2 de dez de 2017

Nildo Ouriques falou sobre a “necessária Revolução Brasileira”

Da esquerda para a direita: Aurélio Fernandes, Nildo Ouriques e Bicalho.
Foto: Roberto Bitencourt da Silva.
O professor da Universidade Federal de Santa Catarina, economista e pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, Nildo Domingos Ouriques, esteve nesta quarta-feira no Rio de Janeiro, para atender compromissos de sua campanha à indicação partidária.

Na agenda, ocorreu evento na UERJ, que foi marcado por uma instigante conferência proferida pelo professor, assim como por um diálogo profícuo com estudantes, professores e ativistas do PSOL e de demais círculos políticos não partidários de esquerda.

Aproveitando o ensejo político-partidário, o evento também correspondeu ao lançamento do livro “Crítica à razão acadêmica – reflexão sobre a universidade contemporânea”, volume 2, da Editora Insular, organizado por Nildo Ouriques e pelo também professor Waldir Rampinelli.

A universidade pública que acolheu a Nildo e aos interessados em sua palestra é um retrato do Brasil e, sobretudo, do Rio de Janeiro. Professores e técnico-administrativos com salários atrasados (4 salários), livrarias fechadas, por motivo de falência, pouca circulação de estudantes, em função de uma greve dos servidores (greve que não merece esse nome, já que não há salários para sequer satisfazer o deslocamento dos funcionários ao trabalho. É mais oportuno chamar de locaute promovido pelo governo estadual).

Um quadro desolador. No banheiro, que apresenta condições lastimáveis de abandono, um rabisco na parede dizia assim: “Estamos em guerra”. Alguém deixou essa resposta: “Foda-se, ninguém liga”. A UERJ absolutamente sucateada pela irresponsabilidade dos governos estadual e federal, pelos projetos deliberados destes governos em destruir a universidade.

Nesse triste cenário, a avaliação do pré-candidato Nildo Ouriques é de que a UERJ “expressa, de maneira mais aguda, o drama da universidade brasileira”, devido às “políticas de austeridade e à guerra de classes imprimida pela burguesia contra o povo”.

Em função dessas medidas adotadas pelo governo Michel Temer (PMDB) e por muitos governadores de estado, como Pezão (PMDB) no Rio, “a única coisa que funciona no Brasil de hoje são os portos para escoar as nossas riquezas para fora”. No mais, segundo Ouriques, “está tudo sendo destruído: segurança, saúde, educação etc.”

Especificamente em relação ao papel a ser desempenhado pela universidade, em consonância com o programa da “necessária Revolução Brasileira”, preconizada pelo psolista, “é decisivo acabar com o academicismo bocó e eurocêntrico da universidade” e orientá-la no sentido de um compromisso em “superar o subdesenvolvimento e a dependência”, tal “como defendia Darcy Ribeiro”, afirmou Ouriques.

A respeito do cenário político nacional mais abrangente, Nildo Ouriques teceu críticas ao perfil de atuação do Poder Judiciário: “É claro que o juiz Sérgio Moro persegue os petistas. Tem alguma coisa nele aí que não gosta de pegar tucano”. Ademais, em sua percepção, trata-se de um “absurdo que a justiça não atue sobre o PSDB, sobre José Serra, um agente do imperialismo dos Estados Unidos”.

Considerando que Moro “é o queridinho das classes médias”, que assinalam “uma crise moral no País”, Ouriques argumentou que tais setores da sociedade brasileira “não entendem que essa crise é fruto das relações sociais do capitalismo”. Na ótica do professor, “vivemos sob o domínio imperialista dos EUA” e a “crise política e econômica traduz uma guerra de classes movida pela burguesia”: com a “supressão da CLT, possivelmente dos direitos previdenciários, o regime da superexploração do trabalho está funcionando a pleno vapor”.

Para Ouriques, o Brasil encontra-se em franco processo de desindustrialização, “aprofundando a dependência e o subdesenvolvimento em níveis nunca vistos”. Nesse sentido, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, “um sem indústria”, é retrato daquele processo.

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Saiba mais:
- Vídeo da palestra de Nildo Ouriques na Uerj (29/11/2017. Fonte: webpágina no Facebook Nildo Ouriques): https://www.facebook.com/nildopsol/videos/1925097324407397/

- Entrevista com Nildo Ouriques: A “Revolução Brasileira” de Nildo Ouriques.
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Ainda em relação a questões de natureza mais propriamente econômica, Ouriques sublinhou que, desde o Plano Real, o Brasil tem se tornado “uma república rentista”, dotado “de altíssimas taxas de juros”, que têm elevado o endividamento do Estado, estrangulado o orçamento público e a “capacidade de investimento estatal”.

Em sua percepção, o cenário de curto prazo promete a promoção de “um verdadeiro abismo social, com explosões sociais que ocorrerão de maneira inexorável”. Dessa forma, na avaliação do psolista, “o descrédito do sistema político é amplo, envolve a todos os partidos, inclusive o meu partido, que não tem relação direta com isso. Mas, é um descrédito saudável, tá tudo em disputa”.

Ainda de acordo com o pré-candidato, encontramo-nos em “uma hora de alta responsabilidade”: ou a “esquerda ocupa esse espaço ou será a direita. As massas querem preto no branco. A esquerda não pode continuar vacilante. A gente tem que dizer claramente que esse sistema não presta, dizer a verdade, romper com esse sistema”. O petismo, em sua interpretação, sendo “sistêmico, não oferece quaisquer alternativas”.

Sobre eventuais acusações de que a sua bandeira da “Revolução Brasileira” pretende transformar o Brasil em uma Venezuela, Nildo Ouriques destacou que “Revolução não se exporta. É feita pelas massas, atendendo às suas necessidades e particularidades”.

Entre outras propostas que levaria a cabo na hipótese de alcançar a eleição à Presidência, Ouriques afirmou que “precisamos fazer a reforma agrária, a auditoria da dívida, limitar as remessas de lucros do capital estrangeiro, adotar uma política externa efetivamente independente, acabar com a lei de responsabilidade fiscal e promover a integração latino-americana”.

Nildo Ouriques destacou ainda que a “movimentação militante no interior do PSOL", em torno da sua pré-candidatura à Presidência, "está crescendo pelo País”. A indicação pelo partido será decidida em congresso a ser realizado em dezembro. O pré-candidato Nildo Ouriques concorre com a ex-deputada federal Luciana Genro. Há ainda apelos entre setores do partido pela escolha do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme Boulos.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.
No GGN

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