6 de jan de 2017

O presidiário que preocupa Temer não está em Manaus ou Roraima, mas em Curitiba


Ficamos sabendo, pela reportagem de Itamar Garcez, no site Os Divergentes, que  o advogado Renato Oliveira Ramos, “ligado à Casa Civil da Presidência da República” ( leia-se: Eliseu Padilha, o Primo) esteve duas vezes em visita a Eduardo Cunha na prisão, em Curitiba.

Ele especula que a visita seria para sondar “a respeito de uma eventual delação do aliado” de Michel Temer.

É simplesmente escandaloso que isso esteja passando nas barbas da imprensa brasileira, até porque os primeiros “ganchos” que Cunha soltou, nas perguntas à “testemunha” Michel Temer, censuradas  por Sérgio Moro, se cravaram firmemente na verdade e levaram à exoneração de seu amigo e cúmplice político José Yunes, da cozinha presidencial.

Por isso, Garcez afirma que…

“o preso que mais amedronta o Palácio do Planalto está em Pinhais (PR), a 2.742 km ao sul da capital do Amazonas. Lá está Eduardo Cunha, preso que, sozinho, apavora mais do que os chefes de quadrilha encarcerados nas masmorras brasileiras.”

O que leva a gente a pensar por que a Força Tarefa (leia-se novamente a tradução: Rodrigo Janot) que negocia toda e qualquer delação premiada se mostra tão avessa a negociar a de Cunha. Até porque ela sai barato, com simples garantias de que sua mulher (Deus meu, como é abjeto falar em uma negociação judicial assim) ficará fora da cadeia.

Não é só no presídio — ou pelo menos não só neles — que a guerra das facções se desenrola.

Nas do golpe, também.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Aula Pública com Camila Dias: prisões brasileiras são espaço de exceção, arbitrariedade e violência

Para coordenadora da pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da UFABC e especialista em segurança pública, proposta de expandir o sistema prisional do país 'é a mesma coisa que tentar apagar fogo com gasolina'

As prisões brasileiras são espaço de exceção, arbitrariedade e extrema violência. Além da privação da liberdade – prevista na lei – o sistema prisional é reprodutor da barbárie. "Quando discutimos reduzir o crime no Brasil e apresentamos a proposta de expandir o sistema prisional, é a mesma coisa que tentar apagar fogo com gasolina, pois as prisões servem para ampliar a violência". Esta é análise de Camila Dias, coordenadora da pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da UFABC, ao discutir As Consequências da Política de Encarceramento em Massa, na Aula Pública Opera Mundi, gravada no fim de 2016 – antes das recentes rebeliões que deixaram dezenas de mortos em Manaus (AM) e Boa Vista (RR).

Para a especialista, as políticas de encarceramento em massa geram de forma imediata a superlotação prisional. No Brasil, em média, um funcionário é responsável por administrar cerca de 300 presos. Como resultado, explica Dias, a administração do cotidiano dos sistema prisional é feita pelos detentos.


"Quem faz a gestão da população carcerária num espaço que tem um funcionário para administrar 300 presos? O Estado não faz essa gestão em lugar nenhum do Brasil. Quem faz esse trabalho de fato são os grupos de presos organizados, as chamadas facções, que controlam o cotidiano das prisões. Eles distribuem remédios, cuidam da alimentação, organizam as visitas, resolvem todos os tipos de conflitos nas celas e nos pavilhões", diz a especialista.



Para Dias, a superlotação provoca o efeito imediato de degradação das condições de vida nessas instituições. Além disso, aumentar o número de vagas nas prisões é contraproducente na busca por soluções para a questão da violência no país.

"Por mais que novas prisões sejam construídas, nunca o crescimento de vagas é suficiente para a demanda de novos presos. Portanto, não acredito na expansão do sistema prisional como forma de melhorar as condições carcerárias, pois trata-se de uma grande mentira. O investimento do sistema prisional serve para abrir mais vagas para se encarcerar ainda mais. Esse processo nunca reverte em melhorias das condições de vida nas prisões", analisa.



Aula Pública Opera Mundi:
Coordenação: Haroldo Sereza
Produção: Dodô Calixto
Edição de vídeo: Daniela Stéfano
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Quem são os políticos bancados pela empresa administradora de presídios


A Umanizzare Gestão Prisional Privada, empresa responsável pelo presídio privado onde ocorreu o recente massacre de presos, em Manaus, mantém um lobista de plantão no Congresso Nacional: o deputado Silas Câmara, do PSD do Amazonas.

Em 2014, ela doou R$ 200 mil para a campanha a deputado federal de Silas.

Expoente da chamada "bancada da bala", Silas foi um dos 43 parlamentares responsáveis, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, pela aprovação da admissibilidade da PEC 171/1993 — que prevê a redução da maioridade penal para 16 anos.

Ou seja, o nobre parlamentar trabalha para garantir carne fresca para os presídios privados da Umanizzare - ao todo, seis, no Amazonas, e dois, em Tocantins.

