27 de jan de 2017

O "timing" e as provas

http://www.maurosantayana.com/2017/01/o-timing-e-as-provas.html


Um delegado, em entrevista a uma revista semanal, declara que a Polícia Federal "perdeu" o "timing" para prender Lula.

Outro delegado, que já manifestou publicamente, nas redes sociais, por mais de uma vez, suas preferências políticas e que, criticado por isso, tentou censurar, na justiça, as manifestações de internautas contra ele, vem a público para afirmar que, na verdade, esse "timing" não passou, e que, em 30, 60 dias, será possível obter condições favoráveis para prender o ex-presidente, cuja esposa acaba de sofrer uma cirurgia para conter as sequelas de um AVC.

Ora, não sabemos se há "timing" para fazer, mais uma vez, a reflexão óbvia e ululante, mas se ainda faltavam provas de que parte preponderante da Operação Lava-Jato tem motivação política - e o objetivo de prender Lula antes que chegue 2018, a qualquer custo - e do incontido ativismo de alguns de seus membros, elas estão aí, escancaradas, mais uma vez, à vista de todos.

Em um país minimamente sério, o ex-presidente Lula seria eventualmente preso se houvesse provas incontestáveis contra ele, e não em função do "timing" institucional, eventualmente construído com o auxílio de uma campanha midiática exagerada e sórdida, que se arrasta já há quase três anos.

Sutis como elefantes, as duas entrevistas fazem parte de um evidente, incomensurável, indiscutível, strip-tease da justiça brasileira aos olhos do mundo, que desnuda, a cada dia mais, todo o seu acovardamento diante das pressões, sua hipocrisia, sua parcialidade, suas rugas éticas e sua manipulação dos fatos, com a fabricação de factoides tão postiços quanto perucas.

A sua cara - e a opinião pública mundial percebe claramente isso, ao ver, horrorizada, os vídeos postados pelos assassinos - não é, apesar dos arroubos costumeiros da mídia local, quando ocorrem certos convescotes, a dos jovens procuradores e juízes de armanianos ternos, que visitam outros países em busca de holofotes, plaquinhas e diplomas honoríficos; mas a das cabeças arrancadas, diante das câmeras de celulares, a golpes de facão, do tronco de prisioneiros - muitos deles provisórios, que sequer ainda haviam sido julgados - que estavam sob a custódia de um sistema apodrecido até a raiz, incapaz de garantir os mais elementares direitos, ou de fazer valer a Lei e a Constituição, em um país com 8.5 milhões de quilômetros quadrados e a quinta maior população do mundo.
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Eike para presidente


Folha de S. Paulo, 19/01/2012

Ser rico no Brasil sempre foi uma ofensa sociológica. Eike Batista chegou para acabar com isso. Ele não é só um bilionário desinibido, confiante, assumido. O pai de Thor é também carismático, empreendedor genuíno, obcecado com o cabelo, nosso primeiro Donald Trump, com bestseller nas livrarias e um senso de autopromoção que pode levá-lo, quem sabe, a subir a rampa do Palácio do Planalto.

Lembro que nos anos 1980, quando os japoneses inventavam coisas geniais como o walkman e eram vistos como os chineses são vistos hoje, era comum dizer que o Brasil deveria ser dado para eles administrarem. Tínhamos todos os atributos de uma nação rica, mas éramos tão mal geridos (naquele lodaçal do final da ditadura até o Plano Real) que deixados a nós mesmos nosso destino seria o fracasso.

Depois de tentarmos todas as coisas difíceis, o Brasil finalmente se encontrou no óbvio: democracia e economia de mercado. Chegamos com um atraso enorme em relação aos nossos primos norte-americanos (com quem devemos nos comparar por dimensão e ambição, e não com nossos pequenos vizinhos latinos), mas capitalismo e democracia, mesmo que tardios e imperfeitos, nos fazem muito bem.

E agora as coisas andam mais rápidas. A população brasileira, empreendedora por necessidade, abraçou o capitalismo e foi.

Sob o governo de Lula, o primeiro presidente pobre do Brasil, pobres e ricos enriqueceram juntos. Quando a maré sobe, todos os barcos sobem.

Trabalhar finalmente tornou-se instrumento efetivo de ascensão social no país.

E se ainda é difícil ficar rico, pelo menos está mais fácil ficar mais rico do que se era, com o desemprego abaixo de 6% e renda em alta.

