29 de jan de 2017

Temer será a vingança de Marcelo Odebrecht por ter sido obrigado a delatar?


Avolumam-se as informações de que Michel Temer terá presença marcante na delação de Marcelo Odebrecht e na de alguns diretores que se sentem ainda ligados ao antigo e deposto chefe da empreiteira.

É coerente com a misteriosa nota publicada  por Lauro Jardim sobre o rompimento entre Marcelo e o pai, Emílio, a mãe, Regina e os irmãos.

Marcelo, que não tinha ilusões do que o aguardava com Sérgio Moro, preferia aguardar a ida de seu caso a tribunais superiores, aos quais irá agora como confesso.

O clã achou melhor perder muitos anéis e conservar os dedos, iniciando um processo de alienação da empresa.

Marcelo Odebrecht, porém, o único que purgou cadeia — e 19 meses, não é pouco —  entendeu que o que se queria dele – denúncias contra Dilma e Lula – manteria o caso exclusivamente nas mãos de Moro.

E resolveu atirar mais em cima, em Temer e seus Ministros.

Não quer sair de “big boss” de um esquema de décadas, que herdou na empresa.

Cármem Lúcia, agora senhora dos conteúdos das delações de Marcelo e dos outros diretores que seguiram sua orientação, viu a possibilidade de, as homologando antes da redistribuição do caso, virar o jogo sobre Temer que, via Gilmar Mendes, pretendia tornar-se “dono” do STF com a indicação do novo ministro.

Especulações?

Em 48 horas vamos saber.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Virada à esquerda: Benoit Hamon será o candidato presidencial do PS na França


O disputado processo de prévias do Partido Socialista francês acaba de eleger Benoit Hamon como candidato nas eleições presidenciais de abril.

Com a participação de cerca de 2 milhões de franceses, o segundo turno das primárias do PS foi realizado neste domingo com a vitória de Hamon com 58% dos votos contra 41% do ex-primeiro ministro, Manuel Valls.

Ex-ministro da educação, Hamon traz ao PS um discurso mais à esquerda: defende a jornada de trabalho de 35 horas e a criação de uma renda mínima universal de 750 Euros para todos os franceses com mais de 18 anos.

Hamon também critica a proposta de primazia do negociado sobre o legislado nas relações trabalhistas. Aliás, diga-se de passagem, esse debate também está na ordem do dia no Brasil.

Nos últimos anos, o eleitorado francês tornou-se extremamente crítico do governo de François Hollande. Culpa da política de austeridade econômica por ele implementada. Sua popularidade baixou tanto que Hollande nem tentará a reeleição.

Agora, com Hamon, abre-se a possibilidade do PS reencontrar o eleitorado de esquerda e centro-esquerda francês que, desde 2012, realinhou-se com a candidatura de Jean-Luc Mélenchon, líder da Front de Gauche.

Hamon é o último candidato a entrar na concorrida disputa presidencial francesa. Da esquerda para a direita, já anunciaram suas candidaturas Mélenchon, do Parti de Gauche, o ambientalista Yannick Jadot, o centrista Emmanuel Macron, o liberal François Fillon, da tradicional centro-direita francesa e a conservadora Marine Le Pen, da Frente Nacional.

Pesquisas de opinião de voto no país indicam que a candidata da extrema-direita, Le Pen, certamente irá ao segundo turno. A briga, portanto, é em saber quem irá com ela.

Entre intelectuais franceses, já se inicia um movimento para que os três candidatos da esquerda, Hamon, Mélenchon e Jadot, construam uma candidatura unificada capaz de superar Le Pen.

A tarefa é difícil, mas não impossível…

Em Portugal, há dois anos atrás, o Partido Socialista conseguiu costurar uma inédita aliança com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português que levou ao poder o primeiro-ministro socialista, Antônio Costa.

Em França também é possível se houver bom senso e abertura para o diálogo de todos os lados.

