13 de jan de 2017

PF acha o que estava na boca do Geddel






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A ficção contaminou a Política no documentário "HyperNormalisation"


Era uma vez o colapso econômico da antiga União Soviética. Diante da inevitável decadência do modelo comunista de Estado, seus dirigentes partiram para uma inédita tática de “gestão da percepção”: manter a aparência de normalidade através de narrativas ficcionais que minavam a percepção das pessoas, criando aversão à política fazendo-as tocarem a vida como se nada estivesse acontecendo. Isso chama-se “HiperNormalização”, tática copiada pelo Ocidente desde Ronald Reagan nos anos 1980 – levar conceitos do teatro de vanguarda e dos roteiros hollywoodianos para o centro da Política a tal ponto que a diferença entre realidade e mentira passa a ser desprezada pelas pessoas e pelo próprio jornalismo. Dessa maneira, Trump “surpreendentemente” chegou a poder nos EUA. Esse é o tema do documentário da BBC “HyperNormalisation” (2016), realizado pelo britânico Adam Curtis. A história de como a política foi derrotada pela ilusão enquanto as pessoas apolíticas desistiram de mudar o mundo, refugiando-se no ciberespaço. Enquanto isso, corporações e o sistema financeiro administram tranquilamente o deserto do real.

Era o ano de 2002 e o Primeiro Ministro inglês Tony Blair e o presidente dos EUA George Bush estava possuídos pela ideia de que o mundo deveria se livrar de Saddam Hussein. Estavam determinados em achar qualquer coisa que provasse as más intenções do ditador iraquiano.

Então o chefe do MI-6, o serviço de inteligência britânico, contou empolgado a Blair que tinha conseguido acesso direto ao programa de armas químicas de destruição em massa de Hussein. Disse que a fonte confirmava tudo! O Iraque estava produzindo grandes quantidades de gás Sari e VX, letais para o sistema nervoso. Estavam sendo carregados em “esferas ocas de vidro”.

Mas alguém do MI-6 notou que os detalhes relatados pela fonte eram idênticos às cenas do filme A Rocha (1996) com Sean Connery e Nicolas Cage.

As diferenças entre realidade e ficção ficam ainda mais tênues quando percebemos que os anos que antecederam aos atentados nos EUA em 2001 tiveram um inédito pico de produção de filmes hollywoodianos sobre destruição em massa perpetrados por aliens, monstros e terroristas como, por exemplo, Independence Day ou Godzilla. E Nova York era sempre a cidade icônica das catástrofes.

Essas são algumas das histórias narradas pelo documentário HyperNormalisation (2016), documentário BBC do britânico Adam Curtis (O Século do Ego, All Watched Over by Machines of Loving Grace). O tema geral do documentário é mostrar como, desde a década de 1970, governos, financistas, jornalistas e utopistas tecnológicos abandonaram o mundo real e não só construíram como também passaram a viver nesse mundo falso simplista, esquemático e maniqueísta. Um mundo administrado por corporações e mantido estável pela política.


Esse mundo simplista passou a ser administrado pela “gestão da percepção”, uma versão hiper-realizada da antiga engenharia de opinião pública – enquanto no passado, através das técnicas clássicas de retórica, mobilizava-se uma engenharia de relações públicas para inculcar ideologias, ideias ou conceitos, agora com a “HiperNormalização” criam-se “climas de opinião” e “ondas de choque” cujo eixo central e apagar as fronteiras entre ficção e realidade – mais precisamente, entre as narrativas de entretenimento (filmes, animações, literatura, minisséries etc.) e os acontecimentos pautados pelo noticiário da grande mídia.

Aversão à política e individualismo


Dividido em nove episódios, Curtis mostra como a estratégia de HiperNormalização surgiu na antiga União Soviética nos anos 1970 para depois ser adotada pelas potências do Ocidente. Durante o colapso econômica da URSS, o governo soviético mantinha a aparência de normalidade como se tudo pudesse ser planejado a partir de imagens grandiosas, tal como as glórias olímpicas no esporte. Resignados e desiludidos com a política, os cidadãos tocavam suas vidas fingindo que tudo estava normal porque não encontravam alternativas para o futuro. O escritor Alexei Yurchak chamou isso de “HiperNormalização”, uma espécie de profecia-autorrealizável aceita por todos como real.

No Ocidente, a estratégia da HiperNormalização foi fundada em dois princípios: a aversão à Política porque é algo muito complexo e, em si, corrupta; e o refúgio no individualismo e em narrativas que, num “efeito bolha”, simplificavam o mundo por meio de narrativas esquemáticas inspiradas em produções de entretenimento.

Para Adam Curtis, a partir dos anos 1970 toda uma geração desistiu de transformar o mundo, refugiando-se no individualismo empoderado por um verdadeiro flashback lisérgico dos anos 1960: a utopia tecnológica do ciberespaço nos anos 1980 (principalmente na visão utópica de John Barlow) como um mundo alternativo livre das restrições políticas e jurídicas, mas que escondia o poder crescente das corporações financeiras.


Desconexão do real


O mundo da especulação financeira que cresceu a partir do colapso econômico de Nova York de 1975 – com a crise fiscal, a cidade foi entregue à ideia de que os sistemas financeiros (e não mais o Estado) podiam gerir a sociedade. Donald Trump emerge nesse momento, adquirindo imóveis abandonados sob isenção de impostos, tornando Nova York uma cidade elitista.

Trump, ao lado do presidente Ronald Reagan nos anos 1980, seriam os precursores de um tipo de política totalmente desconectado da realidade com uma gestão de percepção capaz de distrair as pessoas das complexidade do mundo real – por exemplo, a criação do super-vilão Muammar Kadhafi como responsável por atentados em Roma, Viena e numa discoteca em Berlim naquela década.

Papel prontamente aceito pelo líder líbio, que não resistia aos holofotes da grande mídia. Como mais tarde nos anos 1990, na Guerra do Golfo, Saddam Hussein também aceitaria o mesmo papel na sua cruzada em se tornar um midiático líder do povo árabe.

Enquanto isso, antigos líderes da causa socialista nos EUA como a atriz Jane Fonda desistiam do mundo real: o documentário mostra um dos seus vídeos de exercícios aeróbicos na TV exortando as pessoas a cuidarem do seu próprio corpo porque “o mundo lá fora é complicado demais e, pelo menos, podemos controlar o próprio corpo”.



