16 de jan de 2017

Do jornalismo crível ao jornalismo risível


No inicio do Século XX, reagindo a desmoralizante onda de sensacionalismo (os Hearst, os Pullitizer), os jornalistas americanos inventaram uma linguagem revolucionária simulando o discurso científico em palavras correntes: excluía adjetivos testemunhais e aferições imprecisas, baseava-se em conceitos convencionais, valores comparativos e ações definidas. As frases curtas, com denominações usuais e verbos comuns, deveriam expor os fatos sem viés perceptíveis pela comunidade. As declarações viriam, de preferência, entre aspas, precedidas de verbos proposicionais (diz, informa – ex: “declara” se é uma uma afirmação de atitude, “revela” se se trata de algo que se considerava oculto ou velado etc.).


Quando o governo-sistema americano (o Presidente Wilson, em 1917, convocou os grandes empresários para a empreitada de fazer os Estados Unidos substitutos do decadente império britânico; daí a origem do Conselho de Relações Exteriores), essas restrições de linguagem mostraram-se empecilho.


A solução começou a ser buscada, sob a inspiração de Edward Barclay, considerado o pai das relações-públicas, por Herny Luce, ao criar o estilo da revista Time: grande volume de informações e seleção, dentre elas, daquelas que convinham à linha editorial: acréscimo de adjetivos de sentido ambíguo, erudito – de toda forma, insólito – que sugerissem alguma profundidade de análise e permitissem manobras sutis de interpretação; substituição de nomes convencionais por outros, inadequados e ricos de conotações, quando conveniente (ex: presidente, governante ou líder por “ditador”, rebelde ou guerrilheiro por “terrorista” etc.).


Tudo bem. Mas o modelo original persistiu, senão como prática, como aura: o jornalismo americano foi padrão para a reforma de todos os jornalismos do mundo, adaptado a diferentes línguas e culturas. Conflitava, claramente, com a retórica empolada, exundiosa e cheia de jargões da vulgata acadêmica das ciências sociais ainda utilizada pelos governos, imprensa e partidos comunistas, no tempo da guerra fria.


Por isso, é chocante para nós, velhos jornalistas, ver a queima de credibilidade de títulos respeitáveis como o New York Times, o Washington Post ou o inglês Guardian. Na luta política, reduzem-se à condição rastaquera de uma Veja, um Globo, um Universal ou um El Mercurio: ataques pessoais e insultuosos, boatos degradantes, fontes suspeitíssimas como a apuração secreta de serviços secretos (com antecedentes conhecidos de mentira para uso político) servem à promoção de um clima de tensão e uma guerra que não consultam o interesse dos povos – entre os quais figura o povo americano.


Trocaram repórteres por editorialistas, jornalistas por advogados. O resultado é que transformam um sujeito como Trump em vítima.


É espantoso ver que o outro lado – os russos, os chineses – estão respondendo em linguagem clara e serena, informação apurada e comprovável, no melhor estilo clássico americano.

Matéria que ensejou estas notas: The Deep State Goes to War with President-Elect, Using Unverified Claims, as Democrats Cheer


Nilson Lage
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Os imbecis e o Estatuto da Pessoa com Deficiência


Lei em vigor a partir de janeiro de 2016, trouxe significativas modificações quanto ao regime jurídico das capacidades civis, ou seja, o direito que a maioria das pessoas adultas têm de celebrar contratos, casar, abrir conta em banco, comprar e vender imóveis, etc..

A nova norma causou um reboliço no mundo jurídico, pois reconheceu que as pessoas com deficiência. mesmo mental ou intelectual, têm direito a essa plena capacidade.

Isto vem sendo objeto de severas críticas, especialmente por parte dos civilistas e processualistas.

