5 de dez de 2017

A herdeira do banqueiro e as disputas em torno de uma herança milionária


Meses atrás a imprensa se impressionou com a “socialite”, que se dizia herdeira de um grande banqueiro suíço, sócio do Credit Suisse, que decidira doar R$ 500 mil para a campanha de Lula. Aqui no GGN mostramos que o avô não era Peter Paul Luchsinger, mas Pedro Paulo Arnaldo Luchsinger e jamais foi banqueiro na vida.

O episódio permitiu que viessem à tona informações perdidas sobre uma disputa judicial em torno da fortuna acumulada por Roger Ian Wright, o banqueiro que morreu com toda a família em acidente de jatinho em Trancoso.


Quando morreu com toda a família, em um acidente trágico em Trancoso (BA), o banqueiro Roger Ian Wright deixou uma fortuna estimada em US$ 700 milhões mais US$ 200 milhões em obras de arte.

Wright foi um inglês que aportou no Brasil, tornou-se sócio do Banco Garantia, depois montou seu próprio fundo, o Arsenal, com o qual administrava algumas das grandes fortunas brasileiras.

No acidente da TAM de 1996, perdeu a esposa Barbara Luchsinger Wright, com quem teve dois filhos, Felipe e Verônica. A mãe de Bárbara, Cecília Alves Pereira, morreu de infarto, poucos dias após a morte da filha.

Wright constituiu uma segunda família. Em maio de 2009, um acidente de seu jatinho em Trancoso levou o restou da família, incluindo os dois filhos do primeiro casamento, a nova esposa e os novos filhos.

E aqui começa uma história que certamente envolverá uma boa disputa jurídica.

Wright deixou uma fortuna estimada em US$ 700 milhões em ativos financeiros e US$ 200 milhões em obras de arte. No acidente morreram todos seus descendentes, esposa, filhos e netos. É aqui que começa o enredo de uma novela que poderá se estender.

O casal Pedro Paulo e Dalva

/Users/luisnassif/Dropbox/Capturas de tela/Captura de tela 2017-12-04 18.29.50.pngPedro Paulo Luchsinger nunca foi Peter Paul, nem sócio do Credit Suisse, muito menos banqueiro ou abonado.

Era filho de família antiga na Suíça, radicada em Glarus. Parte dela migrou para o Rio Grande do Sul no século 19.

Seu avô era Johann Rudolf Luchsinger, com o nome abrasileirado para João Rodolfo; a mãe, Maria Luiza Bier Luchsinger, gaúcha, mas radicada na Suíça, nesses imbróglios da migração do final do século 19.

Um filho deles, Paulo Arnold Luchsinger, nascido e morto em Zurique, teve um filho, Paulo Arnold Rudolf Luchsinger, que teve, como filho único, Pedro Paulo Arnaldo Luchsinger, nascido em Zurique, mas mudando-se criança para Porto Alegre, o sogro de Roger Ian Wright.

Nos anos 70, já radicado no Rio, Pedro Paulo tinha uma lavanderia industrial em Jacarepaguá. E, como cliente, o pensionato de uma senhora, Maria Thereza Azeredo Echandi, também dona de um antiquário na travessa Madre Jacinta. Senhora caridosa, criou inúmeras crianças, e entrou cedo na vida da jovem Dalva Machado Leonardo.

Dalva era uma dos onze filhos de um comerciante de Marataízes, cidade praieira do Espirito Santo. O pai tinha alguma posse, um posto de gasolina, um mercadinho. Mas engravidou uma jovem e foi denunciado pela própria esposa. Foi preso, a família se desfez e seus onze filhos se espalharam pelo país.

Aí apareceu Maria Thereza, frequentadora de Marataízes, e levou as irmãs Dalva e Dalila para serem criadas no seu pensionato se tornando sua mãe adotiva de fato.

Anos depois, Dalva voltou para Marataízes e lá soube que Pedro, já separado da esposa, perguntava insistentemente por ela.

Voltou para o Rio, reencontrou Pedro e se casaram no dia 22 de dezembro de 1987, ele com 60 anos, ela com 30, passando a se chamar Dalva Leonardo Luchsinger

Os negócios de Pedro já iam mal. A partir de 1990, segundo Dalva, ele se tornou totalmente dependente dela. Quando o dinheiro acabou de vez, Dalva levou o marido para morar em Marataízes, na casa que restara da sua família. E chamou uma irmã e a sobrinha Andrea, então com 9 anos, para morar com eles e ajudar a cuidar de Pedro.

Pedro Paulo tinha a aposentadoria brasileira, uma aposentadoria suíça e a filha, Bárbara, ajudava o pai com uma quantia mensal. Dalva bancava a casa e ele algumas compras esporádicas.

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Algum tempo depois, Dalva conseguiu um bom emprego na Itália, uma história um pouco confusa, para trabalhar como assessora pessoal de um juiz de direito em uma cidade do interior do país. Foi apresentada por amiga influente na Itália.

Voltava duas vezes por ano ao Brasil, mas mandava mensalmente dinheiro para ajudar no sustento da casa e de Pedro Paulo. Nesse período, a convivência maior de Pedro foi com Andrea que lhe fazia companhia.

Pedro almoçava fora de casa, ia todo dia à praia e Andrea cuidava da sua saúde, providenciando as consultas médicas e controlando os remédios que ele tomava. Pedro Paulo lhe deu a primeira bicicleta, o material escolar e, mais tarde, quando ela se casou, a ajudou a cuidar dos seus filhos, que tratava como netos.

