10 de jan de 2017

O que Merval faz pode ser considerado jornalismo, como questionou o advogado de Lula?

General, mas não Napoleão
O advogado Cristiano Zanin, da equipe de defesa de Lula, acusou esta semana Merval Pereira de não fazer algo digno de ser chamado de jornalismo.

É uma discussão fascinante: Merval faz jornalismo ou propaganda política?

Tenho para mim que Merval milita numa categoria intermediária entre o jornalismo e a propaganda política.

Merval faz, como poucos no Brasil, o assim chamado jornalismo de guerra.

Nele, as regras são diferentes daquelas que vigoram no jornalismo convencional.

Tome como exemplo o futebol. Você não pode fazer gol com as mãos. Se você derrubar um adversário em sua área, é pênalti. Entradas violentas são punidas com a expulsão.

Isto é um esboço do futebol tal como o conhecemos.

Agora imagine se as regras fossem abolidas. Todas.

Aí nós teríamos o futebol de guerra.

O mesmo raciocínio vale para o jornalismo. Se você publica acusações continuamente sem prova, está fazendo jornalismo de guerra. Se você elege alguém como vítima preferencial, está fazendo jornalismo de guerra. Se você nega a seu alvo espaço para que ele se defenda, está fazendo jornalismo de guerra.

É o que Merval faz.

Foi o que o jornal argentino Clarín admitiu ter feito contra Cristina Kirchner.

Merval é general no jornalismo de guerra praticado no Brasil, mas não é Napoleão ou coisa parecida.

Os Napoleões são os patrões. Os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas.

Só existe uma maneira de fazer alguém como Merval, ou tantos outros, escrever coisas diferentes.

É esta: os donos mandarem que as regras da decência sejam seguidas. Gol de mão nunca mais, e daí por diante.

Mas quem acredita que isso possa acontecer acredita em tudo, para lembrar mais uma vez as palavras imortais de Wellington.

Paulo Nogueira
No DCM
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Fora Temer recebe Temer em Portugal — assista


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Babaca indignada. Apresentadora da Record diz que índios têm de morrer de malária, sem remédios


Crítica da Imperatriz Leopoldinense ao agronegócio revolta jornalista ligada ao setor; ela quer preservar cultura somente de “índio original”

O tema de carnaval da Imperatriz Leopoldinense está incomodando setores da imprensa que defendem o agronegócio. Jornalistas ligados ao tema estão utilizando seus espaços para criticar a escola carioca, que vai levar à avenida o tema Xingu, o Clamor que Vem da Floresta!. O samba-enredo contém críticas ao “belo monstro” (referência à Usina de Belo Monte) que “rouba as terras, devora as matas e seca os rios”. É na sinopse que estão crítica mais diretas ao agronegócio.

Fabélia Oliveira, do programa Sucesso no Campo, da Record Goiás, foi a que mais elevou o tom contra a escola de samba. Ela chama de heróis “os produtores que trabalham de sol a sol”, para alimentar a população. E pergunta: “Que conhecimento eles (os carnavalescos) têm para falar do homem do campo? Para falar do índio, da floresta?

Ela diz que só é a favor da preservação da cultura indígena se eles forem viver “a cultura deles”. “Se o índio for original”, considera. E tece estas considerações, na abertura do programa de domingo (08/01):

– Deixar a mata reservada para comer de geladeira não é cultura indígena, não. Eu sinto muito. Se ele quer preservar a cultura ele não pode ter acesso à tecnologia que nós temos. Ele não pode comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos. Porque há um controle populacional natural. Ele vai ter que morrer de malária, de tétano, do parto. É… a natureza. Vai tratar da medicina do pajé, do cacique, que eles tinham. Aí justifica.