Pelo bem da Europa, pelo bem da França e, sobretudo, pelo bem dos mais pobres, impedir a vitória do programa de extrema-direita de Le Pen deveria ser a prioridade número um dessas forças políticas que se dizem de esquerda.

Theófilo Rodrigues é sociólogo e cientista político.
No Cafezinho
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Pedro Taques, o herói do MPF e suas circunstâncias


Algum tempo atrás, se houvesse votação interna no Ministério Público Federal para eleger  o Procurador símbolo, o vencedor seria Pedro Taques.

Taques era uma espécie de anti-Deltan Dallagnol. Enquanto o campo de batalha de Deltan são as trepidantes telas de computador, a consulta a bancos de dados e o cenário de baixo risco das entrevistas coletivas, Taques enfrentava os riscos verdadeiros.

Cada vez que entrava em um restaurante de Mato Grosso, provocava dois movimentos. Primeiro, aplausos dos presentes. Depois, o restaurante se esvaziando com receio de algum atentado.

Não era por menos.

Taques se tornou nome nacional como procurador da República no Mato Grosso na Operação Arca de Noé, combatendo supervilão João Arcanjo Ribeiro, o "Comendador" Arcanjo, rei do bicho do estado, dono de cassinos e do tráfico, recursos em off-shores, paraísos fiscais, parte dos quais foi lavado em grandes plantações de soja. Blairo Maggi, o segundo maior plantador de soja do mundo, aliás, poderá contar um pouco mais sobre como esse fascinante personagem ajudou a alavancar competidores de Blairo, quase tão fortes quanto ele.

Era tão poderoso que, quando um desavisado superintendente do Banco do Brasil  mandou cobrar uma dívida, recebeu a visita do "Comendador" com um aviso curto e grosso:

— Se me cobrar de novo, te mato!

Foi preciso o governador da época ligar para Arcanjo para acalmá-lo.

Assim como outros varões de Plutarco da política — como o ex-senador Demóstenes Torres — Taques criou fama de incorruptível. E deitou na cama. E a política brasileira ganhou um campeão da moralidade para ajudar a mudar os hábitos seculares.

Candidatou-se ao Senado em cima do mote único do mocinho contra o bandido.

Eleito, tornou-se o preferido do MPF, a ponto do Procurador Geral da República Roberto Gurgel desengavetar uma denúncia contra Renan Calheiros no exato dia em que haveria eleição para presidente do Senado. O outro candidato era Pedro Taques.

Ali, o MPF já mergulhara até a tampa na politização das denúncias. Aceitava-se que a gaveta de Gurgel — para onde iam as denúncias contra políticos — fosse controlada apenas por ele e sua esposa. Na gaveta em que a denúncia contra Renan repousava, aguardando o momento de vir à tona, ficariam  guardadas denúncias contra Aecio Neves, o colega de Gurgel Demóstenes Torres e sabe-se lá quem mais, para serem utilizadas quando e se necessárias, ou servir como arma de barganha — conforme rumores que correram na época da indicação de Gurgel para um segundo mandato à frente da PGR.

Eleito governador, acabaram as circunstâncias que fizeram de Taques um campeão das virtudes públicas e entraram as oportunidades para introduzi-lo no reino dos vícios políticos.

Largou o PDT, por onde foi eleito, entrou para o PSDB, partido com o qual o MPF majoritariamente tem mais afinidades. Depois que Michel Temer assumiu o poder, aproximou-se do PMDB local.

Em menos de dois anos, espocaram denúncias. Primeiro, propinas em obras públicas. Agora, a denúncia do procurador-geral de Justiça em exercício de Mato Grosso, Luiz Alberto Esteves Scaloppe, de que Taques estaria agindo em favor do mais suspeito político em atividade, Ministro Eliseu Padilha (https://goo.gl/5blsyn).

