4 de dez de 2017

Datafolha oculta vontade da maioria nos cenários sem Lula


Na ânsia de mostrar nomes e avaliar suas possibilidades, pesquisas muitas vezes deixam dados importantes em letras miúdas e inseridos lá no rodapé.

O Datafolha divulgado neste domingo sobre a corrida presidencial, por exemplo, dá a entender que Bolsonaro venceria nos cenários em que Lula não está no páreo.

A verdade é que em todos os cenários sem a presença de Lula, o número de votos brancos/nulos/nenhum/não sabem vencem Bolsonaro com folga.

Sem Lula e com Joaquim Barbosa, Bolsonaro teria 21% enquanto os votos brancos/nulos/nenhum/não sabem totalizam 32%. Sem Lula e com Henrique Meirelles, Bolsonaro apanha por uma diferença ainda maior: 22% para o extrema-direitista contra 35%. E assim vai, na mesma toada, seja com Doria, com Marina Silva, com qualquer candidato que não Lula.

Para efeito comparativo, quando Lula é inserido na disputa, num cenário contra Jair Bolsonaro, Marina Silva, Joaquim Barbosa, Geraldo Alckmin e Ciro Gomes, o petista fica em primeiro lugar com 34% enquanto brancos/nulos/nenhum/não sabem totalizam apenas 14%. E como destacado na manchete da própria pesquisa, Lula lidera em todos os cenários.

Para os paulistas, esse mesmo dado escondido é igualmente relevante. Na disputa para governador divulgada hoje, o Datafolha coloca Celso Russomanno em primeiro lugar em todos os cenários, contra quem quer que seja. Obviamente que o instituto de pesquisa evitar emitir opiniões e não irá comentar sobre o candidato que sempre larga na frente em sondagens feitas muito antes das eleições e que depois repete monótona e previsivelmente seu voo de galinha.

Mesmo assim está lá, para quem queira ver, que Celso Russomanno empata com brancos/nulos/nenhum/não sabem em todos os cenários. Empate puro em três cenários e tecnicamente nos outros quatro. Com a presença de Doria e Luiz Marinho, temos 25% a 25%. Quando estão José Serra e Fernando Haddad, a vantagem de Russomanno é de apenas um ponto, 25% a 24% para brancos/nulos/nenhum/não sabem.

E há mais. Quando a pesquisa é feita no modo ‘espontâneo’, ou seja, sem a apresentação de nomes de candidatos ao entrevistado, nada menos que 65% dos paulistas afirmaram não saber em quem irão votar e outros 20% cravaram branco ou nulo. Exatamente, 85% de brancos/nulos/nenhum/não sabem. Mais um dado que fica lá na rebarba, sem o destaque devido para o retrato da opinião da imensa maioria.

Essas informações deveriam receber o mesmo peso na hora da divulgação. Da forma como são apresentadas as pesquisas, nomes já vão sendo incutidos na cabeça do eleitor sendo que as candidaturas sequer estão definidas. Na cabeça do leigo, os nomes são esses e se estabelece o nocivo ‘já ganhou’. Ao contrário do que muitos acreditam, votos em branco e nulos – mesmo quando atingem mais da metade dos votos – não cancelam uma eleição.

Os votos em branco eram considerados válidos (isto é, eram contabilizados para o candidato vencedor) antes da Constituição Federal de 88. Hoje só os votos válidos são contabilizados (os que têm nome e legenda). Portanto, sim, Bolsonaro venceria mesmo que com apenas 20% da população apoiando-o. Mas imagine a tensão das ruas em um país cujo presidente não foi escolhido pela maioria.

Mauro Donato
No DCM

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