Também em 2014, a esposa de Silas, a bispa da Assembleia de Deus Antônia Lúcia Câmara (PSC-AC), candidata a deputada federal, recebeu R$ 400 mil da Umanizzare.

No mesmo ano, a filha do casal, Gabriela Ramos Câmara (PTC-AC), então candidata a deputada estadual, recebeu R$ 150 mil.

Então, apenas com a família Câmara, a Umanizzare investiu nada menos que R$ 750 mil!

Detalhe: ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Silas Câmara a oito anos de prisão por uso de documento falso e falsidade ideológica. Ele só não está em cana porque o crime prescreveu antes da condenação.

A bispa Antônia Lucia, mulher de Silas, eleita deputada federal em 2010, foi cassada, em 2011, também por falsidade ideológica, formação de caixa dois e compra de votos, no Acre.

Ela é do mesmo partido de Marco Feliciano e Jair Messias Bolsonaro.

É esse o nível dos políticos que estão por trás dos interesses do bilionário negócio de presídios privados, no Brasil.

E estão todos com as mãos sujas de sangue, impunemente, pelo menos até agora.

Leandro Fortes
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Plano de Temer não faz nem cócegas no caótico sistema penitenciário


Com 622 mil presos e vagas para 371 mil - ou seja, há um déficit de 250 mil vagas em presídios no Brasil - o governo Michel Temer decidiu anunciar que sua medida emergencial para tentar conter o caos no superlotado sistema penitenciário é construir cinco unidades federais que vão gerar apenas 1 mil vagas novas. Isto é, Temer vai reduzir apenas 0,4% do atual déficit de vagas. 

O anúncio foi feito ontem à tarde, após Temer chamar o massacre de Manaus - onde 60 presos foram exterminados em duas prisões em meio a uma guerra entre facções - de "acidente pavoroso". Na madrugada desta sexta (6), outros 33 presos foram exterminados em Roraima, numa possível ação de retaliação do PCC.

Segundo dados da Folha, essas 1 mil vagas projetadas pelo governo Temer não vão suprir sequer a demanda no Amazonas, onde faltam 5.438 vagas. Além disso, o ministro Alexandre de Moraes não informou quando as obras desses cinco novos prédios federais serão entregue.

O titular apenas antecipou que vai gastar R$ 200 milhões com o projeto e vai liberar outros R$ 230 milhões para aprimoramento do sistema de segurança de presídios estaduais, sendo R$ 150 milhões para transferência de tecnologia de bloqueadores de celulares e R$ 80 milhões para compra de scanners corporais. "Todos esses recursos, porém, já fazem parte do Orçamento do governo para 2017", avisou a Folha, que chamou o plano de Temer de "requentado".

Nesta sexta, Moraes disse que "não adianta só construir presídio. É necessário, mas temos também que verificar se aqueles que estão nos presídios deveriam estar. O Brasil prende muito, mas prende mal. Prente quantitativamente, não qualitativamente. Precivamos ver quem está na penitenciária."

O ministro sugeriu que a União promova em parceria com os estados um mutirão para reavaliar a necessidade de manter alguns detentos que não receberam sentença e que cometeram crimes de baixo potencial agressivo encarcerados. Hoje, cerca de 250 mil presos estão em situação provisória. Isso, para Moraes, ajudaria a esvaziar os presídios, se aplicado em associação com penas alternativas.

Além das cinco novas prisões, o ministro citou o investimento de R$ 1,2 bilhão do fundo penitenciário (Funpen) para criar cerca de 30 mil novas vagas em unidades prisionais no país. Ele também não deu prazos para isso, mas afirmou que vai cobrar dos estados, como contrapartida, a separação de presos por periculosidade e outros critérios.

No GGN
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Ministro da Justiça mentiu escandalosamente e tem de ser exonerado — assista


Ninguém me contou, eu mesmo vi e ouvi, na Globonews, Alexandre de Moraes dizer que a governadora de Roraima não havia pedido apoio do Governo Federal para o sistema prisional do Estado, mas para “a segurança pública”.



 

Com todas as letras e a maior cara de pau.

Agora, surge o documento em que Suely Campos, expressamente, pede — e no final de novembro —  em caráter de urgência apoio do governo federal, bem como da Força Nacional de Segurança “em virtude dos últimos acontecimentos no sistema prisional do Estado de Roraima”.

Nem com o dicionário do Michel Temer dá para ter outra interpretação diferente.

O texto está aí ao lado e é só clicar para ampliar.

Alexandre Moraes perdeu as condições morais de tratar de qualquer coisa com os estados da Federação.

Quem pode confiar nele, depois disso?

Ele é a bola da vez do Governo Temer.

Fernando Brito
No Tijolaço
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“O que o MPL tem de responsabilidade nisso?”: ativista do grupo fala ao DCM

O Passe Livre em 2013
João Doria prometeu, ainda em campanha, congelar as tarifas do transporte público em 2017. Gerou atrito com o padrinho Geraldo Alckmin, mas o tucanato encontrou uma saída malandramente engenhosa. A viagem simples ficará com o valor inalterado de forma que a divulgação da medida possa confirmar sua promessa.