O Ministério Público Estadual entrou com medida para obrigar o governo do Estado a tomar providências e regularizar o parque estadual, cuja área foi invadida por Padilha. Taques não apenas não tomou medida alguma como colocou a Procuradoria-Geral do Estado para derrubar a liminar.

No início Taques agiu à sorrelfa (para utilizar um termo familiar no linguajar jurídico). Primeiro convocou uma reunião no Palácio do Governo com a promotora Regiane Soares Aguiar, que atuava no caso. As pressões foram tantas que a promotora saiu do Palácio com a convicção de que havia alguém muito forte por trás das pressões de Taques. Não levou muito tempo para saber que era Padilha.

Em dezembro de 2016, o ex-procurador Taques, egresso de um poder, o MPF, que se consagrou na defesa das causas ambientais, reuniu outros posseiros do parque para se manifestar contra a decisão do MPE de preservar áreas públicas.

As ações obscuras de Taques político não se restringiram a esse episódio.

Carlinhos Cachoeira, que mantém intacta sua influência política em Goiás e Brasilia, descobriu na construção de prédios escolares um dos negócios promissores para exercitar a corrupção política.

Em dezembro passado, a Operação Rêmora — também do Ministério Público Estadual do Mato Grosso — trouxe à luz o delação do ex-secretário de Educação Permínio Pinto, admitindo fraudes em licitação em troca de financiamento para a campanha de Pedro Taques (https://goo.gl/kMZdBP).

A alegação de Taques foi de que demitira todos os envolvidos no esquema, aliás, medida prudencial, já que estavam presos ou detidos provisoriamente.

A delação do empresário Giovani Guizzardi trouxe detalhes complicados, de que se tratava mais do que caixa 2 de campanha, mas propina (https://goo.gl/n51TuC). Segundo ele, no final de 2014, o empresário Alan Maluf informou ter "investido" R$ 10 milhões na campanha de Taques, e que teria que recuperar esse valor investido junto ao Estado.

Taques recorre às respostas padrões sobre suspeitas em financiamento de campanha e invocou o passado como blindagem contra o presente:

"O governador reitera o que já disse em outras situações, de que a prestação de contas da sua campanha eleitoral de 2014 foi aprovada sem ressalvas pela Justiça Eleitoral e que, por essa razão, repudia toda e qualquer tentativa de envolvê-lo em qualquer ato ilegal, prática que ele sempre combateu ao longo da sua vida, especialmente nos 15 anos nos quais atuou como Procurador da República".

Quando Eliseu Padilha cumprir o que o destino lhe reserva — a prisão — Taques se constituirá em boa análise de caso sobre as circunstâncias que separam o probo do ímpio.

Luís Nassif
No GGN
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Golpe Parlamentar e a devastação da Economia (Documentário)


Diferente do impeachment de 1992, quando o ex-presidente Fernando Collor de Melo foi denunciado pela própria sociedade brasileira, o pedido de impedimento da presidente Dilma Rousseff tem o timbre de um partido político: o PSDB. “O quê uma folha com o timbre do Diretório Nacional do PSDB está fazendo nos autos da denúncia? Estamos diante de um golpe que saiu das gavetas do PSDB”.

Senador Antonio Anastasia (PSDB), e dos autores da denúncia de crime de responsabilidade contra Dilma. “O Miguel Reale tem filiação ao PSDB, o advogado Flávio Henrique é o coordenador nacional jurídico do PSDB e Janaína Pascoal trabalhou nos governos FHC e Alckmin, e confirmou ter recebido R$ 45 mil pelo parecer que deu origem ao processo. O impeachment foi construído por encomenda do PSDB”.

O que se viu durante o processo de impeachment, deixará como legado para brasileiros e brasileiras a vergonha: um processo contaminado, juridicamente frágil, permeado por conchavos políticos que poluem as três esferas de poder da República.



