9 de jan de 2017

Carta aberta a Merval Pereira


Senhor jornalista,

Mais uma vez, nesta data (“A luta pela sobrevivência”), sua coluna traz uma pretensa análise jurídica sobre processo envolvendo o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Juridicamente, são improcedentes as afirmações de que existem “indícios suficientes para que Lula se torne réu em mais um processo” e, ainda, que “as investigações decorrentes poderão levá-lo a ser condenado”. Seu raciocínio junta fatos que não se comunicam e, pior, a falsa narrativa induz o leitor a conclusões erradas.

A delação premiada de executivos da Odebrecht não foi homologada e, portanto, não tem qualquer valor jurídico neste momento. A rigor, está em sigilo e qualquer referência aos seus termos deve ser tomada como mera especulação.

Há fatos intransponíveis que não foram por você enfrentados: Lula jamais solicitou, recebeu ou aceitou a propriedade de um imóvel “para o Instituto” ou vizinho ao que mora. Sua coluna ignora todos os comunicados feitos pela defesa sobre o tema.

Tampouco existe qualquer relação entre esses imóveis e atribuições inerentes ao cargo de Presidente da República que foi ocupado por Lula entre 2003 a 2010. Tal situação afasta completamente qualquer dos elementos necessários para a configuração do crime de corrupção passiva, previsto no artigo 317, do Código Penal – que parece ter sido a base do raciocínio de sua publicação.

Registro que já houve pronunciamento publico do ex-Presidente sobre o assunto, afirmando que o imóvel foi oferecido para sediar o Memorial da Democracia, mas houve clara e inequívoca rejeição, a partir de decisão tomada pela Diretoria do Instituto da Cidadania, que foi posteriormente transformado no Instituto Lula.

A pretexto de tratar da situação da Odebrecht, sua coluna foca Lula, com clara omissão de fatos que já foram enfrentados pela defesa, para afastar qualquer indício da prática de um ilícito. É a demonstração irrefutável da fragilidade dos argumentos apresentados.

Na verdade, seu texto não é jornalístico. Insere-se nas táticas de “lawfare”, para manter em permanente exposição negativa a imagem e reputação de Lula. Publicações como a sua servem para mascarar a falta de qualquer materialidade nas suspeitas que são lançadas sobre o ex-Presidente por agentes públicos, para a abertura de diversos procedimentos investigatórios frívolos, com o único intuito de prejudicar sua atividade política.

A “luta pela sobrevivência” não está restrita à empresa citada na publicação. Ela envolve o próprio Estado Democrático de Direito, pois hoje o ambiente da Justiça passou a ser palco de discussões políticas, sem a observância da lei.

Cristiano Zanin Martins
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Morre o sociólogo polonês Zygmunt Bauman


Em entrevista ao programa Observatório da Imprensa, da TV Brasil, sociólogo polonês aos 89 anos afirmou que o Brasil é um “milagre inacabado”: “Vocês estão no caminho certo e eu espero de todo o meu coração que vocês cheguem lá”


Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, é um dos mais conhecidos pensadores da atualidade. Sua análise da mudança da solidez dos valores modernos para um mundo líquido, fluido, leve, que se caracteriza pela fragilidade dos laços humanos e pelo medo dos vínculos, tem nos auxiliado a repensar os velhos conceitos que faziam parte das narrativas de nossas vidas.

Bauman recebeu a cpfl cultura em sua casa, na cidade de Leeds, Inglaterra, no dia 23 de julho de 2011, para uma entrevista exclusiva.

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Massacre de Manaus expõe falácia da privatização de presídios


Na última coluna do ano passado, escrevi sobre a anacrônica visão do ministro da Justiça sobre as questões de segurança pública. Sua pretensão é aumentar o número de prisões por crimes relacionados às drogas e, ao mesmo tempo, deixar de usar os recursos do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) nos presídios para realocá-los em outras áreas de segurança pública. Em setembro último, o STF frustrou o ministro e o obrigou a fazer óbvio: utilizar os recursos do fundo para o que ele foi criado, na construção, reforma, ampliação, modernização e aprimoramento de estabelecimentos penais. A quem interessa o sucateamento do já combalido sistema penitenciário? Ao que parece, apenas às empresas interessadas em lucrar administrando presídios e políticos financiados por elas.

O Massacre de Manaus expôs a falácia de que a privatização de presídios traz eficiência para o sistema. O Compaj (Complexo Penitenciária Anísio Jobim) foi concedido à iniciativa privada há mais de dois anos e abrigava durante a rebelião o triplo de detentos em relação a sua capacidade, segundo o próprio governo do Estado. Peritos ouvidos pelo UOL afirmaram que a gestão terceirizada facilitou o massacre. Numa inspeção realizada pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em outubro do ano passado, o Compaj foi classificado como “péssimo” para a ressocialização dos presos, que estão sem nenhuma assistência social, jurídica, educacional e de saúde – uma tragédia anunciada. Ainda segundo o relatório do CNJ, presos que ainda não foram condenados pela Justiça ficam em celas com outros já condenados. Ou seja, um inocente ou um ladrão de goiaba pode desfrutar da convivência diária com um líder de facção criminosa de alta periculosidade condenado por homicídio. O crime organizado agradece ao Estado pelos serviços prestados nessa parceria de sucesso.


