13 de nov de 2017

Xadrez da Maçonaria no Brasil - uma contribuição — 7 — “políticos maçons”


Mais uma pausa ligeira na série de contribuições para o Xadrez da Maçonaria no Brasil, desta vez, para fazer algumas considerações sobre como pensam e agem os políticos maçons. E o faremos seguindo a linha traçada desde o primeiro texto aqui publicado: tendo uma postura crítica em relação à Maçonaria, mas com seriedade e sem ataques pessoais.


Vale reafirmar que a intenção não é polemizar, e, sim, levar a questão para um público cada vez mais abrangente e que, por hora, tem se mostrado bastante interessado no assunto.

Tem político maçom de tudo quanto é tipo. Político que presta, político que não presta, honesto, desonesto, competente, incompetente, de direita e de esquerda. Sim, tanto aqui, quanto em muitos outros países, existem políticos maçons de esquerda, ainda que no Brasil eles sejam minoria, mas tem. Daí, algumas pessoas irão dizer: “Então, qual é o problema do cara ser maçom e atuar na política? Não seria, em geral, um sujeito mais bem preparado?”.

Vamos abordar isso daqui por diante. Antes, porém, vou pedir um pouco de paciência, pois é preciso dar embasamento à resposta, para fazer com que a mesma tenha algum sentido.

Sem dúvida, a Maçonaria é uma das mais complexas instituições criadas pelo ser humano. Como sabido, ela tem inúmeros matizes, caracterizados não só pelos diversos ritos adotados, mas, principalmente, pelo livre pensar de seus integrantes. Ainda assim, mesmo tendo se transformado numa verdadeira “Torre de Babel Filosófica”, conseguiu resistir ao tempo.

Cresceu e se expandiu, mesmo sendo, por vezes, brutalmente perseguida. Lutou com todas as armas que dispunha para fazer valer a liberdade de pensar e de agir do ser humano. Mas, como tudo que é humano, não é perfeito.

Na parte 1 de “Uma Contribuição ao Xadrez da Maçonaria no Brasil”, nós fizemos um breve relato do contexto no qual a Maçonaria se expandiu. Existem diferentes interpretações sobre a origem da Maçonaria, mas é inegável que ela se desenvolveu num ambiente onde a Igreja Católica perseguia a todos que pensavam e agiam de modo diferente do que ela, a Igreja, pensava (ou queria). E as pessoas que não concordavam com isso eram torturadas, sendo que muitas morreram queimadas, depois de condenadas pela “Santa Inquisição”, versões 1, 2, 3 ...

Pois bem, é obvio que para exercer o direito à liberdade de pensar e agir que pregavam era preciso que aquela perseguição terminasse. Assim foi que, depois de consolidada a Reforma Protestante na Inglaterra, e tendo a realeza britânica assumido o comando da Igreja, a Maçonaria inglesa, que há muito vinha atuando às escondidas, pôde, no dia 24 de junho de 1717, já alinhada e aliada à nobreza, “oficializar” a sua atuação e se expandir pelo mundo.

Entretanto, a Igreja Católica ainda exercia forte influência no continente europeu, daí, a necessidade da Maçonaria permanecer restrita e secreta. Esse modus operandi deu tão bons resultados que, apesar de diferentes ritos terem sido criados a posteriori, o sistema sobreviveu e se espalhou, chegando rapidamente a outras partes do planeta.

A nível mundial, há dentro dessa, também Ideológica, “Torre de Babel”, pelo menos, duas grandes correntes de pensamento político, uma mais conservadora e outra mais progressista, que, até certo ponto, se confundem com a ala monarquista inglesa e a ala republicana francesa. Essa divisão chegou a levar as duas correntes a guerras sangrentas. A batalha de Waterloo foi o maior exemplo. Atualmente, o Brexit segue caminho semelhante. Por aqui, tivemos a Guerra dos Farrapos, que teve o apoio do condotiero Giuseppe Garibaldi.

Apesar disso, o fato é que, historicamente, os maçons, ao identificar um inimigo comum, sempre esqueceram as suas divergências e se ajudaram, sem levar em conta a qual corrente ideológica pertenciam. Dos exemplos que temos, a Independência é o maior de todos.

Mas as marcas deixadas pela perseguição sofrida na Idade Média nunca foram esquecidas. E para não mais sofrer o que sofreram e, até mesmo, para não correr o risco de ter sua liberdade de pensamento novamente castrada, os maçons criaram regras, dente elas, duas tipo “cláusula pétrea”: a primeira é: “nunca admitir que é maçom” (isso vale pra qualquer maçom, mas, no caso de um político maçom, fugir a essa regra é decretar sua “sentença de morte”); e a segunda: “liderar sempre”, pra jamais deixar a situação fugir ao seu controle.

