3 de dez de 2017

Êxtases

“Bliss it was in that dawn to be alive”, êxtase era estar vivo naquela aurora, escreveu o poeta Wordsworth sobre a Revolução Francesa. Poderia ter dito o mesmo de outra aurora republicana, anterior à francesa: a declaração da Independência Americana.

O fim do século XVIII e o começo do século XIX pareciam estar trazendo um novo dia para a humanidade, um dia de entusiasmar poetas.

Não havia dúvidas, então, sobre a inevitabilidade histórica do que se chamaria “democracia” e o ocaso definitivo de monarquias absolutas e castas opressoras.

Há um texto do Paulo Mendes Campos falando das primeiras horas do Gênese, com “o mundo ainda úmido da criação”, que descreve com o mesmo encanto aquele outro começo, quando tudo que havia na Terra recebeu seu nome verdadeiro.

O novo dia da humanidade equivaleria a uma segunda Criação. Hegel ainda quente, Marx pondo seus ovos explosivos nas estantes da biblioteca do Museu Britânico, o passado e o futuro sendo redefinidos com rigor científico e a modernidade tecnológica e a modernidade social (ou, simplificando, a máquina a vapor e a nova consciência proletária) prestes a se fundir para transformar o mundo.

Mas o século XIX se encarregou de frustrar as auroras anunciadas no século XVIII e suas próprias promessas. Foi o século da reação, da restauração conservadora na Europa, do nascente capitalismo industrial sem consciência e sem remorso, com homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo legal ou moral, fora os magros salários — para êxtase dos patrões.

William Wordsworth foi um poeta romântico inglês cuja admiração pela Revolução Francesa não sobreviveu ao Terror, mas que saudou como ninguém o aparente triunfo da Razão trazido pela Revolução, no seu poema mais citado. O poema termina dizendo que o êxtase não aconteceu numa remota ilha, Deus sabe onde, “mas no nosso mundo, no lugar em que no fim encontraremos nossa felicidade, ou nada”.

Luís Fernando Veríssimo

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