É com essa excelência que estão funcionando os presídios de Manaus cujas administrações estão sob os cuidados da iniciativa privada: superlotação, livre trânsito de armas e drogas, disputa sangrenta entre facções criminosas. A empresa que lucra com a tragédia chama-se Umanizzare (“humanizar” em italiano) – uma ironia que está em sintonia com a era da pós-verdade. Se os lucros ficam com a empresa (recebeu R$651 milhões dos cofres públicos entre 2013 e 2016), a responsabilidade em garantir condições dignas para o cumprimento da pena ainda é do Estado.

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Site da Umanizzare – no mundo encantado da privatização, morar num presídio privatizado é como estar numa colônia de férias. No mundo real, os presídios brasileiros – privatizados ou não – são o quartel general do crime organizado.

A Umanizzare é uma grande doadora eleitoral. A empresa doou R$ 300 mil para a campanha do governador reeleito do Amazonas, José Melo (PROS). Já seus acionistas doaram R$ 212 mil ao ex-deputado federal Carlos Souza (PSD-AM), que é – vejam só que curioso – réu por tráfico de drogas. Se sobrou dinheiro para a empresa bancar políticos amigos, faltou para investir no pessoal que trabalha no inferno dos presídios. Os funcionários não têm plano de carreira e a média salarial é de R$ 1.700. Não é à toa que, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária do Amazonas (Seap), só no ano de 2016, ao menos 53 presos fugiram e oito túneis foram construídos em presídios administrados pela iniciativa privada – um choque de eficiência!

E como reagiram nossos servidores públicos responsáveis pela manufatura dessa bomba-relógio?

Bom, o presidente não-eleito ficou quatro dias calado diante da segunda maior chacina ocorrida na história do seu país. Quando apareceu, apresentou um novo Plano de Segurança com mais do mesmo e classificou a escandalosa omissão do Estado que resultou em 56 mortos de “acidente pavoroso”. Pior: afirmou que os agentes estatais não podem ser responsabilizados, já que o presídio é terceirizado – o que é mentira, porque a segurança dos presos é uma responsabilidade do Estado, segundo a Constituição.

Alckmin lavou as mãos e disse que “não há nenhuma relação com São Paulo”. Nenhuma mesmo, a não ser o fato de o PCC ter crescido absurdamente nos presídios paulistas durante suas gestões antes de se espalhar pelo Brasil. O monstro cresceu tanto que o governo teve que sentar com Marcola, líder da facção, para negociar o fim da onda de ataques de 2006. O governador não parece também ter visto grande problema no Massacre do Carandiru – episódio que pariu o PCC –  já que chegou a nomear um dos acusados da chacina como chefe da ROTA.

Já o governador do Amazonas minimizou o massacre dizendo que entre as vítimas “não tinha nenhum santo. Eram estupradores e matadores”, numa reflexão que caberia confortavelmente na caixa de comentários do G1. É como se a qualidade dos crimes dos mortos amenizasse o flagrante descumprimento da Constituição e a violação dos Direitos Humanos pelo Estado. Em seguida, o governador culpou a eficiência da sua gestão no combate ao tráfico de drogas: “em dois anos de governo, nós já apreendemos 21 toneladas de drogas, o que representa o quantitativo apreendido por todos os outros governos que me antecederam, e praticamente dobramos a população carcerária com prisões voltadas sobretudo para essa questão de tráfico de drogas”.

É justamente essa fracassada guerra às drogas e o seu consequente encarceramento em massa que contribuem para a instalação do caos no sistema penitenciário. A lógica que levou ao massacre é apresentada como solução: é preciso prender mais gente, construir mais presídios e, de preferência, conceder suas administrações às empresas cujos lucros aumentam de acordo com o número de presos.

Na sexta-feira, houve novo massacre com 33 mortos em um presídio estatal de Roraima e, ao que tudo indica, comandado pelo PCC. Foram duas matanças em uma semana – número maior que o desejado pelo ex-secretário de Temer, Bruno Júlio (PMDB), que caiu após dizer que “tinha que fazer uma chacina por semana”.


Se levarmos em conta o Plano de Segurança apresentado por Temer, cuja vertente principal é a construção de presídios, o ciclo que fortalece o crime organizado permanecerá. O Zé das Couves entra na cadeia por roubar galinha ou vender baseado e é obrigado a integrar alguma facção criminosa em troca de proteção para ele e sua família. Foi assim que o PCC nasceu, cresceu e tornou-se o monstro que comanda o sistema carcerário e articula o crime organizado fora dele. Essa política fracassada não é novidade, todos os governos anteriores insistiram nela. E lá vamos nós, mais uma vez, enxugar iceberg com paninho de prato…

João Filho
No The Intercept
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O estranho caso do “Roda Viva” gravado em agosto e que só foi ao ar neste mês


Com um pequeno atraso de cerca de cinco meses, foi ao ar, na primeira edição de 2017 do programa Roda Viva, da TV Cultura,  uma das mais interessantes entrevistas realizadas pelo programa da estatal tucana, no ano passado. O convidado foi o jornalista Cid de Queiroz Benjamin, que estava lançando à época da gravação, no dia 11 de agosto de 2016, o livro “Reflexões Rebeldes”, pela editora José Olympio, que já publicara seu livro de memórias intitulado “Gracias a la Vida”, de 2013.