E era excepcionalmente mão aberta. Quando foi conferir seu extrato, Dalva se deparou com muitas mulheres amparadas por ele.

Até sua morte, em 1996, Barbara telefonava diariamente para conversar com o pai. Acolhia o pai e a esposa na casa que tinham em São Paulo. Em um casamento mais refinado, ela mesmo tratou de presentear Dalva com o vestido para a cerimônia. E Dalva testemunhava os pequenos entreveros pessoais com o irmão e a sobrinha, como no dia em que Roberta se apresentou como filha de Roger e Barbara em uma festa da família Gerdau, provocando reações da prima Verônica.

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Com o segundo filho, Roberto, a relação não era amistosa. Romperam no início dos anos 90 por conta de disputas em torno da fazenda que fazia parte da herança da esposa, filha de fazendeiros de Miraí. Poucas vezes se falaram. A neta Roberta – a “socialite”, segundo a mídia – ligava periodicamente pedindo ajuda financeira ao avô para pagar faculdade e cobrir outras despesas.

Quando o avião de Roger Wright caiu em Trancoso, matando toda a família, a vida de Pedro Paulo mudou.

No acidente morreram todos os descendentes de Bárbara Luchsinger Wright, filhos e netos. E sobraram apenas dois ascendentes diretos dos filhos Felipe e Verônica: o avô materno, Pedro Paulo, e a avó paterna, Ellen Marion Wright, inglesa.

O sumiço de Pedro Paulo

Pouco tempo depois do acidente de Troncoso, Roberto e a filha Roberta apareceram inesperadamente em Marataízes, acompanhados de uma advogada. Pedro Paulo estava tomando café na praia.

Queriam a todo custo que ele fosse para Miraí. Segundo a advogada, havia alguns problemas que só ele poderia resolver. Pedro Paulo consultou Andrea que lhe disse que seguisse o seu coração.

Ele prometeu:

- Vou lá conhecer minha bisneta, resolver o que tiver que resolver e semana que vem estarei de volta.

Não voltou mais. Seu telefone deixou de atender às ligações. Uma vez apenas Andrea conseguiu falar com ele, em uma ligação curta, que ele mesmo chamou e na qual se dizia vigiado. Outra vez, em uma viagem a São Paulo, conseguiu escapar do apartamento da filha, na rua Maranhão, e ir até o apartamento de uma cunhada na Albuquerque Lins. Lá, queixou-se do confinamento.

Pedro Paulo morreu no ano passado em Miraí. Foi enterrado em um caixão simples, fornecido pela prefeitura. Logo depois, sua neta Roberta aparecia em todos os jornais como a socialite que doaria R$ 500 mil para Lula.

A disputa pela herança

A disputa se dá pelas heranças de Verônica e Felipe. Pelo que se depreende dos inventários, a herança era constituída basicamente por imóveis e obras de arte. Provavelmente os valores financeiros acumulados por Roger não entraram na partilha.

O inventário de Verônica Luchsinger Wright corre em São Paulo. É o processo 011.09.114442-7. E a inventariante foi a avó paterna, Ellen.

O inventário de Felipe corre na 4ª vara de Família e Sucessões, no Fórum João Mendes em São Paulo. Nele consta o nome de Dalva Leonardo Luchsinger, a viúva do avô. A inventariante era Ellen. Roberto, o filho de Pedro Paulo, entrou com pedido de impugnação no inventário de Felipe, sustentando que ele teria morrido fora do avião, não havendo simultaneidade, razão pela qual solicitava a retirada de Ellen como inventariante inclusive dos bens de seu filho Roger.

O pedido foi rejeitado.

Na sentença, diz o juiz:

Caracterizada de maneira insofismável a comoriência das vítimas do acidente aéreo, resulta que os bens de Roger não passaram para o seu filho Felipe e muito menos deste para o avô materno Pedro, autor desta ação. Possível concluir que

Pedro não é herdeiro de Roger, nem tem qualquer interesse no inventário deste e, portanto, nada tem a reclamar.

A disputa, então, ficou sobre os bens de Felipe e Verônica.


Segundo o herdeiro Pedro, há valiosas obras de arte e alfaias nos imóveis deixados pela falecida, aos quais ele não tem acesso. Opõe-se à ocupação exclusive dos bens por parte da inventariante e alega que também tem direito à sua utilização. Afirma que os bens não constam das primeiras declarações e que há risco de dissipação. Requer seja expedido mandado de constatação dos bens móveis existentes nos imóveis indicados às fls. 192/193.


Resolvido o caso com a inventariante Ellen, com a morte de Pedro Paulo abriu-se nova disputa, agora com seus herdeiros.

A viúva Dalva retornou da Itália, injuriada com o fato de terem levado até os móveis de sua casa e não terem quitado uma dívida de 400 dólares que Pedro Paulo gastou com seu cartão.

Depois, se deu conta de que havia muito mais em jogo. Contratou um advogado, foi conferir oos inventários e, para sua surpresa, na certidão de óbito de Pedro

Paulo Luchsinger, fornecido pelo Registro Civil das Pessoas Naturais de Miraí, ele aparece como viúvo. O que poderia remeter o caso para a esfera criminal.

Nos próximos meses deverá ter início uma nova batalha, que tem um ingrediente a mais para apimentar o jogo: além da viúva, Pedro Paulo teve mais uma filha em Marataízes, que ajudou a criar. A moça tem 21 anos e ainda não foi informada sobre seus direitos à herança do pai.

Luís Nassif
No GGN

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