8 de jan de 2017

Reflexões

Jorge Luis Borges era obcecado por labirintos e, principalmente, espelhos. Há espelhos espalhados por toda a sua obra, como no poema que diz: “O cristal nos espreita/Se entre as quatro paredes do aposento há um espelho/Não estou só. Há outro. Há o reflexo”. O “outro” refletido no espelho, o reflexo de quem olha, é sempre motivo de especulação (do latim speculu, de onde vem “espelho”) e um mistério a ser decifrado. Para Borges, o espelho e a paternidade se parecem, são dois culpados pela multiplicação dos seres. Nós mesmos nos duplicamos no espelho. Somos o nosso avesso, um outro que mal conhecemos.

O pintor espanhol Diego Velázquez também foi fascinado por espelhos. Suas obras mais conhecidas são jogos de espelhos que há anos desafiam interpretações. No quadro “Vênus no espelho”, o único nu pintado por Velázquez, um anjo segura o espelho em que a Vênus, de costas para nós, se olha. Mas um exame mais detalhado revela que ela não está se olhando, está olhando para fora do quadro. Para nós, transformados em voyeurs involuntários no seu toalete. (A Vênus de Velázquez, pintada em 1651, foi o mais celebre nu da pintura espanhola até aparecer a “Maja despida”, do Goya). Mais famoso do que a Vênus do Velázquez é o seu quadro chamado “As meninas”, que precisa ser estudado com muito cuidado para que seus intricados reflexos cruzados se revelem. Até hoje não se descobriu se o rei Filipe IV e a rainha Maria Ana, que aparecem num quadrado no fundo do quadro, estão posando para o pintor, que também aparece no próprio quadro, ou não. Para aumentar ainda mais a confusão, não se tem notícia de um retrato de Filipe IV e a mulher feito por Velázquez.

Na história da rainha má que pergunta ao espelho se existe alguém no seu reino mais bonita do que ela, temos uma característica do espelho

que ninguém gosta: sua sinceridade. O espelho reflete o que vê. Não mente, não melhora e não retoca, não importa quem esteja na sua frente, rainha ou plebeu. Não me lembro se, na história, a rainha, com raiva, quebra o espelho. Pode-se imaginar os estilhaços do espelho espalhados pelo chão, todos refletindo, vingativamente, a rainha má.

Outro conhecido espelho da literatura é o que Alice atravessa, na história de Lewis Carroll. Aposto que nessa incursão ao outro lado do espelho, Borges, Velázquez e até a rainha má acompanhariam Alice. No outro lado do espelho, tudo seria ao contrario, inclusive nós. Estaríamos na terra dos opostos, e nos conheceríamos pela primeira vez.

Luís Fernando Veríssimo
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Pai e filho

Ele tinha 65 anos e um dia surpreendeu todo o mundo com a informação de que estava, finalmente, conseguindo falar com seu pai. Foi um espanto. Ninguém imaginava que ele ainda tivesse pai. Alguns chegaram a pensar que o contato se dera numa sessão espírita. Mas não, o pai estava vivo. Casara cedo, tinha 20 e poucos anos quando o filho nascera. Por isso mesmo, nunca haviam se entendido muito bem. Não tinham interesses em comum. Não tinham assunto. Mas agora tinham.

O pai era fã da Ingrid Bergman e dizia que nunca apareceria outra como a Ingrid Bergman.

– O que é isso, papai? E a Jennifer Lawrence?

– Não conheço.

O pai jogava golfe e sabia pouco sobre futebol. Mas dizia:

– Bom mesmo é o Didi. 

– Quem?

– O Didi. Ele ainda joga?

– Não, papai. Acho que até já morreu.

O pai falava do seu desempenho no golfe, apesar da idade. O filho falava do seu desempenho no tênis, apesar da idade. Um não ouvia o que o outro contava. Também não podiam falar de política. O pai era conservador, ex-simpatizante da UDN. O filho não era exatamente de esquerda, mas simpatizava com o PSDB e defendia a social-democracia. 

– Rá, social-democracia – dizia o pai. 

– Disfarce de comunismo.

Não havia jeito de se entenderem. Todas as tentativas de diálogo acabavam em briga. Mas agora, finalmente, estavam conversando. Sobre o que conversavam?

