17 de dez de 2017

Sociedade Frankenstein


Embora todos conheçam a história de Frankenstein, poucos atentam para o verdadeiro sentido e profundidade da crítica de Mary Shelley. A escritora inglesa, do início do século XIX, produziu uma das mais profundas e atuais análises da nossa sociedade. O “monstro” de Frankenstein combina uma força física descomunal, com uma falta de localização histórica e com o desconhecimento de limites éticos. Esta mistura o leva ao campo da selvageria. Note que o monstro de Mary Shelley é capaz de fazer breves raciocínios. Tem em si sentimentos como saudade, desejo, raiva e até amor. Mas o monstro, privado de sua história, sem um sentido de continuidade entre o passado, o presente e o que poderia ser seu futuro, não consegue compreender o que é efetivamente o humano. Não consegue ser humano. Não consegue ser.

Dois fatos no mês que passou deveriam ter levado a toda a humanidade a um processo de reflexão sobre a profunda transformação em curso. Em primeiro lugar, a gigante Google criou um algoritmo chamado “alpha-zero”[1], que em quatro horas aprendeu sozinho a jogar xadrez. Alpha-zero venceu os programas de computador criados e aperfeiçoados pelo homem nos últimos 20 anos. Não apenas venceu, mas ganhou por 28 a zero. Não perdeu nenhuma partida. Veja que não estamos falando apenas da capacidade de cálculo da máquina, pois os programas vencidos estavam também em computadores. Estamos falando de um algoritmo que literalmente aprendeu a jogar xadrez sozinho e bateu TODA a criação humana, seja da experiência acumulada do jogo e dos jogadores nos últimos 4000 anos, seja do crescimento e aperfeiçoamento de programas criados pelos próprios homens.

E fez isto em apenas quatro horas.

No mesmo momento, saiu o relatório de Philp Alston[2] para a ONU a respeito da pobreza nos EUA. O país mais rico do mundo e a única superpotência mundial tem o maior índice de mortalidade infantil entre todo o mundo desenvolvido, tem a menor expectativa de vida, e está na posição 35 de 37 países com respeito a pobreza e desigualdade. Na sociedade que supostamente atingiu o pico do desenvolvimento material no nosso tempo, um quarto dos seus jovens (25%) está vivendo na pobreza. Esta sociedade tem menos médicos e doutores por pessoas (do que os países desenvolvidos) e está em 36 lugar no mundo em relação ao acesso à água potável e saneamento básico de sua população.

Por qualquer nível humano de comparação, os EUA estão muito mais próximos das sociedades do século XIX do que de qualquer ideal de humanidade no século XXI. E estamos falando da sociedade mais rica e materialmente desenvolvida do planeta. Ainda assim, não satisfeitos em retornarem aos níveis de desigualdade do início do século XX, os norte-americanos estão para aprovar um corte de impostos que beneficia apenas o 1% mais rico da população deles. Todos os estudos mostram o desastre social que vai acontecer e diversos políticos, economistas, professores e artistas têm vindo à público chamar a atenção para o fato de que a imensa maioria da população será fortemente prejudicada. Assim como no Brasil, parece estar acontecendo um processo completo de torpor intelectual. Não se trata apenas do anti-intelectualismo quase medieval, se trata da incapacidade dos cidadãos atuais de se situarem no tempo e no espaço e de fazerem escolhas racionais para si.

Mary Shelley explicou isto. O desenvolvimento material do monstro de Frankenstein era imensamente superior a qualquer outro ser humano. O monstro era mais forte, praticamente imortal e inclusive capaz de raciocínios simples. A sociedade capitalista, onde o consumo gera demanda para o desenvolvimento econômico em níveis nunca antes vistos pelo ser humano, faz uma disparada de nossas capacidades materiais e, ao mesmo tempo, inibe o desenvolvimento humano. Somos exatamente o monstro de Frankenstein. Estamos privados de raciocínios mais aprofundados e, desde a queda do muro de Berlim, estamos sofrendo um processo de desconstrução do nosso passado. Aliás, de qualquer passado. O mundo do “Carpe Diem” é o mesmo mundo do “a terra é plana”, do “você tem que morrer por pensar isto” e do “eu faço porque o Pastor mandou”.

A Escola de Frankfurt explicou o surgimento do fascismo nestas bases. A sociedade de consumo desorientou o homem alemão, ofertando materialmente uma gama de capacidades sem que ele tivesse condições psicológicas, sociológicas ou mesmo históricas para compreender seu lugar no tempo, as relações com outros seres humanos e mesmo aceitar a sua finitude. Este homem desorientado procura um sentido para sua existência, procura alguém a seguir e age, a partir daí, como quem descobriu a única verdade do mundo. Todo o resto, todo aquele que difere é uma ameaça ao mundo como este desorientado entende. E aí a ignorância, o medo e a incapacidade de se compreender vira violência. É exatamente Mary Shelley.

Estamos no limite da criação de inteligências artificiais que alterarão – sem nenhuma capacidade nossa de previsão – toda a humanidade. Ao mesmo tempo, estamos cobrindo obras de arte nos museus por intolerância. Criamos mais informação em um dia, hoje no mundo, do que toda a informação criada pelos nossos ancestrais nos últimos milhões de anos. E ainda assim, pessoas gritam como se estivessem possuídas por um demônio em forma de galinha ou de macaco e um pastor cobra dinheiro para “salvar” esta “pobre alma” que se joga ao solo, imita o macaco, baba e revira os olhos em “cultos” nas nossas cidades.

A maior desigualdade humana não é, pois, entre ricos e pobres. Entre nações com muitas capacidades materiais e as desprovidas delas. A maior desigualdade humana é entre o desenvolvimento de suas forças produtivas e seu nanismo moral, histórico, político e social. Não deveria ser surpresa que pessoas que desconhecem sua história e seu papel na sociedade retomem ideias e medos do início do século XX. Não chega a surpreender que estejamos caminhando, no mundo todo, de volta ao fascismo. O monstro de Frankenstein também voltava para procurar o seu criador. E neste processo deixava um rastro de violência.

A nossa geração está vivendo a desorientação e violência da mudança. Mas se você tem filhos e netos, deveria estar preocupado por eles. A geração deles viverá a mais completa transformação humana de que se tem notícia desde o surgimento do Estado. E eu não sei se eles estão preparados para o mundo que surge. E não sei exatamente porque nossa educação foca naquilo que se tornará totalmente obsoleto em alguns anos, e deixa de lado tudo o que poderia dar ao monstro um sentido para sua existência. Se o mundo será das máquinas ou se será dos obtusos e violentos, eu não sei. Se eles viverão num universo ao estilo de Matrix ou num mundo como mostrado em Mad Max, me parece insondável. Seja como for, estamos abrindo mão, como espécie, daquilo que nos fez humanos e claramente não estamos preparando as gerações futuras para os desafios que elas enfrentarão.

O futuro me assusta muito.



Fernando Horta
No GGN

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