Acreditando na própria mentira


O mais incômodo no documentário HyperNormalisation não é tanto o fenômeno da “gestão da percepção”, mas principalmente como os líderes ocidentais parecem crer nas próprias narrativas criadas pelos seus assessores, relações públicas e serviços de inteligência.

Enquanto a Política transforma-se numa espécie de mundo autônomo de simulações no qual os seus líderes entram de tal forma nos papéis ficcionais que esquecem quem foram, no mundo real corporações e o sistema financeiro administram o equilíbrio sistêmico de lucros e desigualdade, livres de qualquer escrutínio de uma sociedade que desistiu do mundo real.

Para Curtis, esse mundo global, cuja estrutura foi imaginada pelo Secretário de Estado Henry Kissinger nos anos 1970, só foi possível com a divisão do mundo árabe e a manutenção dos conflitos no Oriente Médio.

Trump, Obama, Reagan, Blair, Bush, etc. seriam líderes que acreditam nas suas própria pantomimas. Personagens ficcionais criados para consumo massivo através da grande mídia e que simplificam a complexidade da política real ao participarem de narrativas ficcionais, muitas vezes extraídas de roteiros de sucessos hollywoodianos.


Jornalismo difícil


HyperNormalisation mostra ainda que fazer jornalismo nesse cenário torna-se cada vez mais complicado. Além da grande mídia virar uma correia de transmissão para essas narrativas simplistas, a própria essência, digamos assim, “hermenêutica” do jornalismo (encontrar a verdade por trás da mentira) é colocada em xeque – expor mentiras e falar a verdade sempre foi a crença dos jornalistas.

Porém, como encontrar a verdade se a própria matéria-prima das informações tornam-se não-acontecimentos? Nesse ponto, o documentário converge com as teorias do pensador francês Jean Baudrillard sobre a ordem dos simulacros e simulações. Para Baudrillard, os simulacros substituiriam a própria realidade a tal ponto que chegaríamos ao estágio final com o hiper-real: para toda a sociedade a distinção entre realidade e ficção passa a ser cada vez mais ociosa. Ninguém mais se importa com isso quando tanto uma coisa ou outra produz efeitos reais: guerras, atentados, ódio, crises, mortes etc.

Adam Curtis dá dois exemplo de como o jornalismo simplista foi muitas vezes derrotado pela realidade: primeiro, a queda do Muro do Berlim e o fim da União Soviética que pegou tanto a imprensa quanto escritores e acadêmicos de surpresa, de tanto o Ocidente estar mergulhado no simplismo hollywoodiano criado por Ronald Reagan.

E segundo, a vitória de Donald Trump na eleição presidencial: Trump derrotou o jornalismo porque para ele a diferença entre a verdade e a mentira é irrelevante. De tanto levar à sério suas pantomimas como fossem ações políticas reais, paradoxalmente sempre o consideraram uma piada.


HiperNormalização, polarização e ódio


Para Curtis, não é surpreendente que Vladimir Putin o admira. Por trás do presidente russo está Vladislav Sukov, profissional que veio do mundo do teatro cuja gestão de percepção baseia-se em pegar ideias do teatro de vanguarda e colocá-las no centro da política.

Surkov transformou a política russa em uma confusa e constante troca de peças. E com isso minou a percepção do público para que nunca tivessem certeza do que estava acontecendo. Resultado: as pessoas criam crescente aversão à política, mas, paradoxalmente, voltam a interessar-se por ela através das narrativas simplistas e ficcionais que sempre catalisam sentimentos e emoções nos telejornais – a pobre menina twitteira de Aleppo, Síria; os terroristas feios, sujos e malvados do ISIS etc.

Por isso, a explosão da polarização política, ódio e intolerância, tão bem explorados por Trump e, como destaca Curtis, também nas diversas “Primaveras” que floresceram na Tunísia, Egito e outros países árabes – e, por que não dizer, também no Brasil onde a polarização política (que deu força a todo inconsciente cultural reprimido pela democracia – intolerância, racismo, misoginia, xenofobia etc.) foi o combustível para transformações políticas exigidas por aquele complexo mundo real distante da gestão de percepções: as demandas corporativas e financeiras de uma secreta geopolítica global. 

As mais de duas horas de HyperNormalisation são um verdadeiro bombardeio de informações e imagens documentais que suscitam uma série de subtemas que vão além do espaço dessa postagem. Entre esses subtemas está o papel do ciberespaço na gestão da percepção: como o conceito de Inteligência Artificial dos anos 1960-70 se transformou nos algoritmos atuais com os quais também se gerencia essa fuga individualista desesperançada de usuários apolíticos para a Internet e redes sociais.

Mas isso será tema de uma próxima postagem. Assista ao documentário completo abaixo. Legenda ocultas. Clique em "detalhes" para converter legenda em português.



Ficha Técnica
Título: HyperNormalisation
Direção: Adam Curtis
Roteiro: Adam Curtis
Elenco: Adam Curtis, Donald Trump, Vladimir Putin, Patty Smith, Henry Kissinger
Produção: British Boradcasting Corporation (BBC)
Distribuição: BBC
Ano: 2016
País: Reino Unido

Wilson Roberto Vieira Ferreira
No CineGnose
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O Brasil da Togacracia

Aroeira
O mundo já conviveu e ainda convive, em diferentes lugares, com Monarquia, Plutocracia, Autocracia, Oligarquia, Aristocracia, Timocracia, Teocracia, Anocracia e a hoje muito questionada Democracia, que tem cada vez menos “demos” (povo) e cada vez mais “kratos” (poder) sob o comando do capital.

Mas agora surge uma nova forma de poder que, por reunir um pouco de todas essas “cias”, sem falar na pressão daquela outra, norte-americana, tornou-se mais poderosa: é a Togacracia, que botou as longas manguinhas de fora principalmente depois do golpe. É fácil reconhecer uma Togacracia. É quando juízes, magistrados e todas as instituições onde se encastelam, comandam, mandam e desmandam, punem e absolvem, por vias tortas, o direito que deveria ser igual para todos.