Trata-se, de acordo com o próprio autor, um dos mais lúcidos sobreviventes da esquerda armada que combateu a ditadura militar, de uma coletânea de textos, com “críticas duras à direita e a certas posições da esquerda” sobre a política brasileira. Ex-dirigente do MR-8, preso em 1970, Benjamin foi um dos 40  presos políticos libertados no sequestro do embaixador alemão Ehrefried Von Holleben e banidos para a Argélia.

De volta ao Brasil, com a anistia de 1979, depois de passar pelo Chile, Cuba, México e Suécia, Benjamin rapidamente reintegrou-se à política nacional, participando da fundação do Partido dos Trabalhadores, do qual se desligou em 2005, para fundar o PSOL. “O PT ficou excessivamente parecido com o PSDB na política e o PMDB nos métodos”, afirmou certa vez.

O  verdadeiro motivo do convite feito a Benjamin vai muito além do “gancho” representado pelo lançamento do seu livro. Em agosto, quando Benjamin enfrentou a bancada de entrevistadores do programa, desenrolava-se a última etapa, no Senado, do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff,  concluído no último dia daquele mês de agosto, com a cassação do seu mandato por 61 votos a 20.

Num momento em que a tentativa de destituição da presidente eleita por 54,5 milhões de votos era rotulada como uma manobra claramente golpista pelos partidos políticos progressistas e movimentos populares, contar com um eventual aval pela esquerda era tudo o que a turma do Roda Viva, comandado pelo jornalista Augusto Nunes, notoriamente engajado na mobilização anti-Dilma, sonhava.

Infelizmente para Nunes e para os espectadores do programa, que tiveram de esperar pelo fim do inverno, a passagem da primavera e o início do verão para ter acesso à entrevista, o sonho da legitimação da farsa se esvaiu logo nos primeiros minutos do programa.

De cara, Cid Benjamin, rotulou o processo de impeachment em curso de “golpe paraguaio”, para desgosto de Nunes, que invocara a suposta legitimidade assegurada pela Constituição, que prevê esse mecanismo, combinada com o estabelecimento do rito pelo Senado e a com aprovação do afastamento da presidente já concedida pela Câmara dos Deputados. Afirmou que golpes armados como o de 1964 deram lugar na América Latina a deposições sem sangue, como já ocorrera no Paraguai e em Honduras, via a intervenção do Legislativo.

“É preciso respeitar a legitimidade de quem foi eleito e teve mais de 54 milhões de votos”, afirmou. “Quem perdeu que vá disputar em 2018. O fato de um governo estar ruim, com uma aprovação baixa, não é motivo para derrubá-lo, no presidencialismo”.

Benjamin lembrou que a falta de base material para o impeachment foi reconhecida pelo próprio Michel Temer, então presidente interino. Ao seu ver, as pedaladas, “que não têm nada de corrupção”, como enfatizou, foram praticadas pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula, e por um grande número de governadores, nos Estados.

Dali em diante, todos os principais argumentos levantados por alguns dos entrevistadores foram rebatidos com firmeza, embora não faltassem críticas de Benjamin à condução da economia no governo Dilma, em especial ao ajuste tentado pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, na contramão das propostas de campanha, e condenação à parceria do PT com o que definiu de “turminha brava” do PMDB.

Nesse sentido, desmontou com bom humor a tentativa do mediador do Roda Viva de apresentar Temer como sucessor legítimo de Dilma, a despeito da ilegitimidade do processo. “Eleição presidencial é um voto no presidente, ninguém votou no Temer, embora seja claro que a máquina do PMDB ajudou”, disse. “Você não escolhe sua esposa pela sogra, escolhe por ela. Quem votou na Dilma, votou na Dilma, Michel Temer veio de contrabando. Não vi um panfleto do Temer”.

No embalo, ridicularizou a tentativa de Temer e de seu partido de tentarem se desvincular de Dilma, no processo em curso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os gastos de campanha, aberto pelo PSDB, partido que rotulou como de direita, escandindo todas as sílabas. “Não podem dizer que estavam juntos quando se quer invocar a legitimidade de Temer, como vice, e que estavam separados na hora em que as contas de campanha são questionadas”.

Sempre com um viés de esquerda, Benjamin, que se considera atualmente um simples militante do PSOL, criticou o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, preconizando o recurso às doações de militantes e simpatizantes dos partidos ao mesmo tempo em que defendeu uma profunda reforma tributária no país, que gravasse mais o capital, em especial financeiro, e os altos salários.

Ao tratar da Lava Jato, Benjamin certamente mais do que decepcionou seus anfitriões, reforçando os motivos para o engavetamento por 144 dias da entrevista. Em principio, ele diz avaliar positivamente a operação, pelo papel no combate à corrupção. No entanto, não poupa a atuação da mídia e do Judiciário em geral, que dão tratamento diferenciado ao PT e às outras forças políticas envolvidas nas denúncias de corrupção. “A imprensa repercute muito mais o que o PT faz de ruim”, disse. “O escândalo do Metrô se arrasta há oito anos, ninguém foi condenado”.

É fácil de entender, portanto, por que o Roda Viva emperrou nos últimos cinco meses, só liberando a entrevista de Cid Benjamin neste início de 2017 – reeditada já com o novo fundo musical, que passou a substituir a música de Chico Buarque depois que o compositor, desgostoso com a direitização do programa, proibiu sua utilização.