Tais juristas, principalmente os que se consideram autoridades no direito material e processual civil, mas entendem bulhufas de direitos de pessoas com deficiência, não querem saber se esse reconhecimento é uma luta de décadas – como já foi para as mulheres casadas, que até meados do Século XX eram consideradas relativamente incapazes civilmente; não querem saber dos novos instrumentos de apoio ao exercício da capacidade criados pelo mesmo Estatuto – já que reconhecimento da plena capacidade representa o reconhecimento de um direito moral de qualquer ser humano de ter suas escolhas respeitadas, e não simplesmente abandono de uma pessoa vulnerável à própria sorte.

Nada disso. Eles querem continuar defendendo o já conhecido e aparentemente seguro sistema de interdição e incapacidade civil, dizendo, como sempre que se nega direitos às pessoas com deficiência, que é melhor para elas.

Tais juristas começaram a escrever sobre a novidade jurídica sem se importar em conhecer esse histórico e essa disciplina. Mas isso é o de menos. Alguns não se importam sequer em conhecer as terminologias mais aceitas atualmente e, assim, deixar de utilizar termos ultrapassados, pejorativos e ofensivos à dignidade da pessoa humana.

É o caso da doutrinadora Maria Helena Diniz, em seu artigo A NOVA TEORIA DAS INCAPACIDADES Revista Thesis Juris – RTJ, eISSN 2317-3580, São Paulo, V. 5, N.2, pp. 263-288, Mai.-Ago. 2016.

A festejada civilista aborda o tema ainda se valendo de expressões não apenas equivocadas, mas altamente ofensivas.

Ela afirma, por exemplo, que na expressão “deficiência mental ou anomalia psíquica” se incluem “havendo impossibilidade de transmissão de vontade, os alienados mentais, psicopatas, mentecaptos, maníacos, imbecis, dementes e loucos”.

A sequencia de termos absurdos é chocante, mas foi exatamente isso o que a professora escreveu. Ela ainda fala em “Estatuto do Deficiente”, “o portador”… revelando uma enorme negligência no estudo da disciplina relativa aos direitos das pessoas com deficiência e a suas conquistas paulatinas e lentas, que só começaram a se concretizar nas últimas décadas.

Sim. Apesar de tudo, essas conquistas estão se realizando: direito ao trabalho, à liberdade sexual e reprodutiva, à escola inclusiva e agora à capacidade civil. Venho considerando que esta última é a grande bandeira do Século XXI, pois ainda é muito incompreendida e a legislação contém, de fato, falhas.

Espero apenas que, até que a plena capacidade civil seja corretamente disciplinada pela legislação brasileira e finalmente implementada pelos órgãos judiciários, a comunidade jurídica comece a se informar e entender melhor as razões desse reconhecimento, que não é oriundo da legislação brasileira, mas da Organização das Nações Unidas – ONU. Mas antes disso, espero que nunca mais alguém seja chamado, em virtude de deficiência, de louco, imbecil, mentecapto…

Eugênia Gonzaga é Procuradora Regional da República e militante das causas das minorias



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Pastor Everaldo e os cristãos de araque


Esse PSC, onde fundamentalistas religiosos, fascistas e pilantras em geral militam e se misturam, pode ser a chave para se descobrir como funcionou o financiamento do golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff do poder.

Trata-se, antes de tudo, de uma quadrilha mal disfarçada.

Duas de suas principais lideranças, os deputados Marco Feliciano e Jair Messias Bolsonaro, estão sendo investigados pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento em casos de estupro — o primeiro, pastor evangélico, acusado de espancar e violentar uma jornalista; o segundo, militar da reserva, por incitar o estupro da deputada Maria Do Rosário Nunes, do PT.

Agora, chegou a vez do Pastor Everaldo, presidente nacional do PSC, adesista de primeira hora do movimento pró-impeachment de Dilma e ex-candidato do partido à Presidência da República — numa dessas candidaturas caça-niqueis mais do que manjadas permitidas pelo sistema eleitoral brasileiro.

