11 de jan de 2017

Gilmar merece ser senador



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A propaganda mentirosa de Temer na TV


Em propaganda veiculada na televisão e nas redes sociais, governo Temer defende PEC da reforma da previdência, afirmando que o INSS está com o caixa no vermelho. Mas especialistas desmentem a informação, e ainda alertam que a proposta resultará numa taxa de desemprego ainda maior.

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A conexão Brasil-Ucrânia dos neonazistas


Do Financial Times, edição de ontem, texto do correspondente Joe Leahy. A tradução livre é minha:

Quando o policial brasileiro Paulo César Jardim lançou uma série de ataques às casas de supostos neonazistas no estado do Rio Grande do Sul, revelou-se uma trama bizarra: o movimento neonazista que ocorre no país, com seu aparato secreto de suásticas, propaganda de ódio e violência nas ruas, está sendo convocado por extremistas de direita da Ucrânia para lutar contra militantes pró-russos na guerra civil do país europeu.

A Divisão de Misantropos da Ucrânia, grupo de extrema-direita alinhado com o Batalhão Azov, tropa paramilitar ultranacionalista que apoia o regime de Kiev, está por trás da campanha de recrutamento, alegou Jardim, o principal caçador neonazista do Brasil.

Uma pessoa foi detida nas invasões de dezembro com 47 cartuchos de pistola de 9 mm e depois liberada. A polícia investiga se os brasileiros já se juntaram à luta na Ucrânia, disse o policial, negando-se a dar mais informações.

Um porta-voz do Batalhão Azov – agora incorporado à Guarda Nacional ucraniana – negou, em Kiev, que haja brasileiros incorporados à tropa.

A revelação, se comprovada, de que os movimentos ultranacionalistas subterrâneos do Brasil buscam experiência de combate no exterior é desenvolvimento preocupante de um fenômeno que chocou o país que se considera um caldeirão racial.

O surgimento de neonazistas no Brasil tem desafiado o mito popular de que o racismo, pelo menos a variedade evidente em exibição nos EUA e outros países ocidentais, não existe lá.

Com mais de metade da população reivindicando pelo menos alguma herança africana, os brasileiros se orgulham das relações relaxadas entre os diferentes grupos raciais do país. Mas tem havido fluxo constante de ataques nos últimos anos. Apenas no ano passado, os neonazistas atacaram com facas e machadinhas uma banda de punk que defendia a igualdade de direitos para homossexuais;.

A extrema-direita ainda é vista como à margem da política em um país que se libertou de duas décadas de ditadura militar apenas em meados dos anos 80, mas analistas sustentam que políticos ultraconservadores e seus partidários estão dispostos a preencher o vácuo político que se desenvolveu depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff,.

Jair Bolsonaro, congressista de extrema-direita e ex-capitão do exército, conquistou as manchetes no ano passado por elogiar conhecido torturador da era da ditadura. Ele nega ser neonazista, mas os críticos o acusam de compartilhar muitos pontos de vista do movimento, como o racismo e a intolerância.

Também no ano passado, um grupo de ultraconservadores invadiu o Congresso pedindo o retorno do governo militar.

Os neonazistas no Brasil se concentram no Sul e Sudeste do país, do Rio de Janeiro e São Paulo ao Rio Grande do Sul, regiões que receberam a maior parte dos imigrantes alemães, italianos e poloneses.

Embora a América do Sul também tenha recebido nazistas fugindo da derrota da Alemanha de Hitler na segunda guerra mundial, os movimentos neonazistas surgiram, na maioria, mais recentemente, de sites de ódio na Internet.

O Brasil, com 200 milhões de habitantes, tem 150 mil “simpatizantes” envolvidos em movimentos neonazistas, segundo artigo da antropóloga Andriana Dias, da Unicamp.

“A violência expressa por esses grupos, sejam ataques físicos a negros, judeus ou homossexuais, seja a disseminação de literatura de ódio, tem exigido nos últimos anos muito trabalho, tanto em termos de investigação e condenações ”, escreveu ela.

