30 de dez de 2017

Para entender as diferenças entre o PT e o PSOL


A respeito da polêmica desencadeada pela entrevista do presidente do PSOL Marcelo Freixo à Folha, as disputas entre PT e PSOL se devem exclusivamente à busca de espaços políticos de lado a lado.

O PT sempre foi uma confederação de tendências. Aliás, o PT dos anos 80 seria o melhor exemplo de partido contemporâneo, nesses tempos de redes sociais, de coletivos e outras formas horizontais de organização.

A própria caminhada rumo ao poder, no entanto, induziu a uma centralização do poder em poucos grupos majoritários. Houve um acordo político que permitiu dividir poder, excluindo não apenas a esquerda mais radical, mas outros grupos minoritários.

No período José Dirceu a centralização se justificava, até como forma de garantir a governabilidade de Lula. No poder, como seria natural, o PT se estratificou. A era Ruy Falcão, serviu apenas para consolidação de poder interno, sem a mínima capacidade de enxergar o entorno. E tudo isso, enfrentando o período de maiores transformações na história da militância política, com o advento das redes sociais e das novas formas de organização.

E aí é  importante entender adequadamente os movimentos de junho de 2013. Está certo Lula de enxergar a mão externa. E está certo o presidente do PSOL, Marcelo Freixo, de enxergar os novos tempos.

As manifestações de 2013

Quem deu o tiro inicial foi um coletivo de esquerda, o Movimento do Passe Livre, em cima de uma bandeira relevante, mas pequena em relação ao conjunto de políticas públicas.

Acendeu o fósforo no momento em que o mal-estar econômico se alastrava por todo o país, em um movimento pendular que se seguiu à grande euforia do período 2008 a 2012. Às ruas foram jovens militantes de esquerda, classe média desiludida, o grupo dos que posteriormente passaram a ser conhecidos como “coxinhas”.

Mas quem apanhou da Polícia Militar de Alckmin foram os jovens esquerdistas, não os halterofilista do MBL. Mesmo assim, o PT fechou completamente as portas a eles. Temia perder o protagonismo das ruas.

Nesse sentido, Marcelo Freixo está coberto de razão.

O novo tempo era dos coletivos, das mobilizações virtuais. Nem o PT nem Dilma Roussef se deram conta dos novos tempos.

Poucos meses antes das manifestações, tive um encontro com a presidente Dilma Rousseff, presente Helena Chagas - ambas poderão atestar o conteúdo da conversa. Nele, alertei a presidente que, nas redes sociais,  havia uma militância de esquerda aguerrida mas que estava acuada pela militância de direita que surgia. E a principal razão era a falta de bandeiras políticas legitimadoras.

- Você não dá bandeiras a eles, disse-lhe.

Era simples para a direita mobilizar as pessoas em torno do mal-estar. Bastava mirar a figura maior, a presidente da República. Foi assim nas diretas, na qual o presidente era um militar. Para os grupos que defendiam a presidente, o jogo era mais difícil. Tinha que levantar bandeiras, defender princípios.

Naquele período, a única bandeira legitimadora foi a do Mais Médicos. Depois, nenhuma mais.

Na fase de maior politização da história, tinha-se no poder paradoxalmente um governo de esquerda e o mais tecnocrático da história em período democrático e uma direção partidária mais preocupada em defender o território interno conquistado do que em conquistar novos adeptos.

O PT jogou os jovens do MPL ao mar e perdeu o único ponto de contato com as ruas.

E aí foi uma baba (para usar um termo mineiro) para a direita, especialmente com o know how acumulado pela consultoria norte-americana nas sucessivas primaveras em países do Oriente Médio.

Em um novo mercado político, no qual até os motoqueiros conseguiam arregimentar pessoas para manifestações políticas, bastou bancar dois ou três grupos organizados para incendiar as redes sociais e esparramar-se pelas ruas. Especialmente depois que, a partir do terceiro ou quarto dia, a Globo o descobriu que havia um terreno fertilíssimo para seus intentos golpistas.

Portanto, ambos – Lula e Freixo tem razão. O PT nunca entendeu os movimentos que surgiam das redes sociais. Não entendendo, deixou a porta escancarada para o trabalho da direita e de seus consultores externos.

Os conflitos de esquerda

Os partidos políticos brasileiros não são democráticos. O PSDB é dominado por caciques. Mesmo com suas prévias, não existe democracia interna no PT. E, por tal, entenda-se o modelo capaz de permitir a existência de grupos minoritários que tenham espaço para disputar o poder.

Um mapa nacional do PT mostrará a consolidação de lideranças tradicionais em todos os quadrantes do país, mais no sudoeste sustentado pela malha sindical, mais ao norte por lideranças formadas há mais de duas décadas. A última leva de dirigentes nasceu da campanha do impeachment, de 25 anos atrás. A maior parte dos dirigentes, das diretas de 30 anos atrás.

Um partido democrático abriria espaço para a oposição interna, grupos que combateriam a direção sem sair do partido, desde que houvesse horizonte de alternativa de poder. É o grande segredo do PC chinês.

No PT, em vez de oposição dentro do partido, partiu-se para a criação de novos partidos, visando assegurar espaço para os dissidentes. Nasce, assim, o PSOL e, depois, partidos mais à esquerda, como o PSTU. E todos eles rapidamente se estratificam, antes mesmo de se tornar poder. Hoje em dia, o único fator a ligar todos os militantes do PT, as diversas linhas, os intelectuais progressistas independentes, é Lula, a perspectiva de que volte ao poder. Cada vez mais o PT depende de Lula.

Sem a capilaridade do PT, as lideranças acabam dependendo do espaço que conseguem na grande mídia. E o espaço é garantido por críticas ao PT e, especialmente, a Lula. Cria-se uma aliança espúria entre líderes de esquerda e mídia, cuja liga é dada pela capacidade de criticar as lideranças de esquerda constituídas.

Há os exemplos aí de Randolfo Rodrigues fazendo aliança com a direita do Ministério Público Federal (alo, Randolfo, acorde: é direita sim!); Aldo Rebelo com a UDR; Cristovam Buarque com-quem-vier-eu-traço. E o PSOL desancando o PT; e os ativistas do PT desancando o PSOL.

Essa visibilidade, junto com o desgaste do PT, acaba promovendo festivais de onisciência, como essa ideia de Freixo, de lançar Guilherme Boulos à presidência. O próprio Boulos deve ter considerado ridícula a proposta.

Independentemente de seu reconhecido valor, Boulos representa um segmento único do corpo social, os sem teto. Nada a ver com o Lula e o PT dos anos 80, que tinha a Igreja, os sindicatos, os movimentos católicos, os pensadores da esquerda independente. Como pretender de Boulos um projeto de país?

No vídeo que colocou no Youtube, visando responder às críticas sobre a entrevista à Folha, Freixo salienta a importância das eleições, a união que haverá no segundo turno etc.

É compreensível  que, para se diferenciar do PT, o PSOL faça críticas pontuais a pontos do programa de Lula. Os ataques intermitentes, o apoio à Lava Jato e outras concessões, no entanto, contribuirão para o acirramento das divergências e para o jogo desestabilizador da mídia.

O caminho da união passa pelo menor grau de sectarismo que vier a ser adotado pela nova direção do PT; e um amadurecimento maior das dissidências, em nome do objetivo maior, de restaurar a democracia.

Luís Nassif
No GGN

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