidade da meganhagem entranhada nas castas do MP, da PF e do Judiciário, contudo, é absoluta. Eles podem tudo. Isso tem de acabar.

O pior é que o MP se tornou um antro de nazistas desse naipe. O Brasil precisa lutar para se livrar do nazismo, que infelizmente chegou por aqui.

* * *

Via Viomundo

Procurador que pretendia celebrar morte de Marisa com champagne já desejou queimar Dilma Rousseff viva; MP vai investigá-lo

03 de fevereiro de 2017 às 23h29

No Jornal O Tempo

Corregedoria do MP investigará procurador que pediu a morte de Marisa

Rômulo Paiva Filho escreveu no Facebook: “Morre logo, peste! Quero abrir logo o meu champagne”

O procurador de Justiça de Minas Gerais Rômulo Paiva Filho será investigado pela Corregedoria-Geral do Ministério Público do Estado depois de compartilhar no Facebook uma reportagem sobre a ex-primeira dama Marisa Letícia e escrever uma mensagem desejando sua morte. “Morre logo, peste! Quero abrir logo o meu champagne”, disse Filho, na rede social.

O perfil do procurador foi apagado após a repercussão do caso. A assessoria de imprensa do MPMG informou, na noite desta sexta-feira (3), que a Corregedoria-Geral está apurando os fatos e vai tomar as providências cabíveis.

Essa não é a primeira vez que Rômulo Paiva Filho se envolve em uma polêmica com questões políticas na internet. Em 2016, ele publicou um texto insinuando que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) deveria ser morta durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.

“Quem vai acender a pira olímpica? Eu sugiro dar um banho de gasolina na Dilma, tacar fogo com a tocha e mandar ela correr em direção à pira. Que tal?, afirmou, também pelo Facebook.

Morte de Marisa

Marisa Letícia Lula da Silva, de 66 anos, mulher do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, morreu nesta sexta-feira (3), no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde estava internada desde a última terça-feira (24), vítima de complicações de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Boletim médico informou que Marisa morreu às 18h57.

Ela deixa quatro filhos, um de seu primeiro casamento e três do casamento com Lula.

No Blog do Miro
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Pelo telefone

Quando a turma se reunia no bar, e a conversa esquentava, e as bolachas de chope começavam a se multiplicar sobre a mesa, era comum alguém ser lembrado – alguém que prometera ir ao bar e não aparecera, alguém do passado comum de todos que ninguém mais vira – e em seguida tentarem localizá-lo pelo telefone celular. “Liga para esse vagabundo”, eram as palavras de ordem, e depois todos se revezavam no telefone, xingando o ausente, intimando-o a aparecer, imitando voz de mulher e dizendo “Adivinha quem é?”, ou fazendo ruídos de bichos.

Uma vez foram, literalmente, longe demais. Alguém na mesa perguntou “Que fim levou o Dado?” e passaram a catar o Dado com o celular. Primeiro, ligando para um número antigo dele, depois localizando uma irmã dele através de uma moça do serviço de assistência ao assinante miraculosamente eficiente, depois chegando ao celular do próprio Dado, que fazia um curso de informática em Grenoble, na França, e atendeu o chamado apavorado.

– Que foi? Que foi? 

– Seu veado! Onde é que você anda?

– É a mamãe, é? Mamãe está bem?

– Que mamãe? Aqui é o Jander.

– Quem?!

– O Jander. Já esqueceu dos amigos, é?

– Jander, você sabe que horas são aqui? Eu estava dormindo!

– Epa. Aí não é mais cedo?

Jander ouviu cinco minutos de desaforo antes de desligar o celular e dizer, magoado: “Como as pessoas mudam, né?”. Depois souberam que o Dado ficara tão nervoso com o telefonema no meio da noite que abandonara o curso de informática, abandonara a França, voltara para junto da dona Djalmira, sua mãe, e estava trabalhando no armarinho da família. O telefonema mudara a sua vida por completo.

Outra vez, um da turma chegou com o que dizia ser o telefone particular do Trump. Conseguira pela internet, não entrou em detalhes. A ideia era ligarem para a Casa Branca e quando o Trump atendesse, fazerem ruídos de pum. Cada um um ruído diferente, pois há puns em vários estilos. Seria o comentário da mesa sobre a política do Trump. Mas aí alguém lembrou que os americanos provavelmente rastreavam todas as chamadas para a Casa Branca, poderiam localizá-los, por satélite, em poucos minutos, e mandarem um drone destruir o bar. O plano foi abandonado.