Leandro Fortes
No Blog do Miro
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Deputado confessa


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Nem os mais corruptos. Nem os maiores corruptores


O vira-latismo brasileiro vai ter que engolir mais essa. Não há um índice internacional qualquer afirmando que somos os mais corruptos e os maiores corruptores. A lista de percepção divulgada anualmente pela Transparência Internacional nos coloca ali na faixa intermediária, onde não figuram nem anjos nem demônios. A tabela abaixo mostra que devemos tomar muito mingau para chegarmos a ter a empresa mais corruptora.


A nossa diferença é outra. Ninguém imagina que no escândalo da Volkswagen a justiça alemã venha permitir a destruição de uma empresa como essa. No Brasil, a PGR entregou a Odebrecht de bandeja para os americanos, que viram a chance de assumir com a tenebrosa Brechtel o mercado brasileiro de grandes construções.

A Odebrecht será destruída e a Brechtel continuará comprando congressistas.

Coisa de vira-lata.

Weden Alves
No Esquerda Caviar
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Folha abre a semana manipulando para levantar a moral de Moro


A assessoria de imprensa da Lava Jato – leia-se, Folha de São Paulo – estampa a seguinte manchete em seu site, triunfante: “TRF mantém ou endurece 70% das penas aplicadas por Sergio Moro”.

De 23 condenados por Moro, 8 tiveram as penas mantidas, 8 tiveram as penas endurecidas, 4 foram absolvidos pelo TRF e 3 tiveram suas penas diminuídas.

No meio da matéria vem a pegadinha.

O levantamento da Folha só levou em conta os casos em que houve condenação e análise da apelação do condenado pelo Tribunal.

As decisões sobre prisões preventivas e habeas corpus ficaram de fora da análise, ou seja, as prisões midiáticas sem provas, onde Moro concentra boa parte da sua truculência e populismo penal, não foram levadas em conta para chegar nos tais 70%.

Dentre as decisões de Moro que ficaram de fora do levantamento está um caso emblemático do que a irresponsabilidade dos justiceiros midiáticos pode provocar.

Branislav Kontic, assessor de Antonio Palocci que teve a prisão decretada por Moro, tentou o suicídio na carceragem da PF em Curitiba, após ver sua prisão temporária convertida em preventiva.

O TRF considerou que não havia elementos para manter Kontic preso e reformou a decisão de Moro.

O juiz curitibano brinca com vidas humanas ao sair prendendo para gerar manchetes. E ainda é aplaudido. Mas é claro que isso fica de fora do levantamento da Folha, feito sob medida para levantar a moral de Moro.

A matéria cita ainda que “advogados de réus apontam para um Judiciário receoso de contrariar a opinião pública, que tende a clamar por mais punições, mesmo que à revelia das leis”.

Mais uma manipulação barata.

Não são só os advogados dos réus que apontam para a covardia do Judiciário diante da opinião pública, mas grande parte do meio jurídico e praticamente todo o campo progressista.

Para quem tem medo do debate só resta mesmo reduzir o contraponto à defesa dos réus.

Pedro Breier
No Cafezinho
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Reunião de governadores



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O Brasil vai ser um case de sucesso

Querido pessoal de humanas: a ideia de vocês é ótima. Mas vocês não entendem nada de economia. Se a gente abolir a escravidão, o país vai quebrar. É claro que a escravidão não é o ideal. O ideal era que todo mundo ganhasse alguma coisa pelo trabalho que faz. Nem que fosse um trocadinho. Mas nem tudo é perfeito. Não existe almoço grátis.