Confira aqui o vídeo:



No Outras Palavras
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Belluzzo em entrevista: ‘É primária’ ideia de que golpe restabeleceria a confiança”

“— No atual processo, estamos vendo acontecer com a Petrobras o que nem a ditadura militar, que tinha setores nacionalistas, nem Fernando Henrique conseguiram…”


Segundo Belluzzo, a sequencia de erros começou no momento em que a presidenta deposta Dilma Rousseff anunciou o ajuste fiscal. Não levou em conta as condições adversas no cenário macroeconômico e colocou em risco a confiança no seu governo

O sistema político instaurado após a deposição da presidenta Dilma Rousseff está entre os piores entraves ao crescimento econômico. Na visão do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, a ideia de que os agentes econômicos retomariam a confiança no Brasil, após o golpe de Estado, “é primária”, atalhou o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

— A ideia de que uma vez deflagrado o impeachment você iria recuperar a confiança é primária. O que aconteceu foi que a situação se agravou, continuamos numa espiral descendente, e todas as pesquisas de confiança dos empreendedores acabaram se mostrando negativas — disse Belluzzo ao jornalista Eduardo Maretti, em uma entrevista exclusiva à revista Rede Brasil Atual, nesta terça-feira.

Leia, adiante, os principais pontos da conversa reproduzidos aqui, no Correio do Brasil:

— O mercado está abandonando Temer?

— Eu não acho que essa seja uma pergunta que esclareça a situação. As opiniões prevalecentes no mercado foram importantes para fazer com que a Dilma mudasse de ponto de vista, entre o momento em que ela estava fazendo a campanha eleitoral, e portanto propondo um outro programa, e a decisão que ela tomou no final de 2014 (quando o pacote fiscal começou a ser estruturado). Na época, disse quer ela ia fazer um ajuste equivocado e eu esperava consequências desastrosas.

Já fiz muita previsão errada mas, nesse caso, nem precisaria ser economista. Precisaria do elementar bom senso. E ter um mínimo de conhecimento para ver que adotar aquele programa de ajustamento, como foi feito, quando a economia estava desacelerando fortemente, ia desencadear um processo cumulativo que se autorreforçava, de queda do PIB e aumento dos custos das empresas. Sim, porque houve um choque de tarifas – gasolina, energia, água, esgoto – e a explosão do serviço das dívidas contraídas no período de expansão, quando empresas e famílias se endividaram.

Sem confiança

A inflação saiu de 6,4% no final de 2014 e foi para 10,25%, se não estou enganado (chegou a 11,31% em janeiro de 2016). Com a subida da taxa de juros e cortes de investimento, a economia entrou num processo de derrocada que se autoalimenta. Queda do nível de atividade, menos receitas para empresas e menos impostos para o governo. À medida que as condições das empresas foram piorando, pioraram também as condições do crédito, para as empresas e famílias. Você jogou a economia não numa recessão, mas numa depressão. A despeito disso, as pessoas continuaram falando que era só passar o impeachment que ia melhorar a confiança. Ora, isso é uma visão tosca de como você recompõe a confiança de uma economia de mercado.

— Isso sob uma ótica política…

— Político-econômica, porque as coisas estão muito entrelaçadas. A ideia de que uma vez deflagrado o impeachment você iria recuperar a confiança é uma ideia primária. O que aconteceu foi que a situação se agravou. Continuamos numa espiral descendente. Todas as pesquisas de confiança dos empreendedores acabaram se mostrando negativas. No caso das empresas, houve uma piora grave do serviço da dívida e aumento da capacidade ociosa, como no setor automobilístico.

As empresas estão muito machucadas pelo choque de tarifas e de juros e pela deterioração dos seus balanços. Essa é uma recessão muito grave porque a piora do balanço das empresas, de serviços ou industriais, afeta também os bancos, que começam a ter problemas com seus balanços. O que estou vendo é que começa um movimento de percepção entre aqueles que ou aceitaram ou concordaram não só com o impeachment, mas com o programa.

É uma ilusão achar que o impeachment ia recompor a confiança. Como disse, é primário. Tirando alguns que estão começando a manifestar uma inquietação agora, o mercado, os que falavam muito, estão se escondendo. Tenho lido artigos que dizem que o desemprego seria menor se houvesse um ajuste pelo lado do emprego informal. É outra ilusão. É ilusão dizer que, se o salário real caísse mais rapidamente, o combate à inflação seria mais rápido e a recessão seria menor. Francamente, isso não encontra guarida na lógica, porque se a massa de salários cai muito rapidamente, isso vai alimentar a recessão.

— A política econômica do governo Temer não parece um arremedo de neoliberalismo, algo mais antigo, ou uma colcha de retalhos, com medidas de supressão de direitos, PEC do Fim do Mundo etc.? Como define essa política?