Na Togacracia é possível permitir que se tire do poder, por exemplo, quem foi eleito(a) pelo voto popular, sob alegações difusas e confusas sobre reles questões contábeis. Segundo os doutos senhores e senhoras do mais alto tribunal togacrático, pau que bate em Chico, Dilma, Lula e PT, não bate em Aécio, Temer, FHC, PMDB e PSDB.

É possível reconhecer um membro da Togacracia por sua cara de paisagem cada vez que a Constituição é atacada e vilipendiada pelos interesses da Plutocracia.

Na Togacracia todos ganham altos salários, tão logo ingressam em qualquer escalão do Judiciário, do Ministério Público, em Procuradorias, Tribunais e outros poderes “que tais”. Os demais cidadãos e cidadãs, de segunda ordem, são obrigados a se conformar, porque sabem o poder de uma Vara, mesmo que seja de primeira instância.

Na Togacracia há casos de juízes dedicadíssimos que avocam para si quase todos os casos de corrupção que, por coincidência, interessam muito às superpotências internacionais. Com suas  implacáveis e tortuosas nuances de justiça quebram empresas, desempregam milhões de brasileiros, entregam segredos para empresas e governos estrangeiros, e são fotografados ao lado de corruptos, mas isso “não vem ao caso”. Há até quem pegue carona gratuita em avião da FAB na companhia de um presidente da República que terá brevemente – ou seria longinquamente? – que julgar.

Parcela considerável dos integrantes da Togacracia é amiga e parceira dos principais veículos de comunicação, para quem costuma vazar informações (mesmo quando a lei prevê sigilo) e negociar ações combinadas que expõem acusados à execração pública. Ou seja, na Togacracia, se não der pra prender, o acusado será condenado ao escárnio público mesmo que inocente. Os integrantes da Togacracia seguem à risca aquele ditado: “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.

Mas que fique muito claro, corrupção a Togracracia não admite. Só demite. Na verdade, nem demite, aposenta. Por isso, sempre que um cidadão ou cidadã togacrático(a) for pego  cometendo irregularidades funcionais ou quando há graves indícios de crime (venda de sentenças, conluio com criminosos etc), via de regra a regra é “condená-lo” a viver com seu alto salário pelo resto de sua vida, passando imediatamente à condição de aposentado(a). Como nunca são presos, há uma lenda nas sociedades togacráticas que seus integrantes são absolutamente íntegros e honestos. Pessoas que nasceram com um tipo de gene imune à corrupção. Por isso, cientistas têm dedicado esforços para identificar na cadeia do DNA porque seus integrantes são imunes à cadeia.

Na Togacracia acontecem situações que merecem divulgação para que o leitor ou a leitora compreenda melhor os mecanismos de seu funcionamento (vai que caia na prova da OAB, não é?). Por exemplo, numa Togacracia, um juiz que se apropria de dinheiro alheio e um carro de Eike Batista durante um processo é condenado à pena máxima: aposentadoria.

Como não há discriminação de gênero, a juíza que manteve presa uma menina de 15 anos junto com 30 homens numa cela, também recebeu punição rigorosa: afastamento por dois anos (recebendo salário, claro!). A menina foi sistematicamente violentada pelos detentos. A juíza passa bem, muito bem.

Na Togacracia, quando um desembargador é flagrado recebendo milhares de reais indevidos em seu salário, também costuma ser punido com aposentadoria. Há muitos e muitos casos sobre desvios de conduta que, de forma absoluta, recebem a mesma pena: geralmente, deixam de fazer parte da profissão que abraçaram (alguns com unhas e dentes – e parentes!) e passam os seus dias condenados a não ter o que fazer e, para atenuar destino tão rigoroso, recebem polpudos salários da poupança que suados trabalhadores destinam aos magistrados.

Os integrantes da Togacracia, quando dirigem alcoolizados e são pegos em blitze policiais, costumam aplicar “carteiraços” e uma senha que abre portas e janelas da prisão: “Você sabe com quem está falando?”. Em alguns casos, chegam a dar voz de prisão ao profissional que tenta aplicar a lei indistintamente, por desconsiderar que ela não se aplica a pessoas tão distintas.

A sociedade togacrática, para que possa funcionar adequadamente e bem servir aos seus, aos meus, aos vossos, oferece aos integrantes várias formas de ajuda de custo (custe o que custar à população), do nascimento à morte. Entre esses “penduricalhos” que se acrescentam aos altos salários podemos citar auxílio-natalidade, auxílio-moradia, auxílio-alimentação, abono pecuniário, auxílio pré-escolar, auxílio em caso de mudança de domicílio, diárias, passagens e outras mordomias, ôps, direitos.

Bem-vindo à Togacracia!

Celso Vicenzi
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Anonymous dá demonstração do que pode fazer e vaza dados pessoais de Kassab


A rede hackerativista divulgou um documento com uma série de dados pessoais do ministro, como endereços, telefones, CPF e sugeriu o que internautas poderiam fazer com esses dados, como cancelar sua rede de internet ou criar uma conta no Netflix. A ação foi tomada como forma de retaliação ao anúncio de que colocaria em vigor a limitação do uso de internet fixa no país. Apesar de a Anatel já ter recuado, grupo deixa claro: “o governo voltou atrás, mas o nosso aviso é permanente”. Base de dados da Anatel também foi sequestrada

Mesmo após o presidente da Anatel, Juarez Quadros, informar que o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação, Gilberto Kassab, havia se equivocado ao afirmar que colocaria em vigor, no segundo semestre deste ano, um novo modelo em que as operadoras poderiam limitar o uso de internet fixa dos usuários, a célula brasileira do grupo hackerativista Anonymous resolveu vazar dados pessoas do ministro e sequestrar a base de dados da Anatel como forma de aviso.

“O governo voltou atrás, mas o nosso aviso é permanente. Esse vazamento é uma pequena demonstração do que somos capazes de fazer contra um governo que parece ter perdido o medo do povo. Não tem problema, nós estamos aqui para lembrá-los”, escreveram na página oficial do grupo no Facebook.


O Anonymous vazou dados pessoais de Kassab como números de telefone e celulares, telefones de familiares, endereços, CPF, patrimônios e outros. Como forma de mostrar ao ministro o “poder” que o povo tem, o grupo sugeriu que os seguidores da página utilizem os dados de Kassab para, por exemplo, criar uma conta no Netflix ou Spotfy ou ainda ligar em sua operadora de internet e mandar cancelar o serviço utilizando seu CPF.

