1 de fev de 2017

Após show midiático, Guido Mantega é absolvido em inquérito na Zelotes


O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi excluído das acusações pela Polícia Federal no esquema da Operação Zelotes. Instaurado em 2015, Mantega virou alvo por suspeita de atuação para modificar decisões do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) a favor de uma empresa. Em maio de 2016, a imprensa mobilizou o noticiário para acusar o ex-ministro. Isento de indícios, apenas a Agência Estado publicou que Guido Mantega foi "livrado" do inquérito.

Mais de um ano transcorreu para que a delegada federal Rafaella Vieira Linhas Parca não encontrasse indícios de irregularidades contra Mantega no esquema. Tratava-se de uma das frentes de apurações envolvendo o Grupo Cimento Penha, que conseguiu reverter multas no valor de R$ 106 milhões em uma votação no Carf.

Procuradores da República e delegados da Polícia Federal iniciaram uma empreitada para acusar Mantega. A primeira das tentativas era verificar a extensão do relacionamento do ex-ministro com o empresário Victor Sandri, da Cimento Penha. 

Os investigadores também pediram a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Mantega, que chegaram a ser autorizados pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, responsável pela Zelotes. O objetivo da varredura nos dados era também verificar se o ex-ministro dos governos Dilma e Lula teve alguma influência indevida na nomeação de membros do Carf.

A medida ocorreu ainda em novembro de 2015. Seis meses depois, em maio do último ano, a PF deflagrou a sétima fase da Zelotes, com alvo principal na empresa Cimento Penha e em Guido Mantega. O ex-ministro foi obrigado a prestar depoimento, em condução coercitiva, em São Paulo, e teve a sua casa varrida em mandado de busca e apreensão.

Jornais noticiaram com amplo destaque em suas páginas e manchetes. A Folha de S. Paulo chegou a acusar o ex-ministro por suposta apuração realizada pelo diário: "A Folha apurou que as investigações apontaram indícios de movimentações financeiras incompatíveis com a renda de Mantega", divulgou, à época.


"Na decisão em que autorizou a operação desta segunda, o juiz Vallisney Oliveira citou os argumentos do Ministério Público Federal de que há indícios de venda de decisão no Carf e a nomeação de um conselheiro para o órgão  com o propósito de garantir – em troca de vantagens financeiras – o julgamento favorável a aliados", noticiou o G1.


"Os dois seriam amigos e já fizeram negócios imobiliários", disse o Estadão, ao comentar a relação de Guido com Valmir Sandri, ex-conselheiro do Carf.


Com o inquérito concluído, há algumas semanas, apenas o Estadão noticiou que a Polícia Federal não encontrou indícios suficientes para acusar Guido Mantega. Além dele, o ex-presidente do Carf, Otacílio Cartaxo, que também tinha sido alvo da mesma frente da Zelotes, não foi indiciado.

"E em que pese haver algumas evidências de que outras pessoas provavelmente estariam envolvidas no esquema criminoso (Guido Mantega, Otacílio Cartaxo, Jorge Celso, Francisco de Sales e Valmir Sandri), esta subscritora deixou de indiciá-las por entender que não restou comprovado, por meio dos elementos objetivos colhidos, o aspecto subjetivo dos referidos investigados", justificou a delegada Rafaella Parcas.

Por outro lado, apesar de ter publicado a informação o jornal preferiu comunicar que a PF "livrou o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-presidente do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais".

Mas que "Victor Sandri, amigo de Mantega e proprietário do Cimento Penha, foi indiciado por lavagem de dinheiro e corrupção ativa." O jornal também anexou o documento com a cópia do inquérito intitulando-o "O Relatório da Zelotes que Livra Mantega".


No GGN
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Luís Carlos Valois comenta sobre Política de Drogas e Sistema Penitenciário


Em meio a uma das maiores crises do sistema carcerário brasileiro, o Justificando conversou por uma hora com o Juiz de Direito Luís Carlos Valois. responsável por negociar com presos no primeiro massacre, em Manaus.

Valois é Doutor em Direito pela USP e um dos maiores especialistas em guerra às drogas no país. De quebra, ainda é Juiz de Execuções Penais no Amazonas.

Ou seja, é "O" cara para ter esse papo com a gente. Assista a conversa com o apresentador Brenno Tardelli e aproveite: Valois dá uma aula sobre questão carcerária e política de drogas.

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Cabral e Aécio, amigos, contraparentes, trajetórias iguais: por que só um está preso?