“Nunca imaginei que o neo-nazismo fosse possível no Brasil porque este é o país do futebol, do carnaval. . . Nós somos um povo feliz ”, disse o policial Paulo César Jardim.

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E agora, caminhoneiros vão fazer lockout ?


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Leandro Karnal • Zygmunt Bauman: Mundo Líquido


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Corrupção no Mato Grosso envolve ministro golpista Blairo Maggi

Juiz afasta conselheiro acusado de pagar R$ 4 milhões por vaga no TCE

Esquema em MT foi montado com recursos públicos em 2009, segundo MPE.

Ação envolve ministro Blairo Maggi, Silval Barbosa, José Riva e Éder Moraes.

Juiz determinou afastamento imediato de Sérgio Ricardo, conselheiro do TCE-MT
Foto: TCE-MT
O juiz Luís Aparecido Bortolussi Júnior, da Vara Especializada em Ação Civil Pública e Ação Popular, determinou o afastamento imediato do conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, acusado de compra de uma vaga no Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT). Bortolussi também decretou o bloqueio de bens no valor de R$ 4 milhões dele e de outros réus, entre eles o Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi. A decisão é de segunda-feira (9).

A justiça recebeu a denúncia do Ministério Público Estadual (MPE), que aponta que em 2009 houve um esquema fraudulento envolvendo conselheiros, deputados estaduais, secretário de Fazenda e governadores.

Os réus são: Sérgio Ricardo, Alencar Soares Filho (ex-conselheiro do TCE), Blairo Borges Maggi (à época governador de Mato Grosso), Eder de Moraes Dias (ex-secretário de Fazenda), Gercio Marcelino Mendonça Júnior (empresário), Humberto Melo Bosaipo (ex-conselheiro do TCE), José Geraldo Riva (ex-deputado e ex-presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso), Leandro Valoes Soares (filho de Alencar) e Silval da Cunha Barbosa (ex-governador de Mato Grosso). (Confira as versões dos réus citados abaixo da reportagem).



Presidente em exercício conversa com ministro da agricultura, Blairo Maggi , durante fórum em São Paulo. (Foto:  REUTERS/Nacho Doce)
Ministro da agricultura, Blairo Maggi, é um dos réus
Foto: REUTERS/Nacho Doce
O esquema também culminou nas investigações da operação Ararath, que apurou um suposto esquema de lavagem de dinheiro e crimes financeiros, que atuaria no estado do Mato Grosso por meio de empréstimos fraudulentos e empresas de fachada.

Segundo a assessoria de comunicação, o TCE e o conselheiro Sérgio Ricardo não foram notificados da decisão. Em nota, o ministro Maggi declarou que todas as denúncias referentes à Operação Ararath foram arquivadas pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Maggi declarou que não há indícios de crimes praticados e que vai recorrer.

Segundo o MPE, Sérgio Ricardo de Almeida, na época deputado estadual, comprou a cadeira do conselheiro Alencar Soares Filho ao preço inicial de R$ 8 milhões, na vaga que seria por indicação da ALMT.

Ex-conselheiro Alencar Soares Filho (Foto: TCE-MT)
Sérgio Ricardo teria 'comprado' vaga do
ex-conselheiro Alencar Soares
Foto: TCE-MT
Um esquema de fraude teria sido montado utilizando recursos públicos, tendo como operador o empresário Júnior Mendonça, sob a aparência de factoring, e que, cumpridos diversos mandados de busca e apreensão, verificou-se o envolvimento de Eder Moraes e várias empreiteiras e empresas prestadoras de serviço ao estado de Mato Grosso, tanto durante o governo de Blairo Maggi quanto no de Silval Barbosa.

Conforme o MPE, à época, Blairo Maggi estimulou e permitiu a utilização de factoring como forma de levantar recursos de despesas políticas, procedimento que teve continuidade no governo de Silval Barbosa.

“Os réus, na sua maioria agentes políticos do mais alto escalão do governo estadual, segundo se afirma, teriam, por meio de sofisticado esquema engendrado com uma factoring, que funcionava como espécie de banco de políticos, onde uma conta-corrente, operada por Júnior Mendonça, era alimentada com propinas pagas por empreiteiros e outros prestadores de serviço ao Estado, servindo como fonte do financiamento de dinheiro público para a compra de cadeira de conselheiro do TCE”, afirmou o magistrado.

