30 de dez de 2017

Efeitos políticos de Junho de 2013 começaram a se esgotar


Até hoje não há uma formulação muito convincente para explicar o súbito surgimento das chamadas jornadas de junho de 2013, um dos marcos políticos mais relevantes da história recente, certamente o mais surpreendente. Sem que ninguém tivesse previsto, protestos contra o aumento de tarifas do transporte ganharam dimensão inédita em São Paulo. Reprimida covardemente pela polícia, passeatas sem liderança claramente identificada se agigantaram, atraíram pessoas que não costumavam ir às ruas e se alastraram pelo país.

Também de repente, a pauta ficou eclética. Contra a violência da PM, contra a Copa de 2014, contra Renan Calheiros, pelo poder de investigação do Ministério Público, por mais saúde, por mais educação. Em questão de dias, a popularidade da então presidente Dilma Rousseff e dos principais governadores e prefeitos despencaram como nunca havia sido visto. E no decorrer do próprio mês de junho, os protestos ganharam outra forma. Nas palavras de participantes dos primeiros atos, foram "capturados pela direita", "ficaram estranhos". Entraram temas conservadores, carecas, exaltações à bandeira, o verde-amarelo rapidamente apropriado pela Fiesp.

O período inaugurado naquele momento caracterizou-se por três novidades no campo político: rejeição visceral aos partidos, visível desde as passeatas, com hostilidades contra quem aparecia com bandeira; derrocada da imagem do PT, que mergulhou na sua fase mais depressiva; e o que talvez possa ser chamado de levante conservador, com discursos e exposições em redes sociais de um ideário que alguns imaginavam enterrado, mas, ao que tudo indica, estava só represado no escuro.

Na esteira disso, brotaram grupos que se identificam abertamente como de direita, como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, e a Lava-Jato, deflagrada em março de 2014 e impulsionada por uma taxa de apoio popular sem precedentes para operações policiais.

A sequência de fatos, consequências, subprodutos ou sequelas impressiona. Eleição de Cunha à chefia da Câmara, renascimento do Centrão, impeachment, alongamento da crise econômica, vazão da pauta conservadora no Congresso, derrota fragorosa do PT em 2016, triunfo de João Doria e outros outsiders, nacionalização de Bolsonaro, condenação e possível interdição eleitoral de Lula.

Agora, pouco mais de quatro anos após a atípica eclosão de passeatas, surgem sinais em diferentes pesquisas de opinião de esgotamento dos efeitos políticos iniciais mais notáveis de junho de 2013. Três levantamentos recentes oferecem dados nessa direção.

A informação mais destacada do Datafolha de 29 e 30 de novembro foi a liderança consolidada de Lula nos cenários para 2018, o que, isoladamente, já sugere fadiga do padrão pós-junho de 2013.

Outros dados da pesquisa parecem tão ou ainda mais eloquentes nessa linha. Um fator muito comentado após aquele mês de atos foi o forte aumento da repulsa aos partidos. De fato, a rejeição ou indiferença às agremiações cresceu muito a partir daquele momento, até atingir o pico histórico de 75% em março de 2015 e dezembro de 2016 (a série começa em 1989). Nos últimos meses, porém, começou a cair. Agora, voltou ao patamar pré-jornadas. Antes dos atos de 2013, 55% dos brasileiros não tinham partido de preferência. Taxa alta, mas compatível com o nível histórico. Agora está de volta abaixo dos 60%. Exatos 57%.

O mesmo Datafolha mostrou que a corrosão da imagem do PT, outra característica do pós-junho de 2013, não é mais a mesma. Após anos liderando folgadamente o ranking de preferência partidária, as citações à sigla despencaram para 9% nos seus piores momentos. Desde o início de 2017, porém, a imagem do PT vem se recuperando, e agora voltou a romper a barreira dos 20%. Está em 21%. No mínimo, o petista perdeu o que poderia ser chamado de momentânea vergonha de se declarar petista.

Outra marca inaugurada quatro anos atrás em aparente fase de arrefecimento é o tão propalado avanço conservador.

A informação partiu de uma pesquisa com 3 mil entrevistas feita nos dez primeiros dias de novembro pelo Ideia Big Data. Foi encomenda pelo chamado Movimento Agora!, grupo de viés liberal que reúne jovens empresários, acadêmicos ativistas interessados em "impactar a agenda pública".

Divulgado pelo Valor, o estudo revelou forte apoio dos brasileiros à atuação do Estado, em especial para garantir igualdade de oportunidades e proteção aos mais pobres. Com exceção do tema segurança, mostrou também concordância majoritária com pautas sociais ou de comportamento opostas às da cartilha conservadora.

O direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecido por 66%. A afirmação segundo a qual Direitos Humanos devem valer para todos, "incluindo bandidos", teve 62% de concordância. Cotas para negros foram sustentadas por 57%. E até aborto recebeu apoio preponderante. A pergunta era se deveria haver punição criminal para mulher que aborta. O "não" venceu o "sim" por 60% a 31%.

No dia 20, o jornal "O Estado de S. Paulo" divulgou os resultados de uma terceira pesquisa com elementos que sugerem esvaziamento de um padrão de comportamento típico do pós-2013. A novidade foi a notável redução da avaliação positiva sobre o trabalho do juiz Sergio Moro.

O periódico levantamento de imagem de figuras públicas feito pela Ipsos (1.200 entrevistas de 1º a 12 de dezembro com margem de erro de 3 pontos) mostrou que, pela primeira vez desde que se tornou nacionalmente conhecido, Moro tem mais desaprovação que aprovação. Sua taxa negativa subiu para 53%. A positiva caiu para 40%.

Alguém pode dizer que, diferentemente de políticos profissionais, magistrado não precisa de apoio popular. Pode ser. Mas aí será preciso convencer o próprio Moro. Em palestras e entrevistas, ele e os procuradores da força-tarefa sempre exaltaram o apoio da população à Lava-Jato. Cansaram de repetir que, sem isso, a operação não teria chegado onde onde chegou.

Ricardo Mendonça é repórter de Política.
No Valor

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