Em 2011, melhores amigos
Um vídeo disponível no YouTube mostra o jovem Aécio Neves no desfile de abertura da Conferência Mundial da Juventude, realizada em 1985 na cidade de Moscou.

“Olha a delegação comunista do Brasil, o Aecinho segurando a bandeira”, narra o jornalista Marcelo Tas, que fazia dupla com Fernando Meirelles num programa da TV Gazeta de São Paulo, ele como repórter Ernesto Varella; Meirelles, como cinegrafista.

No mesmo grupo, Gonzaguinha e Martinho da Vila, reconhecidos pela militância de esquerda e, por isso, presenças naturais num evento organizado pelo governo comunista da União Soviética.

Mas o que fazia o jovem Aécio, já conhecido pela vida de playboy no Rio de Janeiro, naquele grupo?

A resposta está na sua amizade com Sérgio Cabral Filho, que organizou a participação do Brasil naquele encontro como militante da Juventude do PMDB do Rio de Janeiro e, em razão da filiação – filho do fundador do Pasquim Sérgio Cabral, na época vereador do Rio –, próximo da juventude comunista.

Também estão na delegação Evandro Mesquita e Fernanda Abreu, não necessariamente de esquerda, e José Sarney Filho, que pelo sobrenome dispensa classificação ideológica.

Mas é a figura de Aécio que chama a atenção, inclusive pelo destaque da sua presença, segurando a bandeira do Brasil no desfile de abertura.

Cabral e Aécio são muito mais do que amigos. São quase parentes. Ou amigos de luta.

Num perfil escrito por Daniela Pinheiro para a revista Piauí, quando Cabral era apenas o governador mais impopular do Brasil, usava carro blindado e gravata, que acariciava como “rabo de um gato”, ele conta como se tornou amigo do Aecinho.

Cabral tinha trabalhado na campanha de candidato a vereador do pai, era estudante de jornalismo – profissão que ele nunca exerceu – e tomou gosto pela política.

Em 1985, era coordenador da juventude peemedebista do Rio que apoiava a eleição indireta do avô de Aécio, Tancredo Neves.

Conheceu uma prima de Aécio, Susana, com quem se casaria e teria três filhos e o pai dela, Gastão Neves, advogado e representante de mineradoras de seu estado natal, além de Tancredo e Aécio, claro.

No perfil de Daniela Pinheiro, Cabral conta que ele e Aécio fumavam juntos no fundo do avião (naquela época, podia) que levava a comitiva às cidades onde Tancredo fazia comício (naquele época, existia).

Uma jornalista que trabalhou na campanha de Tancredo e também viajava na comitiva de Tancredo me contou que os dois eram de fato amigos e se identificavam pela paixão ao Rio de Janeiro e por terem tido problema nos estudos no colegial.

Cabral chegou a ser expulso da escola, mas, segundo ele, por razões política: quis fundar um grêmio, então proibido.

A jornalista acompanhou a vida de Aécio e Sérgio Cabral pelos anos seguintes. “Os dois foram muito amigos. Quando o Sérgio Cabral se elegeu deputado, tinha um trabalho social que o Aécio adorava. Era voltado para os idosos. Sérgio, com isso, rompia com a pecha de candidato só dos jovens, problema que o Aécio também enfrentava”, recorda.

No início de sua vida pública como deputado, Sérgio Cabral chamava a atenção pela austeridade. Dispensou o motorista da Assembleia e dirigia um carro velho.

Como presidente da Assembleia, cortou salários e verbas de deputados, mas começaram a aparecer sinais de que estava enriquecendo.

Em 1998, numa troca de chumbo, o ex-aliado Marcelo Alencar, de saída do governo do Rio, entregou à imprensa um dossiê com o patrimônio de Cabral, e chamava a atenção uma mansão em Mangaratiba, avaliada em 5 milhões de dólares.

Foi nesta época que eu entrevistei Cabral para falar a respeito de outra denúncia: a de que ele coordenava a distribuição de propina das empresas de ônibus entre os deputados estaduais do Rio de Janeiro.

Eu era repórter da Globo do Rio e, até ali, tinha apenas depoimentos em off de que havia de fato uma caixinha das empresas de ônibus, mas não havia provas. Procurei Cabral na presidência da Assembleia. Ele aceitou conversar, mas sem registro de câmera.

Foram mais ou menos três horas de entrevista, durante as quais negou que fosse uma espécie de gerente da caixinha, mas admitiu que ela pudesse existir.