— É difícil lidar com nomes, com siglas. Acho que é uma política, mais do que conservadora, retrógrada. Ela tenta fazer um ajuste que não tem nenhum fundamento no funcionamento real da economia, movido por ideias muito conservadoras e precárias. É um desrespeito com os neoliberais mais atilados chamar essa política de neoliberal (risos).

Há uma crise muito profunda da teoria econômica, que está sendo avaliada e contestada por muita gente fora do Brasil. Aqui esse debate ainda não ganhou corpo, porque os economistas brasileiros ainda estão muito resistentes a abrir mão do aparato teórico que adquiriram fora do Brasil, que não tem mais validade ou vale muito pouco e até os economistas mais atilados deles já estão começando a reconsiderar algumas questões. Quando a economia estava desacelerando, adotar aquele programa de ajustamento (com Dilma) é simplesmente inacreditável. Inacreditável que pudesse passar pela cabeça de alguém uma ideia que só se pode justificar por concepções equivocadas e mesmo ridículas.

— No atual processo, estamos vendo acontecer com a Petrobras o que nem a ditadura militar, que tinha setores nacionalistas, nem Fernando Henrique conseguiram…

— Isso nasce de uma situação peculiar, que foi a investigação da Lava Jato. Porém, se você examinar os episódios de crimes financeiros nos Estados Unidos, por exemplo, eles procuraram preservar as empresas. Aqui, conseguimos fazer uma coisa muito grave: prejudicar uma cadeia produtiva muito importante, talvez a mais importante num momento de recuperação. Tem algumas coisas que só podem ser explicadas pela indigência mental dessa gente.

— Ou estão certas as teorias da conspiração segundo as quais isso tudo foi orquestrado a partir de interesses externos?

— Acho que o Sérgio Moro, por exemplo, nem sabe o que está fazendo. Isso é o pior nessa sociedade em que nós vivemos. Tanto ele (Moro) quanto os que deflagraram o ajuste não têm consciência exata do que estão fazendo. Há estudos agora sobre o caráter da informação, da língua, da linguística, dos falsos conceitos, o que tem a ver com a mídia brasileira, escancaradamente de quinta categoria.

O Moro é o que nos anos 1920 ainda se chamava idiot savant, uma expressão psiquiátrica, para falar do sábio idiota, aquele que só conhece a área dele e não consegue fazer uma relação entre a área dele e as demais. Então, não acho que o Moro seja um conspirador. Ele está encharcado dessas convicções, foi ensinado assim, estudou lá (nos EUA), percebe-se claramente que não tem uma cultura mais ampla. Aliás, isso faz falta entre operadores de direito e de economia. A gente sempre precisa achar que a gente sabe menos do que acha que sabe.

— O Brasil passa por uma conjuntura em que não se sabe se o governo vai cair, se vai haver parlamentarismo ou o que vai acontecer. É possível prever um cenário?

— O cenário é muito obscuro, muito difícil de fazer previsão. Acho que a recuperação da economia vai demorar muito, mas esse sistema político que está aí é um obstáculo, não oferece nenhuma possibilidade de solução. Eles se comprometeram muito. Essa “PEC do Fim do Mundo” é uma insensatez. Qualquer pessoa com inteligência acima de dois neurônios se dá conta de que isso é um desastre. É uma coisa de hospício.

— No entanto, passou…

— Passou. Pois é. A gente tem que buscar a explicação numa região mais profunda da sociedade brasileira. Você está vendo o que está acontecendo com os presídios. Uma vez li no Norberto Bobbio que você pode avaliar o grau de civilidade de uma sociedade pela forma com que trata as crianças, os velhos e os prisioneiros. Quanto mais selvagem e mais bárbara a sociedade, pior o tratamento que dá a essas categorias de pessoas, que são as que estão à mercê do Estado, e deveriam estar sob a proteção do Estado. Você viu manifestações de deputados, secretários de Estado, dizendo que não tinha nenhum santo (nos presídios). Não se trata de santo ou não santo, trata-se de um sujeito que está investido da condição humana.

Há o atraso secular do Brasil, atraso social, moral e ideológico que vem lá do escravismo, e depois vem da desigualdade, e de todas as mazelas das quais esse país não se livrou. Isso tudo está cristalizado hoje em duas coisas: no mercado financeiro e na mídia de massas. Isso é que conforma o imaginário, a compreensão de muitos brasileiros entregues a isso sem nenhum poder de reação e nenhuma possibilidade de se informar alternativamente.