Composta pelos jornalistas Pedro Venceslau, do Estadão, Eleonora de Lucena, da Folha de S. Paulo, Guilherme Evelin, da revista Época, Alipio Freire, ex-Folha e artista plástico, e Marcelo Bairão, da subsecretaria de Comunicação do governo Alckmin, a bancada de entrevistadores foi uma das menos rançosas e antipetistas dos últimos tempos do Roda Viva. Em praticamente todo o programa, o nível do debate foi elevado e respeitoso. A exceção ficou por conta de Bairão, um tipo geralmente afável e ponderado, em quem parece ter baixado um  Marco Antônio Villa rápido, como se pode ver a partir dos 40 minutos do programa.

A certa altura, após ter levantado a participação de Benjamin como repórter na cobertura da morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, Bairão introduziu, intempestivamente, a discussão sobre as infiltrações dos agentes da repressão nas organizações de esquerda, durante a ditadura militar. Entre tantos episódios possíveis de serem mencionados,  não por acaso, o funcionário tucano se referiu à dizimação do grupo Molipo (Movimento de Libertação Popular), uma dissidência da ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella – cuja maioria dos integrantes foi morta ao regressar ao Brasil, após um período de treinamento militar em Cuba.

Como quem não queria nada, mas querendo, Bairão, que demonstrou à exaustão sua ignorância no tema, ao vincular o ex-Cabo Anselmo ao Molipo, disse estranhar a forma como ocorreram as quedas dos militantes do  Molipo, e o fato de que todos os elementos do grupo, à exceção do ex-ministro José Dirceu, tenham sido mortos. Visivelmente incomodado, Benjamin respondeu à questão envolvendo uma eventual traição de Dirceu. Primeiramente, desmentiu a informação de que o Cabo Anselmo, que pertencia a outro grupo, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), tivesse participação no episódio.

Em segundo lugar, disse achar ruim o tipo de insinuação feita pelo jornalista, principalmente num momento em que Dirceu está fragilizado, preso em Curitiba.

“Essa é uma coisa gravíssima”, afirmou. “Ou se tem provas e se faz uma acusação direta ou então não se trata desse assunto.” Depois de revelar que não se dá bem com o ex-ministro, com quem tem muitas divergências políticas, Benjamin arrematou. “Nesse caso, eu o defendo, não sei de nenhum elemento que comprometa o Zé Dirceu nessa história do Molipo.”

Na sequência, coube a Alípio Freire dar o golpe de misericórdia na tentativa de intriga. Depois de reafirmar, a exemplo de Benjamin, suas “1001 divergências”, com Dirceu,  Freire retificou a informação dada por Bairão: “o Zé Dirceu não foi o único do  Molipo que sobrou.”

E o livro “Reflexões Rebeldes”? Se a intenção do mediador Augusto Nunes era ajudar a dar uma turbinada na obra do amigo Cid Benjamin, que foi seu repórter à época em que dirigia o finado Jornal do Brasil, não passou disso, intenção. É certo que o Ibope do Roda Viva não é nenhuma Brastemp e está mais para rodapé – nos bons momentos mal ultrapassa a casa do 1% . Mesmo assim, certamente o adiamento da apresentação do programa frustrou o autor, que se deslocou do Rio de Janeiro  para São Paulo,especialmente para a entrevista. Talvez, agora, alguns exemplares saiam das estantes das livrarias, pois Benjamin é sempre uma leitura relevante. Como diz o ditado, antes tarde…

Em tempo: no dia 11 de agosto, em plena efervescência do processo de impeachment, a atração do Roda Viva foi o cônsul geral da França, em São Paulo, Damien Lores, que no mês anterior havia deixado o posto e se licenciado da carreira diplomática para abrir uma consultoria em sociedade com sua esposa Alexandra, ativista da igualdade racial e do empoderamento da mulher negra, em São Paulo.


No DCM
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Assange: Temer é espião americano!



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Petrobras não explica como avaliou os US$ 13 bilhões que Parente vendeu


Todos os ativos vendidos pela nova direção da Petrobras, comandada por Pedro Parente, somam até agora R$ 13,6 bilhões, segundo dados da própria estatal.

As operações, que incluem campos do pré-sal em início do processo de produção, são parte do plano de parcerias e desinvestimentos 2015-2016, apresentado pela empresa, e que "prevê a otimização do portfólio de negócios", de acordo com a companhia.

Em documento elaborado no fim do ano, e assinado pelo economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio Econômicos) na subseção da FUP (Federação Única dos Petroleiros) Cloviomar Cararine Pereira, a entidade avalia que a política de venda de ativos "não está levando em conta o longo prazo". "No caso do setor de óleo e gás, como os investimentos e os retornos são longos, não faz sentido abrir mão dos desafios de longo prazo", diz trecho da análise sobre os efeitos dessa política.

O documento traz crítica também à estratégia da empresa de "reavaliar os valores de seus ativos, rebaixando-os (via impairment), para atrair compradores externos, vendê-los com valores abaixo do preço ideal e ainda apresentar um certo ganho".

"Nos últimos anos, as condições para as vendas de ativos no setor de óleo e gás tornam-se muito difíceis, seja pela redução dos investimentos que todas as petroleiras estão fazendo, ou pela aversão aos riscos destas empresas neste momento de baixa no preço do barril. Assim, não é hora de vender ativos no setor de óleo e gás", avalia a FUP.