Os três se reuniram para um almoço e deixaram ordens para suas respectivas secretárias os chamarem pelo celular, durante a reunião. O primeiro a atender seu celular disse: “Sim, presidente. Vá em frente”, depois explicou aos outros que o Temer não fazia nada sem consultá-lo. O segundo atendeu seu celular e disse: “Chico, meu caro!”, depois explicou para os outros que era o papa. O terceiro atendeu seu celular e disse: “Minha querida, que prazer”, depois explicou que era a Patrícia Pillar, deixando os outros arrasados.

Luís Fernando Veríssimo
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Luís Roberto Barroso, o iluminismo ao creme brule


Encerra-se num ciclo, o país entra em uma nova etapa. Seria a pós-modernidade? Seria o pré-futuro? O país perdido anda atrás dos novos intérpretes, aquelas pessoas dotadas da acuidade maior, dos que sabem ler através dos tempos, entender os registros da contemporaneidade com a visão de futuro e ler o passado com a visão de presente e tudo embalado em sólidos conhecidos políticos, sociológicos.

A falta de rumo nacional gerou um tipo novo de compulsão: os desbravadores de futuro, intelectuais ou políticos acostumados com a superficialidade atávica da chamada mídia de massa, especialistas em manejar conceitos de senso comum.

Qual o novo campeão que se apresenta? O Ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), através das páginas ilustríssimas da revista Veja, um dos símbolos maiores da cultura nacional da pós-verdade.

No artigo que escreveu para a revista, Barroso propõe uma inovação sociológica, uma espécie de manual Marcelino de Carvalho de boas maneiras politicamente corretas, um compêndio de frases de senso comum aplicadas à análise política. Algo assim: “como participar de um sarau líbero-político sem fazer feio”.

Como um intelectual da moda, Barroso inicia seu artigo definindo os modismos sociológicos. Diz que “narrativa” é palavra da moda. E, sentencioso, diz que “considero-a melhor do que pós-verdade, oficialmente vencedora do ano de 2016”.

Há alguns anos, “narrativa” é palavra mais batida que “empoderamento”, mas deixa para lá. Novo é o que se nos parece novo. E o Ministro Barroso acabou de mergulhar nos múltiplos significados de “narrativa”.

Modesto, inova escrevendo um artigo jornalístico com bula.  

No abre, explica ele que seu artigo se propõe “a definir a relação do indivíduo com o país, com os outros e com o mundo, um esforço de auto compreensão, de reconstrução da própria trajetória e da busca de um sentido para o futuro”. É pouco? “Nela está embutida a exigência de se fazerem diagnósticos certos e sem idealização, e de se buscarem as soluções que o realismo e o bom-senso impõem”.

Vamos ver como nosso brasilianista padrão Veja enfrenta o desafio que se propôs.

Parte 1 – a parte positiva do Brasil


O brasilianista tardio mergulha em Gilberto Freyre – perdão, nos estereótipos de Freire – e enaltece a democracia racial, a diversidade religiosa, as fronteiras pacíficas, as riquezas naturais, o bom humor, alegria de viver. “Gente sem medo e sem culpa de ser feliz”, conclui. Fica a impressão de que Barroso pesquisou fundo esse Brasil no filme “Sabor de Paixão”, onde a “brasileira” Penélope Cruz, dona de um restaurante na Bahia, mora em um apartamento com amigos gay, cozinha que é uma maravilha e tem um namorado que faz serenatas românticas. http://www.adorocinema.com/filmes/filme-25121/

Parte 2 – a parte negativa


O Mago de Apipucos sai de cena e entra o Iluminista do Leblon. Menciona a violência, os assassinatos, os crimes de gênero, a falta de habitação, de saneamento, a favelização, a degradação ambiental. E dá-lhe problemas de educação, segurança, poucas instituições de ensino de destaque e estatais soterradas pela corrupção. Nada de que se possa discordar. Nada que exija maior acuidade sociológica para identificar.

Vamos à síntese, que Barroso batizou de “a nova narrativa para o país”.

Parte 3 – a nova narrativa e o oficialismo


Diz Barroso modestamente que precisamos de uma nova narrativa, um exercício de pensamento original, “que ajude a definir o nosso lugar no mundo”, uma nova narrativa capaz de olhar para frente e para trás, de apresentar diagnósticos e propostas. E abre o Olimpo mencionando modestamente seus colegas brasilianistas, Euclides da Cunha, Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda etc, incluindo artistas como Villa-Lobos, Chico e Caetano.

Identifica três “disfunções atávicas” do Estado brasileiro: o patrimonialismo, o oficialismo e a cultura da desigualdade.

O “oficialismo” é o ato de depender do Estado, “isto é, da sua bênção, apoio e financiamento(...) para todos os projetos pessoais, sociais ou empresariais”.

Diz ele que todo mundo anda atrás de emprego público, crédito barato, desonerações e subsídios. Inclui no oficialismo desde o patrimonialismo mais anacrônico até instrumentos de política econômica que são padrão em qualquer nação civilizada.