— Depois de tanta luta pela redemocratização, o impeachment, como ocorreu, provocou em muitas pessoas um sentimento de total descrença no Brasil, os que acham que o país não tem mais jeito. Qual sua posição? Está entre esses?

— Não, porque se eu tivesse essa visão eu teria me retirado de alguma forma. Acho que a gente pode juntar forças democráticas e acho que uma parte da esquerda tem que entender que a democracia é importante. A gente está aprendendo que é importante, que as instituições são importantes. A gente está voltando às origens do pensamento de esquerda que era liberal democrático. O liberalismo politico faz parte da construção dessa forma de ver o mundo. Organizar as instituições, junto com o controle da economia pelo Estado, sem que você se deixe iludir pela ideia de que o mercado se autorregule.

Não estou falando nada de novo, mas simplesmente voltando ao que disseram e praticaram os grandes estadistas do pós-guerra, como (Konrad) Adenauer, (Charles) De Gaulle, (Alcide) De Gasperi, gente que se deu conta de que a democracia só pode florescer enquanto houver segurança econômica do cidadão. Senão, você desencadeia um processo perverso, como o que a gente está vendo aqui. O que é assustador aqui é nosso atraso cultural, intelectual, sobretudo nas camadas dos que se consideram acima dos mais fracos e mais pobres. Seria bom que o Brasil tivesse uma elite, mas não tem. O Brasil tem ricos, mas não tem elite.

As camadas superiores não querem saber do Brasil. É como se estivéssemos voltando à época do pau brasil, isso aqui virou um campo de caça. Como se viessem fazer uma coisa extrativista: tirar e ir morar em Miami. Não têm solidariedade com o outro. E isso é fundamental. Foi o que cimentou a construção do Estado do bem estar, que hoje está começando a se dissolver também na Europa. Isso é que é terrível. O capitalismo não consegue mais se proteger dele mesmo.

— Mas, pelo menos no Brasil, a pouca civilidade que tinha está indo pelo ralo…

— Sim, aqui a coisa é mais grave, mas na Europa a situação da Grécia, por exemplo, é terrível. Aumentou o número de suicídios violentamente. O que a gente quer? A gente quer dar uma contribuição para a sociedade e ao mesmo tempo ter direito de viver melhor. O que está colocado aí na frente pelo avanço tecnológico etc. é que você vai poder trabalhar menos horas. Precisamos nos livrar dessas relações postas nas empresas com os trabalhadores e a população. Para que as pessoas possam trabalhar menos, curtir mais a vida.

No Correio do Brasil
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TemerLeaks


Alguém muito distraído vazou, pelo Portal Brasil, TODAS as senhas das redes do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios, em mais uma espetacular demonstração do caos instalado pelos golpistas na República.

E, aí, você descobre que a senha do Facebook do Palácio do Planalto, registrada numa planilha de Excel, é "planaltodotemer2016", com um aviso em vermelho, em caixa alta: NÃO TROCAR A SENHA NUNCA.

É ou não é um governo de bestas quadradas?


Leandro Fortes
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A presidente Nísia Trindade anuncia sua equipe na Fiocruz


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Xadrez da política, do crime e da contravenção


Os massacres em presídios são apenas o desfecho de um amplo processo nacional de convivência com o crime, de aceitação social, de parceria política e de negócios entre o país formal e a criminalidade.

O escravagismo e o bicho foram as primeiras organizações criminosas. Da estrutura do bicho nasceu o narcotráfico. Com seu conhecimento da arte de corromper autoridades públicas, o bicho saltou das delegacias municipais para as Secretarias de Segurança estaduais, e de lá para toda a máquina pública, para todos os poros da administração pública, entrando nas licitações municipais, estaduais, controlando o lixo, os transportes urbanos, da mesma maneira que a máfia na Itália, conforme revelou a CPMI de Carlinhos Cachoeira.

No mundo oficial, na base do Judiciário, há a generalização da prisão provisória de preso pobre. Para os tubarões, há a sucessão de recursos, a anulação de inquéritos por ninharias. Cada aumento das penalidades pega apenas os de baixo. Cada flexibilização nas penas, beneficia apenas os de cima.