Bom de papo, esforçou-se para levar a conversa para o lado pessoal e contou com alegria que havia morado em São Paulo – de onde eu havia saído para trabalhar no Rio – e das boas lembranças que tinha do trabalho do pai na revista Realidade.

Também explicou que o pai não tinha a mesma vocação política que ele. “Meu pai dizia que se elegeu vereador porque a Câmara fica entre dois bares com ótimo chope, um deles o Amarelinho”, afirmou.

A certa altura, começou a falar de um drama pessoal. Era início de 1999, dois anos e pouco antes ele havia se separado e a razão foi que a mulher, a prima de Aécio, se apaixonou pela fotógrafa da campanha do marido a prefeito do Rio e, segundo ele, foi morar com a namorada e o deixou com três filhos.

Sérgio Cabral nem bem terminou o relato e começou a chorar, soluçando alto. Já tinha entrevistado o presidente da Assembleia algumas vezes, em coletiva, mas não tinha intimidade com ele.

Fiquei imaginando que talvez ele quisesse mostrar a face humana de um político já àquela altura suspeito de corrupção. Mas o choro (com muitas lágrimas) era verdadeiro.

Saíram matérias negativas sobre Sérgio Cabral, nada arrasador – por absoluta falta de como provar as denúncias –, a carreira de Cabral, já em franca ascensão, continuou a subir. Elegeu-se senador e depois governador, duas vezes.

As denúncias se avolumaram, ele se enrolou no escândalo de Carlinhos Cachoeira e foi esmagado pela delação de dois doleiros, já na era da Lava Jato.

Hoje ocupa uma cela de Bangu, em cuja ala feminina se encontra a atual esposa, sucessora de um escritório montado pelo próprio Cabral, que tinha o sogro Neves, Gastão, pai da Susana, como figura central.

Um dos coordenadores das primeiras campanhas de Cabral, no início da década de 1990, diz que o escritório, tanto na fase de Gastão Neves quanto na de Adriana Ancelmo, sempre foi um veículo para lavar dinheiro.

Cabral e a ex Susana, prima de Aécio, em tempos mais modestos
Cabral e a ex Susana, prima de Aécio, em tempos mais modestos
Essa suspeita só se confirmará se houver, como se especula, delação premiada da mulher de Sérgio Cabral.

O que não há dúvida é sobre outro esquema de lavagem de dinheiro usado pelo ex-governador do Rio, relatado com fartura de provas pelos doleiros Marcelo e Renato Chebar, que são irmãos.

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal conseguiram dos doleiros de Cabral (a delação premiada), o que, alguns anos antes, nem foi tentado com uma família de doleiros que atendeu a família Neves, também do Rio de Janeiro.

A lei da delação premiada é de 2013, mas já havia benefícios para quem colaborasse com a Justiça.

Em 2007, a Polícia Federal fez uma busca no apartamento do casal Norbert Muller e sua mulher, Christine Puschmann, conhecidos doleiros do Rio, e apreendeu documentos bancários que revelavam contas não declaradas no exterior em nome de quatro pessoas, um ex-deputado, um desembargador aposentado e Inês Maria Neves Faria, mãe e sócia de Aécio Neves.

A conta de Inês era em nome de uma fundação, aberta juntamente com Andrea Neves, irmã e sócia de Aécio Neves. Aécio Neves seria o beneficiário da conta no caso da morte da mãe.

Os policiais encontraram um extrato com saldo de U$ 32 mil. O desembargador e o ex-deputado foram processados e condenados em primeira instância, assim como a doleira Christine Puschmann, viúva quando houve o julgamento, mas ninguém foi preso.

A mãe de Aécio não chegou nem sequer a ser denunciada. Os procuradores da república Fábio Magrinelli e Marcelo Miller entenderam que, como o saldo era inferior a 100 mil dólares, ela não estava obrigada a declarar ao Banco Central o depósito no exterior e, com isso, não havia crime a denunciar.

Quer dizer, então, que qualquer pessoa que tenha 320 mil reais aproximadamente em depósito no exterior está livre de fazer constar esse valor na declaração às autoridades?

Errado.

O advogado Alexandre Venturini, especialista em Direito Tributário, disse ao DCM que a declaração à Receita Federal é obrigatória sim, sob pena de enquadramento no crime contra ordem tributária, com pena que varia de 2 a 5 anos.

“Quando há um depósito de um contribuinte brasileiro no exterior que não foi declarado à Receita Federal, presume-se que é um depósito sem origem e, portanto, passível de cobrança na alíquota de 27,5% e multa de 150%. Não havendo pagamento, é crime contra a ordem tributária”, disse.

