10 de dez de 2017

Globo terá grande desafio em honrar seus compromissos no futebol


As transmissões de futebol pela Globo, seja em canal fechado ou aberto, têm papel importante no faturamento da empresa – quase de 1/3 do total. Sabe-se que o retorno com o esporte sempre foi altamente satisfatório, ainda que tivesse que se submeter a achaque de dirigentes e intermediários – ou a se associar a eles, como apontou depoentes do Caso FIFA.

A questão é que hoje a situação mudou. Por causa do Caso FIFA, a Globo passou a ser acusada publicamente de pagamento de propina em contratos com dirigentes e empresas, como a argentina Torneos y Competencias, comercializadora de direitos de televisão da Copa Libertadores, entre outras competições continentais. Mas é provável que os norte-americanos já suspeitassem disso faz tempo.

Como se sabe, J. Hawilla, em prisão domiciliar nos Estados Unidos, é um dos principais delatores do esquema. E foi um dos motivadores diretos da prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, na Suíça, em 2015 – tanto que os acusados na época, de Ricardo Teixeira a Kleber Leite, trataram de desqualificá-lo.

A justiça norte-americana deve saber desde quando estourou o Caso FIFA das relações que J. Hawilla mantinha com a Globo – afinal, ele foi intermediário dos negócios da emissora com as entidades de futebol e, inclusive, sócio da Globo em afiliadas importantes no interior de São Paulo. Qual o processo investigativo no mundo que não trataria essa relação logo no primeiro momento como indícios primários, ainda que se tenha que buscar provas – como parece estar acontecendo agora?

A Globo e seus executivos que fizeram supostos “negócios” escusos correm sérios riscos de serem formalmente denunciados pela Justiça lá fora. Há suspeição de fraude e lavagem de dinheiro nos EUA, e esse é um dos motivos daquele país estar investigando o caso.

E os diretos de transmissão das Copas do Mundo de 2026 e 2030, com suspeitas de pagamento de propina pela Globo, de acordo com depoimento de uma testemunha? A pressão será grande por que são megaeventos por vir.

Soma-se a isso ao fato das negociações recentes da Globo fechadas com clubes e a própria CBF para ter direitos de transmissão de futebol. Nesse caso não se discute se houve ou não alguma ilegalidade nesses contratos, mas foram valores muito acima do anteriormente acertados.

Um dos motivos disso é que os clubes resolveram endurecer desde o ano passado na venda dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro entre 2019 e 2024, por que o canal Esporte Interativo, do grupo norte-americano Turner, também resolveu entrar na concorrência oferecendo muito dinheiro. Mas não foi só isso: havia uma grita geral do pouco que a Globo sempre pagou pelas transmissões; e também o Caso FIFA, que fizeram com que clubes desconfiassem das ações da dupla CBF-Globo.

Assim, contratos da Globo com clubes grandes subiram sobremaneira – e olha que a emissora já perdeu equipes importantes na transmissão de partidas do Brasileirão entre 2019 e 2024 para o Esporte Interativo, pelos menos na TV fechada, como Palmeiras e Santos, além de outros pelo Brasil afora.

Para manter a exclusividade de direitos na televisão aberta e fechada, dos clubes que dão grande audiência à emissora, a Globo fez até adiantamento, como ao Corinthians (calcula-se em R$ 80 milhões). Os acordos futuros já combinados com a elite do futebol brasileiro que conseguiu manter debaixo de seu guarda-chuva – como também o São Paulo (que se estima ter recebido de luvas R$ 60 milhões) - envolvem centenas de milhões de reais e são bem maiores do que foi firmado no passado.

Com a CBF, fechou contrato recente para a transmissão de jogos da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa do Mundo 2022 e de amistosos. Até ano passado, a Globo pagava US$ 2,5 milhões por partida na TVs aberta, fechada e internet – com o novo acordo e nas mesmas mídias, terá que desembolsar US$ 3,5 milhões (portanto, quase dobrou).

Aqui não está nem se falando da perda de audiência da TV (seja aberta ou fechada) para a internet, algo que ocorre a largos passos. E também a perda de patrocinadores para a web, como o Google, que em breve deve superar a Globo e se tornar o canal de anunciantes no País que mais fatura. Sem falar da persistente crise econômica.

O fato é que há uma conta de direitos de transmissão muito grande a ser paga pela Globo a clubes, entidades e competições nacionais e internacionais. Resta saber se, com todo esse momento adverso que vem passando, a emissora terá capacidade de atrair anunciantes para honrar esses compromissos de longo prazo. 

Augusto Diniz
No GGN

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