Eder Moraes (Foto: Reprodução/TVCA)
Eder Moraes, a pedido de Maggi, teria feito
o pagamento de R$ 4 milhões a Alencar
Foto: Reprodução/TVCA
Segundo declarações de Júnior Mendonça, o então deputado estadual Sérgio Ricardo teria comprado uma vaga do conselheiro Alencar Soares Filho e, para isso, foram emitidas várias notas promissoras, garantidoras de repasses criminosos, relacionados com a compra e venda de vaga no TCE, sendo que uma dessas notas promissórias estava em poder de Éder Moraes.

Um dos documentos, no valor de R$ 2 milhões, tinham as assinaturas de Sérgio Ricardo, José Riva e Éder Moraes.

“A gravidade do ato pode ser considerada como resultado de uma prática política persistente adotada na ALMT nas últimas décadas, de onde os corréus Riva e Bosaipo, já condenados em quatro ações de improbabilidade, desviaram vários milhões dos cofres públicos e por isso respondem a aproximadamente uma centena de ações civis públicas. O réu Sérgio Ricardo […] contou com o apoio incondicional de ambos para a negociata que teria culminado na compra do cargo público”, pontuou.

José Riva, Cuiabá, Mato Grosso, MT (Foto: Reprodução/TVCA)
Juiz diz que Riva deu apoio para compra de
cargo público
Foto: Reprodução/TVCA
No começo de 2009 houve reunião com autoridades do alto escalão do governo quando foi tratado assunto relacionado ao preenchimento de duas vagas no TCE, sendo definido que uma seria de Éder Moraes e outra de Sérgio Ricardo. Participaram da reunião Maggi, Riva, Silval, Sério Ricardo, Humberto Bosaipo e Éder Moraes. Outras reuniões foram realizadas com o conselheiro do TCE, Alencar Soares, além da participação de Leandro Soares.

Júnior Mendonça afirma que Eder, a pedido de Maggi, providenciou o pagamento de R$ 4 milhões ao conselheiro Alencar para que este devolvesse ao deputado Sérgio Ricardo o valor por ele pago, servindo o restante para complementar o pagamento de uma das vagas que seriam abertas.

Humberto Bosaipo é acusado de peculato e formação de quadrilha (Foto: Arquivo/TVCA)
Ex-conselheiro Humberto Bosaipo também
virou réu na ação
Foto: Arquivo/TVCA
Eder e Júnior Mendonça foram até o gabinete de Alencar e entregaram um cheque no valor de R$ 2,5 milhões, que foi substituído por três transferências bancárias. No início de 2010, houve uma reunião para selar a transação de vaga no TCE e, em março de 2010 ocorreu o segundo repasse a Alencar no valor de R$ 1,5 milhão, totalizando R$ 4 milhões.

“Seria desarrazoado e desproporcional […] manter alguém que, aparentemente, usurpou um cargo da envergadura do de conselheiro do TCE a pretexto de salvaguardar o seu interesse individual de ordem privada, de só perder o cargo ao final do processo judicial, deslembrando-se a noção elementar de que os cargos públicos não têm donos, porque são predispostos à satisfação do interesse geral”, disse Bortolussi na decisão.

O ex-governador Silval Barbosa (PMDB), apontado como chefe do esquema (Foto: Lenine Martins/Secom-MT)
Esquema também teria ocorrido entre o governo
de Silval Barbosa
Foto: Lenine Martins/Secom-MT
O MPE pontuou que, em relação a Alencar, ele teria vendido a cadeira no valor de R$ 12 milhões e recebido de propina, comprovada o valor de R$ 4 milhões. O MPE pontua que Eder Moraes foi mentor e articulador e gerente do plano para venda de vaga no TCE com pagamento de propina, provocando a aposentadoria antecipada de Alencar. Sérgio Ricardo tomou posse no cargo de conselheiro do TCE no dia 16 de maio de 2012.