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Umanizzare

Criada pelo mesmo dono, empresa que antecedeu a Umanizzare no Compaj foi inabilitada para licitação

Luiz Gastão Bittencourt da Silva é presidente da Fecomércio do Ceará. Documentos obtidos mostram o histórico da Umanizzare, responsável pelo presídio onde morreram 56 pessoas na virada do ano.


O presídio do Amazonas palco de um massacre de 56 detentos vem sendo administrado ao menos desde 2011 por empresas criadas pela mesma pessoa, Luiz Gastão Bittencourt da Silva, atual presidente da Federação do Comércio do Ceará (Fecomercio), segundo documentos obtidos pelo G1. A primeira empresa, a Auxílio, foi impedida de participar de licitações em 2013 em razão de dívidas trabalhistas. E a segunda, a Umanizzare, assumiu no ano seguinte e é a atual administradora do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus.

O nome de Luiz Gastão não aparece nos documentos públicos mais atuais da Umanizzare. Questionada há uma semana, a Umanizzare não diz quem são seus donos (como é uma sociedade anônima, a lei não a obriga a fazer isso).

Em nota, Luiz Gastão afirma que participou apenas da criação da Umanizzare e que não há nenhuma relação comercial entre ela e a Auxílio. No texto, o empresário informa que tem contribuído com a Umanizzare como “membro do conselho consultivo” (leia a íntegra da nota ao final desta reportagem).

Nessa mesma nota, Gastão não fala sobre as dívidas trabalhistas que impediam a Auxílio de participar de licitações. A Auxílio foi incluída em 2013 em um cadastro que a barrava em licitações e, em uma consulta feita na semana passada, ainda estava na lista.

Entre 2013 e 2014, a Auxíliio deixou a gestão dos presídios para os quais era contratada, entre eles o Compaj. Em 2014, começou a valer o contrato da Umanizzare no Compaj.

A Umanizzare foi criada em 2011 e, numa concorrência pública feita pelo governo de José Melo (Pros) em 2014, foi contratada para administrar o Compaj inicialmente de 1º de junho de 2014 a 1º de dezembro de 2016, prazo depois prorrogado para dezembro de 2017, de acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária do Amazonas (Seap-AM).

Também em 2014, a Umanizzare ganhou outra licitação, para gerir por 27 anos, prorrogáveis até 35 anos, os presídios do Amazonas. Ela participou do consórcio Pamas – Penitenciárias do Amazonas, junto com a LFG Locações e Serviços, candidato único na concorrência e vencedor do contrato que prevê um pagamento de R$ 205 milhões. Segundo o procurador do Ministério Público de Contas Ruy Marcelo Alencar de Mendonça, que está analisando os contratos das empresas que administram os presídios, esse contrato não começou a ser executado (ou seja, ainda não saiu do papel).

Procurados desde a tarde do dia 11, o governo do Amazonas e a Umanizzare não se manifestaram até a última atualização desta reportagem.

Em nota enviada na semana passada a respeito de outra reportagem, a Umanizzare informou ser uma empresa sediada em São Paulo, sendo uma sociedade anônima que tem gestão corporativa e que "segue as melhores práticas de governança do mercado, conforme as regras das S.As, com direção e corpo executivo profissionalizados"

As empresas controladoras da Umanizzare e suas representantes legais, conforme a nota, nāo atuam na gestão direta da empresa, que fica a cargo de uma diretoria executiva constituída para esse fim. Disse também que a empresa possui mais de 50 colaboradores diretos na central de Sāo Paulo e cerca de 2 mil funcionários espalhados nas unidades cogeridas por ela no Brasil. "O modelo societário escolhido para a Umanizzare visa preservar, pela característica da sua atividade empresarial, a segurança de seus sócios e da sua direção", informou a nota.

Segundo informações do Portal da Transparência divulgadas pela GloboNews, a Umanizzare recebeu R$ 809 milhões em contratos com o governo do Amazonas entre 2013 e 2016. A Auxílio recebeu R$ 298 milhões entre 2010 e 2015.

No site da Fecomércio-CE, Luiz Gastão se apresenta como "empresário do setor de serviços, atuando em empresas de asseio, conservação, segurança e administração presidiária". Além de presidir a Fecomércio, o site indica que ele é vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e membro dos conselhos da Federação Brasileira das Empresas de Asseio e Conservação (Febrac) e dos conselhos nacionais do Sesc e do Senac.

Em resumo:

Ao longo dos últimos dez dias, a equipe de reportagem pesquisou documentos em Juntas comerciais, diários oficiais e outros órgãos públicos que revelam que:
  • A Umanizzare foi constituída em 1º de setembro de 2011, em Goiás. Segundo papéis apresentados à Junta Comercial local, a empresa tinha como sócios a Auxílio, sociedade de Luiz Gastão com César Marques de Carvalho, e Rousilene Correa de Carvalho
  • Em 1º de dezembro de 2011, três meses depois de aberta, a Umanizzare passou a administrar os dois primeiros presídios, ambos em Tocantins
  • As prisões do Amazonas começaram a ser geridas pela firma em 2013 e em 2014, ainda de acordo com a página da Umanizzare. Hoje, são 8 prisões: 6 em AM e 2 no TO
  • Em 2016, a Umanizzare se mudou para SP. Nem Auxílio nem Luiz Gastão estão entre os atuais administradores ou diretores relacionados à Umanizzare nos documentos da Junta Comercial de São Paulo
  • Também em 2016, a empresa mudou de sociedade limitada para sociedade anônima. Como S/A, a responsabilidade legal é dos diretores, e a empresa não é obrigada a divulgar os nomes dos acionistas
  • A ficha na junta comercial também indica que o capital social da Umanizzare é de R$ 62 milhões
Não está claro, nos documentos obtidos, em que momento a Auxílio deixou oficialmente a participação na Umanizzare.

Dívidas

Uma decisão da Justiça do Trabalho em São Paulo de 2013 determinou a inclusão da Auxílio no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas, do Tribunal Superior do Trabalho. Por lei, quem está nesse cadastro não pode participar de licitações. Consulta feita nesta semana à base de dados mostra que a Auxílio ainda impedida de concorrer por conta dessa e de outras dívidas trabalhistas.

