19 de dez de 2017

Loucura, loucura: O que pensam as "viúvas" de Luciano Huck

A nova direita que pretendia lançar o apresentador global à presidência da República tem slogans demais e propostas de menos

Entre a Globo e Brasília, Huck optou pela primeira
O mais "novo" fenômeno da política brasileira é a "juventude caldeirão". Formada por legião de "jovens", entre 35 e 50 anos, adeptos ao bom-mocismo, ela é a nova aposta dos bilionários e da ala mais conservadora da mídia. Seu líder e garoto-propaganda é Luciano Huck. Sua marca principal é superar as polarizações. De “novo”, na verdade, não possui nada: nem a idade, nem as ideias, muito menos o coração.

No início do século XX, o Brasil era governado pela política dos salões. O roteiro funcionava mais ou menos assim: os caciques da nação se reuniam entre quatro paredes na capital, acertavam as alianças e repartiam as tarefas: você traz o dinheiro, eu trago a mídia, ele leva o povo pra votar... Na antevéspera do processo eleitoral, apresentavam-se ao País as suas "lideranças". Nem uma ideia. Nem um projeto. Só marketing.

Como em vinil arranhado, o script do filme foi repetido dezenas de vezes em nossa história. O resultado, conhecemos. Mudaram os nomes, os "jingles", o corte do paletó e o penteado. Por trás das aparências, o espetáculo da política continuou exatamente igual. Nos bastidores, caciques iluminados acertavam o jogo, enquanto ao povo, miserável e iludido, restava seguir os desígnios da sua aristocracia.

Avance a história 100 anos.

Chegamos a 2017, diante de uma das maiores crises políticas e econômicas do Brasil. Escancarada, diante de nós, a podridão quase completa do sistema. É hora de reconstruir nosso futuro.

Qual a atitude da juventude mais esperta ? Ir ao encontro do Brasil profundo e botar o dedo nas grandes feridas nacionais? Com ousadia e inteligência, apresentar um caminho original para resolver nossos problemas?

Não.

Como nos velhos tempos, ela se congrega entre iguais, alia-se ao que há de mais viciado em nossa história, pactua o apoio dos maiores bilionários do Sudeste e embarca de cabeça no caldeirão do Huck.

“Somos os líderes do futuro", proclamam. Mas... de qual futuro?

O que, de fato, a juventude caldeirão pensa, além do bom-mocismo vulgar?

Sugiro um teste simples. Considere seis fraturas expostas da sociedade brasileira. Do seu enfrentamento, depende nosso destino como República.

1. A miséria se alastra como um tufão nas cidades brasileiras, enquanto meia dúzia de banqueiros bate recorde de lucros, em boa parte enviados para as  “offshores” nas Ilhas Cayman.

O que a juventude caldeirão pensa sobre o câncer do rentismo, que aniquila a economia e produz um baronato de financistas com residências no estrangeiro, que aqui praticamente não pagam imposto?

2. A mídia brasileira é a mais concentrada entre aquelas das democracias ocidentais. Controlada a mão-de-ferro por um visão ideológica, comunica apenas o que lhe convém. Como se diz no interior: "O Jornal Nacional espirra e o País todo pega gripe". Não há, nem haverá, democracia real sem a democracia na comunicação.

O que a juventude caldeirão pensa a respeito? Vamos promover a democratização profunda dos meios de comunicação brasileiros (um serviço público)?

3. A violência transformou-se em epidemia nacional. O Brasil mata mais que metade do globo terrestre junto. Menos de 10% dos homicídios são resolvidos. Ao mesmo tempo, as prisões são verdadeiros "navios negreiros", com uma massa de miseráveis abandonada, metade dos quais deveria estar solta. Não é preciso ser gênio para ver o óbvio: o sistema de segurança pública ruiu completamente.

O que a juventude caldeirão, coletivamente, tem a dizer? Vamos construir um verdadeiro Sistema Nacional de Segurança Pública, reinventar as polícias e seu papel e pôr fim aos abusos da legalidade e à Justiça racista?

4. A educação brasileira é catastrófica. Cerca de 70% de nossos jovens se formam sem saber o básico de português. Menos de 15%, o básico de matemática. Nas Américas, estamos no fundo do poço em escolaridade. Perdemos para todos, com exceção do Haiti, Honduras e Nicarágua. No ensino privado, a tragédia é igual: as 25% melhores escolas privadas do Brasil são piores do que as 25% piores da OCDE.

E a juventude caldeirão? Vai exibir a foto da mocinha que ganhou “medalha” no soletrando, ou vamos de uma vez por todas promover uma revolução educacional?

Vamos ou não vamos criar o FUNDEB 2.0 para promover uma redistribuição profunda de recursos de áreas mais ricas para mais pobres e inventar uma proposta curricular nacional para valer (a que está aí a elite brasileira jamais aceitaria para a educação dos seus próprios filhos)?

5. A maior invenção em saúde pública da América Latina (e talvez do mundo democrático) foi a criação do Sistema Único de Saúde, hoje na UTI. O desmonte do SUS avança em alta velocidade, ao mesmo tempo em que, em várias cidades brasileiras, não existe um único médico.

Vamos ou não revitalizar o SUS, e reestruturar nosso complexo farmacêutico, dinamitado nos anos 1990 por quinquilharia ideológica, e que apenas serviu para hoje comprometer nosso próprio orçamento? (Gastamos uma fortuna no "aluguel" do conhecimento internacional em remédios básicos que não conseguimos produzir).

6. As regiões brasileiras foram sucateadas: em breve, 23 estados devem estar quebrados (atualmente, alguns não conseguem pagar funcionalismo). Tamanho desastre é fruto de uma política centralista, que incha as responsabilidades locais, mas concentra a arrecadação na União. Como resultado, prefeitos e governadores viram "pedintes" nos corredores de Brasília, sempre de joelhos e com o pires na mão.

E aí, juventude caldeirão? Vamos revirar o federalismo e jogar fora a camisa de força de regras padronizadas, que condenam a maioria à postura de serviçal? Que tal defender a regulamentação, de uma vez por todas, do artigo 23 da Constituição, para construir um federalismo mais solidário, cooperativo e inovador?

As perguntas são apenas uma provocação retórica.

Na verdade, sabemos o que a juventude caldeirão pensa sobre estas questões.

Ela não pensa “nada”.

Produzem apenas platitudes. Seu modus operandi é a “network” (a versão moderna do tapinha nas costas) e marketing. Sua tática é manter-se a mil anos-luz de distância de qualquer questão sensível aos interesses dos poderosos.

A vida lhes deu o melhor do mundo. Com um pouco de grandeza, poderiam transformar o Brasil em um lugar melhor. Mas preferiram a tarefa pequena: promover o nada, o não-debate, nunca se posicionar.

Por fora, um verniz de novidade. Por dentro, como há 100 anos, o mesmo oportunismo que serve apenas para manter as estruturas e classes sociais intocadas.

Loucura, loucura, loucura... 

Daniel Vargas é S.J.D. da Harvard Law School e  professor de Direito

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