Historicamente, política e crime – perdão, contravenção – sempre caminharam de mãos dadas. Na época da Proclamação da República, por exemplo, o jogo do bicho já dominava a Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Nenhum partido saiu imune dessas alianças, do PDT de Brizola ao PMDB de Quércia e Michel Temer, ao PT (clique aqui). Desde o momento em que o jogo internacional entrou na Caixa Econômica Federal, no governo Itamar Franco – vendendo sistemas para as loterias -, uma sucessão de escândalos abalou vários governos e abriu a primeira brecha no governo Lula com o caso Valdomiro – do qual se valeu a ala do Ministério Público Federal ligada a José Serra.

Vamos a um pequeno histórico das relações com a contravenção de dois personagens-símbolos do Brasil atual: o presidente Michel Temer e o Ministro da Justiça Alexandre de Morais.

Peça 1 - Michel Temer e a primeira pax paulista

As ligações de Temer com o jogo nasceram com sua própria carreira política. De advogado, tornou-se procurador. De procurador, Secretário de Segurança em São Paulo na gestão Franco Montoro. Assumiu com Montoro acossado, com manifestantes derrubando as grades do Palácio Bandeirantes, com a incumbência de montar a pax paulista. Empossado Secretário, sua primeira declaração foi pela legalização do jogo do bicho (Estadão02).

Quando saiu da Secretaria, estouraram denúncias de que sua campanha para deputado Constituinte foi bancada pelo jogo-de-bicho (Folha 25061986). O deputado estadual santista Del Bosco do Amaral (PMDB) acusou Temer de ter se apoiado nos “piores setores policiais, inclusive aqueles ligados ao jogo de bicho”. Acusava-o também de ter afrouxado a repressão ao jogo em troca da “corretagem zoológica” (clique aqui).

Houve uma CPI na Assembleia Legislativa, na qual o chefe de polícia de Temer, Álvaro Luz, afirmou ter sido orientado a reprimir apenas os bicheiros que atuassem de modo “ostensivo”. No caso, pequenos bicheiros que ousavam montar seus próprios negócios, competindo com Ivo Noel, Marechal, os donos do bicho em São Paulo.

As relações de Temer com o jogo não pararam aí.

O pacto do jogo com o governo do Estado durou até o caso Carandiru, no governo Fleury. Desde fins dos anos 80, o PCC começava a invadir o estado, ameaçando o reinado dos bicheiros. Montou-se uma operação da Polícia Militar destinada a atingir alguns integrantes do PCC presos no Carandiru. Um acidente no caminho – um aparelho de TV arremessado na cabeça do comandante do efetivo, e o boato de que tinha morrido – resultou no estouro da boiada e no massacre de Carandiru.

Temer foi rapidamente convocado por Fleury a reassumir a Secretaria de Segurança. No período em que se manteve Secretário, o número de flagrantes contra o bicho caiu de 1.006 em 1990 (gestão anterior), para 746 em 1992 e 624 em 1993 (Folha17021997). Como sempre, as autuações eram em cima de pequenos bicheiros, que ousavam voos independentes. E já eram conhecidas as ligações dos bicheiros com o tráfico de cocaína (Angerami).

Um novo poder se sobrepunha ao bicho, o do PCC que rapidamente conseguiu a adesão das populações carcerárias, como efeito da profunda insegurança que se seguiu ao massacre caso Carandiru.

Sua ligação com o jogo era tão conhecida que, na CPI do Bingo, na Câmara Federal, incumbiu o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), relator da Comissão, de mantê-lo informado sobre as pessoas que seriam convocadas ou investigadas (https://goo.gl/39aySf).

Recentemente, o presidente da Comissão de Turismo Herculano Passos (PSD-SP), informou que avançará na proposta de legalização do jogo, depois de ter conversado com Temer e “ele disse que pretende tocar para frente a proposta porque é bom para a economia e é bom para o país”.

Peça 2 - Alexandre de Morais e a segunda pax paulista

Do mesmo modo que Temer, a estreia de Morais no campo político-jurídico foi um livro sobre constitucionalismo. E seu princípio de vida talvez possa ser sintetizado no discurso que, como Ministro, fez a uma plateia lotada de estudantes: defendeu que os futuros advogados se preocupem em ganhar dinheiro, "porque não sou comunista nem socialista, muito pelo contrário" (https://goo.gl/eHu3MK).