Porém, reajustes de até 35,7% nas integrações entre ônibus, trens e metrô e no Bilhete Único Mensal, irão afetar o bolso de cerca de 23 milhões de passageiros, segundo dados da SPTrans.

O Movimento Passe Livre já tem organizado protestos nos municípios em que estão ocorrendo aumentos ‘não disfarçados’ no valor da passagem (Carapicuíba, Guarulhos, Santo André, Barueri, Osasco, Mauá), mas em São Paulo o truque do prefeito não irá passar em branco e o MPL já agendou a primeira manifestação.

O DCM conversou com o ativista Francisco Bueno, do MPL, sobre os próximos atos e o papel do grupo nas Jornadas de Junho de 2013, que acabaram evoluindo para manifestações de direita de milícias pró impeachment como as do MBL, Vem Pra Rua etc.

O que mudou de 2013 para cá? O MPL se sente usado pela direita? Existe uma autocrítica?

Chico Bueno: Não dá para ficar comparando. 2013 foi um contexto muito específico. Os 20 centavos foram centrais, pois expunham a precarização da vida das pessoas, a exclusão da classe trabalhadora. Mas se a resposta da direita ao Junho de 2013 é o que vemos acontecendo hoje no plano nacional, nos cortes de direitos, na flexibilização das leis trabalhistas e na recém aprovada PEC 55, o que o MPL tem de responsabilidade nisso?

Junho de 2013 foi uma grande revolta em torno do aumento da tarifa, mas manifestações que ganharam as ruas aos milhões e que deram início a um processo de intensificação da luta de classes no Brasil guardavam consigo uma tensão acumulada há décadas.

Um ato está marcado para o próximo dia 12. Acredita que um dia as manifestações pelo Passe Livre possam tomar a dimensão que já tiveram?

Desde 2013 as manifestações sempre tiveram uma quantidade de cerca de 20 mil pessoas, ou seja, sempre foram de grandes dimensões. Ainda que não causem o rebuliço nacional como ocorreu em 2013, elas se mantiveram fortes. Mas aquele ano teve uma conjuntura política e social que aglomerou diversas insatisfações que fizeram com que as manifestações ganhassem o volume que ganharam.

E isso não foi premeditado. Um outro fator importante é que, depois de 2013, o aparato repressor do Estado está muito mais complexo, mais equipado, mais violento, fazendo com que a manifestação acabe em poucos minutos. Depois de 2013 muitas vezes nem conseguimos sair com o ato. Essa repressão coloca medo em muita gente e é decisivo na continuação das lutas.

Em outros municípios estão ocorrendo reajustes na tarifa, mas aqui em SP a alteração do valor é apenas na integração e a gestão do novo prefeito Doria não classifica isso como aumento e sim como “redução no desconto”. É aumento ou não?

É aumento. Considerando que uma grande parcela dos usuários de transporte público precisa pegar pelo menos um ônibus para ir até alguma estação de trem ou metrô e, assim,  pagar a integração para ir e voltar do trabalho, um aumento no custo da integração significa um aumento (e tanto!) no custo do transporte no dia a dia das pessoas.

Apesar do empresário-prefeito João Dória e seu compadre Geraldo Alckmin tentarem enganar a população que utiliza o transporte coletivo diariamente chamando o aumento de reajuste, sabemos que é um aumento sim, já que as pessoas vão precisar de mais dinheiro pra circular pela cidade. A grande mídia tem feito coro a esse discurso dos de cima que tentam enganar os de baixo, mas a população não vai cair nessa!

Qual o impacto da medida?

Essa medida amplia a exclusão de quem não pode bancar a tarifa, relegando a cidade, seus equipamentos públicos, parques, hospitais, escolas e etc, apenas àqueles que podem pagar caro pelo seu deslocamento.  O aumento reforça a realidade de um transporte que exista somente para a população ir e voltar do trabalho, não podendo, de fato, se apropriar da cidade.  O aumento na integração faz com que o gasto mensal das pessoas com o transporte  seja ainda mais alto, pesando na renda familiar e piorando a qualidade de vida da classe trabalhadora.

Em um contexto de crise econômica e de escalada do desemprego, um aumento na tarifa do transporte, através da manipulação da integração, aprofunda a exclusão da população pobre e periférica  da cidade e de oportunidades de emprego longe do local de moradia, na maior parte no centro da cidade.  Por isso insistimos em afirmar que todo aumento de tarifa é uma questão política e não puramente técnica, como tentam fazer crer Alckmin e Doria.

Por que acredita que Doria esteja usando esse disfarce no aumento, é medo de protestos?

Uma das promessas que fizeram com que Doria fosse eleito foi a de congelar a tarifa do transporte público por 4 anos, mas como o interesse daqueles que financiam sua campanha – os empresários do transporte – se sobrepõem ao interesse da classe trabalhadora o prefeito, agora já eleito, voltou atrás.