Já temos 145 mil milionários no Brasil (com US$ 1 milhão disponível para investir), segundo cálculo recente de um banco estrangeiro. É um número ainda pequeno numa população de 200 milhões de habitantes, mas está crescendo.

Nossos velhos ricos sempre foram muito reservados, como se Balzac tivesse razão ao dizer que atrás de toda fortuna tem um crime. De fato, a distribuição de riqueza no Brasil sempre foi caso de crime contra a humanidade, parido na escravidão colonial.

Mas as coisas estão mudando. Nossos novos ricos, confiantes e desinibidos, desfilam seu sucesso e seu dinheiro como troféus a inspirar os observadores. São principalmente pequenos empreendedores ou grandes profissionais liberais que estão formando uma nova camada de poder que pode ter a força de mudar o Brasil.

A mudança jamais virá dos políticos, a revolução não será televisionada pela TV Senado.

Precisamos de mais empreendedores ativistas fora de suas empresas. Eles são fundamentais e transformadores.

Por exemplo: o apoio e o engajamento do empresário Guilherme Leal, bilionário fundador da Natura, na campanha de Marina Silva foi o que possibilitou ela ter votação tão expressiva.

Não precisamos mais dos japoneses para tocar o Brasil. Nossos empreendedores são os nossos japoneses. São eles, mais do que qualquer político ou partido, que estão desenvolvendo o país.

Sérgio Malbergier é consultor de comunicação. Foi editor dos cadernos 'Dinheiro' (2004-2010) e 'Mundo' (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros.

No Esquerda Caviar
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Cabral e a cara de pau da delação premiada


Diz O Globo que Sérgio Cabral “estuda negociar um acordo de delação premiada como forma de diminuir o tempo que ficará preso”, e quer fazer isso enquanto Eike Batista está “foragido” – embora já tivesse saído do país antes da decretação de sua prisão.

Não entendo que valor possa ter a delação de Sérgio Cabral, um desavergonhado ladrão público por tudo o que se noticiou até aqui e que, como governador, ocupava o primeiro posto de poder e decisão nas obras realizadas aqui, inclusive as feitas com dinheiro federal.

Aliás, esta história está cada vez mais estranha, porque Eike foi o único dos empresários, até agora, a admitir que deu dinheiro, “por dentro” e “por fora” – o registro está na reportagem de Cíntia Alves, no GGN – oferecendo até uma planilha de para quem, quanto e quando, que o Ministério Público, que a teria devolvido.

A delação de Cabral, em tese, serve apenas para duas coisas.

A primeira, para mostrar – se é que ainda é preciso – que ele é um rematado canalha, que sugou, fruiu, beneficiou-se de tudo e de todos – na política e no dinheiro – para refocilar numa vida luxuosa, que a imprensa nunca quis ver, mesmo que as denúncias dobre ela datem dos anos 80 e sejam todas muito movimentadas.

Tão canalha que tem na coronha de sua picareta marcados nomes de quem traiu de enorme  variedade: Marcello Alencar, Garotinho, Lula, Dilma, para ficar apenas nos mais destacados.

A segunda “serventia” é a de fazer o que se espera dos canalhas: que saiam apontando os outros e, neste caso, “os outros” seriam Lula e Dilma, os mesmos que , há dois anos, traiu para apoiar  Aécio Neves, seu amigo de longa data e parceiro de aspirações políticas.

Pouco importa se vai ter provas, porque contra Lula, sabe-se, basta a inabalável convicção dos rapazes de Janot e de Sérgio Moro.

Ah, sim, a mais uma coisa a delação premiada de Cabral se presta: a desmoralizar de ver um instrumento ue era para ser usado em casos excepcionais e virou arroz de festa para toda espécie de canalha comprar sua liberdade e a vida folgada com a tornozeleira que, a esta hora, está amarrada no cachorro da casa.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Será que já esquecemos que Temer foi citado QUARENTA E TRÊS vezes numa única delação?

Nosso Catão
Viramos um país desmemoriado e descarado.

Parece que esquecemos que o presidente usurpador governa sob o peso de 43 citações numa única delação da Odebrecht.

Uma seria suficiente para colocar Temer sob séria suspeita — e provavelmente inviabilizá-lo na presidência.

Mas são 43.

Um dia a posteridade, retomada a sanidade entre os brasileiros, se perguntará como o país foi capaz de tolerar um presidente mergulhado de tal forma num superesquema de roubalheira.