Se a gestão Temer foi no auge do poder do bicho, a de Morais se deu no auge do poder do PCC. O embate maior foi em 2006, durante a campanha presidencial de Geraldo Alckmin. O PCC invadiu a cidade e executou diversos agentes públicos.

Celebrou-se um acordo (https://goo.gl/Nz8lzc), do qual Morais não participou.

Depois disso, a paz voltou a reinar – e o PCC ganhou espaço para crescer. Em troca da liberdade de ação, o PCC ajudou a reduzir os crimes violentos na periferia, um varejo que tinha o inconveniente de chamar a atenção da opinião pública, obrigando a polícia a intervir.

Dessa convivência pacífica se prevaleceu Alexandre de Morais. Quando Gilberto Kassab assumiu a prefeitura de São Paulo, levou Morais como seu homem forte, iludido por sua retórica de gestor.

Tornou-se um super-secretário acumulando as pastas de Transportes e de Serviços, presidindo o Serviço Funerário, a SPTrans e a Companhia de Engenharia de Tráfego.

No cargo, era o responsável pela negociação dos sistemas de transportes, incluindo as vans, sob o controle do PCC. Saiu depois de várias decisões intempestivas e desastrosas, culminando com o anúncio inesperado de que iria rever todos os contratos de ônibus  e de vans da prefeitura (https://goo.gl/tH9bVC), sem ao menos consultar o prefeito.

A proposta desgostou muitos setores, não o PCC. Morais se tornou suficientemente confiável para, fora do cargo, ser contratado como advogado pelo PCC para sua cooperativa de vans, a Transcooper (https://goo.gl/kbxGnw)

Em 2012, a convite do colega Michel Temer se filiou ao PMDB. E, por conta dessa aliança, em 2015 assumiu o posto de Secretário de Segurança do Estado de São Paulo, mesmo posto que projetou seu mestre Temer. Saiu criando problemas no governo: não conseguiu implementar sequer a meninas dos olhos da Segurança, o sistema Detecta, de reconhecimento de atitudes suspeitas, que a Prodesp deixou pronto e acabado para ser implementado (https://goo.gl/qQ2WeS).

Peça 3 – a guerra contra o crime

A guerra contra o crime organizado se dá em quatro frentes centrais:

1.     Na economia, na medida em que o desemprego e a falta de oportunidades são fatores de aliciamento dos jovens pelo crime.

2.     Na periferia e na favela, onde o crime organizado fornece segurança à população.

3.     Nos presídios, nos quais a ordem e a integridade são garantidas pelas organizações criminosas. Os massacres ocorrem quando há conflito entre elas.

4.     No mundo empresarial e político, para identificação dos elos do crime com os sistemas formais de poder.

Não se trata de tarefa trivial.

Em países menos atrasados, é desafio para ações interministeriais, envolvendo educação, saúde, juventude, esportes, obras públicas etc. Exige também integração com Secretarias estaduais e metropolitanas, com a cooperação internacional, com a diplomacia. Exige capacidade de trabalhar com dados, estatísticas, geo-referenciamento.

De maneira solta, todos esses mecanismos existem. Mas sua coordenação exige uma capacidade superior de gestão.

Como é o gestor Alexandre de Morais?

Em 2005, como presidente da Febem, o constitucionalista Morais ordenou o maior processo de demissão em massa da história da instituição. Dois anos depois, o STF ordenou a readmissão de todos os demitidos. O Estado teve que arcar com uma conta de R$ 32 milhões, suficiente para construir 11 pequenas unidades, dentro do projeto de descentralização da Febem (https://goo.gl/JMzBv9).

Como super-secretário de Kassab, criou tal confusão nos serviços de varrição que agravou os efeitos das enchentes daquele ano. Deixou a prefeitura com a fama de anunciar planos que nunca eram implementados e que, muitas vezes, nem planos eram: apenas ideias esparsas coladas com um tanto de retórica.

Depois, como Secretário de Segurança de Geraldo Alckmin não conseguiu sequer implementar a principal peça de campanha: um sistema de reconhecimento que já tinha sido desenvolvido pela Prodesp. Questionado pela imprensa sobre a demora, limitou-se a dizer, ao estilo Rolando-Lero que não concordava que as webcams ficassem na marginal, pois seriam identificadas facilmente pelos motociclistas. A Prodesp nunca foi informada dessa ressalva.