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Homologação de delações tem mistérios que começarão a vir à tona


Janio de Freitas, que pratica o hoje incômodo hábito de apontar o que não faz sentido, mas é engolido solenemente por nossa mídia, registra que  um dos auxiliares do finado Teori Zavascki, o juiz Márcio Schiefler Fontes foi cumprir em Curitiba a formalidade de ouvir Marcelo Odebrecht, sobretudo, nesta indagação obrigatória: fez sua delação premiada por “vontade própria?”

Foi, claro. Depois de um ano e quatro meses na prisão, sem ser ouvido até que se mostrasse disposto a fazer a delação desejada pelo juiz e pelos procuradores –estes detentores, eles sim, de vontade imprópria, completa Janio.

Some agora o conteúdo de uma pequena nota publicada por Lauro Jardim, hoje:

“Marcelo Odebrecht está rompido com os pais e as irmãs”

Há dois submundos nesta história das delações.

Um, o que elas revelam de verdade, o submundo da política, dos políticos e dos governos.

Por exemplo: é verossímil que Michel Temer tenha pedido R$ 10 milhões ao próprio Marcelo Odebrecht, em pleno Palácio do Jaburu sem que, antes, outros pedidos já lhe tivesse encaminhado, por pessoas interpostas, com sucesso? Será que um vice-presidente da República iria pedir, assim, “na lata”, dinheiro a um megaempresário?

Marcelo Odebrecht dirá algo sobre isso? O mesmo vale para “Botafogo”, Rodrigo Maia, e “Índio”, Eunício Oliveira, às vésperas de suas confirmações como presidentes da Câmara e do Senado, embalados pela sabujice geral de deputados e senadores mergulhados até o pescoço em cumplicidades e mediocridades, vão conseguir impor facilmente as degolas sociais mandadas por “MT”, que  subirá muitos degraus na escada de citações pelos delatores?

E outros, muitos outros.

O segundo submundo, que um dia virá à tona com toda a sua crueza é o jogo de chantagens e direcionamentos contidos nesta seara podre das delações, onde está evidente que Marcelo Odebrecht foi coagido – por Moro, que o manteve preso; pelo MP, que o queria dócil e pela família, que queria salvar o possível de seu império – a  ponto de pressionar aquele que vivia a pressão de mais de um ano de encarceramento.

Talvez um bom motivo para Sérgio Moro, ao contrário do que fez com os demais, ainda mantê-lo, após a delação, nas masmorras de Curitiba.

Fernando Brito
No Tijolaço
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1017

Se medidas drásticas não forem tomadas agora para diminuir o aquecimento global, Mr. Trump, os efeitos disso se agravarão de tal maneira que é impossível prever como será o mundo daqui a mil anos. O que nos leva a imaginar o que deveria ter sido feito há mil anos para impedir que chegássemos a este ponto. Como evitar, retroativamente, o processo que hoje ameaça a vida do planeta?

Deixa ver. Mil anos atrás. O ano de 1017. Um programa de conscientização do público teria que começar com recomendações para controlar o número de fogueiras e queimadas e diminuir o fogo nos fogões e, em hipótese alguma, adotar aquela novidade, o carvão, que só traria sujeira e desgraça.

O carvão, aliás, deveria ser proibido antes de as pessoas descobrirem o que era.

Todos teriam que ser convencidos de que a mula, o cavalo, o boi, a carroça e, vá lá, a carruagem eram o máximo que se poderia desejar em matéria de transporte e que o melhor era mesmo acabar com aquela mania de ir de um lugar para outro.

Todo mundo deveria ficar sossegado em casa e, principalmente, deixar de inventar coisas ou pensar em fazer coisas, acima de tudo coisas que produzissem fumaça.

Mas talvez 1017 já fosse tarde demais. Algum profeta do apocalipse teria que interferir vários milhares de anos antes e, com sorte, chegar à Idade da Pedra Lascada no local exato e na hora certa.

— Pare, o que você está fazendo!

— Mas eu só estava...