Não é o primeiro sinal de que perdemos a lucidez, aliás. Os pósteros também lutarão para entender como um gangster como Eduardo Cunha foi deixado livre para comandar o processo na Câmara que foi dar num golpe de Estado. Os múltiplos crimes de Cunha já eram amplamente conhecidos enquanto ele derrubava abertamente Dilma.

Pena que os futuros brasileiros não terão nenhuma justificativa do ministro do STF Teori Zavascki sobre seu comportamento absurdo no impeachment.

Teori esperou uma eternidade para mandar prender Cunha, como pedia a PGR. Teori deu a Cunha o tempo necessário para o golpe.

Ri sozinho ao ler um amigo dele dizer que a monumental demora se deveu a que Teori examinava os processos com “sobriedade”.

Ora, ora, ora. Você pode rir ou chorar com essa desculpa. Sigo os filósofos gregos, e rio diante da miséria humana contida na pretensa justificativa para a lentidão de Teori.

O fato é que perdemos o juízo, o tino, a noção das coisas. É tido como normal, para citar mais um caso, um juiz do STF ter uma atuação tão partidária quanto a de Gilmar Mendes.

Deveríamos ficar escandalizados com isso, mas nem reparamos. Tente encontrar um único editorial da mídia que questione a tagarelice indevida de Gilmar.

Em nenhum país civilizado um juiz como Gilmar seria tolerado, mas no Brasil ele é um astro da mídia.

Também em nenhuma sociedade avançada seria aceito que a chefia do governo estivesse nas mãos de alguém citado 43 vezes num caso de corrupção.

Ou o mundo civilizado está errado e o Brasil certo, ou é o inverso. Sabe aquela história da mãe que vê o filho desfilar diferente de todos os demais numa imensa parada e conclui, orgulhosa, que só seu garoto está certo?

Pois é.

Paulo Nogueira
No DCM
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Netflix e crise afundam TVs por assinatura

Na semana passada, uma notícia deve ter apavorado as emissoras de tevê por assinatura, em especial o Grupo Globo – que domina o grosso deste mercado. A Netflix, que exibe séries e filmes pela internet, anunciou um crescimento recorde no último trimestre de 2016. A empresa ianque adicionou 7,05 milhões de novos assinantes, a maior parte (5,1 milhões) fora dos EUA. Agora, do total de 93,8 milhões de membros, 47% estão espalhados pelo mundo. Um dos locais de maior expansão do serviço foi exatamente o Brasil – que virou um laboratório da estratégia bem sucedida de crescimento da Netflix no mundo.

Como aponta o jornalista Mauricio Stycer, em matéria publicada na Folha deste sábado (21), o resultado confirma o acerto da empresa na busca da expansão global. “E o lugar do Brasil nesta estratégia foi mais uma vez reiterado no informe aos acionistas. Além do lançamento de ‘3%’, a primeira série produzida no país, o ano que passou registrou também a estreia da segunda temporada de ‘Narcos’, a série que, de acordo com a Bloomberg, mais fez pela Netflix no Brasil... ‘É aqui, na sombra da Globo, que a Netflix vem criando, revisando e aperfeiçoando o primeiro rascunho de seu manual internacional’, diz a Bloomberg”.

O corte dos gastos supérfluos

Na ausência de dados oficiais, estima-se que a Netflix já tenha entre 4 e 5 milhões de assinantes no Brasil. Quem mais sofre com esta expansão é exatamente a tevê paga, que não consegue peitar a concorrência. Em novembro último, ela contabilizou 18,9 milhões de assinantes – 350 mil a menos do que no mesmo mês de 2015 e um milhão a menos do que o registrado no final de 2014. A queda vertiginosa de assinantes não decorre apenas da concorrência da Netflix e de outros serviços pela internet. Ela também deriva do agravamento da crise econômica no país. Os brasileiros estão reduzindo os seus gastos.

Ricardo Feltrin, em matéria no jornal A Tarde, analisou o impacto destes dois fatores na Bahia. “Em tempos bicudos como os atuais, a primeira coisa que as famílias fazem é cortar gastos e a lâmina sempre começa sobre o que é considerado supérfluo ou pelo menos que não seja de necessidade básica. E a assinatura de TV está nessa condição Embora nos últimos meses a TV paga tenha até ensaiado um crescimento em sua base de assinantes baianos (principalmente com a chegada da Net), desde o primeiro trimestre de 2015 ao menos uma em cada dez residências com TV por assinatura cancelou o pacote”