Isso cria a necessidade imperiosa de espalhar maçons por (quase) todos os partidos políticos e, a partir daí, por todos os postos de chefia de áreas consideradas estratégicas nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; no Banco Central, nas Forças Armadas, no Serviço de Informações, nas Polícias Civil e Militar, em diversos setores do serviço público, nas agências reguladoras, nas empresas estatais, nos fundos de pensão e também em empresas privadas (especialmente aquelas que venham a receber financiamento público).

Ainda fora da área pública, sabida e sabiamente, a Maçonaria dá enorme importância ao controle dos meios de comunicação, em especial ao rádio e à televisão, que, lembre-se, são concessões de serviço público. Então, está aí a resposta à pergunta formulada neste mesmo Jornal GGN do porquê de não se falar da ingerência política da “Ordem Maçônica” no Brasil.

Mas surge outra pergunta: juntando todos esses elementos, isso pode dar bom resultado?

E a resposta é muito simples: não, não pode. Não pode dar bom resultado um sistema que reúne agentes públicos e privados operando em causa própria, sugando o Estado através de uma organização subordinada a interesses estrangeiros. Ou alguém tem dúvida disso?

Temos, aí, parte da resposta à pergunta que fizemos no início: “Qual o problema do cara ser maçom e atuar na política?”. OK? Mas, infelizmente, não dá pra concluir essa resposta sem falar do político maçom enquanto cidadão comum, ou melhor, o que o diferencia de um. Mais especificamente, sem falar como a crença religiosa professada por cada grupo dentro da Maçonaria afeta, de forma diferenciada, o seu, deles, comportamento junto à sociedade.

Então, peço-vos um pouco mais de paciência. Como temos um tanto igual a esse, ou mais, para trilhar, sugiro uma pausa para um cafezinho.

Dentro da Maçonaria existem grupos das mais variadas crenças. E nós já vimos que, inclusa a Maçonaria Liberal, temos até ateus e agnósticos, no que, vamos concordar, não deixam de ser crentes. Pois bem, então, há que se diferenciar os grupos religiosos para efeito de análise, já que, sob esse aspecto, não há homogeneidade entre os membros da Maçonaria.

Mas, antes disso, vamos falar daquilo que lhes é comum. E o que há de comum entre os maçons é o respeito à crença de um outro “irmão”, seja ela qual for e seja ele quem for. Pode ser um pedreiro, um advogado, um juiz. Pode ter a cor que tiver: branco, preto, amarelo. E quando não respeitam, na verdadeira acepção da palavra, pelo menos, toleram.

Agora sim, vamos tentar diferenciar os diversos grupos religiosos que existem dentro da Maçonaria. Mas não vamos falar dos muçulmanos, pois, proporcionalmente, temos poucos maçons muçulmanos. E pelo mesmo motivo, não vamos incluir os que praticam as religiões afro-brasileiras e os que professam as religiões orientais (budismo, hinduísmo, taoísmo, ...).

Também não faz muito sentido considerarmos os ateus e os agnósticos, pois, em tese, a não crença, ou, mesmo, o ceticismo em relação à existência de um Criador, não influencia tanto o comportamento dessas pessoas junto à sociedade, como é o caso dos que acreditam em um Deus, seja ele qual for. Está bem assim?

Então temos, os judeus e os diversos grupos que se denominam cristãos (os católicos, os batistas, os luteranos, os adventistas, os evangélicos de uma maneira geral). Vamos incluir os espiritas, pois muitos maçons são adeptos do espiritismo, muito embora o mesmo não seja considerado uma religião, mas, sim, uma doutrina.

Primeiro, iremos focar os cristãos, pra depois falar um pouco dos espiritas e dos judeus. Mas antes, vamos voltar no tempo pra falar, mais uma vez, da Reforma Protestante, que neste mês de outubro completa 500 anos.

Naquela época, a Igreja Católica, de um lado, ostentava luxo e riqueza por toda parte, enquanto que, do outro lado, cobrava dos fiéis a famigerada “indulgência” dizendo que era para que pudessem entrar no céu e, ainda por cima, praticamente, pregava o voto de pobreza, baseada nos ensinamentos, na Bíblia, atribuídos a Jesus de que "mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”.