— Inventando a roda. Ainda bem que chegamos a tempo. Você não tem ideia do que estava começando. Parando agora, você estará salvando milhões de vidas humanas. Estará salvando o próprio planeta. Desista. Invente outra coisa.

— Mas eu só estava fazendo uma mesa de centro.

— É o que você pensa. Estava inventando o automóvel, o engarrafamento, o monóxido de carbono, os cartéis do petróleo, guerras...

— Mas...

— Faça uma mesa de centro quadrada. E outra coisa.

— O quê?

— Nos leve ao cara que está descobrindo como fazer fogo.

— Por quê?

— Temos que eliminá-lo.

Luís Fernando Veríssimo
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Prioridades

Futebol de praia. Sete para cada lado, perdedores pagam a cerveja. Todos amigos, tudo em paz. Mas o homem não teria chegado aonde chegou, na sua trajetória sobre a Terra, se não fosse um animal orgulhoso. Com a possível exceção do pavão, nenhum outro animal se ama como o homem. E aconteceu o seguinte: o Américo passou a bola pelo meio das pernas do Célio. Não uma, mas duas vezes.

Nenhum amor-próprio resiste a uma bola pelo meio das pernas. O que dirá duas. O homem aprendeu a conviver com as agruras da existência preservando o seu amor-próprio. Insucesso nos negócios, frustrações privadas e públicas - tudo faz parte dos desafios da vida moderna, que o homem enfrenta com seu orgulho intacto, confiante que os superará. Ou pelo menos que saberá explicá-los. É exatamente o orgulho que faz o homem vencer os grandes infortúnios e as pequenas indignidades e seguir em frente. Tudo pode ser absorvido ou justificado. Menos duas bolas pelo meio das pernas no mesmo jogo. Ainda mais as pernas de um brasileiro.

O Célio reclamou para o Américo:

- Não faz mais isso.

- Qual é, cara?

- Pelo meio das pernas, não.

- É brincadeira!

- Faz isso de novo e eu vou na sua pleura.

O Célio não sabia exatamente onde ficava a pleura, mas era onde bateria se o Américo passasse a bola pelo meio das suas pernas outra vez.

É preciso saber que os dois trabalhavam na mesma firma e o Célio era o superior do Américo. Poderia botar o Américo na rua. Pior do que um pontapé na pleura.

- Está bom, está bom - disse o Américo. - Não faço mais.

E foi jogar do outro lado, onde seu marcador seria, de preferência, um hierarquicamente inferior que ele pudesse driblar à vontade.

Mas aconteceu de o Américo ser lançado num contra-ataque do seu time pelo meio e ver pela frente, como o último defensor do time adversário, o Célio. E aqui entra outra característica do homem brasileiro, que é o seu peculiar senso de prioridades. De certa forma, um corolário ao seu pânico congênito de levar bolas por entre as pernas. E também uma questão de amor-próprio. Pois se todos os homens se amam, o homem brasileiro ama algumas coisas em si acima de todas as outras.

Não se diga que Américo apenas seguiu seu instinto, sem pensar. Pensou muito, enquanto corria com a bola dominada na direção do Célio. Pensou no seu casamento, que teria de ser adiado se ele perdesse o emprego. Pensou nas vantagens para o seu bem-estar e o seu futuro se ele perdesse a bola para o Célio. E o Américo enfiou a bola entre as pernas do Célio e foi buscá-la lá na frente, para fazer um gol espetacular, escapando do pontapé que Célio tentava lhe dar por trás. O que é mais importante? Diga lá, brasileiro: a vida, o emprego, o salário garantido no fim do mês, o casamento, ou um gol perfeito? Um gol perfeito, claro.

Mas o Américo, afinal, não foi despedido. Célio não apareceu na firma na segunda-feira. Não foi mais visto. Levar três bolas pelo meio das pernas num único jogo é, parece, uma espécie de limite extraoficial da humilhação. Dizem que ele emigrou.

