30 de dez de 2017

O que não entendemos direito ainda sobre 2013?


Em setembro de 2012, James Roberts, um dos analistas da Heritage Foundation (Think Tank conservador norte-americano) escrevia um artigo dizendo que o Brasil “precisa(va) de mais liberdade econômica” e deveria “eliminar barreiras à iniciativa privada, diminuir impostos, e acabar com a rigidez legal do mercado de trabalho”[1]. Curiosamente o PIB brasileiro crescia a taxas semelhantes ao do México, Argentina e muito próximo ao dos EUA, segundo os dados do Banco Mundial. Em janeiro de 2013, um obscuro economista ligado ao IPEA e aos think tanks americanos publicava um artigo em seu blog pessoal falando sobre a “contabilidade criativa”[2], que viria a se tornar tese (demonstrada errada) para o impeachment de Dilma, sendo chamada de “pedalada fiscal”. Os termos usados nos ataques liberais ao governo de Dilma eram idênticos aos “estudos científicos” emanados pelos institutos norte-americanos. Mas não foram apenas ataques vindo da direita que desgastaram o governo.

Em março de 2013, a CNI lançava uma pesquisa[3] em que o governo Dilma atingia 79% de aprovação. Índice maior do que Lula e FHC. Parecia claro que o governo Dilma se mantinha em um vôo de cruzeiro em direção à reeleição. Tal situação desgostava quatro grupos em especial: (1) os grandes grupos financeiros internacionais viam na experiência brasileira um incômodo caminho para a saída da crise de 2008. Enquanto o Banco Mundial e o FMI na época pregavam para toda a Europa a “Austeridade”, o Brasil mantinha-se em crescimento com políticas diferentes da receita liberal e ainda sustentava a relação PIB/dívida em decréscimo e grandes reservas internacionais. (2) As grandes empresas petrolíferas internacionais, que precisaram se submeter aos marcos do petróleo impostos por Dilma, também ombrearam-se no esforço de jogar o governo petista ao solo. Em março de 2013, por exemplo, a presidenta defendia o modelo de extração que privilegiava o capital nacional e os royalties indo para a Educação e Saúde[4]. (3) A oposição fisiológica interna (PSDB, DEM, PP, e parte do PMDB) aos governos progressistas percebia que o governo Dilma se tornava blindado. Sem grandes mudanças nos panoramas econômicos e com aprovação em alta, seria quase impossível evitar um quarto mandato petista e as obras de infraestrutura e a extração de petróleo prometiam uma disputa ainda mais dura para 2018. (4) A “oposição à esquerda” ao governo de Rousseff também se ressentia tremendamente por não conseguir ganhar votos dado que o governo petista capitalizava com inserção mercadológica da população, e o controle das variáveis sociais e econômicas do país. Em 2013, Eduardo Paes do PMDB vencia Marcelo Freixo pela prefeitura do Rio de Janeiro. O PSOL faria 28% dos votos contra quase 65% do PMDBista[5]. Em abril de 2013, Freixo dizia que: “se o PT está junto com o PMDB, tem de ser enfrentado, porque representa a mesma política hoje, por exemplo, no Rio de Janeiro”[6].

O que unia todos os descontentes contra o governo Dilma não era a “luta contra a corrupção” ou desavenças sobre alianças políticas locais. O que uniu os grupos contra Dilma foi a certeza de que o projeto petista amealhava apoios de forma pragmática e mantinha-se com alta popularidade. Era necessário derrubar Dilma, ao menos de seu pedestal de aprovação. Para isto, todos os grupos passaram a adotar um discurso quase esquizofrênico sobre o Brasil, falseando a realidade e induzindo a revolta social. Enquanto a direita, se aliava aos interesses internacionais e atacava a economia, os grupos de “oposição à esquerda” viam na possibilidade do desgaste de Dilma uma estrada para o seu próprio crescimento. O “Não vai ter Copa” era uma evidente tentativa de criar uma ruptura interna no apoio da presidenta.

Em junho de 2013, ocorrem as chamadas “Jornadas de Junho”. Uma série de manifestações locais, com pautas cuja responsabilidade eram de municípios ou Estados, mas que escalam para ataques ao governo federal. Dilma cai de 79% para 40% de aprovação em julho de 2013. O MPL (Movimento Passe Livre) reivindica a explosão de 2013, mas pela pouca visibilidade do movimento em nível nacional e as pautas efetivas que passam a frequentar os registros fotográficos das manifestações, percebe-se o erro desta abordagem. Além do mais, a primeira liderança a se mobilizar para viabilizar as reivindicações do MPL foi justamente Dilma Rousseff. Em abril, o MPF processava Dilma e Graça Foster por “manterem os preços da gasolina baixos”[7], indo no mesmo caminho do lobby internacional que se valia do Financial Times e da BBC para atacar o “intervencionismo brasileiro” na questão dos combustíveis[8]. É simplesmente insustentável que a pauta de um “passe livre”[9], totalmente circunscrita aos municípios e Estados, surja nacionalmente e se transforme em “não vai ter copa”, no “vem pra rua” e acabe no “fora Dilma”, sem que se perceba aí um maior ataque político.