“Havia cerca de 680 mil assinantes baianos em janeiro de 2015. Hoje são 615 mil. E a tendência parece ser de uma retração maior em 2017. Um dos motivos óbvios é a crise econômica e a insegurança de muitas famílias em relação ao futuro próximo. Outro provável fato é a migração de muitos assinantes da TV paga para os serviços de streaming como o Netflix. Para quem está com orçamento apertado, não é muito difícil escolher entre manter a banda larga ou a TV por assinatura em casa. Vejam só: se dentro da família não há pessoas com hábito de acompanhar telejornais ou se ela não tem fanáticos por futebol e outros esportes, o ‘desligamento’ da TV por assinatura às vezes não faz falta alguma. Mas reflete positivamente no orçamento no final do mês. Em média, os brasileiros gastam cerca de R$ 140 mensais com pacotes”.

Batalha encarniçada e “desleal”

As tevês pagas até têm feito um baita esforço para enfrentar esta batalha “desleal”. Ainda segundo Mauricio Stycer, “a Globo tem reagido em várias frentes. Uma delas é o investimento pesado em seu aplicativo on-line, resultado da percepção de não há mais como trazer para a televisão linear parte do público que a trocou pela internet”. O império global também diversifica os seus produtos. “A programação neste mês de janeiro fornece outras informações importantes. Intensificando uma atitude já observada em anos anteriores, a emissora ofereceu um grande cardápio de novidades, enquanto as suas principais concorrentes serviam o público com reprises e melhores momentos. Até o fim do mês terão sido oito estreias”.

Apesar destes esforços, o cenário segue adverso e deve piorar, como observa Keila Jimenez, do site R7: “Quem pensava que seria uma onda que iria passar, se enganou. A Netflix divulgou nesta semana o seu resultado financeiro de 2016. O serviço de vídeo sob demanda registrou um lucro de US$ 186,6 milhões no ano passado, um aumento de 52% em relação ao resultado de 2015. A receita também cresceu no período: passou de US$ 6,78 bilhões em 2015 para US$ 8,83 bilhões, um crescimento de 30,4%. Atuando em mais de 100 países, a Netflix encerrou o ano com 93,8 milhões de usuários, 19 milhões a mais que no final de 2015. E o grupo promete seguir investindo pesado em produções originais”.

Tributação e a guerra política

Nesta batalha encarniçada, nem tudo é decidido pelas chamadas regras do mercado. Isto ajuda a explicar porque as emissoras decidiram investir em outro terreno, o político, para reverter o quadro desfavorável. O engajamento no “golpe dos corruptos”, que alçou Michel Temer ao poder, compõe esta estratégia. Nos acordos de bastidores firmados com os golpistas, um item é o da contenção dos serviços pela internet. Daí a proposta, tratada em regime de urgência, da elevação dos tributos cobrados da Netflix, Spotify e congêneres. Para evitar a concorrência o melhor é matar o concorrente – uma tradição no capitalismo!

O mesmo Ricardo Feltrin, em matéria publicada no início de janeiro, tratou deste jogo sujo. “Digamos que as ‘forças obscuras’ prevaleceram e assim, como num passe de mágica, estão enfiando a mão no nosso bolso sorrateira e novamente. A partir deste ano quem assina Netflix ou algum outro serviço de streaming (de áudio ou vídeo) terá de pagar no mínimo mais 2% de ISS (Imposto Sobre Serviços)... O motivo do aumento do nosso imposto se deve a uma briga de cachorros grandes. Ou melhor, grandes corporações”. Nesta guerra campal, as multinacionais da telefonia, as poderosas teles, e as emissoras de televisão se uniram para barrar o crescimento dos serviços de streaming dos seus concorrentes.

Altamiro Borges
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Trump, a desgraça, faz o que a Dilma não faz


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Xadrez das eleições de 2018


Peça 1 – os condicionantes dos novos tempos

O governo Temer é de demolição. Há uma incerteza sobre o seu tempo de permanência. Por isso, o grupo ataca o poder com a gana de uma harpia faminta. Criou-se um taxímetro nesse jogo. A cada entrega da mercadoria – desmonte do estado social – ganha-se mais algum tempo de vida e fecham-se os olhos para os assaltos do poder. Tudo a conta-gotas em cima de um presidente água, moldável como qualquer corpo líquido.

Pela absoluta impossibilidade de acenar com qualquer expectativa de futuro, em breve vai começar a disputa pela construção da próxima utopia, como pré-condição para as eleições de 2018.