O G1 perguntou a Luiz Gastão se o impedimento decorrente de dívidas trabalhistas aplicado à Auxílio foi o que motivou a participação da Umanizzare, em vez da Auxílio, na concorrência de 2014. O empresário, entretanto, não respondeu.

O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Amazonas, Rocinaldo Silva, diz que "são sempre os mesmos proprietários destas empresas que vem sempre mudando a razão social [para gerir as prisões] e o governo não faz nada enquanto eles fazem um desserviço para a sociedade sem o mínimo de qualidade".

Segundo especialistas consultados, é comum que empresas impedidas de participar de licitações criem novas companhias para continuar a participar de concorrências.

O governo do Amazonas não respondeu se sabia da relação entre Umanizzare e Auxílio com Luiz Gastão Bittencourt da Silva quando houve a concorrência para a administração das prisões.

Mas cabe ao governo investigar o histórico da empresa interessada, de modo a evitar que “empresas com problemas anteriores com a Administração sejam contratadas, mesmo que constituída sob um novo CNPJ”, segundo o advogado Henrique Mottecy Veras, coordenador do núcleo de licitações do escritório Nelson Willians & Advogados Associados.

Consultado a respeito, ele disse não ver problemas na licitação, mas sim “falta de zelo da administração em garantir a eficácia da contratação, não preservando o interesse público, que é a finalidade de toda licitação”.

Multas e advertências

A Auxílio sofreu advertências e foi multada diversas vezes pelo governo do Amazonas durante o período em que administrou presídios no estado, segundo os registros oficiais.

Em uma dessas ocasiões, a empresa foi penalizada em R$ 202 mil (em valores atualizados), acusada de causar uma rebelião em 24 de setembro de 2009 no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat). Hoje, a prisão é administrada pela Umanizzare.

De acordo com o extrato da multa publicado no Diário Oficial do Estado do Amazonas, a rebelião “foi motivada pelo reiterado descumprimento do contrato” firmado entre o governo e a Auxílio, “que culminou na perda do controle dos ânimos do Ipat”.

O empresário Luiz Gastão afirma que todas as multas “foram devidamente quitadas” em agosto de 2014.

Doação ao governador

Segundo reportagem do jornal "O Globo", Luiz Gastão doou R$ 1,2 milhão à campanha do governador José Melo, por meio da empresa Serval Serviços e Limpeza. A Auxílio doou mais R$ 300 mil.

Em nota, Gastão diz: "Todas as doações pessoais, ou por empresas das quais Luiz Gastão participa estão registradas nos tribunais eleitorais. Os atos respeitam a legislação brasileira, são legais, públicos, notórios e declarados regularmente".

Luiz Gastão Bittencourt da Silva, presidente da Fecomércio-CE
Foto: Divulgação
Leia a íntegra da nota de Luiz Gastão Bittencourt da Silva

Luiz Gastão Bittencourt da Silva é empresário do setor de serviços há mais de 30 anos. É sócio da “Auxílio Agenciamento de Recursos Humanos e Serviços” e “Serviarm Serviços de Vigilância”.

O empresário Luiz Gastão Bittencourt já acumulava experiência na área de terceirização de serviços. A partir da observação do amadurecimento do mercado brasileiro na gestão privada em presídios, o empresário decidiu ingressar no segmento.

Em 2001, o empresário participou da criação da Conap, segunda empresa brasileira a atuar no setor. Em 2008, a companhia modificou sua razão social para Auxílio, permanecendo com o CNPJ inalterado. Sob o novo nome, a empresa continuou atuando em cogestão de unidades prisionais.

Em 2011, o empresário optou por deixar o segmento de administração de presídios e, devido a sua experiência acumulada, participou apenas da criação da Umanizzare, por meio da Auxílio.

Ressalve-se que a Auxílio deixou completamente o segmento de co-gestão prisional. Hoje, atua exclusivamente na prestação de serviços terceirizados. A empresa não tem qualquer relação comercial ou societária com a Umanizzare, para a qual o empresário tem contribuído como membro do conselho consultivo, devido à sua relevante experiência técnica de mais de 10 anos na área.

A respeito das multas citadas pela reportagem do G1, aplicadas pelo governo contra a Auxílio, informamos que todas foram devidamente quitadas, conforme documento anexo.

Todas as doações pessoais, ou por empresas das quais Luiz Gastão participa estão registradas nos tribunais eleitorais. Os atos respeitam a legislação brasileira, são legais, públicos, notórios e declarados regularmente.

Contrato de 2014 entre governo do Amazonas e Umanizzare específico para a gestão do Compaj
Contrato firmado pelo governo do Amazonas com o Consórcio Pamas, do qual Umanizzare faz parte
Registro de inclusão da Auxílio no Banco Nacional de Devedores Tributários, em 2013
Certidão de inclusão da Auxílio, criadora da Umanizzare, em base de dados de devedores trabalhistas
Multa aplicada à Auxílio por, segundo governo, contribuir com rebelião em 2009
Documento na Junta Comercial de São Paulo que mostra os atuais responsáveis pela Umanizzare; como sociedade anônima, ela não é obrigada a revelar os acionistas

Ricardo Gallo, Vitor Sorano, Tahiane Stochero, Jamile Alves e Marília Cordeiro
No G1
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Em mensagem, Funaro chama Geddel de 'porco folgado'


Numa das trocas de mensagens obtidas pela Polícia Federal no âmbito da operação, nesta sexta-feira (13), que teve como alvo o ex-ministro Geddel Vieira Lima, Lúcio Funaro, apontado como operador de Eduardo Cunha, chama Geddel  de “porco folgado”. A mensagem era dirigida a Fabio Cleto, na época vice-presidente da Caixa.

Funaro: "Me faz um favor liga p geddel e ve em qual e mail ele quer que vc passe isso ou pra quem vc entrega que se ele nao resolver vou f... ele no Michel. Esse porco e um folgado do c..."

Cleto: "Vi, Foi mandado pra minha caixa e pra do geddel . Ja encaminhei pro email institucional da arca do geddel, com medo que ele nem veja o email. E ja pedi pra secretaria dele encaminhar"

No JB
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Anatel desmente Kassab e diz que não pretende reabrir debate sobre limite na banda larga fixa

O presidente da Anatel, Juarez Quadros
Nove meses depois de proibir as operadoras de limitarem o acesso de seus clientes ao sinal de banda larga fixa, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) diz não ter intenção de reabrir o debate sobre a chamada franquia nos planos de internet. A afirmação foi feita nesta sexta-feira (13) pelo presidente da agência, Juarez Quadros.

