22 de dez de 2017

Lula a jato


Estive entre os poucos observadores que defenderam a maior velocidade possível no julgamento de Lula. Acreditava, e ainda acredito, que Sérgio Moro queria empurrar a decisão no TRF-4 para o meio da corrida eleitoral, prejudicando ao máximo a imagem do petista e reduzindo suas chances de reverter a pena.

Supondo a condenação inevitável, a candidatura de Lula depende de recursos envolvendo questões polêmicas, o que exige mínima antecedência. Neste caso, a defesa também será favorecida pelo debate em torno da sentença de Moro. Quanto mais ela for exposta e revirada, mais evidentemente absurda parecerá ao meio jurídico.

Claro que o TRF-4 não pensou nisso, nem seguiu qualquer regra de isonomia. Os desembargadores tentam fazer logo o papel que lhes cabe, empurrando a bomba para o colo alheio. Escapam do tiroteio que se avizinha sem deixar de contribuir para a causa máxima da Cruzada Anticorrupção, o golpe de todos os golpes.

Outro motivo para a afoiteza é evitar que o segundo processo contra Lula arruíne o primeiro. A derrota do Ministério Público na questão dos recibos e os vários episódios de cerceamento da defesa, entre os quais a negativa de ouvir uma testemunha que acusa Moro de ilegalidades, anunciam tempos difíceis para as instâncias superiores.

Nada autoriza adivinhações sobre o veredito, mas, a princípio, o cenário é ruim. A rapidez parece um gesto coerente com pendores condenatórios radicais, do tipo unânime, que reduzem as chances recursivas. Martirizar Lula nas férias, a oito meses da eleição, seria bem melhor do que em plena caravana de comícios.

Por outro lado, o perfil dos julgadores sugere ao menos uma possibilidade de hesitação. Alguém com dois votos prontos, planejando sentir o clima para acompanhar o lado “honroso” da disputa. Nesse pêndulo individual repousam as chances de Lula, condenado, pleitear o registro de sua candidatura com razoável margem de sucesso.

De qualquer forma, não convém exagerar os efeitos da antecipação. Isso equivaleria a entrar no clima da mídia golpista, tratando como fato consumado um evento que ainda depende de duas decisões colegiadas. E conferindo ao TRF-4 uma capacidade de leitura dos fatos que nem ele mesmo procura exercer.

Antes de politizar de vez a luta, aglutinando a militância para uma resistência inglória, talvez fosse o caso de apostar na questão jurídica, rebater trecho a trecho a sentença de Moro, investir no esclarecimento público. Quando todos esperam uma radicalização fácil de estigmatizar e criminalizar, a defesa da legalidade tiraria dos justiceiros o escudo simbólico que os fortalece e redime.

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