A Federação faz uma análise também em relação aos efeitos dessas medidas na sociedade: "Perdem os brasileiros quando a Petrobrás toma a iniciativa de sair de algum setor da economia. O que acontece logo após essa saída é aumento nos preços dos produtos e possibilidade de desabastecimento. O caso do gás de cozinha é emblemático e há grande possibilidade de acontecer. O Grupo Ultra, comprador da Liquigás, ficará agora com 50% do mercado de gás de cozinha no país, concentrando as decisões nesse grupo".

O 247 questionou a Petrobras sobre detalhes no processo de vendas dos ativos, como a forma que foi feita a avaliação de cada ativo, quais bancos de investimento participaram de cada uma das avaliações e se houve disputa pelos ativos ou se a companhia buscou apenas um comprador. A estatal respondeu que as informações sobre os fechamentos das vendas estão disponíveis nos fatos relevantes no site de Relacionamento com Investidores, mantido pela empresa, mas o 247 não localizou esses dados.

Confira abaixo o gráfico da Petrobras com a venda dos ativos e aqui o documento da FUP.


No 247
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Como anda a entrega do petróleo brasileiro aos estrangeiros

http://www.maurosantayana.com/2017/01/como-anda-entrega-do-petroleo.html


O governo Dilma caiu, a economia está cada vez pior, mas a manipulação midiática continua canalha, mendaz, descarada e imparável.

Não bastasse a manipulação de dados e prazos em recentes mensagens publicitárias - sem contestação, principalmente jurídica, da oposição, que prova que, no quesito estratégico, é tão incompetente fora como dentro do poder - a última manobra de alguns jornais e emissoras particularmente hipócritas está voltada para convencer os desinformados que compõem seu público que a recuperação do preço das ações da Petrobras neste ano se deu por causa da mudança de diretoria e da “venda” de 13.6 bilhões de dólares em ativos e não graças à recuperação da cotação do petróleo nos mercados internacionais, além da compra de bilhões de reais em ações quando elas estavam no fundo do poço, por parte de “investidores” estrangeiros, que nunca deram bola para o discurso catastrófico e derrotista dos inimigos da empresa.

Os últimos três “negócios”, feitos na derradeira semana de 2016, foram a transferência de uma usina de biocombustíveis para os franceses e de duas empresas (petroquímica e têxtil) para mexicanos.

Como há que dar uma no cravo e outra na ferradura e água mole em pedra dura tanto bate até que fura, os mesmos meios de comunicação lembram que, apesar da valorização de suas ações em mais de 100% neste ano, a Petrobras deve, ainda, quatro centenas de bilhões de reais.

Ora, independentemente da questão do endividamento da Petrobras, constantemente exagerada para justificar seu desmonte, se uma empresa deve 400 bilhões, 13.6 bilhões de dólares, que não chegam a 10% desse montante pela cotação atual da moeda, arrecadados com a apressada venda de ativos estratégicos, longe de serem decisivos, são praticamente irrisórios em termos contábeis.

Sendo assim, nesse contexto, sua citação triunfal a todo momento só pode ser compreendida como mais um esforço - patético - de enganação da opinião pública, para justificar a entrega, nos próximos meses e anos, de uma fatia ainda maior do patrimônio de nossa maior empresa a concorrentes estrangeiros, sem nenhum critério estratégico e a preço de banana.

O discurso entreguista é tão contraditório, que, por um lado critica-se a “incompetência estatizante” da Petrobras, a mais premiada empresa do mundo no desenvolvimento de tecnologia para a exploração de petróleo em águas profundas, e, por outro, se transfere seus poços e empresas a estatais estrangeiras como a Statoil e para fundos de pensão também estatais como o da província de British Columbia, no Canadá, um dos novos donos dos Gasodutos do Sudeste.

A “imprensa” cita como objetivo, nesse quesito, para 2017, a “negociação”, pela Petrobras, de pouco mais de 23 bilhões de dólares em ativos.

Uma quantia que equivale a cerca de 7% das reservas internacionais brasileiras, que poderiam perfeitamente ser usados pelo governo para capitalizar a empresa sem depená-la, como a uma ave natalina, para serví-la, a preço de restaurante popular, para as multinacionais, como está sendo feito agora.

Não é por outra razão, apesar de o ano de 2016 ter sido o mais fraco das últimas décadas em exploração - a descoberta de novos poços caiu, segundo a Agência Nacional do Petróleo, em mais de 70% no ano passado, para apenas dois, devido, principalmente, à retração de atividades da Petrobras, diuturnamente atacada, vilipendiada e sabotada em várias frentes - que a parcela estrangeira na produção de petróleo no Brasil, devido, entre outras razões, à transferência de campos como Carcará a empresas multinacionais - cresceu em 14% no último ano, para 457.000 barris diários, e deve atingir em 2017, perto de 900.000 barris, ou quase a metade do que a Petrobras produz em território nacional.

Isso ocorrerá não apenas pela continuação da venda - se não houver contestação jurídica - de ativos da Petróleo Brasileiro S.A a estrangeiros, mas também pela queda intencional e programada de investimentos em exploração por parte da empresa, cuja produção crescerá - segundo prevê o “mercado” - em apenas 2% este ano.

Enquanto isso, graças à tentativa suicida – para não dizer imbecil - de repassar, imediatamente, as cotações internacionais para o consumidor brasileiro, o preço dos combustíveis continua subindo nos postos, a quase toda semana, mesmo quando o custo do barril desce no exterior.