Os procuradores fizeram uma interpretação elástica de outra lei, o que livrou a família Neves de complicações na Justiça.

A lei que prevê os crimes contra o sistema financeiro diz que só não é obrigatória a declaração ao Banco Central (ao Banco Central, não à Receita Federal), no caso de saldo inferir a 100 mil dólares.

A declaração ao Banco Central é uma coisa, a declaração ao IR outra. Uma é relacionada a crime contra Sistema Financeiro Nacional. A outra, a crime contra crime contra a ordem tributária.

O caso foi apreciado também pela Procuradoria Geral da República, em Brasília, e a interpretação elástica dos procuradores do Rio – a de que a a dispensa de comunicação ao BC vale também para a Reeita — foi aceita. O Ministério Público Federal deixou assim de acusar a família Neves.

Cabral não teve a mesma sorte que o amigo Aécio Neves, a quem poderia dizer (se é que não disse) que a Polícia Civil do Rio de Janeiro, no seu mandato de governador, manteve na gaveta o inquérito aberto para investigar corrupção na estatal de Furnas, onde Aécio aparece como o grande protagonista.

Nascido no Engenho Novo, subúrbio do Rio, filho de um jornalista com alma e certidão de nascimento carioca, Sérgio Cabral Filho tem uma vida em que sobram sinais de que não mediu atitudes para ser tido como milionário, depois que deixou de dirigir o carro velho e comprou a mansão de Mangaratiba.

Aécio Neves, de uma família aristocrática no interior de Minas Gerais, que teve escravos no passado, sempre quis ser carioca.

Há rastros dos dois na incursão desonesta pelos cofres públicos, seja de Furnas, do governo de Minas ou do governo do Rio.

Um está preso, o outro continua combatendo o “mar de lama” da tribuna do Senado, preside um dos maiores partidos do Brasil, o PSDB, e articula candidatura para governar o País.

O maior pecado de Cabral foi achar que poderia ser um Neves, como mostram as entradas ao vivo da repórter Andreia Sadi, da Globonews, que cobre a Lava Jato a partir de Brasília e entrou para a família ao casar com um primo de Aécio.

Andreia não diz que Susana Neves, que teve repasses vultosos do esquema de Cabral, é prima de Aécio. Susana é agora tão somente ex-mulher de Sérgio Cabral.



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Hoje é Dia do Índio

Até o fim do dia, Eunício Oliveira deve ser eleito o novo presidente do Senado. Citado em três delações da Lava Jato, ele atende pelo apelido de “Índio” na famosa planilha da Odebrecht. Sua tribo é o PMDB, onde exerce a sugestiva função de tesoureiro.

Filho de um lavrador cearense, Eunício se tornou um prodígio nos negócios. Aos 14 anos, trabalhava no estoque de uma fábrica de biscoitos. Cinco décadas depois, voa num jatinho particular. Seu patrimônio declarado chega a R$ 99 milhões.

Na origem da fortuna, estão empresas especializadas em vencer licitações. Só na Petrobras, uma firma do senador faturou R$ 978 milhões. O maior contrato, de “apoio à gestão empresarial”, teve o valor reajustado nove vezes. Os repasses do Banco do Brasil, do Banco Central e da Caixa somam mais R$ 703 milhões.

Genro de Paes de Andrade, um deputado folclórico que chegou a presidir a Câmara, Eunício também se destaca no papel de sogro. Em 2015, presenteou o marido da filha caçula com uma diretoria da Anac. A associação dos pilotos protestou contra a “nomeação política, baseada na mais asquerosa troca de favores”, mas o rapaz continua no cargo.

O primeiro delator a acusar o peemedebista foi Delcídio do Amaral. Segundo o ex-senador, Eunício “jogou pesado” para emplacar diretores da ANS e da Anvisa. Ele associou as indicações à cobrança de propina de laboratórios e seguradoras.

Nelson Melo, ex-diretor da Hypermarcas, disse ter repassado R$ 5 milhões ao peemedebista por meio de contratos fictícios. Cláudio Melo, ex-diretor da Odebrecht, relatou pagamentos de R$ 2,1 milhões pela aprovação de uma medida provisória.

Apoiado pelo governo Temer, Eunício nega todas as acusações e diz que os colaboradores da Lava Jato “inventam” e “mentem” para incriminá-lo. Enquanto o Supremo não liberar todas as delações, teremos que ficar com a palavra dele. Até lá, todo dia no Senado será Dia do Índio.