Há um conjunto de enormes desafios a serem enfrentados e mudanças radicais no pensamento econômico e político estabelecido nos últimos anos.

Essas variáveis condicionarão o jogo político daqui para frente.

Variável  1 – o fim do ciclo do neoliberalismo e da globalização

O neoliberalismo acabou. Todo a catedral gótica erigida em cima de premissas neoliberalizantes está desmoronando. Primeiro, com a crise de 2008. Depois, com o ajuste fiscal cego que liquidou com milhões de empregos na Europa. Finalmente, com a política monetária norte-americana que, embora enviesada – ajudou os credores e não os devedores inadimplentes, como no New Deal  – impediu a repetição dos anos 30 sem provocar ondas inflacionárias.

Hoje em dia, há uma revisão ampla dos dogmas da globalização.

1.     O FMI identificando nas disparidades sociais (reduzindo o mercado de consumo) o principal problema da estagnação econômica global, após as ondas de inclusão nos países baleia – China, Índia, Brasil -  e na América Latina em geral que ajudaram a impulsionar o PIB global e a reduzir a miséria.

2.     O FMI tirando o estigma dos gastos públicos. Depois de décadas com a teoria econômica convencional minimizando os impactos dos gastos públicos no PIB e maximizando os impactos dos subsídios às empresas, em 2012 houve a revisão, colocando os conceitos no eixo: em períodos de desaquecimento, os gastos públicos cumprem papel essencial na recuperação da economia; e os subsídios, não.

3.     A revisão do sistema de metas inflacionárias, desmontando a ideia de que juros altos derrubam expectativas inflacionárias. Não só têm um custo excessivo, como desequilibra as contas públicas e aprecia o câmbio.

Brasil é um eterno retardatário dos movimentos globais. Levará algum tempo ainda para que esse revisionismo seja aceito pela chamada elite de boutique – que acompanha os modismos globais e que são o principal motor de influência sobre a cobertura midiática.

Variável 2 – o papel da Lava Jato no desmonte da indústria nacional

No início, se pensava que o fato de destruir empresas e setores – e não apenas penalizar os controladores e executivos – seria uma espécie de “custo Brasil” de ignorância econômica típica em atividades policiais descontroladas.

Nenhum país sério, a pretexto de combater a corrupção, destrói setores inteiros, especialmente em áreas chave. No mínimo, impõe multas pesadas; no máximo, condena e prende pessoas físicas. No limite, como nos Estados Unidos, o presidente da República tem o poder de conceder indulto integral, se a empresa for considerada estratégica.

Passados dois anos, não se tenha mais dúvida: a Lava Jato tem o objetivo claro de destruir setores da economia competitivos internacionalmente – como empreiteiras e a própria Petrobras – e setores estratégicos, como é o caso da indústria de defesa.

O desmonte está se dando até em áreas de ponta, como é o caso dos FIPs (Fundos de Investimento em Participação) uma tentativa tênue de emular o mercado de capitais norte-americano e reciclar a poupança financeira para os grandes projetos de infraestrutura. O Ministério Público, junto com a Previc, trabalha arduamente para desmoralizar e criminalizar o instituto do FIP.

Variável 3 – a impossibilidade de o mercado impor uma agenda politicamente viável

A cada dia que passa, fica claro que a agenda do mercado tem uma perna só, que não para em pé: o desmonte do Estado. Um dia a economia se estabiliza, mas à custa de tal nível de destruição de empresas, de emprego, de desmanche social, que significará um retrocesso de décadas.

Os jornais têm se esmerado em gerar expectativas positivas, acreditando sempre no papel da fé. Dia desses, o Valor deu uma primeira página exultante para o ex-presidente do Banco Central, Chico Lopes, pelo fato de ousar prever um crescimento do PIB de 1,4% em 2017 – absolutamente irrelevante, depois de queda de quase 8% no PIB nos dois últimos anos.

A cada dia que passa, vai ficando claro a diferença entre um governo trapalhão, como o de Dilma nos dois últimos anos, e um governo que trata a economia como a fome de quem sabe que terá pouco tempo para pilhar o Estado.

As velhas fórmulas de criar sonhos artificiais – o mito da lição de casa, a ideia de que o sofrimento é que purifica a alma – não resistirão à decepção com o fracasso das expectativas pós-impeachment, à falta de empatia de Michel Temer e à fome pantagruélica de seus aliados.

Há uma demanda reprimida por sonhos.

Variável 4 – a expansão do estado de exceção

O novo padrão de estado de exceção – defendido, entre outros, pelo Ministro Luís Roberto Barroso – está cobrando um preço caro em todos os quadrantes do país.