Outro lado

Em nota, a defesa de Júnior Mendonça afirmou que não teve acesso ao documento da decisão e afirmou que o cliente é colaborador e cumpre todas as condições. O advogado de Éder Moraes disse que o cliente ainda não foi notificado e deve apresentar a defesa no prazo legal.

A defesa do ex-governador Silval Barbosa comentou que deve se manifestar após ter conhecimento da decisão. A reportagem não conseguiu contato com os advogados de José Geraldo Riva, Humberto Bosaipo, Alencar Soares e o filho dele, Leandro Soares. No entanto, todos declararam inocência à Justiça.

Blairo Maggi

A defesa de Maggi declarou que 'No dia 26 de abril do ano passado, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, determinou o arquivamento de todas as acusações que pesavam contra mim na chamada Operação Ararath. Entendeu o procurador-geral "que não haviam nos autos indícios suficientes de crimes praticados pelo senador Blairo Maggi, nem vislumbra o Parquet outras diligências úteis à formação da justa causa necessária para oferecimento de denúncia no presente caso”. Por isso, me surpreendeu a decisão, ainda que provisória, do juiz da Vara Especializada em Ação Civil Pública e Ação Popular, de receber a denúncia contra mim, no processo cível que deriva da mesma Operação.

Sem que absolutamente nada de novo tenha sido acrescido ao processo, o juiz veio na contramão do entendimento do Procurador-Geral da República, a quem coube apurar com rigor as denúncias que geraram o presente feito. Com a consciência tranquila, estou pronto para prestar todos os esclarecimentos à Justiça e, recorrer da medida, por entender não ter sido justa a decisão proferida, ainda que liminarmente'.

Denise Soares
Do G1 MT
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Dr. Moro Furioso



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O atacado da droga anda de helicóptero

Juiz Valois de Manaus: prisão não serve para nada

Valois entra na cadeia. Não é um Alexandre Moraes. (Reprodução: Ozy.com)
O Conversa Afiada reproduz do PiG cheiroso entrevista de André Vieira com Luis Carlos Valois, Juiz de Execuções Penais no Amazonas, que esteve dentro da cadeia onde houve as degolas, para tentar o fim do do motim e preservar os agentes penitenciários.

É uma entrevista corajosa, desafiadora e centrada no dia-a-dia do regime carcerário, que foi capaz de desenhar um novo mapa do Brasil.

Não é propriamente uma entrevista, mas um murro no estômago dos justiceiros do pensamento convencional, carcereiros por ideologia.

Esses que ganham dinheiro com a construção de presídios - e, com isso, conseguem devolver o Brasil à fase pré-Lei Áurea.

"A prisão não serve para nada", diz juiz

(...) Valor: Já aconteceu de em uma dessas ocasiões o senhor soltar o preso com decisão de ofício mesmo?

Luís Carlos Valois: Já, de ver que há um absurdo ali envolvendo a prisão dele e soltar. É comum a pessoa já ter tempo de prisão em regime fechado para progredir para o semiaberto, por exemplo, e aí está faltando um parecer do Ministério Público ou algo assim. Aí eu vejo o processo, pego e solto mesmo. Deixa o Ministério Público se manifestar com ele solto. É uma medida cautelar que eu adoto. Não é nada do outro mundo, mas é um direito do preso.

O problema de superlotação de presídios não é exclusividade de Manaus. A que o senhor atribui isso? É uma cultura de encarceramento?

A cultura no Brasil é que a prisão é só segregação. É depósito de seres humanos. Deveríamos fazer as coisas de maneira racional, de preferência científica. A prisão não é resultado de nenhum experimento científico. E se foi, foi falho. A prisão não serve para nada, nada, nada. Sabe como é que nasceu a prisão? Antigamente as pessoas eram enforcadas, queimadas, guilhotinadas, chicoteadas. Tinha várias penas que não eram a de prisão. Mas para o cara ser condenado a uma dessas penas, ele tinha que ficar esperando na prisão. E essas penas foram acabando por causa da sensibilidade da sociedade industrial, da Revolução Francesa, elas foram acabando. E os caras foram sendo esquecidos. A prisão nasceu por acaso. E agora, então, o que vamos fazer? vamos decidir que o cara então vai ficar lá [na prisão] cinco anos. Não vamos poder matar, então ele fica cinco anos, não é nenhum resultado de pensamento científico. Imagine que pessoas diferentes cometam um crime, cada uma em um lugar. Aí pega essas pessoas e colocam presas no mesmo lugar para ficarem conversando. Olha que absurdo!