Ou alguém já viu - sem tabelamento, eventual promoção, “batismo” ou falsificação - gasolina baixar de preço nas bombas, no Brasil?
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A pior facção de todas não aparece na mídia, mas você é prisioneiro dela


E então, de tanto ler, falar e ouvir sobre prisões, me ocorreu o seguinte.

Vivemos numa realidade virtual e, na verdade, somos todos prisioneiros de uma facção chamada PCP: Primeiro Comando Plutocrata.

“Nós somos o 1%”, é o lema do PCP. “Os demais 99% que se danem.”

O PCP detesta pobres, negros, homossexuais e minorias de uma forma geral.

Existe uma exceção no capítulo dos homossexuais. Gays podem ser aceitos na facção, e até fazer carreira nela, desde que permaneçam no armário e, principalmente, tenham dinheiro.

O PCP adapta-se aos tempos e às circunstâncias. No passado, usou tanques para dar golpes. Agora, utiliza o Parlamento e o Judiciário.

A retórica é sempre a mesma: não é golpe.

Milhões de votos estão sendo destruídos? Sim.

Os interesses do 1% privilegiado falam muito mais alto que os dos demais 99%? Sim.

Mesmo assim: não é golpe, garante o PCP.

Para tentar manter quietos e dóceis os 99% da população que pagam a conta das de suas mamatas e privilégios, o PCP tem uma arma que até aqui jamais falhou: a mídia.

Os jornais dizem que o golpe não é golpe. As revistas repetem. As rádios repercutem. Os telejornais amplificam tudo com o barulho de um concerto de rock.

Pronto: o golpe deixou de ser golpe.

O Primeiro Comando Plutocrata sempre recorreu à mídia para convencer seus prisioneiros de que corruptos são os outros.

Todos os outros, sobretudo aqueles que não se conformam com o sistema de partilha de riquezas adotado pela facção.

Convém, a quem pertence aos 99%, não sair por aí criticando o contraste entre a riqueza opulenta de tão poucos e a pobreza miserável de tantos.

Os cães selvagens da facção — colunistas e comentaristas das grandes empresas jornalísticas — serão atiçados contra os que ousem se rebelar.

O PCP, com sua mídia para a qual a verdade é uma mera abstração, tem o poder de fazer surgir no imaginário coletivo um apartamento que simplesmente não existe. Ou um sítio. E depois dirá que ambos, sítio e apartamento, foram roubados por aquele homem em quem os pobres acreditam. Aquele ali, o de barba.

E assim a vida segue nos domínios do Primeiro Comando Plutocrata, do qual somos todos prisioneiros.

Perto do PCP são irrelevantes todas as facções que ocupam as primeiras páginas nestes dias.

Todas.

Paulo Nogueira
No DCM



Entenda as siglas do crime organizado no Brasil:

PCC — Primeiro Comando da Capital

CV — Comando Vermelho

CRBC — Comando Revolucionário Brasileiro de Criminalidade

CDL — Comando Democrático da Liberdade

ADA — Amigos dos Amigos

CDD — Comando Dragão Dourado

PCI — Primeiro Comando do Interior

PCABC — Primeiro Comando do ABC

TCP — Terceiro Comando Paulista

CVC — Comando Vermelho da Capital

CVJC — Comando Vermelho Jovem da Criminalidade

FDN — Família do Norte

PMDB — Partido do Movimento Democrático Brasileiro

PSDB — Partido da Social Democracia do Brasil

DEM — Partido Democratas

MBL — Movimento Brasil Livre

Esses quatro últimos lideram as demais facções acima...
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Moreira é um covarde!

E cadê aquele aeroporto que sumiu?

O Totò Riina não tem autoridade moral! (Reprodução: l'Espresso)
De entrevista do gatinho angorá à Fel-lha:

Folha: A citação a Temer pelo ex-executivo da Odebrecht Márcio Faria não se refere a possível caixa dois, mas a suposta doação eleitoral em troca de favorecimento para a empreiteira em contratos da Petrobras. Não é uma acusação grave?

Moreira Franco: Isso é uma delação, não é uma acusação ainda. É uma acusação de uma empresa que se organizou para o crime. O que nós estamos vendo hoje é que essa empresa estava organizada para o crime, era uma organização criminosa, e não era só no Brasil, era uma organização criminosa no mundo.

O gatinho angorá é um covarde.

Agora, que o cachalote realizou o sonho das empreiteiras americanas e reduziu a Odebrecht a um food-truck no Farol da Barra, em Salvador, agora e só agora o Moreirinha ataca a Odebrecht.

Antes, não era assim.

Quando a Dilma o nomeou para administrar os aeroportos, ele aparece numa operação em que some com um aeroporto em disputa por várias empreiteiras "criminosas no mundo".

O Moreirinha também está enrolado numa operação quando era vice-presidente de Loterias (êpa!) da Caixa.

Na lista de alcunhas da Odebrecht ele foi imortalizado como "Angorá", uma homenagem tardia ao Brizola.

Moreirinha tem a envergadura moral indispensavel para fazer parte deste Governo.


Ele é a cara deste Governo.

O Governo do "MT" e do Eliseu que o ACM chamava de Quadrilha.


Que, agora, com o punhal pelas costas, ataca quem os alimentou.