Trata o “crédito barato”, isto é, a parcela mínima do crédito que guarda alguma isonomia com as taxas internacionais, como se fosse um anacronismo dos dependentes de Estado. “Cria-se uma cultura do compadrio”, diz ele, referindo-se a um Estado que com todos seus defeitos, foi personagem central para a maior política de inclusão social da história e, em alguns momentos, promotor de desenvolvimento, um Estado que gerou um BNDES, uma Finep.

Enfim, não demonstra o menor discernimento para entender adequadamente o Estado, de maneira a separar os vícios das obrigações.

Parte 4 – a cultura da desigualdade


Diz ele que como não existe no Brasil uma cultura de que todos somos iguais, cria-se um universo paralelo de privilégios, imunidades tributárias, foro privilegiado, juros subsidiados, auxílio-moradia, carro oficial. Enfim, uma mixórdia em que mistura instrumentos de política econômica com mordomias generalizadas.

Para seguir o padrão – de sempre mencionar o iluminismo, como se ele fosse seu profeta -  define outros profetas nacionais, todos juristas como ele, como Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa, San Thiago Dantas, “nenhum deles foi a voz que prevaleceu em seu tempo”. 

Poderia estudar um pouco mais o papel de Ruy no “encilhamento” e na Constituição, ou se aprofundar nas propostas de San Thiago. Com seus vícios e qualidade, todos ostentavam um grau de compreensão de país do qual Barroso está a léguas de distância.

Finalmente propõe o “projeto progressista“, com os eixos econômico, serviços públicos de qualidade e sistema fiscal menos regressivo. E “uma onda de patriotismo e idealismo”.

Não cometeria a injustiça de dizer que Barroso é raso como Cristovam Buarque. Mas passa perto.

Antes dele, no fim do século 19, um autor brasileiro, Manuel Bonfim, se encantou com a cultura política norte-americana, como Barroso se encanta, se encantou com as formas de participação social dos EUA, que fazem o encantamento do nosso Iluminista do Leblon. Mas conseguiu tirar um conjunto de definições objetivas sobre o papel do Estado, propondo um desenho de país com muito mais solidez do que os chavões brandidos por Barroso.

As discussões sobre o papel do Estado são muito mais complexas do que essas simplificações made in GLobonews. Exigem o claro entendimento sobre o papel do Estado como agente moderador das desigualdades, como instrumento de desenvolvimento. Implica em entender o papel da inovação – que, pelo artigo de Barroso, nasce do boto -, do financiamento, da criação de ambientes econômicos isonômicos com o mercado global e, ao mesmo tempo, discutir as formas de controle do Estado, para impedir o exercício arbitrário da vontade.

Implica em muito mais, no papel do orçamento público – que Barroso trata com a mesma profundidade com que analisa o orçamento de uma dona de casa. Exige um entendimento adequado sobre a função anticíclica dos gastos públicos.

Enfim, um desafio extraordinário, que exigirá pensadores sólidos, sem se prender a chavões ideológicos, à compulsão estatista da esquerda e ao mercadismo sem limites de nossos liberais de boutique. Equivale a pensar projeto de nação, algo que vai muito além dos modismos narrativos da mass-midia.

O novo país exige novos intérpretes. Mas seguramente, não será a superficialidade de Barroso que conseguirá desbravar os novos caminhos.

Luís Nassif
No GGN
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Dos muros

Os Muros de Jericó, nos conta a Bíblia, caíram depois de um sítio de sete dias. Os israelitas, após a fuga do Egito e os 40 anos no deserto, invadiram a cidade do Vale do Rio Jordão, desprotegida com a queda da sua fortificação. Os Muros de Jericó ficaram na história bíblica como um exemplo do poder da fé, pois foram as preces e as encantações dos sitiantes, além das cornetas, que os destruíram. Ou seja, os Muros de Jericó foram derrubados, literalmente, no grito.

Não há paralelo possível entre os Muros de Jericó e outros muros famosos, como o Muro de Berlim. No caso deste, o governo comunista da Alemanha Oriental justificava a existência da excrescência como uma maneira de segurar cidadãos para os quais o Estado assegurava educação e saúde, mas que não resistiam ao apelo do outro lado, ainda mais que Berlim Oriental era um lugar lúgubre e Berlim Ocidental uma vitrine para o que o capitalismo tem de mais chamativo. Onde é que entra a comparação com os Muros de Jericó? O Muro de Berlim também caiu no grito. Não resistiu ao clamor internacional pela sua destruição. E, certamente, a algumas preces também.