O que fazer então com um latrocida violento, por exemplo?

O que acontece é que hoje a gente não pensa em tecnologias para isso. Tem chip, tornozeleira eletrônica. Qualquer coisa é melhor do que a prisão. Até não se punir o cara. Preste bem atenção: se a gente parasse de prender as pessoas, todo mundo, de uma hora para a outra, daqui a 50 anos teríamos menos crimes. Olha que absurdo. Então a gente está fazendo uma coisa para aumentar a criminalidade. 'Ah, mas ele não vai ser punido?'. Não posso punir, porque senão vai aumentar a criminalidade. O nosso sentimento de punição é maior que a nossa racionalidade. Bota um capacete no cara, com luz piscando, sei lá. Mas botar numa prisão com outros bandidos é uma coisa idiota.

(...)

O que é possível fazer, em termos penitenciários, enquanto estamos todos no meio de uma guerra de facções criminosas? Separar os presos surte efeito?

Separar os presos é contra a lei, inclusive. A lei prevê a separação por tipo de crime, por idade, a Constituição diz isso, inclusive. Então, botar todos os criminosos de uma facção pra cá e todos os de outra pra lá é contra a lei. Eu sou a favor de cumprir a lei. E já pensou fazer uma lei dessa, determinando a separação de presos por facções? Que ridículo que ia ser para o Brasil?

O senhor tem uma posição pessoal de ser contra o enfrentamento do Estado às drogas. Na sua opinião, a liberalização das drogas seria uma solução para o crime?

Resolver, não resolveria, numa sociedade com desigualdades sociais deste jeito. Inclusive, muitas dessas pessoas [traficantes de drogas] iam migrar para outros crimes. Mas, ao mesmo tempo, a polícia, que fica apenas na operação antidroga, teria mais tempo para investigar outros crimes. Hoje você é assaltado, vai à delegacia e recebe um BO [boletim de ocorrência]. Matam um familiar teu, tu vais lá e recebe um BO. Ninguém investiga mais nada. Por quê? Porque a polícia vai à esquina, pega o cara com 10 trouxinhas de droga e ela está trabalhando, mas não investiga mais nada. A polícia fica só fazendo blitz. Essa é a atividade da polícia brasileira atualmente. Eu não gosto nem de falar de descriminalização, gosto de falar de regulamentação. Porque droga tá tudo liberado aí. Acha que a polícia não sabe onde estão vendendo as drogas? E o que está havendo com isso? Mortes e mais mortes. O Estado deveria era ganhar um dinheiro com isso, ia retirar o financiamento do crime organizado. A única coisa ruim da droga é a própria droga em si. Eu não vejo nada de ruim na descriminalização, absolutamente nada. Só vejo coisa boa. Vai sobrar muito mais dinheiro, investimento e efetivo policial para outros crimes. Vai ter muito mais dinheiro para tratamento de viciado.

Mas hoje, no Brasil e no mundo, os tráficos de drogas e de armas andam juntos, quase se complementam...

Então imagine, tirar esse financiamento aí todo. Porque o grande problema da violência é o problema do varejo. O atacado está aí, andando de helicóptero. O atacado não está atingido por essa política de repressão. E o varejo quer a regulamentação, mas o atacado não quer.

O que o senhor quer dizer com atacado?