Em tempo: não tem nada a ver uma coisa com a outra, amigo navegante, mas atravessou as ideias desnorteadas do ansioso blogueiro imaginar o que se diria de o Totò Riina, da Cosa Nostra siciliana, esculhambar a Ndrangheta calabresa!

PHA
No CAf
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Operador de Serra, Ronaldo Cezar Coelho foi indiciado por sonegação fiscal e evasão de divisas

Ele
O homem apontado na delação premiada da Odebrecht como operador de caixa 2 eleitoral do chanceler José Serra foi indiciado em 2004 pela Polícia Federal pelo crime de sonegação fiscal e evasão de divisas.

Segundo manifestação da Procuradoria Geral da República, encaminhada em 2004 ao Supremo Tribunal Federal, a PF descobriu que, entre 1999 e 2002, período em que Serra era ministro da Saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso, Ronaldo Cézar Coelho enviou para o exterior, via conta CC5, “a vultosa quantia” de R$ 197,9 milhões — o equivalente, hoje, a R$ 500 milhões.

O Ministério Público Federal chegou a Ronaldo Cezar Coelho depois de realizar “diligências junto à Receita Federal, à Controladoria-Geral da União e a autoridades americanas”. É o que informa o breve relatório da então ministra do STF Ellen Gracie, publicado no Diário da Justiça no dia 23 de novembro de 2004, em resposta a um pedido da Procuradoria Geral da República para abrir inquérito contra Ronaldo Cezar Coelho, que era deputado e tinha foro privilegiado.

Na ocasião, Ellen Gracie decidiu que a competência para abrir inquérito contra o deputado federal era da própria Procuradoria Geral da República, e para isso bastava determinar à autoridade policial, o que foi feito, com o deputado federal na condição de indiciado. Ronaldo Cezar Coelho terminou o mandato em 2007, não se candidatou à reeleição e deixou de ter foro privilegiado.

No Diário da Justiça, não há mais registro do inquérito. O indiciamento de Ronaldo Cezar Coelho, jamais noticiado pela imprensa, é revelador de forma como ele movimentava quantias milionárias.

A Conta CC5 (Carta Circular número 5) foi criada em 1969 pelo Banco Central para permitir que estrangeiros em trânsito no Brasil pudessem abrir e movimentar conta corrente. O objetivo era facilitar a vida de estudantes universitários, pesquisadores, professores e empresários estrangeiros que permanecessem no País por um período maior que o dos turistas e menor que o dos que pretendessem ter residência fixa.

Como movimentam dinheiro supostamente de origem estrangeira, os titulares das contas CC5 não pagam imposto no País e podem levar embora o saldo, sem nenhuma taxação. Com o tempo, as contas CC5 passaram a servir para escoamento de dinheiro sujo de toda natureza, com milionários fazendo transferências através de laranjas estrangeiros ou empresas de paraíso fiscal.

A primeira vez que esse tipo de conta apareceu vinculado a um escândalo foi na época da CPI que derrubou Fernando Collor. Seu tesoureiro, PC Farias, usava as contas CC5 para remeter dinheiro ao exterior.

Alguns anos depois, as contas CC5 voltaram a ser notícia, quando se descobriu uma lavanderia no Banestado, numa investigação que desaguou na Vara do juiz Sérgio Moro, em Curitiba, com delações do mesmo Alberto Yousseff.

Não se conhece nesta fase de Sérgio Moro nenhuma condenação de figurões, embora no escândalo do Banestado tenham surgido nomes de políticos e empresários famosos, alguns vinculados ao processo de privatização do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Ronaldo Cezar Coelho foi flagrado fora da alça de mira de Moro, em outra investigação, mas também não teve até agora nenhuma pena por remeter ao exterior cerca de meio bilhão de reais por meio da CC5.

Segundo o inquérito da Polícia Federal essa movimentação não foi declarada em seu Imposto de Renda, embora Ronaldo Cezar Coelho fosse um empresário milionário, um dos donos do Banco Multiplic.

Em 1986, ele era presidente do Multiplic, quando se candidatou a deputado constituinte pelo PMDB e se afastou, temporariamente, das funções executivas do banco. Era sócio do Lloyd’s, banco da Inglaterra que teve forte atuação no Brasil, durante o governo dos militares, e de Antônio José de Almeida Carneiro, conhecido no mercado como Bode, apontado pela Revista Forbes como uma das maiores fortunas do mundo.

Foi por sugestão de Bode que o Multiplic fez constar em ata “voto de reconhecimento e louvor pela valiosa, inestimável e efetiva colaboração dada pelo sr. Ronaldo Cezar Coelho ao desenvolvimento das empresas do Grupo Multiplic, do qual é um dos fundadores, manifestando a sua certeza de que na vida pública terá o mesmo sucesso e as mesmas alegrais conquistadas na condução dos negócios de suas empresas”.

Eleito deputado, se aproximou de Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra, conforme registram os jornais da época. Em 1988, acompanhou seus líderes na fundação do PSDB e depois se transformou em presidente do Partido no Rio de Janeiro. Em seu Diário da Presidência, Fernando Henrique faz muitos elogios a Ronaldo Cézar Coelho.

indiciamento operador de serra

“Almocei com o Ronaldo Cezar Coelho (9 de setembro de 1997). Conversa agradável, em que ele me falou sobre um projeto de ligação entre o Rio e Niterói, por meio de um túnel passando por São Gonçalo. O Ronaldo é cheio de imaginação, de ideias, acha que é preciso criar o Ministério de Desenvolvimento Urbano. Ele até seria um bom ministro, me pareceu”, diz o então presidente da República.