A manipulação da grande mídia orquestrada por Doria e Alckmim para disfarçar o aumento tenta proteger a imagem do João Mentiroso e desmobilizar a população, pois temem a força que a luta pode ganhar nas ruas.

Doria deseja rever direitos já conquistados, como o passe livre concedido a idosos entre os 60 e os 65 anos. A luta pela gratuidade no transporte público ficou ainda mais difícil agora?

A retirada do passe-livre para idosos ou a extensão da idade necessária para ter acesso a esse direito precariza ainda mais a vida destas pessoas que recebem baixos salários ou aposentadorias. Sob estas condições é ainda mais árduo o esforço para se organizar e lutar, seja pelo passe livre ou outras demandas. A luta pela Tarifa Zero, pela total gratuidade do transporte coletivo, fica sim mais difícil.

A nova gestão dá sinais evidentes de que privilegia o transporte individual. Quer reabrir, por exemplo, o viaduto 9 de Julho para carros (era utilizado só por ônibus na gestão Haddad). Doria será um retrocesso muito grande? O MPL já tentou algum contato com a nova equipe?

Assim como Haddad, que aumentou 3 vezes a tarifa durante sua gestão e implementou uma política de corte de linhas na cidade, Doria se mostra um governante alinhado com os interesses daqueles que lucram com o uso do transporte público. A implementação do passe livre estudantil em 2015, a extensão das faixas exclusivas para ônibus e outras melhoras na qualidade do transporte foram conquistas pela luta da população, não são do prefeito Haddad.

Os retrocessos que a política empresarial do novo prefeito pretende implementar dependem que nós usuários do transporte não nos organizemos para lutar e barrar tais medidas. Somente a luta pode construir um transporte verdadeiramente público na cidade.

A PM sempre foi de extrema violência em atos do MPL, teme que a repressão possa se repetir?

Os empresários do transporte, que lucram com as tarifas absurdas, sempre tiveram o apoio do Estado para garantir seus lucros. A brutal repressão da PM e do CHOQUE aos atos tenta acabar com a luta e deslegitimar a pauta, e a gente não espera outra ação por parte deles. Nós precisamos resistir. Só assim podemos barrar o aumento.

mpl

Mauro Donato
No DCM
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Prefeito DEMo contrata firma de filhos de aliado sem licitação na BA

O prefeito Elinaldo Araújo (à direita) ao lado de Paulo Souto (DEM) durante a campanha
Recém-empossado para a Prefeitura de Camaçari, região metropolitana de Salvador, o prefeito Elinaldo Araújo (DEMo) assinou contrato emergencial com dispensa de licitação para os serviços de coleta de lixo da cidade.

A empresa contratada foi a Naturalle Tratamento de Resíduos, que tem como sócia a RVT Incorporação — pertencente aos irmãos Vitor e Rodrigo Loureiro Souto.

Ambos são filhos do ex-governador da Bahia Paulo Souto (DEMo), atual secretário da Fazenda de Salvador na gestão de ACM Neto (DEMo).

Responsável pela gestão da Naturalle, atuando como sócio administrador, Vitor Souto também é filiado ao DEMo desde 2009. A empresa foi criada em 2014.

O contrato emergencial, com prazo de 90 dias, custará R$ 17,4 milhões ao município. Prevê serviços de coleta de lixo domiciliar e de zeladoria como varrição, roçagem e lavagem das vias públicas.

Quarta maior cidade da Bahia, Camaçari abriga o principal polo industrial do Estado. Tem a segunda maior economia e a segunda maior arrecadação da Bahia, com orçamento de R$ 1,2 bilhão.

A Naturalle foi contratada em substituição à Abrantes Ambiental, que operava o lixo na gestão do prefeito Ademar Delgado (PCdoB) sob contrato emergencial encerrado em 31 de dezembro.

A gestão de Delgado chegou a fazer licitação para coleta de lixo na reta final da gestão, vencida pela própria Abrantes. O certame, contudo, foi suspenso pela Justiça.

Advogado especialista em Direito Público, José Amando Júnior diz que a contratação da nova empresa de coleta de lixo sem licitação não tem base legal. Mas diz que o erro foi da gestão anterior.

"Tecnicamente, não houve emergência, mas falta de planejamento da gestão anterior. Como é inimaginável a cidade ficar sem coleta de lixo, já que não havia tempo hábil para uma licitação, a dispensa acaba aceita", diz.

Segundo ele, a prefeitura deve usar o período do contrato emergencial para licitar o serviço de coleta de lixo. E deve ser punida caso prorrogue o contrato por mais tempo que os 90 dias previstos.

Prefeituras

Além da Naturalle, Vitor Souto também é sócio de outra empresa que atua no setor de coleta de lixo — a Ecolurb Engenharia, Conservação e Limpeza Urbana. As duas funcionam no mesmo endereço em Salvador.

Desde 2013, a empresa assumiu a coleta de lixo de importantes municípios baianos governados por partidos aliados do DEMo, caso de Valença, Irecê, Espanada e São Sebastião do Passé. Nas quatro cidades, os contratos firmados foram emergenciais, com dispensa de licitação.