Ninguém sabe quem é o atacado, ele anda de helicóptero, de jatinho. Tu achas que o traficante brasileiro é Fernandinho Beira-Mar [líder do Comando Vermelho, no Rio] e Marcola [líder do PCC]? Acha? Cadê os helicópteros deles? Cadê o helicóptero do Zé Roberto [líder da FDN], que mora em uma periferia aqui em Manaus? O Fernandinho Beira-Mar morava na favela. Acha mesmo que esses são os traficantes brasileiros comandando o tráfico brasileiro? E apareceu um helicóptero com meia tonelada de cocaína no Brasil e a gente fica achando que são eles os traficantes. É muita ingenuidade, né? [o juiz se refere à apreensão de um helicóptero com 445 kg de cocaína em Minas Gerais, em 2013, durante ação da PF A aeronave pertence a uma empresa do ex-deputado estadual mineiro Gustavo Perrella].

O senhor então considera o combate às drogas uma hipocrisia?

Não uma hipocrisia, mas algo alienante. Você fica enxugando gelo para fazer de conta que está fazendo alguma coisa enquanto o tráfico real, milionário, de milhões e milhões de dólares está circulando no 'alto clero'. Veja um exemplo: bancos abriram caixas eletrônicos específicos no México para distribuir dinheiro dos Estados Unidos, sabendo que o dinheiro era originado do tráfico. E ninguém foi punido. Houve uma CPI nos Estados Unidos, indiciaram os gerentes dos bancos. O gerente do banco foi punido. A gente está tapando o sol com a peneira com essa guerra às drogas. E é difícil defender a descriminalização das drogas, porque as pessoas dizem logo: 'ah, esse cara é maconheiro'.

(...)

Como lidar com organizações criminosas violentas como a FDN e o PCC? Essas pessoas podem ser reeducadas, ressocializadas?

Eu acho que até tu, com aquela violência da prisão, pode perder o limite para tudo. Muitas dessas pessoas não fariam ou não vão fazer isso em liberdade. A prisão leva àquilo. O medo, o terror, a ignorância, o ódio. É tudo misturado ali. Por exemplo, uma guerra. O soldado pai de família, tem o filho dele que ele leva à escola, a esposa que ele beija toda noite. Ele é convocado para a guerra e ele estupra, ele mata, ele corta a cabeça, ele faz o escambau lá dentro. Acabou a guerra ele continua com a vida dele normal. A prisão é uma guerra. É violência 24 horas por dia, a prisão. Não é natural ficar atrás de grades. Não tem como a gente avaliar aqui de fora.

E a pessoa submetida a isso tem como ser reinserida na sociedade?

Depende dela. Vou te dar um grande exemplo. Malcolm X [ativista negro americano, assassinado em 1965]. Ele foi preso por um assalto e ele era analfabeto. Na penitenciária em que ele ficou não podia ter livro. Ele traficava livro, à noite ele esperava um guarda acender a luz da sala dele para aproveitar um raio de luz para enxergar e aprendeu a ler assim na penitenciária. Saiu de lá e virou um grande líder revolucionário negro nos Estados Unidos. Foi a prisão que ressocializou Malcolm X? Quer dizer, esse pensamento de mudar funciona com, sem ou apesar da prisão. Depende da pessoa. Mas é sempre apesar da prisão quando acontece, porque a prisão não está auxiliando nisso.

Então é um equívoco pensar que a prisão ressocializa?

Claro. Até do Big Brother, que é um lugar com um monte de mulher bonita, o cara quer sair.
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O “dono” do presídio de Manaus vai administrar o Senado para Eunício?


O cidadão que posa aí ao lado do senador Eunício de Oliveira (como Eunício é uma personalidade nacional, o identifico, é o de gravata vinho) é Luiz Fernando Monteiro Bittencourt, “dono” da Umanizzare, a empresa que é “dona” do Presídio Anísio Jardim, palco do massacre de 60 pessoas, em Manaus.

Bittencourt é um empresário famoso no Ceará, filho de outro empresário famoso de lá, seu pai Luiz Gastão.

Que foi cabo eleitoral de Eunício de Oliveira e do tucano Tasso Jereissati, em 2014, quando presidia a Federação do Comércioe doou, na últimas eleições para governador, a bagatela de R$ 750 mil ao tucano Marconi Perillo (GO).