Ninguém estudou a fundo o impacto econômico desse negócio de abolição. Ninguém sentou a bunda na cadeira e fez um "feasibility study". Esse povo de humanas nem sabe o que é isso. Ou vai me dizer que alguém escreveu um paper? Quando você põe a abolição na ponta do lápis, a conta não fecha. De onde é que vai sair o dinheiro pra pagar o escravo? Do bolso do abolicionista é que não é. A resposta você já tem: vai sair do bolso do empresário. Se o negócio hoje já tá difícil pro jovem empreendedor, imagina se ele tiver que pagar pelo trabalho dos escravos que ele comprou com o suor do próprio rosto! O sujeito vai quebrar. E quem é que se ferra? Só o empresário? Negativo. Quem se ferra é todo mundo. Inclusive o escravo, que agora, além de escravo, vai ser desempregado. Quer dizer, no caso dele, acho que dá mais ou menos no mesmo. Fora o escravo, que pra ele tanto faz, todo mundo se ferra, porque o investidor vai correr pra um país em que ele não precise pagar pela mão de obra. E o que é que acontece? O país quebra. Fundamentos de economia, pessoal. Não sou eu quem tá falando. É Adam Smith.

OK. Vocês tinham razão quanto à escravidão. Não quebrou. Mas esse negócio de salário mínimo já é exagero. Coisa de gente que nunca abriu um negócio. A conta não fecha. Sabe o que vai acontecer? O país vai quebrar. O investidor vai preferir os países em que o Estado não se mete no salário do empregado. E o país? Vai quebrar.

Férias remuneradas? A conta não fecha. Décimo terceiro? Vai pra Cuba. PEC das domésticas? Pode declarar bancarrota. Priorizar saúde e educação? Que lindo. Mas sabe o que é lindo também? Pagar as contas. A quem interessa saúde e educação? Ao povo. Muito fácil pensar no povo. Mas e o investidor que chega aqui e vê um país perdulário, que só faz gastar dinheiro com pobre, o que é que eu explico pra ele?

Gregório Duvivier
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Por que os telejornais da Globo não citam o nome do PCC e de outras facções


A cobertura jornalística do assassinato de 60 presos em um presídio em Manaus no primeiro dia de 2017 chamou a atenção, mais uma vez, para a postura dos telejornais da Globo. Por conta de uma regra interna, a emissora não menciona o nome de nenhuma facção criminosa.



Como a rebelião, a fuga e as mortes foram causados, tudo indica, por uma guerra entre diferentes facções, apresentadores e repórteres da Globo têm feito, desde então, um grande malabarismo vocabular (veja o vídeo acima) para não mencionar os nomes do PCC (Primeiro Comando da Capital) e da FDN (Família do Norte do Amazonas), acusados de estarem por trás da disputa que levou ao massacre. Esta mesma restrição se aplica ao noticiário de outras rebeliões ocorridas desde então.

Esta proibição existe na emissora desde a década de 1980, quando o Comando Vermelho, uma organização criminosa nascida no Rio, tomou o noticiário. A regra (não escrita) nasceu da percepção de que citar o nome destes grupos seria uma forma de dar publicidade a eles, valorizar ações criminosas, celebrizar a vida de pessoas acusadas por crimes graves e, eventualmente, estimular outras pessoas a seguirem o mau caminho.

Além da Rede Globo, a regra ainda é respeitada pelos telejornais da GloboNews, mas outros veículos do grupo já são mais flexíveis. Recentemente, o jornal “O Globo” passou a citar os nomes dos grupos criminosos. O site de notícias G1 também menciona. Em alguns casos, prevaleceu a ideia de que não é possível explicar uma guerra entre facções sem mencioná-las.

O blog tentou ouvir a emissora sobre o assunto, mas não obteve resposta. Seis jornalistas que trabalham ou já trabalharam no grupo me ajudaram com as informações aqui publicadas.

Mauricio Stycer
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Ayres Brito poderá ser a síntese de Temer para o Ministério da Justiça


Os rumores de que Michel Temer planeja trocar o Ministro da Justiça Alexandre de Moraes pelo ex-Ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Ayres Britto, produzirá a síntese perfeita: será tão inerte quanto Cardozo e tão falastrão quanto Moraes. E a comprovação definitiva de que o mais relevante Ministério do governo tornou-se uma casa de terceira linha.

Luís Nassif
No GGN
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