Peça 4 – o Plano Nacional de Segurança Pública

Das limitações gerenciais e profissionais de Alexandre de Morais nasceu o Plano Nacional de Segurança Pública.

As três metas traçadas já indicam sua limitação. O Plano define como prioridades o combate ao homicídio, à violência contra a mulher e ao trabalho diplomático com nações fronteiriças, visando conter o tráfico e uma vaga racionalização e modernização do sistema carcerário.

Homicídios soltos e violência contra a mulher nunca foram de responsabilidade do governo federal, e nem poderiam ser. Tratam-se de crimes locais, com motivação local e que exigem a atuação do poder local. Como irá controlar, de Brasília, as fantasiosas patrulhas Maria da Penha, com que pretende reduzir a violência contra a mulher? O que essas patrulhas fariam?

A atuação do governo federal é no combate às organizações criminosas, cujos tentáculos atingem vários estados e o exterior.

Mas esse desafio, Morais não quer encarar, pois significaria entrar no terreno cinza que permeia as relações entre a economia formal e o crime.

Tome-se o caso do Comendador Arcanjo, que dominava o jogo no Mato Grosso. Algumas das grandes fortunas de soja foram construídas lavando dinheiro de Arcanjo. Sua influência vai de cassinos na fronteira até linhas de ônibus no ABC. Recentemente conseguiu no Superior Tribunal de Justiça (STJ) a liberação de todos seus bens.

Como era também a influência de Carlinhos Cachoeira, suas ligações com a Delta Engenharia, seus negócios com vários governadores de estado.

É do advogado do PCC que se espera um papel similar ao dos Intocáveis?

Ora, entre advogados e clientes não existe a história da Muralha Chinesa. Há sempre uma relação de total confiança e de abertura de todas as informações do cliente, para que possa ser bem defendido.

Um Ministro da Justiça que manteve relações de confiança de tal ordem com o PCC irá conduzir o trabalho de combate ao PCC e a outras organizações criminosas?

No fim, o Plano Nacional de Segurança não passará disso: Morais produzindo factoides e uma reunião de emergência para daqui a uma semana; Michel Temer indo comer os pães de queijo da presidente do Supremo Carmen Lúcia; e a Ministra soltando uma frase de efeito de seu repertório mineiro.

As atividades do PCC são públicas e notórias: o próprio Alexandre de Morais tem, no seu escritório, a relação das empresas controladas pela quadrilha. Como eram notórias as atividades de Ivo Noal e Marechal, nos tempos em que Temer era Secretário de Segurança. Tem nome, endereço, razão social.

Mesmo assim, seguem intocáveis. E, quando presos, transformam os presídios em escritórios.

Luiz Nassif
No GGN
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O PT no Governo também degola


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Assange: Brasil é um dos países mais espionados pelos EUA


Em novo trecho de sua entrevista exclusiva ao escritor Fernando Morais, editor Nocaute, Julian Assange, fundador do Wikileaks, afirma que o Brasil é o País mais espionado pelos Estados Unidos na América Latina.

"A razão é o tamanho da economia e um dos motivos é o pré-sal", diz ele.

Quando eclodiu o escândalo da NSA, a agência norte-americana de segurança, soube-se que a administração de Barack Obama grampeou a presidente eleita Dilma Rousseff e também monitorou a Petrobras.

Em outro trecho da entrevista, Assange revelou que Michel Temer teve reuniões privadas na embaixada dos Estados Unidos. "Trocou informações por apoio político", diz ele (veja mais aqui).

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Então tá...

Vamos todos fingir que é normal o presidente do Tribunal Superior Eleitoral pegar carona com um sedizente presidente da república (com letras minúsculas mesmo) para ir a Lisboa, supostamente para participar das cerimônias funerais do maior democrata português da contemporaneidade. É normalíssimo, porque o tal presidente do tribunal é quem vai pautar um processo que pode significar o fim do que se usou chamar, na mídia comercial, de "mandato" do sedizente presidente da república. O tal presidente de tribunal é inimigo notório da companheira de chapa do sedizente presidente que urdiu um golpe para derrubá-la. Mas, claro, tem toda isenção do mundo para julgar ambos.“Nada haverá de suspeito”, como diria o insuspeito jornalista Ricardo Noblat. Quem ousaria dizer o contrário?