Bernardo Mello Franco
No fAlha
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A PF entre os almofadinhas e os policiais


O delegado Egor chegou à sede da Polícia Federal, um pouco chateado com o sucesso recém-conquistado do policial hipster, que saiu em várias reportagens de jornal. Afinal, a cara da Polícia Federal precisa ser o Delegado Yuppie, bem penteado, bem vestido, não um hipster qualquer que bota um rabo-de-cavalo e sai invadindo espaços, flashes, reportagens de jornal como um plebeu invadindo o castelo reservado à nobreza da PF.

Não, não podia perder a grande batalha depois de meses de trabalhos exaustivos, na grande disputa por uma tira nos jornais, um espaço nos online ou pela suprema glória de um minuto nos jornais televisivos. Não, não jogaria fora o esforço diária de pensar no tema mais manchetável, na barganha com o setorista, eu te passo um vazamento, você mais adiante me paga com uma manchete.

Por isso mesmo, lembrou da canção que o pai lhe cantava, levanta, sacode a poeira, dá a vota por cima, e foi com esse estado de espírito que escolheu o terno mais alinhado, a camisa engomada, com a marga de grife que ele selecionou no site modaparamacho.com, a gravata italiana que comprou em uma viagem internacional de cooperação, o coldre elegante Pistol Hoster, adquirido na Alibaba, pois detestava coldres vulgares, tipo Bope, e se preparou para o grande desafio do dia.

Chegou no escritório aparentando pressa, aquele jeito apressado e misterioso dos grandes detetives, como se estivesse permanentemente farejando a próxima pista. Tomou um café Nespresso e, antes de sentar na poltrona,  se preparou como quem vai para a guerra, vestiu o blusão cáqui sobre a camisa e a gravata italiana, o que lhe deu um ar blasé aventureiro dos grandes secretas, olhou de soslaio a imagem refletida no monitor e, seguindo o exemplo da autoconfiança dos times de vôlei antes das grandes batalhas (que ele aprendera na ESPN) encarou a imagem refletida no monitor e gritou esmurrando o ar com o punho fechado.

- Dá-lhe, Tom Cruise!

E deu início ao ritual diário.

No e-mail privativo da PF recebeu a informação sobre um novo nome que surgira nas delações: o professor Camarosano, ao que parece vidente e astrólogo.

Imediatamente, tomou as providências de praxe.

Investigador atilado, primeiro se logou no banco de dados da COAF, para saber se havia alguma movimentação estranha em nome de Camarosano.  Depois, no servidor da Receita, para conferir suas declarações de renda.  Na sequencia, olhou em volta para se prevenir de eventuais atos terroristas e avançou sobre o banco de dados eleitoral, para pegar seu endereço.  No Banco Central, levantou os gastos com cartão de crédito e as contas de previdência do misterioso Camarosano.

Depois imprimiu tudo, bateu o carimbo e passou para a frente. E aproveitou para dar uma passadinha pelo Facebook e mandar um sinal de positivo para as fãs.

Terminava assim, mais um dia de trabalho heroico e estafante do Delegado Egor, similar ao dia anterior, ao trasantonte, como se dizia nos seus tempos de classe média baixa, antes de se tornar personagem global. Como ele não é acomodado, também desenvolveu uma boa técnica de pesquisar o Google e o Facebook.

Vez ou outra, a rotinha era quebrada por ação. Algumas diligências espalhafatosas em locais sem risco, busca, apreensão e condução coercitiva de pessoas que não resistiam. E, depois, correr para o abraço na frente das câmeras.

A parte efetivamente difícil da empreitada era escolher um tema que lhe garantisse um bom espaço em entrevistas na mídia. O último repórter que o procurou mostrou-se mais exigente que procurador em delação premiada: só o entrevistaria se ele fizesse afirmações de maior impacto que a entrevista do delegado anterior.

- Se não me fornece o lide, não tem conversa – lhe disse o repórter, definitivo como um procurador da Lava Jato.

Residia ali o maior desafio do Delegado Egor: como transformar consultas a bancos de dados em episódios heroicos? Certamente não daria manchete a cena dele invadindo a casa do suspeito, entrando no quarto do casal e fuçando na penteadeira da esposa. Nem inserindo sua senha no banco de dados da COAF, apesar do tom épico que imprimia ao gesto de apertar a tecla ENTER. Afinal, todo o treinamento para dar o ENTER no banco de dados do COAF não tinha apelo televisivo.