A Ecolurb também firmou contratos com prefeituras de Catu e Dias D'Ávila, governadas pelo PT.

Outro lado

A prefeitura de Camaçari informou, por meio da coordenadoria de comunicação, que a contratação da Naturalle Tratamento de Resíduos foi feita de forma legal, com respaldo na lei de licitações.

Diz que quatro empresas enviaram cartas à prefeitura manifestando interesse em assumir a operação de lixo da cidade, cujo contrato vigente seria encerrado em 31 de dezembro de 2016.

Três das quatro empresas apresentaram propostas — Naturalle, MM Consultoria e Biosanear. Segundo a prefeitura, a Naturalle teria oferecido o menor preço.

A prefeitura ainda afirma que o contrato representará economia de R$ 1 milhão por mês em comparação com a empresa que prestava o serviço na gestão anterior.

Diz que o novo contrato prevê que a empresa também opere o aterro sanitário de Camaçari, que custa mensalmente R$ 980 mil. A prefeitura ainda informa que deverá licitar o serviço de coleta.

O empresário Vitor Souto, sócio da Naturalle, não atendeu às ligações da Folha.

João Pedro Pitombo
No fAlha
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Como fins de semana de três dias podem ajudar a salvar o mundo

Sociólogo britânico diz que redução da jornada de trabalho é inevitável e levará a redução de emissões e consumo de energia.

Imagine se, em vez de curtir alguns feriadões ao longo do ano, tivéssemos três dias de fim de semana todas as semanas.

Não se trata apenas de uma boa ideia para quem quer passar mais tempo com a família ou praticar seus hobbies, poderia ser uma maneira fácil de melhorar radicalmente o nosso ambiente e a economia. 
Sociólogo britânico diz que redução da jornada de trabalho é inevitável e levará a redução de emissões e consumo de energia 
Jean-Francois Monier/AFP
Segundo os economistas David Rosnik e Mark Weisbrot, geralmente a redução da jornada de trabalho acarreta uma queda no consumo de energia.

Na verdade, se os Estados Unidos adotassem seguissem um horário de trabalho como o dos europeus, de 40 horas por semana, reduziriam o uso de energia e, consequentemente, das emissões de carbono em 20%.

E com apenas quatro dias de trabalho por semana também seriam reduzidas as emissões de carbono geradas pelo transporte para o trabalho.

Num momento em que cientistas recomendam reduções drásticas das emissões de gases que contribuem para o aquecimento global, a adoção de fins de semana de três dias poderia ser a maneira mais fácil para tornar a nossa economia menos nociva ao meio ambiente.

O caso Utah

E a ideia já foi implementada em 2007, no estado de Utah, nos Estados Unidos.

Lá, funcionários públicos estenderam as horas trabalhadas de segunda a quinta-feira para eliminar sextas-feiras.

Nos primeiros dez meses, foram economizados pelo menos US$ 1,8 milhão em energia elétrica.

Ideia já foi implementada em 2007 no estado de Utah, sobrando mais tempo para o lazer.
Na foto, praticante de snowboard desce montanha em Solitude, Utah
Al Hartmann/The Salt Lake Tribune/AP
Um número menor de dias de trabalho levou à redução das despesas com energia em escritórios, menor consumo de ar condicionado e menos tempo usando computadores e outros equipamentos.

Se forem levados em conta os gases do efeito estufa do transporte ao local de trabalho, Utah deixou de emitir mais de 12 mil toneladas de CO₂ por ano.

Apesar destas vantagens, em 2011 o governo de Utah foi forçado a abandonar a medida após reclamações de moradores que queriam ter acesso a serviços nas sextas-feiras.

Isso indica que medidas deste tipo devem ser acompanhadas por uma mudança em nossas expectativas para sextas-feiras. O primeiro passo é pensar naquele dia como o primeiro do fim de semana, e não um dia sem trabalho.

No entanto, a experiência de Utah mostra que, se replicada em todo o país, uma semana de quatro dias poderia levar a um grande avanço no sentido de uma economia que causa menos danos ao meio ambiente.

Haveria ainda possível aumento no bem-estar físico e mental da população, pois trabalhar menos dias poderia melhorar o "equilíbrio trabalho-vida".

O caso da Suécia

"Quando vemos a forma como vivemos, o estresse que as pessoas sofrem, a pressão sobre o tempo e as ausências por motivo de doença e saúde mental relacionados ao trabalho, vemos claramente que é um grande problema", disse o professor John Ashton ao jornal The Guardian, ex-presidente da Escola de Saúde Pública no Reino Unido.

Três dias fim de semana nos proporcionariam mais tempo para atividades sociais, para conviver com filhos e idosos e para se envolver mais com a comunidade.

Em 2015, a Suécia fez várias experiências com redução nas horas de trabalho, e como resultado registraram menos ausências por questões de saúde e aumento da produtividade.

