18 de dez de 2017

“Afinal, de qual Bolsonaro o povo está falando?”

Agora, o personagem inflado prepara-se para passar pelo grande teste. A participação de uma figura tão deplorável, cruel, tirana e desrespeitosa em uma eleição presidencial não é nada bom para a política.


Nos corredores do anexo II da Câmara fica o gabinete de um político, que ganha espaço na mídia por suas opiniões agressivas e incitações ao ódio. Um homem que está no Congresso Nacional há 27 anos, conta com diversos assessores, mais de R$ 360 mil/ano de verba de gabinete e teve apenas duas leis aprovadas nesses 324 meses de mandato parlamentar. Este é Jair Messias Bolsonaro, carioca que carrega no nome a promessa de salvador, de mito como chamam seus seguidores, mas que tem uma folha corrida de pedidos de cassação, processos no Conselho de Ética e ações judiciais, como a que é réu no Supremo Tribunal Federal por incitação ao estupro e injúria.

Na Câmara, Bolsonaro escolheu um lado para apoiar: o dos patrões e contra o povo, que agora jura defender e pede a confiança. Votou contra a aprovação da política de cotas – raciais, gênero sexual, socioeconômicas – (inclusive ironizou e apresentou outro projeto, que disse que iria votar contra, “rebatendo” a política e sugerindo que fossem reservadas 50% das cadeiras do Congresso para negros e pardos), disse não ao programa Mais Médicos – que em quatro anos beneficiou 63 milhões de brasileiros e levou médicos para regiões mais distantes do país, onde jamais nenhum profissional chegou -, foi contra a efetivação da política do salário mínimo no Brasil. 

Votou, sim, pela PEC da Morte, de Temer – aquela que congela por 20 anos os recursos para saúde e educação – pela reforma trabalhista, se absteve na votação da lei das terceirizações (por que será?), foi favorável à venda de nossas petroleiras – o pré-sal que financiaria nossa saúde e educação – a preço de banana para as empresas internacionais do petróleo, entre outras que prezam por interesses pessoais e das instituições que o patrocinam.

Será que seus eleitores conhecem todos os atos, posições e votos de Bolsonaro? Que além da volta do “porte de arma” para as chamadas pessoas de bem, ele e seus filhos – também políticos – empregaram por muito tempo com seus cargos públicos, diversos familiares, inclusive sua ex-mulher? Bolsonaro fala uma coisa e prega outra. Adepto do nepotismo, do mau uso do recurso público, acredita que seus gritos e frases polêmicas podem esconder sua verdadeira postura na Câmara: a de quem se acostumou com o poder e não quer largar o osso.

Bolsonaro é um fenômeno provocado pela intolerância e ódio na política e pelo aumento dos dramas da população, acionados à violência pública. Durante anos, a elite política, a mídia e o judiciário optaram por semear o ódio contra o PT, o que resultou no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita por 54 milhões de votos em 2014. As ruas tomadas por manifestantes que se diziam “contrários a tudo isso que está aí” e disseminavam ódio – e muitas vezes pauladas – aqueles que se diziam favoráveis à democracia, à presidenta eleita, esses plantaram “justiça” e colheram “Bolsonaros”, a semente do fascismo.

Agora, o personagem inflado prepara-se para passar pelo grande teste. A participação de uma figura tão deplorável, cruel, tirana e desrespeitosa em uma eleição presidencial não é nada bom para a política. Mas pelo menos parcelas mais expressivas do povo brasileiro terão oportunidade de conhecer, não o mito construído, mas o que construiu nestes anos estes indivíduos. De fato, de qual lado esteve quando chamado a votar como representante de uma parcela do povo que o elegeu.

Alexandre Padilha é médico, foi secretário municipal da saúde na gestão de Fernando Haddad e ministro nas gestões Lula e Dilma.
No Fórum




Nulidade: em 26 anos, Bolsonaro nunca foi citado em relatório sobre “cabeças” do Congresso

O relatório “Os Cabeças do Congresso Nacional”, divulgado anualmente pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), dá a dimensão do tamanho de Jair Bolsonaro no cenário político nacional.

A publicação, produzida desde 1994, elenca os 100 parlamentares mais influentes do Congresso. Os deputados e senadores são escolhidos após exames minuciosos das atividades parlamentares, apresentações de proposições, resultados de votações e relatorias de matérias relevantes, entre outros aspectos, de acordo com metodologias da Ciência Política.

“A ideia da série partiu da premissa de que a disputa política é assimétrica, isto é, alguns atores são mais poderosos que outros, daí a necessidade de identificá-los. Poderoso aqui é entendido como alguém hábil, experiente, especializado, ou que detém recursos – materiais, econômicos, organizacionais, humanos, técnicos, partidários, ideológicos ou regionais – e capacidade de convertê-los em poder e, portanto, em liderança. No Parlamento, como na sociedade, há os que lideram – geralmente em menor número – e os liderados, em maior número”, explica a introdução da publicação.

Deputado federal há 26 anos, Jair Bolsonaro nunca fez parte da lista.

Sequer foi citado entre os políticos em ascensão, relação com 50 nomes que podem estar entre os cabeças no próximo ano. Segundo a pesquisa do Diap, Bolsonaro não passa de um liderado, um sujeito pequeno entre os “cabeças” do Congresso.

Para quem pretende disputar a presidência da República, a posição não é nada confortável. Ele poderá até alegar “discriminação”, como fez ao explicar a esquálida produção legislativa ao longo da carreira – em mais de duas décadas foram apenas dois projetos aprovados.

Porém, a pesquisa elaborada pelo Diap não leva em conta critérios partidários, éticos ou morais. Traz nomes de vértices opostos no quadrante ideológico, como Pauderney Avelino e Jandira Feghali. Há parlamentares com a ficha limpa e outros denunciados na “Operação Lava Jato”.

O que importa para estar na lista é o poder, a capacidade de influenciar os demais congressistas. “Os ‘Cabeças’ ou protagonistas do Congresso são os parlamentares que exercem real influência no processo decisório e sobre os atores nele envolvidos”, diz o documento do Diap.

Inexpressivo entre seus pares, Bolsonaro encasquetou em se tornar presidente, usando para isso o machismo, o racismo, a homofobia e o ódio contra qualquer manifestação que possa ser atribuída à esquerda.

É tão preparado para assumir o comando do país quanto aquele tiozão viciado na Globo News e que repassa pelo Whatsapp notícias fantasiosas sobre a presença de tropas venezuelanas e bolivianas prestes a invadir o Brasil.

O tiozão, aliás, seria um nome melhor que o de Bolsonaro. Pelo menos no seu currículo não constariam 26 anos de atividade parlamentar com todas as vantagens inerentes ao cargo e quase nenhum benefício oferecido à sociedade.

Marcos Sacramento
No DCM

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