3 de dez de 2017

Globo: uma história de impunidade


A impunidade do Globo é uma vergonha nacional. A empresa cresceu de forma extraordinária a partir de meados da década de 60, favorecida pelas benesses da ditadura militar (1964/1985), a quem serviu com fidelidade canina.

Em 1925, Irineu Marinho funda o jornal O Globo. Em 1931, após a morte do pai, Roberto Marinho assume a direção do jornal. Em 1944 inaugura a rádio Globo. Mas é apenas em 1965 que os Marinho iniciam a escalada que em poucas décadas consolidaria o Grupo Globo como o maior e mais poderoso conglomerado de mídia da América Latina e um dos maiores do mundo. Obtida a concessão do canal 4 do Rio de Janeiro, Roberto Marinho começou a montar a Rede Globo de Televisão que hoje opera com cinco grandes emissoras próprias e mais 122 afiliadas numa rede que atinge 5.490 dos 5.570 municípios brasileiros, ou seja, cerca de 99% da população do país.

Nos anos de chumbo do governo Médici (1969/1974), no auge da repressão de uma ditadura que prendia, torturava e matava o general ditador concedeu entrevista em que declarou: ”Me sinto feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir o Jornal Nacional (JN/Globo). Enquanto o noticiário fala em greves, atentados, conflitos e tumultos em vários países do mundo, o Brasil marcha em paz rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”. O noticiário da Globo era o diazepam que fazia o general-ditador dormir e esquecer as atrocidades do regime.

A Globo cresceu atropelando a Constituição e a legislação que regula os meios de comunicação do país. O Grupo concentra um número de jornais, emissoras de rádio e de televisão muito superior ao que permite a lei. Ao fazer isso, passa a ter um indesejado monopólio da informação, séria ameaça à democracia.

No início dos anos noventa a Channel 4, uma emissora inglesa produziu o documentário Beyond Citizen Kane. Nele Roberto Marinho é retratado como o personagem de Orson Welles do seu clássico filme Cidadão Kane, um magnata dos meios de comunicação que manipulava de forma grosseira o noticiário para influenciar a opinião pública em favor de seus interesses. Uma prova do poder da Globo e de que os produtores ingleses estavam certos é que a justiça brasileira proibiu a exibição do documentário no país.

Em 1986 o Grupo Globo foi beneficiado por Antonio Carlos Magalhães, o ACM, à época Ministro das Comunicações. O governo federal tinha vultosos contratos de compra de equipamento da Nippon Electric Emprise (NEC) que foram suspensos por ACM. Em consequência a NEC teve seu valor depreciado e foi adquirida pela Globo. Depois da compra a NEC/Globo voltou a ser fornecedora do governo, suas ações se valorizaram o que proporcionou gordos ganhos para os Marinho. Retribuindo o “favor” a TV Bahia, de propriedade de ACM passou a ser afiliada da Globo, substituindo a TV Aratu.

Inúmeras foram as denúncias sobre negócios escusos entre a cartolagem da Fifa e da CBF para garantir a exclusividade da transmissão de grandes eventos do futebol. Por ocasião da compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002 e de 2006 ficou provado que a Globo criou uma empresa fantasma em um paraíso fiscal, as ilhas Virgens, para sonegar impostos que deveria pagar à Receita Federal do Brasil. Em 2006 Cristina Maris Ribeiro da Silva, funcionária da Receita sumiu com um processo que responsabilizava os filhos de Roberto de sonegar 615 milhões de reais (1,6 bilhões a preços de hoje) de impostos devidos. Quatro anos depois, em 2010, a Globo afirmou ter pago sua dívida fiscal, mas até hoje o documento de arrecadação fiscal (DARF) não foi apresentado. Cristina foi demitida da Receita Federal, mas a investigação para apurar a responsabilidade dos mandantes não foi realizada.

Há muitas décadas a Globo mantém relações muito próximas, que poderiam ser classificadas como “íntimas” com a cartolagem que administra o futebol mundial. João Havelange é a figura central desta longa história nada edificante. Presidente da Confederação Brasileira de Futebol de Desportos (CBD) de 1958 a 1975, a partir deste ano até 1998 foi presidente da FIFA. Seu genro Ricardo Teixeira seguiu seus passos elegendo-se presidente da CBF em 1989, cargo que exerceu até 2012, quando foi obrigado a se afastar, acusado de ter praticado um amplo leque de atos ilícitos. Sogro e genro tiveram o mesmo destino: findaram suas trajetórias acusados de corrupção. Havelange em 2013 renunciou da presidência de honra da FIFA. É bom lembrar que alguns anos antes, em 2009, recebera o prêmio “Personalidade do Ano” do jornal O Globo.

Ricardo Teixeira também foi obrigado a renunciar à presidência da CBF um ano antes, em 2012, acusado de nepotismo, desvio de dinheiro da entidade para eleger representantes seus na Câmara Federal e no Senado, (a chamada “bancada da bola”), além de contrato lesivo à entidade com a Nike, dentre outras ilicitudes. Foi substituído por José Maria Marin, afastado e em 2015, ano em que assumiu a presidência Marco Polo Del Nero. Os três estão sendo investigados pela justiça federal americana, em Nova York, no processo da “máfia da Fifa”. José Maria Marin se encontra preso nos Estados Unidos e Marco Polo Del Nero não pode se afastar do Brasil pois corre o risco de ser preso pela Interpol.

Os indícios apontam que, há mais de cinquenta anos, Havelange & Cia. (Teixeira, Marin, Del Nero, Marguiles e Hawill, da Traffic e muitos e muitos outros) estão envolvidos em atos ilícitos – recebimento de propinas, sonegação fiscal, desvios de recursos, contratos superfaturados no valor de centenas de milhões de dólares. Aqui no Brasil Havelange nunca foi molestado, ao contrário, até foi agraciado pela Globo. Ricardo Teixeira foi investigado em CPIs na Câmara e Senado que viraram pizza.

O que os mais atentos sabiam agora ficou provado. Infelizmente não por ação da Polícia Federal, do Ministério Público ou da Justiça brasileira. Foi preciso que investigações e indiciamentos realizados pela justiça norte-americana resultassem em prisões de cartolas brasileiros. E mais, que fosse tornado público o envolvimento da Globo nos atos ilícitos. Alexandre Burzaco, diretor da empresa argentina de eventos esportivos Torneos y Competencias em depoimento à justiça americana afirmou que Marcelo Campos Pinto, diretor de Esportes da Globo, pagou propina de 15 milhões de dólares, cerca de 50 milhões de reais, para garantir a exclusividade da transmissão dos jogos das Copas do Mundo de 2026 e 2030. Será que agora a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça brasileira vão começar a investigar? Duvido.

Paulo Muzell é economista.
No Sul21

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