Existem razões econômicas e tecnológicas para que os governos, partidos políticos, consultores e movimentos sociais comecem a considerar a adoção de fins de semana de três dias.

Recentemente, o antropólogo David Graeber, da London School of Economics, publicou um estudo no qual argumenta que muitos dos trabalhos atuais seriam desnecessários.

Para Graeber, a previsão feita em 1930 pelo economista John Maynard Keynes, de que no fim do século 20 os seres humanos só estariam trabalhando 15 horas por semana graças aos avanços tecnológicos, deveria ter sido realizada.

Mas não foi assim.

Presença e produtividade

Economistas dizem que muitos dias de trabalho são subutilizados pelos empregados. Mas os funcionários são incapazes de sair do local de trabalho por uma exigência de "presença".

Eles argumentam que em vez de trabalhar mais horas com pouca produtividade, deveríamos ter uma semana mais curta e ajudar a salvar o planeta e o nosso próprio bem-estar.

Cada vez mais, é esperada uma automação dos ambientes de trabalho. Sistemas de robótica avançada e inteligência artificial substituirão 47% dos empregos atuais nos Estados Unidos e 54% na Europa nas próximas décadas, segundo estudos recentes.

Nestas circunstâncias, onde haverá muito menos trabalho disponível, a adaptação aos fins de semana de três dias seria essencial para manter o funcionamento da economia.

Como Nick Srníček e eu expomos em nosso livro Inventing the Future: Postcapitalism and a World Without Work ("Inventando o futuro: Pós-capitalismo e um mundo sem trabalho", em tradução livre), a automação nos oferecerá a perspectiva de uma visão muito diferente sobre o trabalho.

Será que é possível trabalhar menos?

Uma maior automatização tornará processos de produção mais eficientes com menos energia e menos trabalho humano até, em última instância, nos libertar do trabalho.

A chave para obter os benefícios da automação sem qualquer deslocamento social drástico depende em parte do desenvolvimento de políticas para redistribuir esses benefícios.

Isto significa uma jornada de trabalho semanal reduzida graças a um fim de semana mais longo, aliado a um salário básico universal.

Nada disso vai acontecer de um dia para o outro.

Mas se você está de folga, lendo este artigo em casa, pense que não está apenas desfrutando de um dia de lazer, mas também está colaborando no combate às mudanças climáticas.

Alex William é professor de sociologia. Ele escreveu este artigo para o site acadêmico The Conversation



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Carta ao ministro da Justiça, de Frei Betto

"Excelência: fui preso comum. Sim, a ditadura, que não respeitava direitos, me transferiu da prisão política para a comum. Em dois anos, passei pela Penitenciária do Estado de São Paulo, Carandiru e Penitenciária de Presidente Venceslau (SP), a mesma que hoje abriga o comando do PCC."


“É verdade, faz tempo que vivi em nosso sistema prisional. Mas de lá pra cá pouco mudou. Só piorou. E os governos do Brasil democrático tomaram uma única medida, a mesma que o presidente Temer anunciou há pouco: construir novas cadeias. Agora mesmo, frente ao massacre no Amazonas, já conhecido como “Carandiru 2”, o que fez o governo federal? Propôs a construção de mais duas penitenciárias naquele estado.

Hoje o Brasil abriga 660 mil presos. A continuar a enxugar gelo, ou seja, aliviar os efeitos da criminalidade sem combater as causas, daqui a pouco serão 1 milhão. A solução é polvilhar nosso território de presídios?

Há quem proponha entregar o sistema prisional à iniciativa privada. Aliás, a penitenciária Anísio Jobim, em Manaus, na qual foram trucidados 56 presos, funciona em parceria público-privada. Esse modelito, adotado nos EUA, vem sendo revisto pelo Tio Sam. Como a empresa recebe do Estado segundo o número de detentos que administra, quanto mais lotada a prisão, maior o lucro…

Sou a favor da parceria público-privada em outros termos. Transformar cada penitenciária em oficina-escola. Tirar os detentos da ociosidade. Em convênio com empresas, fazer funcionar ali dentro oficinas de fabricação de brinquedos, bicicletas e velocípedes, material esportivo, artesanato etc., mediante remuneração salarial. E aulas de ensino fundamental e médio, idiomas, culinária, teatro, dança etc. E, de acordo com a lei, regressão da pena a cada etapa vencida.

Muitos ingressariam nessas atividades movidos, inicialmente, pelo interesse de encurtar o tempo entre as grades. Porém, oficinas e cursos haveriam de mudar-lhes o modo de pensar e agir, recuperando-os ao convívio social.

Utopia? Não, experiência. Basta analisar o índice de reincidência criminal daqueles que, em Presidente Venceslau, passaram pelo curso de ensino médio e as oficinas de pintura, teatro e estudos bíblicos. Todos administrados por nós, meia-dúzia de presos políticos, inseridos na massa carcerária.”

Frei Betto é escritor, autor de Batismo de Sangue (Rocco), entre outros livros
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Até o Jornal Nacional “zoa” o “Acidente do Temer”, assista


Michel Temer não consegue passar um dia sem cair no ridículo.