“Não há por parte do Ministério e também da Anatel nenhuma intenção de reabrir a questão”, disse Quadros.

Ele destacou que a decisão cautelar que impediu o limite de acesso à banda larga fixa, tomada em abril e que continua em vigor, não tem prazo de validade. O presidente disse ainda que agência reguladora não pensa em alterá-la.

Quadros fez as afirmações um dia depois de o site "Poder 360" publicar uma entrevista com o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, Gilberto Kassab. Na entrevista, Kassab afirmou que a Anatel e o governo deveriam tomar uma decisão sobre a franquia nos planos de internet até o segundo semestre de 2017 e que os pacotes de acesso limitado voltariam a ser liberados.

Após a decisão de impedir o limite da banda larga fixa, a Anatel abriu uma consulta pública para tratar do assunto. A partir dela, deve definir uma regulamentação para a prestação do serviço.

Equívoco

O presidente da Anatel disse que Kassab afirmou a ele ter cometido um "equívoco" na declaração feita ao site.

Ainda na quinta-feira (12), o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações divulgou nota em que afirma que “o governo federal vai atuar para que o direito do consumidor seja respeitado e para que não haja essa alteração em observância do Código de Defesa do Consumidor.”

“O MCTIC aproveita para esclarecer também que os estudos, quando finalizados, podem indicar que o melhor modelo é o ilimitado, com isso governo federal deverá mantê-lo”, informou o ministério.

Polêmica

Quadros enfatizou que, apesar da discussão sobre limite para banda larga fixa ser tema de uma pré-consulta pública da Anatel, não há nenhuma previsão ou plano para que a agência volte a discutir o assunto.

No início de 2016, o anúncio da VIVO de que adotaria um limite para download no serviço de banda larga fixa deu início à polêmica. O ex-presidente da Anatel João Rezende chegou a anunciar que a era da banda larga sem limite estaria no fim, mas, após repercussão negativa, a agência mudou de atitude e decidiu proibir as empresas de determinarem limites para o serviço.

Atualmente, esse serviço é cobrado de acordo com a velocidade de navegação contratada, sem teto de uso da internet. O sistema que limita a quantidade de dados baixados, ou seja, que fixa uma franquia, já funciona na internet móvel, dos celulares.
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Xadrez do Brasil na era do narcotráfico


Peça 1 – a cadeia produtiva do narcotráfico

A característica central das novas organizações criminosas é a descentralização e a flexibilização. O avanço das novas tecnologias, a integração das economias nacionais, abriu amplo espaço para terceirizações, alianças, mudando o velho sistema das estruturas hierarquizadas.

Houve quatro etapas na história recente das drogas.

Na primeira etapa, investidores externos vinham até os países andinos – Peru, Bolívia e especialmente a Colômbia – adquiriam a coca e colocavam nos países consumidores. Controlavam, assim, todo o processo de comercialização.

Na segunda etapa, os produtores decidem assumir o controle de toda a cadeia produtiva. É assim que se formam os cartéis de Medelin e de Cali e, no caso brasileiro, a tentativa de Fernandinho Beira-Mar de assumir as duas pontas do comércio de drogas. Esse modelo torna os cartéis alvos fixos da repressão norte-americana.

Aí se entra na terceira etapa, que é a pulverização dos cartéis e a montagem de alianças com organizações criminosas na ponta do consumo e a terceirização ampla dos serviços intermediários.

A quarta etapa tem início quando os grandes distribuidores – PCC, CV – decidem escapar das limitações do fornecedor e passar a controlar também a ponta da produção, mas adotando um modelo de gestão flexível, baseado em códigos de conduta, uma máfia ou cosa nostra  na era do celular e da Internet.

Com algumas variações, o modelo da organização do narcotráfico é o seguinte:


1.     Chamemos de Chefão do Tráfico o cabeça que organiza as diversas estruturas: os produtores, os consumidores, o fornecimento de produtos químicos, o financiamento. Embaixo dele há um Setor Operacional, que monta os contatos com as diversas pontas do sistema, preservando o Chefão e garantindo a compartimentalização – uma peça não conhecendo outra.

2.     Na ponta da produção: o Traficante Produtor organizando a produção interna, montando laboratórios ou adquirindo a produção de laboratórios independentes.

3.     Na ponta da distribuição: parcerias com organizações criminosas locais, como o Comando Vermelho (CV) ou o Primeiro Comando da Capital (PCC). Estes, por sua vez, montam parcerias com organizações criminosas regionais ou municipais, como as estruturas do jogo de bicho. O trabalho não é exclusivo. Além do tráfico, a parceria pode se estender para contrabando de armas, assassinatos pagos e outros produtos. Mas os chamados “donos do morro” dependem totalmente dos fornecedores para manter seu negócio.

4.     No fornecimento de matéria prima: empresas especializadas ou suborno a funcionários de grandes empresas químicas para desviar parte da produção para o tráfico.

5.     No transporte: empresas terceirizadas ou mulas.

6.     No financiamento: o Chefão do Tráfico procura doleiros e apresenta oportunidades de negócios. Os doleiros, por sua vez, oferecem a investidores não diretamente ligados ao tráfico, mas perfeitos conhecedores das oportunidades e riscos.

7.     Na lavagem: montagem de empresas da economia real, onde o dinheiro do Chefão do Tráfico possa ser lavado. Um caso emblemático é do bicheiro Carlinhos Cachoeira que investiu em laboratórios farmacêuticos em Anápolis – setor com grande afinidade com o refino de coca.

8.     Na blindagem: os contatos pessoais do Chefão com políticos e autoridades.

Peça 2 – a guerra do tráfico e os episódios do norte

O negócio do tráfico assumiu proporções bilionárias. No caso da Colômbia, estima-se em U$ 6 bilhões as exportações para os Estados Unidos, em US$ 5 bilhões para a Europa e em US$ 1,75 bilhão para África e Ásia. Na ponta dos grandes atacadistas, a venda final faturaria cerca de US$ 12,8 bilhões ano. Se incluir o preço final do varejo, aumentaria substancialmente o faturamento.