Luís Fernando Veríssimo
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Primeira semana de Trump evidencia fragilidade da América Latina

Os adversários se completam. Desde Barack Obama, os partidários de Hillary Clinton sustentam que o governo russo teve participação eleitoral contra a candidata democrata. Como candidato, Donald Trump acusou a existência de fraude, advertindo que não aceitaria sua derrota; como eleito, admitiu a participação informática de russos contra Hillary, e, como presidente, acusa a participação fraudulenta de quase três milhões de imigrantes ilegais na eleição. Os dois lados concordam que a eleição foi fraudada. Logo, ilegal, criminosa e inválida. E de uma eleição assim não resulta um eleito.

Os ganhos recordistas que a Bolsa de Nova York produziu, em euforia com a reversão autoritária inaugurada por Trump, explicam a aceitação de um suposto eleito como presidente. E sugerem um quadro interno dos Estados Unidos muito diferente da expectativa pessimista que perpassa o mundo. O mais provável é que as esperanças de impeachment ou renúncia, sustentáculo de muitas opiniões, traduzam excesso de irrealismo. Ou dependam de que Trump avance até além do que anunciou e começa a praticar.

Diante disso, a primeira semana de Trump foi suficiente para indicar a fragilidade medíocre da América Latina, na qual o México é um alvo em nome de todos os latino-americanos. Antes da eleição, os ataques de Trump ao México eram palavras de candidato. Ninguém precisava protestar, nem mesmo o México o fez. O ataque passou a ser do presidente. Era, portanto, o governo dos Estados Unidos a determinar que o México custeie, sob pena de represálias, os 3.000 quilômetros de um muro que satisfaça o segregacionismo e a pretensa superioridade de americanos. Um caso internacional de interferência.

Nenhum país latino-americano emitiu uma só palavra de solidariedade ao México. Ou, ao menos, de ponderação sobre a atitude do presidente americano tão arbitrária e adversa à muito cantada, sobretudo pelos Estados Unidos, "fraternidade panamericana". De fato, o que não falta entre nós são tratados, acordos e cartas prescrevendo convivência fraterna entre os países da região e condução pacífica dos desentendimentos. Um dos mais importantes desses laços até se chama Tratado do Rio de Janeiro. E existe mesmo uma tal Organização dos Estados Americanos, com a qual, apesar do nome, os governos americanos sempre puderam contar.

Medo, pusilanimidade, subserviência, malandragem à espera de uma vantagenzinha, há de tudo na omissão dos governos latino-americanos, excetuado o México compelido a ficar de pé. Seja construído ou não, o muro de Trump separa, na verdade, os seus Estados Unidos e a América Latina. Para a qual, fosse como candidato, como eleito ou já presidente, essa figura própria para os anos 1930 não dirigiu nem sequer um aceno de cumprimento.

A América Latina faz-se dispensável. Com o Brasil à frente.

O amigo

Caberia ao ministro Gilmar Mendes declarar-se impedido, quando for o caso. Não se espera que o faça. Mas suas longas visitas "de amigo" a Michel Temer o tornam impedido moralmente de conduzir, como faz, parte dos procedimentos no Tribunal Superior Eleitoral sobre irregularidades da chapa Dilma-Temer. Assim como o tornam moralmente impedido de eventual escolha, ou sorteio, para ser no Supremo o novo relator da Lava Jato, em cujas delações Temer aparece quase 50 vezes.

Vontades

Assistente de Teori Zavascki no caso Lava Jato, o juiz Márcio Schiefler Fontes foi cumprir em Curitiba a formalidade de ouvir Marcelo Odebrecht, sobretudo, nesta indagação obrigatória: fez sua delação premiada por "vontade própria?"

Foi, claro. Depois de um ano e quatro meses na prisão, sem ser ouvido até que se mostrasse disposto a fazer a delação desejada pelo juiz e pelos procuradores — estes detentores, eles sim, de vontade imprópria.

Janio de Freitas
No fAlha
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