Parece que só no Congresso Nacional, palco do massacre que quer fazer dos direitos sociais e trabalhistas é levado a sério, dá para imaginar por quais razões.

Temer é tão patético que nem de seus apoiadores escapa.

Ontem, no Jornal Nacional, a desastrosa emenda do soneto de mau-gosto que fez ao chamar a chacina de Manaus de “acidente” virou tema de mais uma “zoação”, de 40 segundos, em rede nacional.

Quando nem na Globo dá para defender Temer, a coisa está ruim, mesmo.

Veja o trecho, abaixo:



Fernando Brito
No Tijolaço



Opinião de especialistas

Formado em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre pela PUC-Rio, o professor da língua portuguesa Sérgio Nogueira avaliou ao G1 que o uso do termo “acidente” não é “adequado” para o episódio envolvendo a rebelião no presídio em Manaus.

“[O termo] ‘acidente’ não é adequado. Isso [a rebelião] não é acidente. Mas daí é subjetivo. A palavra ‘acidente’ é aquilo que acontece ao acaso, e não é bem o caso [de Manaus]. É uma tentativa de suavizar”, avaliou.

Também formado em letras pela UFRGS, mestre e doutor em língua portuguesa, Cláudio Moreno disse ao G1 que, na avaliação dele, o presidente usou o termo adotando um conceito de que a palavra “acidente” está relacionada a um acontecimento desagradável, com perda e morte.

“O que se pode criticar é a escolha da palavra ‘acidente’. Acidente sugere que foi uma coisa fortuita, [que] não era previsível. Ele [Temer] quer dizer que é uma coisa pontual, não é normal. Agora, para outros, não é acidente porque já estava anunciado. Então, usar a palavra ‘acidente’ seria uma maneira de querer ‘tirar o corpo fora’. Por isso, a escolha de palavras é a retórica política”, disse.

“Poderia ser ‘tragédia’, poderia ser ‘catástrofe’. Ele [Temer] usou ‘acidente’ porque as pessoas escolhem as palavras de acordo com a sua ideologia. A discussão vai se dar no nível ideológico e não no nível das palavras, porque em ambos os casos está certo. Toda escolha de palavras implica um posicionamento de ideias. […] As palavras têm que ser muito bem pesadas para o que as pessoas querem dizer, qualquer assessor de imprensa tem que saber isso”, completou.



Temer chama Massacre de Manaus de “acidente”. Acidente é o país estar de pé

Michel Temer chamou de ''acidente pavoroso'' o Massacre de Manaus.

Nesse acidente, 56 pessoas acabaram assassinadas.

Acidentalmente, cabeças foram decapitadas e membros separados dos corpos no presídio Anísio Jobim, em Manaus.

Por acidente, o lugar estava superlotado.

Um acidente fez com que facções criminosas comandassem o local.

Outro acidente garantiu que a política de segurança pública do Estado brasileiro fosse falida e incompetente para garantir a reinserção social dos encarcerados.

Mais um acidente levou à adoção de uma política de combate às drogas totalmente ineficaz, que apenas aumentou o poder de organizações criminosas, armando-as até o dentes.

E, é claro, um acidente fez com que leis brasileiras tenham sido criadas para proteger os mais ricos em detrimento dos mais pobres e para que um racismo institucionalizado siga enviando para a cadeia relativamente mais negros do que sua participação na população brasileira.

E, apesar de Temer ter tentado tirar o corpo fora da história, acidentalmente ele é o presidente e, portanto, responsável por esse problema estrutural do país – que não se resolve apenas com a construção de presídios e aumento no efetivo de segurança.

As palavras têm significados, apesar de tentarmos torturá-las sistematicamente no desejo de que atendam nossas necessidades. Procurei em dicionários mas não achei o significado de ''acidente'' que Michel Temer quis imputar a um massacre que possui responsáveis diretos e indiretos – dos próprios presos até a cúpula da República.

Pois o que aconteceu não foi casual, inesperado e fortuito, mas proposital, esperado e previsto.

Precisamos parar de culpar o acaso por crimes intencionais. Não se estupra por acidente, não se atropela e mata embriagado ao volante por acidente, não se espanca alguém na rua por acidente, não se põe fogo em uma pessoa em situação de rua que estava dormindo por acidente.

Manaus não foi acidente.

Mas o Brasil, há muito tempo, parece estar sendo conduzido por acidente.

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30 morrem em prisão de Roraima

Corre, Moraes, corre!


Quatro dias após o massacre que vitimou 56 detentos no Complexo Penitenciária Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, o Brasil vê outra tragédia em presídio, envolvendo brigas de facções criminosas. A Sejuc (Secretaria de Justiça e Cidadania) de Roraima confirmou nesta sexta-feira a morte de 33 presos na Pamc (Penitenciária Agrícola de Monte Cristo), na zona rural de Boa Vista. O fato ocorreu por volta de 2h30.