Segundo reportagens de Mário Magalhães em 2000, quanto mais acima entrava a cocaína (Pará, Roraima, Amazonas, Acre e Rondônia), maior a possibilidade de se destinar ao exterior.  Era a produção da Colômbia, considerada de muito melhor qualidade. É o que explica o crescimento de uma quadrilha localizada, a Facção Família do Norte (FFN).

Por Mato Grosso do Sul e Paraná vem a produção da Bolívia, mais destinada ao mercado interno.

Uma das versões mais consistentes sobre a guerra do tráfico foi de Carlos Wagner, repórter da região, para os Jornalistas Livre. O desmonte dos cartéis colombianos abriu os olhos da FFN e do CV para a possibilidade de se livrarem dos Chefões do Tráfico e controlarem, eles próprios, o ciclo total da produção e venda (https://goo.gl/uPQEu9). Principalmente, o acordo de paz firmado com o governo colombiano, retirou as Farc do jogo, deixando um vazio para ser ocupado. O pacto entre a FFN e o CV garantiria ao grupo o controle da produção e da demanda.

Por sua vez, o PCC teria o controle do presídio em Roraima, da produção que vem da Bolívia e de outra que passa pelo Paraguai e entra pelo Paraná.

Peça 3 – a repressão e os bagrinhos

Na cadeia produtiva do narcotráfico, a repressão se concentra nas pontas, dos plantadores e produtores e dos pequenos distribuidores e das mulas (que transportam individualmente a droga) – anotadas nas manchas rosas.

Hoje em dia, até a parcela não-colarinho branco do tráfico – CV e PCC – consegue acordos com governos estaduais, conforme se observa em São Paulo. A área verde, onde se concentra o colarinho branco, é preservada.

 
Todo o aparato repressivo entra em um jogo de enxugar gelo. Chega um nigeriano no aeroporto de Guarulhos, em muitos casos, mero boi de piranha – para ser flagrado, enquanto o resto da turma passa incólume. Preso, a Polícia Federal faz uma ocorrência. O delegado o interroga e, algumas vezes, até descobre ligações com outras pessoas que viajaram juntas. Abre-se o inquérito, com laudo toxicológico do que foi apreendido. O nigeriano vai preso e o inquérito vai para o procurador que recebe, faz o pedido da conversão do flagrante em prisão preventiva – já que o réu não tem residência no Brasil. O nigeriano fica preso, somando-se aos demais presos, o processo corre e quase nunca se chega ao chefão.

Por outro lado, o próprio sistema prisional se incumbe de engordar as organizações criminosas. De um lado, pela ampla liberdade concedida aos chefes para comandarem suas organizações a partir dos presídios.

De outro, pelas próprias políticas penitenciárias. A falta de informações sobre o que ocorre na ponta ajudou a criar o monstro, segundo o juiz Luiz Carlos Valois, de Manaus, explicou ao GGN.

O PCC e o CV eram fenômenos confinados no Sudeste, São Paulo e Rio. Sua expansão para o Norte e Nordeste se deveu a um erro de estratégia das políticas de segurança do PT, construindo presídios federais de segurança máxima.

Quando algum marginal provocava problemas nos presídios do norte e nordeste, é despachado para os presídios federais. Ele retornava alardeando o contato com seus colegas do PCC e do CV, o que lhe conferia um status especial no presídio de origem. Além disso, quando era transferido para o presídio federal, criava um vácuo na liderança do pavilhão, que não raras vezes resultava em disputas sangrentas até se consolidar o novo líder. Voltando, disputava a liderança com seu antecessor, gerando mais sangue.

Mais que isso, ajudava a disseminar a mística do PCC e do CV, com seus códigos, discursos políticos próprios de irmandades criminosas.

Mesmo assim, a FFN não tem expressão maior em Manaus, diz Valois, como a de parar cidades, como o PCC fez em São Paulo em 2006.

A situação é pior nos presídios paulistas e cariocas. O sujeito é preso por um assalto. No presídio, indagam de que facção ele é. Ele informa que não é de facção nenhuma, que apenas perpetrou um assalto. Indagam, então, de que bairro ele é. De acordo com o bairro, é enquadrado em uma das facções existentes e confinado junto aos supostos colegas.

Referência no trabalho dos presídios, Valois sustenta que líder de corredor ou de ala sempre existiu no sistema penitenciário. Quando as facções nasceram, passaram a carimbar cada líder com a marca da facção. Criaram lendas. Segundo ele, basta dois criminosos se comunicando com walk talk para serem taxados de organização criminosa.

Todos esses equívocos, na base, ajudaram a construir a mística das organizações criminosas, que acabaram infladas pela retórica e pela explosão das populações carcerárias.

Peça 4 – as audiências de custodia para o baixo clero

Hoje em dia, a população carcerária é de 600 mil pessoas. A um custo anual de R$ 36 mil per capita, representam um custo total de R$ 21,6 bilhões ano. Desses, 240 mil são presos sem condenação, que passam em média 6 meses em prisão preventiva, sem julgamento e sem sentença.

A rigor, o único trabalho sério para reduzir a população carcerária foram as audiências de custodia, na gestão Ricardo Lewandowski no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Com base no Pacto de São José da Costa Rica, da Convenção Americana de Direitos Humanos (https://goo.gl/FbnCiW), Lewandowski soltou uma resolução obrigando que os presos fossem apresentados aos juízes no prazo de 24 horas, mesmo em fins de semana. Nesse período, haveria como o juiz conferir se o preso foi submetido a sevícias pela polícia e se seu caso é de prisão.

As audiências revelaram que 45% das prisões eram desnecessárias, além de mostrar a viabilidade de manter fora dos presídios réus de baixa periculosidade, recorrendo a medidas cautelares alternativas, como o uso de tornozeleiras eletrônicas, a prisão domiciliar e restrições a direitos.

Pelas projeções do CNJ, se tentaria reduzir em 50% o total de presos provisórios. Isso permitiria uma economia anual de R$ 4,3 bilhões na sua manutenção e de R$ 9,6 bilhões na redução de necessidade de construção de 240 presídios (https://goo.gl/BngKu4).

Durante 2015, as audiências carcerárias lograram reduzir em 40.584 pessoas os presos provisórios.


A audiência com cada preso não leva mais que dez minutos.