Passou o dia ensimesmado, pensando no que poderia oferecer ao repórter. Os colegas, ao lado, percebiam seu ar preocupado e imaginavam o que estaria trabalhando o Delegado Egor, qual estratégia fantástica estaria nos seus planos?

Os delegados presenciais

O Delegado Egor, personagem de ficção obviamente, hoje em dia se tornou a cara da PF. E aí se comete uma enorme injustiça para com a corporação. A PF não são os delegados simulacros de yuppies, com seu exibicionismo vulgar, tornando-se literalmente um herói de quadrinhos, que só corre riscos virtuais e jamais encara os perigos reais que os delegados e agentes de verdade acostumaram-se a correr.

São homens que não foram forjados na linha de frente do combate ao crime. Antigamente, mesmo o pessoal da inteligência da PF recebia ensinamentos dos policiais da linha de frente, para atuar em todas as áreas e, em alguns momentos, corriam risco efetivo de vida.

Compare-se esse pesquisador de bancos de dados almofadinha com as verdadeiras lendas da PF, como o delegado aposentado Antônio Celso, o homem que desvendou o golpe do assalto ao cofre do Banco Central em Fortaleza.

O planejamento da operação deixaria no chinelo feitos como o assalto ao trem pagador brasileiro, ou o assalto ao trem pagador inglês, cometido por Ronald Bigs, e considerado até então o roubo do século – levou US$ 4,2 milhões, em dólares da época (1963).

Em Fortaleza, os assaltantes cavaram túneis, tiraram R$ 164,7 milhões dos cofres do banco e sumiram na poeira, deixando a polícia embasbacada (https://goo.gl/Io05sz).

A quadrilha foi montada com a convocação de vários grupos de marginais, dos altamente perigosos, pertencentes ao PCC, aos de baixa periculosidade.

De Fortaleza foram para o Paraguai, montaram assalto semelhante, foram pegos, mas conseguiram um acerto com a polícia. Mesmo saindo ilesos, deixaram pistas que a PF tratou de seguir.

Durante um ano o delegado Antônio Celso monitorou a quadrilha e descobriu que planejavam um grande assalto em Porto Alegre. O planejamento do assalto parecia roteiro de filme hollywoodiano.

Primeiro, compraram um prédio no centro de Porto Alegre, leiloado pelo INSS, depois de retomado de um devedor. Criaram uma empresa de prestação de serviços, especializada em reformas de imóvel. Colocaram na empresa todos os fichas limpas que faziam parte da quadrilha.

A empresa ocupou o prédio, simulou reforma-lo, colocou caçambas enormes na frente. Todo dia cavavam o túnel em direção à agência de um banco e despejavam os detritos nas caçambas. Havia estrito controle de todo mundo que entrava no prédio.

Como o prédio ficava em região de muitas agências bancárias, a ambição falou mais alto e decidiram abrir um ramal no túnel, em direção a um segundo banco. Foi ali que o monitoramento os alcançou.

Trabalhavam todos os dias, fim de semana, feriado. E a PF monitorando.

Na semana decisiva, o delegado Antônio Celso instalou duas câmeras para permitir que o então delegado-geral da PF, Paulo Lacerda, pudesse acompanhar todos os detalhes da operação.

O prédio ficava de frente para o porto. Uma das câmras ficou em uma sala no porto er a outra em um prédio em frente, onda a PF alugou uma sala estrategicamente colocada.

Os assaltantes até então não usavam armas. As armas só viriam no dia decisivo. A força tarefa da PF já tinha em seus radares o grupo de São Paulo que levaria as armas para o dia do assalto. A quadrilha teria que ser detida antes de pegar os armamentos.

Definiriam que a operação seria deflagrada dois dias antes da chegada das armas.

Antes das 6 da manhã os monitores da PF em Brasília já mostravam a operação em Porto Alegre. Às 6:30 chegou o ônibus do Comando de Operações Táticas da PF. Quinze minutos depois, Antônio Celso telefona para Paulo Lacerda, que o vê falando ao telefone com ele próprio. No chão, 33 assaltantes algemados, sem que se tivesse disparado um só tiro.

Pergunto, dá para comparar com os delegados online? É evidente que não.

Portanto, não cometa a injustiça de considerar que a PF são os almofadinhas. Há grandes servidores públicos, policiais e agentes efetivamente treinados na arte de investigar e não no trabalho burocrático de cruzar bancos de dados, se exibir no Facebook e candidatar-se a celebridade da mídia.

Luís Nassif
No GGN
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