A Grande Muralha da China foi construída para proteger o Império Chinês de incursões de tribos inimigas. Sua construção começou há dois mil anos, e não se sabe se um dia cumpriu seu objetivo militar ou apenas sua função como limite do insular Império do Meio, um símbolo do seu distanciamento do resto do mundo. A Grande Muralha da China não foi destruída. Pior, virou atração turística.

Israel, esquecendo-se de Jericó, construiu um muro para separá-lo de territórios palestinos e também está sendo muito criticado por isso, embora não se espere que ceda ao clamor crescente tão cedo. E temos o muro proposto por Trump para impedir a entrada de mexicanos e centro-americanos nos Estados Unidos. O mais importante do muro do Trump não é o muro, é o clamor contra o muro. Que talvez não impeça a sua criação, mas pode levar a uma revolta — junto com as outras barbaridades propostas por Trump — que o faça repensar tudo, inclusive seu penteado. As cornetas já começaram.

Luís Fernando Veríssimo
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Assim é a moral e a justiça das delações premiadas

A prática da delação premiada, que orienta a Lava Jato desde o seu começo, adquiriu uma segunda serventia. Foi sua utilidade para o tipo de cobertura do caso por imprensa e TV, baseado no entrosamento de máxima exposição e politização ativa. Essa utilidade evitou o debate consequente sobre as vantagens e problemas do método adotado na Lava Jato. Com o tempo e as repetições, a delação premiada incorporou-se às banalidades nacionais. Mas suas muitas faces não mudaram. E às vezes pasmam.

Como preliminar, dispense-se a supervalorização das delações premiadas. Tudo o que é dado, até agora, como conhecimento proveniente de delação poderia ser apurado por investigação comum, de polícia e Procuradoria competentes.

Aí está como ponto culminante, por exemplo, a massa de delações dos funcionários da Odebrecht, com centenas de políticos citados. Todos esses nomes e informações correlatas, porém, já estavam na documentação apreendida, há muito tempo, em diferentes empresas da Odebrecht e moradias de altos funcionários. 

O mesmo se deu com as coletas da Lava Jato em todas as demais empresas e moradias. A partir da documentação — ao que consta, longe de haver passado toda por exame — investigar, em vez de fazer coerção por delações, levaria a constatações com probabilidade de maior amplitude e menos inverdades e omissões. O método das delações premiadas não era indispensável. E muito menos o eram a premiação e suas implicações jurídicas, éticas e humanas.

O marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, foram agora condenados a oito anos e quatro meses de prisão. Receberam em conta na Suíça US$ 4,5 milhões, pagamento parcial pelo trabalho na campanha de Dilma/Temer. O pagador, Zwi Skornicki, representante do estaleiro Keppel Fels, deu como origem do dinheiro um desvio no contrato, com a empresa Sete, de construção de plataformas ou sondas para a Petrobras. Participantes também do desvio, no lado da Sete, Edson Vaz Musa e João Carlos de Medeiros Ferraz.

Condenados os três por Sergio Moro. Skornicki a 15 anos e meio, cumpridos assim: entrega US$ 23,8 milhões de desvios vários, não sai de casa até o fim da semana que vem, e depois só ficará lá à noite e nos fins de semana por um ano. Vaz Musa recebeu oito anos e dez meses de prisão, transformados em permanência no doce lar durante os fins de semana por dois anos. E Medeiros Ferraz, condenado a oito anos, teve-os igualados a "serviços comunitários", só.

Quem recebeu o dinheiro, sem participar da trama, é condenado a oito anos e quatro meses. Quem operou o desvio criminoso de um excedente ilegal contra a Petrobras, e com esse dinheiro fez um pagamento também ilegal, esses são premiados: vão para casa e para as ruas.

Assim é a moral e é a justiça da prática de delações premiadas. Com ambas, dizem, o Brasil será outro. Será: quem disser que o crime não compensa fará papel de idiota.

Salve México

A propósito de artigo no domingo passado, a assessoria de imprensa do gabinete do ministro do Exterior mandou alguns exemplos de "declarações latino-americanas a respeito da construção do muro na fronteira entre México e Estados Unidos, bem como o fato de ter sido o Brasil, no dia 26 passado, o primeiro a manifestar-se sobre o tema".

É verdade, houve várias declarações e o Brasil as iniciou. Mas, exceto a da Bolívia (que não encontrei) e, é óbvio, a da Venezuela, todas ficaram apenas no nada dizer com sua "preocupação" e seu desejo de "diálogo" — mais óbvios do que a Venezuela.

A nota aqui publicada dizia que "Nenhum país latino-americano emitiu uma só palavra de SOLIDARIEDADE [destacado agora] ao México". E em relação aos Estados Unidos, "ao menos de ponderação sobre a atitude" de Trump "tão arbitrária e adversa à muito cantada (...) fraternidade pan-americana".

Janio de Freitas
No fAlha
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