Remédios

Comparavam tratamentos. “Qual é o seu betabloqueador?” “Está tomando o que para o colesterol?” “Experimenta este.” E trocavam hemogramas. “A sua taxa de glicose está melhor do que a minha!” Essas coisas.

E era comum os dois irem à farmácia de braços dados, conversando.  

Mãe e filha

Ela contou que o conselho que recebera da sua mãe, quando se casara, fora: “Não seja inteligente demais, minha filha. Disfarce”. E que a mãe lhe contara que devia o sucesso do seu casamento à frase “Eu não tenho cabeça para essas coisas complicadas, mas...”, que usava como preâmbulo sempre que precisava dizer ao marido o que fazer. Segundo a mãe, para um casamento feliz, preâmbulo é tudo.

Luís Fernando Veríssimo
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Massacres expressam a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam

As matanças nos presídios de Manaus e Boa Vista não refletem apenas o criminoso sistema carcerário e as indiferenças perversas das classes média e alta, que servem de anteparo para a omissão dos governos em seus deveres penais. As explosões da violência encarcerada, crescentes em frequência e em Estados atingidos, expressam também a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam a todos.

Degolados e degoladores, outros assassinados e outros assassinos, que hoje nos horrorizam, até há pouco estavam entre nós. Há estimativas de quantos estão nos presídios, quantos são os prováveis presos de tal ou qual facção — mas quantos entre nós? Os presos integrantes do PCC, do CV e de outras iniciais não são mais do que amostras, não só numérica, de uma força que se desconhece. E, para sorte geral, talvez ainda desconheça a si mesma.

O PCC e o CV expandem-se pelo país. Paulistas do PCC infiltram-se no Rio do CV para dominar os serviços de favelas, como está constatado na Rocinha. Há sinais de presença das duas facções já além-fronteira, na Bolívia, no Paraguai e no Peru. Dão assim uma ideia, a única, da dimensão que têm.

Com incontáveis milhares de jovens disponíveis, na marginalidade e no desemprego, para mais arregimentação. Seu arsenal, soube-se pela perícia de uma ação nas primeiras terras bolivianas, entrou no nível das metralhadoras pesadas, armas de guerra.

O MST lembra, na internet, uma ponderação de Darcy Ribeiro em 1982: "Se não construirmos escolas agora, daqui a 20 anos faltará dinheiro para construir os presídios necessários". PCC, CV e outras, por sua dimensão, não são mais aprisionáveis.

As facções cuidam de tráficos e do domínio das áreas chamadas "de baixa renda" (como se salário mínimo e desemprego fossem renda). E deixam por sua conta de cidadã ou cidadão algumas reflexões sobre o que será se, um dia, as facções quiserem mais do que tráfico e domínio de áreas humildes. Afinal, força é poder

Uma fria

Prova, até o momento em que escrevo, nem mesmo o relatório oficial de acusações à Rússia mencionou. Ou, primeira hipótese, Obama e os democratas intensificam as afirmações de interferência russa contra a candidata Hillary Clinton para, próximo da posse, tentar sustá-la; ou, segunda hipótese, mais fraca, tentam um desarranjo com a Rússia capaz de comprometer as boas relações de Trump e Putin.

De repente, fica-se sob o risco mais inesperável: torcer por Trump. Se vitoriosos nessa segunda disputa, os democratas reabrem a Guerra Fria, como prenunciam com o retorno à velha linguagem.

Mas não se ganharia muito: Trump traz o risco de criar a sua Guerra Fria — com a China.

Qualquer que seja o desfecho, a América Latina estará, outra vez, na primeira fila dos prejudicados.

De volta

O financiamento do BNDES à obra de uma empreiteira brasileira em Honduras foi parte do escarcéu originado na Lava Jato, para acusar Lula de favorecimentos pela participação do banco.

Às vésperas de completar-se o oitavo mês de suspensão daquele financiamento e da exportação de serviços de engenharia, o BNDES volta a financiar a obra em Honduras e reabre a carteira para esses negócios.

A suspensão seguiu-se ao afastamento de Dilma da Presidência, em maio, antes do processo de impeachment.

Foi mais um farto conjunto de prejuízos causados pelos escândalos de "vazamentos" seletivos da Lava Jato e da falsa moralização propalada por Michel Temer. Ninguém pagará por esses e pelos muitos outros danos desnecessários.

Janio de Freitas
No fAlha
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