Na cúpula, Rodrigo Janot e Gilmar Mendes garantem a blindagem dos aliados. Aliás, é nítido o jogo de Janot:

·      Tem impedido a todo custo a delação de Leo Pinheiro, presidente da OAS, pelo fato de ter prometido provas de propinas nos governos Alckmin e Serra em São Paulo.

·      O inquérito sobre Aécio Neves avança a passos de cágado. Ora a culpa é de Gilmar Mendes, segundo Janot; hora a culpa é de Janot, segundo Gilmar. É uma tabelinha entre adversários.


Na hora em que forem homologadas as delações da Odebrecht, no entanto, será como carne fresca jogada em uma jaula de ariranhas famintas. Toda blindagem irá pelo ralo, junto com o que restar de disciplina na hierarquia do Judiciário e do Ministério Público. Afinal, como diz a propaganda do cursinho para juiz e procurador, “Seja Juiz ou Procurador: seja um herói”. E com 20% de desconto até 31 de janeiro!

Por todos os cantos do país haverá procuradores e juízes lutando acerbamente por seu momento de herói. E as oportunidades nascerão com a profusão de nomes e situações reveladas pelas delações.

Será um período duro, mas que acelerará a reação contra os abusos cometidos pelo Ministério Público, uma guerra para se devolver o país ao estado de direito – sem as liberalidades excessivas em relação aos crimes do colarinho branco, que caracterizaram historicamente a Justiça.

Aliás, quem quiser um aperitivo do que são esses tempos jacobinos, é só conferir o que aconteceu em Poços de Caldas. Um juiz de 1a instância, crítico do PSDB, criou um estado de terror na cidade, desarquivando uma investigação encerrada em torno de uma fantasiosa quadrilha que mataria pessoas para traficar seus órgãos. Com a adesão indulgente da mídia (tudo por uma manchete), mandou três médicos para a cadeia, perseguiu-os implacavelmente até dentro da cadeia, ignorou todos os laudos questionando as acusações. Acabou removido para outra comarca, sem que o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) tivesse coragem de se manifestar. E seu alvo era um deputado tucano.

Tenho insistido nas críticas a Barroso pela absoluta incapacidade de entender seu primarismo analítico. Como pode um jurista com sua reputação, não conseguir avaliar os efeitos multiplicadores do arbítrio por toda a estrutura do Judiciário, Ministério Público e Policia Federal? Ou endossar cegamente um plano fiscal recessivo, sem ao menos se debruçar sobre as discussões mundiais em torno do tema?

Ora, o Supremo tem por obrigação a visão sistêmica do país, os impactos de suas decisões não apenas sobre as contas públicas, mas sobre a estrutura repressiva, sobre o Judiciário, sobre o humor da opinião pública. Nenhum juiz – ainda mais um juiz da Suprema Corte – pode julgar corretamente se não tiver conhecimento amplo sobre todos os aspectos da vida nacional, a economia, o psicossocial, o aparelho judiciário e policial, as relações federativas.

O novo tempo exigirá um aggiornamento total do Ministério Público e do Judiciário, senão não haverá pacto político que se estabilize. Cada estamento burocrático exige um estadista, articulado com outros poderes, igualmente representados por lideranças de visão superior.

Se um dos mais preparados Ministros é tão superficial assim, qual a esperança que se pode depositar na Suprema Corte? O mesmo ocorre com o Ministério Público, com as lideranças referenciais engolfadas pelas chefias corporativas.

Tudo isso aumenta as responsabilidades do próximo presidente da República – seja quem for. Mal escolhido, dançará na primeira curva da estrada.

Peça 2 – os desafios do próximo presidente

O principal desafio do próximo presidente será recriar o sonho, tirar o país do baixo astral dos últimos anos.

Não será tarefa fácil.

Fernando Collor foi eleito presidente surfando nas ondas da liberalização de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Fernando Henrique nas ondas do Plano Real. Lula, nas ondas da sensibilidade social aguçada com o aumento da miséria.

E o próximo presidente? Não será tarefa trivial. Exigirá atacar em várias frentes simultâneas.

Frente 1 – o enfrentamento da crise

A economia vive uma situação excepcional. O futuro presidente terá que agir com pragmatismo, saber utilizar todos os instrumentos à mão para retomar o crescimento, sem nenhum part-pris ideológico. Terá que implementar uma ampla política destinada a cortar a inadimplência circular que tomou conta da economia.

