11 de dez de 2017

Após pressão, jornal Gazeta do Povo tira do ar Monitor da Doutrinação

Ferramenta, considerada inconstitucional e alinhada ao Escola sem Partido, causou reações de professores, sindicatos e leitores

Jornal retirou a ferramenta do ar após repercussão negativa pela possível perseguição a professores
O jornal paranaense Gazeta do Povo retirou do ar no domingo 10 a plataforma Monitor da Doutrinação, dedicada a receber denúncias de doutrinação ideológica nas escolas e universidades do País. Segundo o jornal, a decisão foi tomada após reação de professores, parte dos leitores, advogados e empresários.

Na sexta-feira 8 o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná publicou uma nota de repúdio contra a ferramenta, alegando que, "ao divulgar o que chama de nova plataforma de denúncias, a Gazeta do Povo demonstra, além de desrespeito com profissionais da educação, o despreparo pedagógico e humano, ao incitar, na escola, o clima de denuncismo e perseguição."

Após a repercussão negativa, no domingo 11 o jornal Gazeta do Povo publicou um posicionamento explicando os motivos para a exclusão da ferramenta. No texto, coloca que a repercussão levou a equipe a refletir "se a ferramenta era condizente com o papel da comunicação, a finalidade editorial e a personalidade da Gazeta do Povo."

O jornal afirma também ter se questionado se a ferramenta contribuía efetivamente para a construção de um ambiente permanente de debate cordial e construtivo. "Se nos colocávamos de forma amiga, respeitosa e inspiradora para fortalecer a educação brasileira. Se estávamos, de fato, cumprindo o propósito de dar poder às pessoas para compreender e transformar para melhor o seu ambiente. Se colocávamos, nesta ferramenta, a comunicação a serviço do desenvolvimento de nossa terra e nossa gente, como é missão deste veículo."

Em outra passagem do posicionamento, o jornal admite concordar com parte substancial da nota de repúdio assinada pelo Sindicato e que, embora não fosse a intenção, a ferramenta acabava por incitar na escola o clima de denuncismo e perseguição.

O veículo, no entanto, alega não concordar com situações de abuso. "Elas existem e têm se tornado muito frequentes, tanto com a manifestação recorrente de opiniões de caráter partidário quanto com a exposição de temas moralmente inadequados", afirma em trecho da reportagem.

A Gazeta do Povo afirma que responderá a esses casos com publicações, após rigorosa apuração jornalística. "Não mais com o uso do Monitor da Doutrinação, tirado do ar a partir do momento da publicação deste texto".

A nota de repúdio do Sindicato afirmava, ainda, que o jornal estimulava que pais, mães, estudantes e comunidade denunciassem o que, individualmente, considerassem fora dos seus valores familiares, religiosos, políticos e sociais. O fato de deixar as denúncias públicas na plataforma também foi criticado pela instituição, que pontuou: "assim, a Gazeta faz da sala de aula, palco de repressão moral".

A nota ainda afirmava que a ferramenta parecia ter mais uma preocupação política do que realmente educacional. "Ao incitar postagens de denúncias sobre as supostas “doutrinação política” e “ideologia de gênero” – termo já erroneamente carregado de valores moralistas e excludentes – o jornal quer colocar a sociedade em uma disputa maniqueísta. É uma caça ao comunismo, como vista em períodos sombrios da história mundial."

Outro trecho do texto questionava a editoria de educação do veículo: "Se o jornal Gazeta do Povo está realmente tão preocupado com o conteúdo pedagógico repassado em sala de aula, por que não há nenhuma matéria ou divulgação da Conferência Nacional Popular de Educação (Conape)? As etapas municipais acontecem neste mês. Esse é o espaço organizativo e democrático aberto a todo e qualquer cidadão que queria propor, sugerir, debater sobre tudo que se passa nas escolas (conteúdo, formas de administração, como tratar das questões de igualdade, etc).

Especialistas ouvidos por CartaCapital também questionaram a medida. O doutor em Direito do Estado e professor adjunto do Bacharelado em Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), Salomão Ximenes, afirmou que a iniciativa não encontrava amparo legal. "Além de inconstitucional, pode ser configurada como um conjunto de crimes previstos no Código Penal, como ameaça, constrangimento ilegal e associação criminosa", disse à reportagem.

O cientista político e coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, também criticou a ação, chamando-a de "tribunal pedagógico" e considerou grave atuação de um veículo de imprensa para acuar servidores públicos em exercício. Para ele, a ferramenta era alinhada à agenda do Escola sem Partido.

Ana Luiza Basilio

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