Entrevistei Ronaldo Cezar Coelho algumas vezes por telefone e estive com ele uma vez, no Hotel Copacabana Palace, quando Ronaldo me vazou um documento sobre o plano do Exército para agir no Rio de Janeiro, numa das crises de segurança que houve por lá. Era o governo de Marcelo Alencar, e o plano nunca chegou a ser executado.

Eu trabalhava para a revista Veja e vi em Ronaldo Cezar Coelho uma pessoa de conversa agradável, com o objetivo claro de estreitar seus laços com a imprensa. Ele me contou que era carioca da gema, cresceu numa família de classe média e estudou no Colégio Pedro II. Como estávamos no Copacabana Palace, contou que brincava perto dali na infância e citou o Beco das Garrafas, berço da Bossa Nova.

Na política, não passou de deputado. Entre 2000 e 2002, Ronaldo Cezar Coelho era secretário municipal da Saúde no Rio de Janeiro e José Serra, ministro na mesma área. Obteve de Serra verba para construir oito maternidades e três grandes hospitais. Sua gestão na saúde teve construções de mais e remédios de menos. Ele deixou a Secretaria depois de uma crise que quase o levou para a prisão, por descumprir ordem judicial que o obrigava a entregar remédios para pacientes.

Em 2006, tentou se eleger senador, mas ficou em quarto lugar. Como se vê agora nas memórias de Fernando Henrique, destacava-se mais nos bastidores. Em 2002, quando Serra se candidatou a presidente, seu sócio, Antônio José de Almeida Carneiro, o Bode, doou oficialmente R$ 1,1 milhão (o equivalente hoje a R$ 3,1 milhão) para a campanha. O sócio de Ronaldo Cézar Coelho foi o maior doador pessoa física de José Serra, segundo a contabilidade oficial da campanha.

Em 2010, na segunda tentativa de José Serra de se eleger presidente, o próprio Ronaldo Cezar Coelho colocou dinheiro na campanha. Na verdade, teria sido um adiantamento, ressarcido pela Odebrecht, através de um depósito de R$ 24 milhões (em valores corrigidos pelo IGP-M, cerca de R$ 35 milhões) numa conta da Suíça. Tudo caixa 2. A Odebrecht foi uma das estrelas do governo de Serra em São Paulo, marcado por grandes obras, como a terceira pista da Marginal Tietê e o Rodoanel.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Até Noblat, que achava Temer “bonito”, reconhece o desastre


O desgaste de um governo pode ser avaliado por pesquisas, mas também pela relação de seus áulicos.

Quando sentem o naufrágio, o abandonam com a maior sem-cerimônia.

A coluna de Ricardo Noblat, que dizia há um mês e meio que ” quem conquistou dona Marcela não se deixa abater por nenhuma dificuldade”, hoje, em O Globo, chama o presidente de “duro, insensível, desastroso” e de “mesquinho”.

Como Temer não parece ter mudado tanto em tão pouco tempo, deixo por conta do leitor e da leitora achar de quem foi a metamorfose, transcrevendo parte de sua coluna:

Que futuro nos aguarda

Ricardo Noblat

Um prodígio, o presidente Michel Temer e seu time de auxiliares. Empenhados em marcar distância de mais uma erupção da bestial violência que há décadas abala o apodrecido sistema carcerário brasileiro, eles conseguiram com espantosa facilidade justamente o contrário.

Ninguém de bom senso ligaria o governo atual ao que aconteceu no Amazonas e em Roraima. Então o governo meteu com gosto o dedo na tomada.

Primeiro foi Temer, que chamou de “acidente pavoroso” a morte e o esquartejamento de 57 presos numa penitenciária próxima de Manaus. Acidente é um fato casual.

Num país onde mais de 60 mil pessoas são mortas a cada ano e 11 Estados registraram decapitações desde a rebelião do presídio de Pedrinhas, em São Luís, em 2013, acidente pode ter sido a ascensão de Temer à presidência – não a chacina de Manaus.

Não se atribua o que ele disse a uma mera infelicidade na escolha das palavras. Temer é um homem culto, prudente e pensa muito antes de falar.

Ao taxar um massacre de “acontecimento pavoroso”, quis isentar seu governo de qualquer responsabilidade e minimizar o acontecido. Foi duro, insensível, desastroso. Deixou-se levar pelo cálculo político mesquinho.

Depois de Temer, foi o ministro da Justiça. Além de apresentar um arremedo de plano para reformar o sistema carcerário sem dotação orçamentária e sem metas, negou que tivesse recusado ajuda ao governo de Roraima onde 30 presos foram decapitados ainda vivos e alguns tiveram corações e olhos arrancados.

O ministro mentiu. E mentiu de novo ao garantir que a situação dos presídios está sob controle. Controle de quem?

O caminhar voluntário do governo para o cadafalso na semana passada culminou com a intervenção do Secretário Nacional da Juventude que se apresentou como “um coxinha”, elogiou o “acidente” em Manaus e defendeu novas matanças.

Foi o único a ser demitido depois de incensado nas redes sociais. Mais de 50% dos brasileiros pensam como ele. E é aqui que reside o maior problema.

Fernando Brito
No Tijolaço
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