Frente 2 – a política econômica

Terá que saber casar políticas sociais inclusivas com políticas industriais desenvolvimentistas e com instrumentos de mobilização da poupança através do mercado de capitais. Não há mais espaço para gestões simplificadores da economia, ou tentando controlar todos os passos dos agentes econômicos, ou deixando tudo à mercê do mercado.

Frente 3 – a restauração do Ministério Público

O Ministério Público foi criado para ser o guardião da Constituição e dos direitos difusos. Tornou-se uma máquina descontrolada. A restauração implicará um trabalho político delicado, de aproximação com os grupos mais profissionais que ajudem a restabelecer os princípios originais, que viraram pó com a Lava Jato.

Frente 4 – a recriação do sonho

O Brasil se transformou em uma nação cinza, triste, partida ao meio, preso a ódios e idiossincrasias. O mesmo país que, em outros tempos, explodia vitalidade e esperança, que tinha o orgulho de ser brasileiro, hoje em dia está prostrado por dez anos de campanha negativa da mídia, e alguns anos de erros na condução da economia.

Peça 3 - Os protagonistas

Pela esquerda, tem Lula, apenas Lula. É muita responsabilidade em cima de uma pessoa só.

Pela direita, ninguém conseguiu até agora formular um projeto de país minimamente viável, à altura de construtores de país como Roberto Campos, Otávio Gouvêa de Bulhões, Dias Leite e Eliezer Batista.

A economia passa pela maior estiagem da história, com meros decoradores de manual incapazes de elaborar propostas minimamente adequadas para vencer a crise. Trabalham para prever os juros e o PIB e apenas isso.

No Judiciário, a disputa por protagonismo se dá no âmbito da mídia e das redes sociais, na capacidade de formular slogans de senso comum.

Vamos acompanhar porque no vácuo não fica. Essa busca do sonho em breve apontará outros protagonistas.

Luís Nassif
No GGN
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Doações eleitorais de Eike beneficiaram 13 partidos


Como eu fazia? Eu fazia, muito no espírito democrático –como meus projetos eram grandes, eu estava em todos os Estados — (…) eu participei praticamente desde 2006 com o mesmo volume de recursos — um milhão de reais — para PT, PSDB… Isso daqui a gente deixa aqui [lista de doações]. Eike Batista ao depor na Operação Lava Jato

Desculpe interromper, mas só para deixar claro: várias dessas pessoas que receberam doações do Eike, ele nunca viu. Ele nunca procurou políticos. Eu posso falar do senador Cristovam Buarque, que o Eike nunca esteve com ele. Ele pode confirmar. Eike fez doações em caráter republicano. Advogado de Eike, na mesma ocasião

Dados do TSE apontam repasses de R$ 12,6 milhões de Eike a campanhas

As doações eleitorais do empresário Eike Batista, que teve a prisão determinada pela Justiça nesta quinta-feira, mostram o trânsito dele por diversos partidos. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Eike destinou, entre 2006 e 2012, R$ 12,6 milhões a políticos e diretórios regionais de 13 partidos em oito estados.

Em depoimento à Força Tarefa da Lava-Jato em maio, Eike admitiu ter feito pagamentos ao casal João Santana e Mônica Moura a pedido do ex-ministro Guido Mantega por despesas de campanha do PT, mas disse que todas as demais doações feitas foram “oficiais”. Sua defesa destacou, na ocasião, o caráter “republicano” da contribuição.

As doações abrangem as campanhas presidenciais de 2006 e 2010. Eike doou R$ 1 milhão para o comitê financeiro do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e R$ 100 mil para Cristovam Buarque (então no PDT, hoje no PPS).

Quatro anos depois, quando já era o homem mais rico do Brasil, Eike fez transferências de R$ 1 milhão para os comitês de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) e de R$ 500 mil para o de Marina Silva (então no PV, hoje na Rede).

Os partidos que receberam recursos foram PT, PMDB, PSDB, PP, PSD, PSB, DEM, PR, PDT, PV, PCdoB, PTB e PTC.

Os estados dos políticos são Rio, Minas Gerais, Santa Catarina, Maranhão, Ceará, Mato Grosso do Sul, Amapá e o Distrito Federal.

A maior parte das doações (R$ 12,1 milhões) foram feitas por Eike como pessoa física. Somente em 2012 ele se valeu de uma das empresas, MMX Mineração, para fazer repasses totalizando R$ 500 mil.