A assessoria de imprensa do governo de Roraima afirmou que não houve uma rebelião. Os próprios detentos teriam provocado as mortes durante uma briga de facções. Ainda segundo o órgão, o tumulto envolveu presos do Comando Vermelho e do PCC (Primeiro Comando da Capital), facção mais numerosa na penitenciária.

Os massacres em Manaus e Boa Vista se tornaram mais um componente de crise para o governo de Michel Temer. O peemedebista passou dias calado sobre as mortes em Manaus e quando se manifestou acabou criando mais polêmica ao afirmar que se tratou de um acidente. Entidades, ONGs, organismos internacionais e até o papa Francisco criticam o Brasil devido à situação caótica nos presídios e cobram soluções das autoridades.


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Se o Estado age como o PCC, decidindo quem vive ou morre, como espera julgá-lo?

"Ali não tinha nenhum santo." Foi com tal sentença que o governador do Amazonas veio a público comentar o massacre que ocorreu em prisão de Manaus. De fato, santo lá não havia, como, ao que tudo indica, não há em nenhum outro lugar do mundo sublunar.

Os presidiários não são santos, você também não é, nem eu e muito menos o senhor governador.

Se estivéssemos em uma sociedade de santos, não haveria necessidade de justiça, nem mesmo de governo.

Se existe direito, justiça e governo é porque aqui também, ou seja, fora do presídio, não há nenhum santo, há seres humanos com suas trajetórias erráticas e seus acordos precários. A justiça é uma construção humana para lidar com humanos.

Por isso, é possível que a frase do senhor governador quisesse dizer outra coisa. Talvez algo como: "Quem estava lá era sub-humano, não há porque estarmos concernidos com suas mortes". Essa é uma estratégia que os governos brasileiros se eximem em implementar desde há muito, impulsionados por uma parcela da própria população.

Trata-se de espoliar massas inteiras de sujeitos de qualquer forma de humanidade. Se eles morrem, não haverá nem nomes nem histórias. Haverá apenas números: 60 presos mortos. Você nunca saberá quem são, se eles estavam lá por assassinar a ex-mulher, o filho e seus parentes ou por ter vendido meia dúzia de cigarros de maconha.

Você nunca verá seus rostos. Até porque, desde que entraram na cadeia, eles já estavam desaparecidos, eles já não existiam mais, dessubjetivados, prontos para uma morte indiferente patrocinada pelo Estado e aplaudida por "pessoas de bem".

Entender como o governo brasileiro funciona é entender como ele administra o desaparecimento e o direito de matar. Esta é sua verdadeira forma de governo.

Com uma mão ele massacra parte de sua população, com outra ele lembra, à outra parcela, que o medo espreita e que é necessário "ser ainda mais duro".

Matar esses "60 presos" é visto, no fundo, como um direito soberano do Estado, como foi um direito soberano matar "111 presos" no Carandiru sem que isso tenha gerado maiores consequências, sem que houvesse rastos.

Não, não foi uma luta de gangues o que produziu o massacre em Manaus, mas uma política deliberada e pensada de administração da morte, feita nas pranchetas da omissão, do descaso, da perpetuação de condições medievais e da cumplicidade.

Então virão aqueles que aplaudem o ocorrido, seja com aplausos explícitos, seja com satisfação implícita. "Ali não tinha nenhum santo", dizem todos. Os que aplaudem sempre estiveram lá, no mesmo lugar, desde as execuções públicas medievais, as torturas públicas de escravos em fuga até os massacres policiais de hoje, com o mesmo rosto de "fizeram por merecer".

Desde tempos imemoriais eles repetem o mesmo raciocínio que confunde justiça e vingança, que acredita estar seguro quando submetido a um poder sem limites, que dirá "se você não faz nada, nada acontecerá contigo".

Mas o que você precisa fazer para ser preso no Brasil? Pouco mais de 10% dos presos brasileiros estão lá por homicídio (simples ou qualificado). Os outros 90% são pessoas que cometeram furtos e roubos de toda sorte, pichadores, pessoas que "desacataram" a autoridade e, principalmente, sujeitos com problemas ligados a drogas que não tiveram um bom advogado ou um sobrenome capaz de libertá-los.

Ou seja, em larga medida, pessoas que deveriam estar fora de presídios, cumprindo outra forma de pena — e estariam cumprindo se não fossem de classes sociais massacradas.

"Tem pena, leve para casa", grita a turba. Mas, sabe turba, não, não temos pena. Temos indignação, o que é algo totalmente diferente.

Não queremos levar ninguém para casa, queremos que o Estado brasileiro saia do banditismo que muitos aplaudem. Já os gregos sabiam, ao menos desde "Antígona": retirar a humanidade daqueles que o Estado julga criminosos é a forma mais rápida de destruir o próprio Estado, de fazer do Estado outro criminoso.

O Estado brasileiro age como o PCC, decidindo soberanamente quem irá viver e quem será deixado para morrer. Como ele espera julgá-lo?

Vladimir Safatle
No fAlha
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