A Umanizzare não é a única administradora da prisão, cujo contrato é com uma Sociedade de Propósito Específico, a Pamas, registrada em Manaus, sociedade com “outra” a LFG, curiosamente localizada na mesma Aparecida de Goiânia, onde ficava a Umanizzare e gerida pela mesma  Regina Celi Carvalhaes de Andrade, gestora da Umanizzare.

Ou seja, é uma sociedade “de mim comigo mesmo”. E Luiz Fernando é sócio nela.

A família controla uma teia de empresas, no Ceará, Goiás, Amazonas, Tocantins e , agora, em São Paulo, para onde se transferiu a Umanizzare, em agosto de 2016.

Há outra, lá, de propriedade da mesma LFG, parceira da Umanizzare no presídio manauara, no Itaim Bibi, vinda da mesma Aparecida de Goiânia, com o romântico nome de Cárcere Serviços Inteligentes.

Será que com esta vasta experiência de seu amigo cearense, Eunício não se animará a terceirizar para ele os serviços do Senado, quando for presidente?

O Brasil é um país incrível: Renan Calheiros corre o risco de ser canonizado.

PS. Não tenho agentes secretos. Isso é o resultado de meia hora de uma passeada pelos sites das juntas comerciais e dos mecanismos de consulta a sócios, uma modesta ajuda á Polícia Federal que está ocupada com pedalinhos.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Melhor resposta ao preconceito cultural contra os indígenas

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Cisão PT - PDT: Partido (Parte 10/11)



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Parte 1Parte 2Parte 3Parte 4Parte 5Parte 6Parte 7Parte 8Parte 9 — Parte 11
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A entrevista de Fernando Morais com Julian Assange


Foi quase um ano de espera. Desde o começo de 2016 amigos europeus e latino-americanos tentavam me ajudar a conseguir uma entrevista jornalística com o cyber ativista australiano Julian Assange, exilado desde 2012 na elegante e modesta embaixada do Equador, em Londres.

Cheguei a ter um contato enviesado e impessoal com Assange, ao tentar armar um encontro dele com o ex-presidente Lula, que viajaria a Londres em abril de 2013. Lula topou, Assange topou, o pessoal diplomático equatoriano na Inglaterra também apoiou a iniciativa, mas circunstâncias que não vêm ao caso acabaram por frustrar a visita de Lula.

Quando comecei a montar o Nocaute, no ano passado, adotei uma ideia fixa: a principal matéria do número de estreia do blog seria uma entrevista com Julian Assange. Bati em portas de intermediários em vários países até que, em meados do ano, chegou a luz verde: ele ia me receber. E a notícia boa coincidia com os últimos “zeros” (ou “demos” ou “betas”), as versões experimentais do blog, só acessíveis ao público interno.

Aí começaram a adiar a entrevista. E nós tendo que procrastinar o lançamento do Nocaute. Pelo menos na minha cabeça já estava decidido: sem Assange não tinha estreia.

A notícia ruim chegou em setembro: o mega-hacker mantinha a palavra, ia me conceder a entrevista, mas não antes do dia 8 de novembro, data das eleições presidenciais norte-americanas. Demos um cavalo-de-pau na ideia original, convidamos o ex-presidente Lula e fizemos com ele a capa do número 1 de Nocaute, lançado na noite de 29 de setembro.

Abertas as urnas e eleito Donald Trump, voltei a cobrar a entrevista, que acabou sendo marcada para a tarde de 27 de dezembro. Uma gelada e úmida tarde londrina. De calça azul marinho e agasalho de lã abotoado até o pescoço, o varapau de um metro e noventa apareceu sorridente, com a barba e os cabelos longos, mais pálido do que sugerem suas fotos.

Julian Assange é um homem de fala suave e gestos contidos, que em nada lembra o carbonário pintado por alguns veículos. Falou durante três horas sobre Trump, Hillary, Michel Temer, manifestações contra Dilma, Petrobras e, claro, espionagem. A gravação foi interrompida algumas vezes para que ele pudesse tomar um pouco de água e ciscar pedaços de um croissant trazido num saquinho de papel por sua assistente.

Ao final, fez uma única exigência: que a entrevista não fosse divulgada antes de determinada data de janeiro.

A seguir, os vídeos com a entrevista de Assange.






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