24 de dez de 2017

Natal, ainda

Congraçamento. Solidariedade. Compreensão. Fraternidade. Família. Ah, família! Eis o Natal e seus simbolismos.

O Natal é, sim, a mais doméstica das festas comuns aos povos. A única que se passa em casa, por sentido e tradição, e não nos clubes e na rua, nos salões dos hotéis, nos lugares de diversão pública em geral. A ceia.

"-Deixa eu te apresentar a mulher do Beto, aquela grávida".

"-Do Beto? Não é a Eloá, que tem o Marcelinho?"

"-Você esqueceu. A Eloá foi a primeira do Marcelinho. Não, a primeira não. A segunda. Ano passado era ela, sim. Olha, esta é a Helô."

De uma ceia a outra, a memória parece estar mais e mais desambientada. Não faltam estatísticas a provar que essa face da memória se esvai em todo o Ocidente, mas no Brasil tem velocidade muito maior que em qualquer lugar. Entre as que têm motivo para usar carteira de dinheiro, dizem que é afinal a guerra de gêneros. É a conquista de empoderamento (ai!) delas. Entre os que não precisam de carteira, gêneros que fazem a sua desesperada guerra diária se chamam feijão arroz, carne de terceira, um macarrão de combate.

Os lamurientos dos nossos tempos dizem que "o espírito do Natal" foi sufocado e substituído pelo consumismo. Em resposta, ouvem que, muito ao contrário, o amigo oculto veio se opor ao consumismo. Assim escreveu, para os séculos da eternidade, um amigo inculto dos fardões. A verdade é que essa foi a inovação para fazer "o espírito do Natal" rezar pelo catecismo da publicidade. No trabalho, na ginástica, na escola, em casa, amigo oculto por toda parte.

Em casa, aliás, o Natal tem segunda sessão: os presentes das crianças. A hora em que os filhos querem ligar os carrinhos, montar peças, desvestir e vestir bonecas, e a chatice paternal, sonolenta embora, impõe o seu poder também natalino: "-Espera, calma. Deixa o papai fazer se não você pode quebrar, primeiro tem que aprender". Já está em curso a produção de novos ansiosos.

Foi em horas assim que a campainha soou o blim-blam, suave e musical como convém nos Jardins.

"-Ruizinho, não precisa chamar ninguém. Eu tô montando o trenzinho, vê pro papai quem é."

Foi só um instante:

"-Pai, é um japonês..."

Janio de Freitas
No fAlha

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