O projeto mereceu o reconhecimento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) (https://goo.gl/Y6axcs), ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA). A rigor, foi a única menção positiva ao Brasil na última visita do observador do CIDH.

Mesmo assim, a experiência foi amplamente ignorada pelos veículos de mídia, por ser de iniciativa de personagem público, o Ministro Lewandoiwski, tratado de acordo com o direito midiático do inimigo. E mereceu resistências dos órgãos de classe de juízes, por significar trabalho adicional, e do próprio Ministério Público, por seu viés acusador.

Peça 5 – a blindagem do alto clero

Se os presídios estão abarrotados com representantes do baixo clero, da mais alta à mais baixa periculosidade, as celas especiais destinadas ao colarinho branco estão vazias.

Hoje em dia, qualquer estratégia contra o crime organizado teria que obedecer à máxima de “seguir o dinheiro”.  A figura-chave, então, passa a ser o operador financeiro, o doleiro, que une as pontas do Chefe do Tráfico, os financiadores, a corrupção política.



Em 2003, o então Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos desenvolveu a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla), juntando mais de 60 órgãos dos Três Poderes ligados a alguma forma de fiscalização (https://goo.gl/LTjTlB).

O modelo foi amplamente utilizado na Operação Lava Jato. Nem resvalou no combate ao tráfico. Um superdoleiro como Alberto Yousseff conseguiu sua segunda liberdade provisória sem que o juiz Sérgio Moro – veterano do caso Banestado – ousasse extrair nenhuma informação sobre o tráfico. Ressalve-se que o tráfico tem argumentos eloquentes para demover delatores: quem delata, morre.

Mesmo assim, cada vez que se avança sobre doleiros, bate-se de frente com a economia formal, com grupos influentes, muitos deles parceiros preferenciais do MPF que se valem dos mesmos canais de lavagem de dinheiro do narcotráfico. Quando chega aí, as investigações param. Aliás, o fato do dinheiro transitar no mesmo duto teoricamente permite a financistas montarem suas apostas também no jogo do tráfico.

Alguns exemplos:

1.     Em 2009, procuradores do MPF estouraram o escritório de um casal de doleiros do Rio de Janeiro, na Operação Norbert. Toparam com uma conta de Aécio Neves em Liechtenstein. O caso foi parar na gaveta do PGR Roberto Gurgel em 2010 e só saiu em 2016, quando a parcialidade do PGR Rodrigo Janot se tornou flagrante. Mesmo assim, o inquérito caminha a passos lentíssimos, com jogos de empurra entre o Ministro Gilmar Mendes, do STF, o PGR e a Polícia Federal (https://goo.gl/KASihP).

2.     Nas investigações sobre o suposto Triplex de Lula, a PF implode os arquivos da Mossak Fonseca, escritório norte-americano famoso pela lavagem de dinheiro de ditadores e políticos. Depara-se, então, com contas da família Marinho. A investigação desaparece e não renasce nem com os Panama Papers (https://goo.gl/IgvSCb).

3.     Em um dos dos maiores escândalos dos últimos anos, o da FIFA, dois desembargadores polêmicos, da Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro (Paulo Espírito Santo e Antônio Ivan Athié) determinaram a suspensão das remessas de dados do MPF para o FBI. O STJ (o Superior Tribunal de Justiça) manteve a suspensão. O caso está parado no STF.

4.     Quando o caso HSBC veio à tona, apareceram nomes de grupos de mídia aliados do MPF. O caso sumiu.

5.     O caso Carlinhos Cachoeira foi exemplar. O MPF de Goiás montou a Operação Monte Carlo. Foram encaminhados ao Procurador Geral Roberto Gurgel os dados relativos aos parlamentares – que tinham foro privilegiado. Gurgel paralisou as investigações. Chamado pela CPMI de Cachoeira a dar explicações, informou que segurou o inquérito para não atrapalhar a Operação Las Vegas, destinada a investigar o bicho. Posteriormente, procuradores de Goiás informaram que as duas operações não tinham relação entre si (https://goo.gl/oNyfk0). Cachoeira está solto e tendo, entre seus ativos formais, um laboratório farmacêutico (!).

O episódio mais notório é o do helicóptero que caiu transportando 500 quilos de cocaína. Não há nenhuma prova concreta conhecida a ligar o caso ao presidente do PSDB Aécio Neves. Mas existe um conjunto de circunstâncias que, no mínimo, exigiriam investigações e explicações:

1.     O helicóptero pertencia a Gustavo Perrela, filho do senador Zezé Perrela, estreitamente ligado a Aécio.

2.    Conforme o GGN publicou em 26 de julho de 2014, (https://goo.gl/OmFYYc ), não haveria condições do helicóptero ter percorrido 1,17 mil km em linha reta sem uma parada para reabastecimento. E o reabastecimento não ocorreu em nenhum aeroporto fiscalizado pela ANAC. Por coincidência, o aeroporto de Cláudio, construído no governo Aécio perto de propriedades da família, ficava na rota percorrida pelo helicóptero e ainda não fora homologada pela ANAC.

3.    Morador em Cláudio, o primo de Aécio, Tancredo Tolentino, foi acusado de negociar habeas corpus para traficantes, em conluio com um desembargador do Tribunal de Justiça.

4.    Perrela injetou muito dinheiro no Cruzeiro Futebol Clube. Depois de conquistado o bi-campeonato nacional, praticamente todo o elenco foi negociado com o exterior (https://goo.gl/vmcF19). O comércio de jogadores sempre foi uma peça relevante na lavagem de dinheiro.

Hoje em dia, o inquérito está parado, graças a um HC do Tribunal de Justiça de Minas, apesar dos esforços de procuradores da República de Minas de tocarem as investigações.

Não se ouve protesto no Supremo Tribunal Federal (STF), nem da parte de Ministros que passaram a defender o estado de exceção contra a corrupção, como é o caso de Luís Roberto Barroso. Parceira do MPF no combate intransigente à corrupção, nenhum grande veículo da imprensa se interessa pelo tema – cuja cobertura está restrita aos blogs e portais alternativos.

De fato, o crime organizado domina o país. Mas ele não está restrito às celas infectas dos presídios.

Correção - foram corrigidos os dados referentes ao HC que impediu o envio de dados sobre a FIFA pelo MPF para o FBI.

Luís Nassif
No GGN
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