O fato é que 2013 abriu uma caixa de Pandora ao defender “protestos sem partido” e sem pauta clara. Já em junho, o reacionarismo digital capturava o modelo “horizontal” de manifestação[10] do MPL e transformava o sonho de protagonismo de uma “oposição à esquerda”, num processo de desgaste político que, enfim, apontava para a possibilidade de vencer o projeto petista já nas eleições de 2014.

Mais dinheiro e ações políticas eram necessárias. Dilma precisava cair. Era consenso da direita e da esquerda à Dilma.

Num primeiro momento, é formado o grupo “Revoltados Online” ainda nos protestos de junho. Em 2014, com a brecha aberta surgem o “Vem pra Rua” e o “MBL”. O ataque digital da direita seria decisivo nas eleições de 2014[11], mas a “oposição à esquerda” também teria sua cota de responsabilidade. As marchas de rua nas capitais se valeram dos discursos identitários para negar a política e mobilizar as massas. As táticas chegaram mesmo a assemelharem-se ao famoso “occupy wall street” e black blocs surgiram no Brasil.

Os movimentos de 2013 não podem ser dissociados das disputas eleitorais cariocas e nem do erro de avaliação do PSOL. Se, naquele momento, o PSOL tivesse optado pela coesão ao invés do desgaste, muito provavelmente o golpe teria acontecido, mas a resistência teria sido mais dura e 2018 não seria tão perigoso.

Esta semana, o deputado Marcelo Freixo deu uma entrevista para a FSP em que diz que “o PT não entendeu 2013”[12]. Freixo, que estava envolvido com o suposto financiamento, nunca completamente explicado, de grupos de esquerda durante os protestos de 2013[13], volta a tocar numa narrativa irreal sobre 2013. Uma narrativa que não reconhece as imensas diferenças das jornadas em várias regiões e pinta todo o movimento se fosse um processo de emancipação política novo no Brasil.  Freixo parece cometer, mais uma vez, um imenso erro de análise. Erro que custou caro para ele nas eleições de 2016, por exemplo. O deputado, que em 2013 abertamente defendia os protestos de indivíduos mascarados[14] contra o governo, apenas em 2016 – após o repúdio nacional das táticas do grupo – muda o discurso[15]. Muda essencialmente em função da campanha eleitoral de 2016, onde foi vencido por Marcelo Crivella[16].

O deputado Marcelo Freixo demonstra mudar de posição conforme a proximidade das eleições. Novamente, através de um cálculo não muito inspirado, passa a dar declarações com o objetivo de “capitalizar” o eventual dissenso eleitoral do Partido dos Trabalhadores. O PSOL do Rio de Janeiro parece entender que seus votos estão no eventual desmanche do PT e não no convencimento das populações mais pobres, hoje majoritariamente eleitoras de pastores evangélicos. No final, a briga política do RJ entre Paes, Pezão, Cabral, Cunha, Freixo, Wyllys, Chico Alencar e Crivella, Garotinho pode contaminar o restante do país e impossibilitar a formação de um bloco consistente contra o golpe.

É evidente que 2013 não é sozinho responsável pela queda de Dilma. Sua popularidade desaba para cerca de 20% no início de 2015, após o anúncio do “ajuste liberal” de Joaquim Levy. A inépcia e incapacidade da comunicação no governo Dilma, personalizado em Thomas Traumann, respondem também pela debacle de 2016. Contudo, se os ataques virtuais da direita erodiram a popularidade da presidenta, é preciso reconhecer que a “oposição à esquerda” e a política intestinal do RJ foram responsáveis pelo 2013 e, assim, fazem parte do desarranjo político de 2013-2016.

Caso o deputado Marcelo Freixo continue em dúvida sobre a necessidade da “união das esquerdas” e não queira olhar criticamente para o seu papel em 2013, sugiro que veja o que ocorreu nas eleições francesas de 2016, quando os candidatos de esquerda ficaram – ambos – fora do segundo turno, exatamente pelo tipo de “estratégia”[17] defendida pelo deputado carioca. Ainda que se diga, com certa razão, que o PSOL não tem voto suficiente em nível nacional para influenciar a disputa eleitoral, Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Erundina, Ivan Valente e etc. são políticos de esquerda bastante conceituados e com relevante história de lutas. Tenho certeza que é melhor tê-los como aliados do que como inimigos.

Creio que quem não entendeu corretamente 2013 foi, infelizmente, o deputado Freixo e faço votos para que ele mude de opinião.



















Fernando Horta
No GGN

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