Algumas doações foram feitas diretamente para candidatos. O ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), preso desde novembro e acusado de ter recebido propina de Eike, registrou uma contribuição de R$ 750 mil do empresário para sua campanha à reeleição, em 2010.

Há ainda repasses declarados para os ex-governadores André Puccinelli (PMDB-MS), de R$ 400 mil em 2006, e Luiz Henrique (PMDB-SC), este já falecido, de R$ 200 mil.

Cristovam Buarque, que tinha recebido R$ 100 mil em sua campanha presidencial em 2006, obteve o mesmo valor quatro anos depois em sua campanha para o Senado.

Em depoimento de Eike de maio passado, o caso foi usado para justificar o caráter republicano de suas doações porque o empresário disse que nem o conhecia quando da primeira contribuição.

O senador cassado Delcídio Amaral (sem partido), que já foi preso e se tornou delator na Lava-Jato, foi beneficiário de doações de Eike em 2006 e 2010, totalizando R$ 900 mil.

O deputado Vander Loubet (PT-MS) recebeu R$ 400 mil em 2006. Também receberam contribuições de forma direta o deputado estadual Paulo Melo (PMDB-RJ), R$ 100 mil em 2010, e os ex-deputados Zé Fernando (PV-MG), R$ 50 mil em 2006 e Dalva Figueiredo (PT-AP), R$ 30 mil no mesmo ano.

Em 2008, Eike repassou recursos de forma direta às campanhas de Eduardo Paes (PMDB-RJ), R$ 500 mil, Fernando Gabeira (PV-RJ), R$ 100 mil, e Márcio Lacerda (PSB-MG), R$ 400 mil, além de ter destinado R$ 100 mil para dois candidatos da cidade de Conceição do Mato Dentro (MG), onde o empresário atuou na área de mineração.

Repasse a partidos

A maior parte dos repasses, porém, foi feita por meio de diretórios e comitês. Eike destinou, em 2010, R$ 100 mil à direção nacional do DEM. Na época, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, era o presidente do partido.

No mesmo ano, foram repassados R$ 300 mil à direção nacional do PCdoB, que já era comandado pelo atual presidente Renato Rabelo.

DEM e PC do B não tiveram candidatos a presidente da República em 2010 e a legislação não obrigava a identificar para qual campanha foram destinados os recursos.

O empresário fez ainda mais uma doação a um comitê nacional. Em 2012, a MMX mineração repassou R$ 100 mil para o PMDB nacional, presidido na época pelo senador Valdir Raupp durante licença do presidente Michel Temer.

Também neste caso não há identificação do destino final da contribuição.

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As demais contribuições foram feitas para diretórios regionais. Em 2006 foram beneficiados o PMDB do Rio, que era comandado por Sérgio Cabral e recebeu R$ 400 mil, o PFL (atual DEM) do Maranhão, que tinha à frente a ex-governadora Roseana Sarney e obteve R$ 1 milhão, o PSB cearense, comandado então pelos irmãos Ciro e Cid Gomes e que ficou com R$ 200 mil, o PSB do Amapá, liderado por João Capiberibe e que captou R$ 200 mil, e o PDT do Amapá, que é comandado até hoje pelo atual governador Waldez Góes e recebeu na época R$ 200 mil.

Em 2010, as doações beneficiaram o PT de Mato Grosso do Sul, comandado por Zeca do PT e que recebeu R$ 500 mil, o PR fluminense, que tinha Anthony Garotinho à frente e recebeu R$ 200 mil, o PMDB maranhense, de Roseana Sarney, que ficou com R$ 500 mil, e o PT catarinense, da ex-ministra Ideli Salvatti, que recebeu R$ 300 mil.

Em 2008, ano de eleições municipais, Eike fez repasses de R$ 100 mil ao comitê do PDT de Macapá (AP), que tinha Roberto Góes como candidato, e de R$ 500 mil ao PMDB do Rio, representado por Eduardo Paes na disputa da prefeitura.

Em 2012, foram repassados R$ 400 mil pela MMX a diretórios mineiros de oito partidos (PMDB, PSDB, PSD, PSB, DEM, PP, PTB e PTC). Neste caso, não houve a identificação de em quais cidades os recursos foram empregados.

PS do Viomundo: Por fora, a Sérgio Cabral, segundo denúncia apresentada hoje, Eike Batista transferiu U$ 16,5 milhões a título de comprar uma mina de ouro. Ou seja, a delação do empresário vai dar o que falar…

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