A carona (ou boleia, como diriam nossos irmãos lusos) veio a calhar. É, antes de mais nada, uma bela viagem 0800, com todos custos cobertos por mim, por você, por nós, obsequiosos bobões. A ideia é só aproximar réu e julgador e — por que não? — usufruir um pouquinho do que a capital portuguesa tem de melhor a oferecer: as tabernas, o fado, as ginjinhas, as pataniscas de bacalhau ou os famosos pastéis de Belém. Nestes tempos bicudos, nada melhor que uma “escapadela” para enfrentá-los com maior disposição. Ninguém é de ferro. As exéquias do democrata lusitano certamente são a menor das preocupações do réu e de seu julgador, pois vê-los prestar suas últimas homenagens ao gigante da política portuguesa parece tão obsceno quanto fosse ver Lula prestá-las a Augusto Pinochet.

Vamos todos fingir que neste país chamado Brasil há um patriótico chefe do ministério público, que faz muito bem em ir a Davos. Lá vai cantar uma ode ao combate à corrupção que se usou chamar de sistêmica ou organizada pelas bandas de cá. Ou, quiçá, até de uma forma de governança. Isso também é normalíssimo, porque em Davos se reúnem bancos e fundos de envergadura global para traçar estratégias sobre novos investimentos e analisar a conjuntura política e econômica no planeta. Claro, faz sentido. Com as proezas ditas de si e de seu poderoso órgão acusador, vai atrair enorme interesse por investimentos nobres em seu país. Finjamos que grandes empresas adoram investir em economias tingidas de corrupção sistêmica, certificada pelo chefe da acusação.

O poderoso órgão de acusação, regiamente sustentado com nossos impostos, como é sabido também, sacrificou no altar da moral purgatória mais de um milhão de empregos e pôs fim a um projeto de desenvolvimento nacional e de uma sociedade inclusiva. Mas, claro, tudo com a melhor das intenções. Fez um nobre serviço à democracia do tal Brasil, permitindo ao réu a caminho de Lisboa instalar-se no poder sob as bênçãos de seu julgador caroneiro, para liquidar, num verdadeiro off-sale, os ativos econômicos do país, as jóias da família. Disso empresários em busca de lucros gostam. Mas esse deve ser o menor problema do chefe do ministério público, pois vê-lo em Davos parece tão obsceno quanto ver George Soros num Encontro Nacional dos Procuradores da República em Comandatuba.

Vamos todos fingir que temos um preocupado ministro da justiça que declara publicamente apoio ao governo do Amazonas para debelar, em seu sistema penitenciário, a guerra assassina entre facções de traficantes. Normalíssimo, oras. O azarado ministro, de boa-fé, não se lembrou ter negado o pedido desesperado de uma governadora, de uso da Força Nacional que, talvez, pudesse ter salvo a vida de trinta e poucos brasileiros em Roraima, massacrados na vindita de uma facção contra outra, que dizimara quase sessenta concidadãos em Manaus.

É aceitável, afinal, que o governador do Amazonas, destinatário do apoio do tal ministro da justiça, tenha sido financiado em sua campanha eleitoral pela empresa copiosamente remunerada para administrar a penitenciária onde trucidaram os quase sessenta brasileiros. Faz todo sentido, por isso, que pontifique: "nenhum dos mortos era santo!", como se aplaudisse os padrões da administração penitenciária contratada de seu doador. E faz todo sentido que o tal governador se julgue Deus, para condenar os trucidados ao fogo eterno. Não é que ele mesmo poderia estar lá, se fossem levar a sério, no tribunal do julgador caroneiro, o imperativo de cassação de seu mandato por compra de votos? Deixá-lo falar de falta de santidade é tão obsceno quanto imaginar o cramunhão ser canonizado.

A literatura popular alemã contém antiquíssimo anedotário de autoria controvertida sobre uma cidadezinha chamada Schilda. Seus habitantes, os ingênuos Schildbürger, são os protótipos de néscios que fazem, com naturalidade, tudo de forma a nada dar certo. Inventaram um papel higiênico que se pode usar nos dois lados: a prova de sua eficiência está na mão... O Brasil de nossos fingimentos virou uma enorme Schilda. Fazemos os maiores absurdos, mas não perdemos a esperança ingênua de acertar. E não entendemos quem ouse não concordar.

Eugênio Aragão
No CAf
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