Bom, e daí? Daí, que, no meio de toda essa discussão sobre “como entrar no céu”, Lutero afirmou, em sua pregação, que o livre arbítrio, ou seja, a capacidade das pessoas para tomar decisões, não atua sobre a salvação dos homens. Somente a fé poderia fazer isso. O que aproximava Lutero do pensamento de Santo Agostinho de que a fé era uma graça divina, que Deus a dava a quem Ele escolhia. Por outro lado, a Igreja Católica dizia que a salvação era uma recompensa, o resultado das boas ações livremente realizadas pelos seres humanos. O que parece razoável, mas, claro, não na forma de indulgência, como ela queria.

Pra complicar, ainda mais a situação, surge um outro protestante de nome João Calvino que, mesmo tendo mantido quase todos os princípios formulados por Lutero, desenvolveu uma teologia de onde havia uma diferença muito importante: a Doutrina da Predestinação Absoluta. Calvino afirmava que Deus, o único com conhecimento sobre o futuro, já sabia quem eram as pessoas que seriam salvas por Ele, assim como as que não seriam.

De acordo com Calvino, a fé não era o caminho para a salvação. Para ele, a fé era o sinal de que o fiel estava predestinado à salvação. Com isso, o calvinismo se afastava daquilo que Lutero havia defendido, ou seja, que a salvação somente era alcançada por meio da fé em Jesus Cristo. Mas quando as ideias de Calvino chegaram às pessoas comuns, uma dúvida foi gerada: Como posso saber se serei salvo ou não?

E a resposta dada pelos calvinistas era muito simples: a garantia de que alguém havia sido predestinado por Deus à salvação estava em seu sucesso pessoal, ou seja, uma pessoa próspera e bem sucedida (profissão, saúde, família, etc.) demonstrava o favor de Deus para com ela. Portanto, o próspero tinha a garantia de sua salvação. Mas, o contrário também seria verdadeiro, pois aquele que não prosperasse dava demonstrações de que não estava predestinado à salvação.

O reflexo maior desta doutrina foi que, ao contrário dos católicos, os calvinistas defendiam a riqueza pessoal. Assim, a riqueza e o lucro deixavam de ser pecado para se tornarem sinais do favor divino e, mais, era uma forma de glorificar a Deus. Como a Igreja Católica condenava os lucros e a riqueza pessoal, os burgueses da época (e os atuais, claro), adotaram, quase que integralmente, a nova fé. E esta se espalhou por quase toda a Europa.

Importante lembrar que a doutrina calvinista, embora não tenha se tornado uma religião como a luterana, está presente em (quase) todas as religiões evangélicas fundadas por maçons nos EUA e, mais recentemente, nas igrejas neopentecostais fundadas no Brasil (a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça de Deus, a Renascer em Cristo e a Mundial do Poder de Deus), nestas, com o sugestivo nome de Teologia da Prosperidade.

Embora a Assembleia de Deus se diga contra a Teologia da Prosperidade, muitos ministérios a ela ligados, tal como o “Vitória em Cristo” do pastor Silas Malafaia, adotam esta doutrina, que, no fundo, tem origem na Doutrina da Predestinação Absoluta de Calvino.

Já em relação ao Espiritismo e seu codificador, Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec (que, segundo alguns historiadores, teria sido iniciado maçom na Grande Loja Escocesa de Paris), destaca-se o fato da Doutrina Espírita pregar os ensinamentos de Jesus Cristo em relação à riqueza. Sob esse aspecto, vale lembrar a semelhança da Doutrina Espírita com os princípios do movimento cátaro, citados na parte 1 de “Uma Contribuição ao Xadrez da Maçonaria no Brasil”.

Interessante salientar que, se por um lado, Allan Kardec pregava a caridade desinteressada como a mais meritória das virtudes, por outro lado, ele acreditava que o “branco europeu” era uma raça superior às demais. E os orientais seriam, por sua vez, superiores aos negros.

Em relação aos judeus, é óbvio que os ensinamentos de Jesus Cristo, seja em relação à riqueza, ou a qualquer outro, não são, por eles, considerados como balizadores do seu comportamento junto à sociedade. Por outro lado, na tradição judaica, o conceito de salvação espiritual é algo semelhante ao preconizado pela Igreja Católica, ou seja, uma pessoa que viva de forma predominantemente íntegra será contada entre os justos. Já o conceito de caridade não é visto da mesma forma como os cristãos; no seu lugar, os judeus consideram que o que fazem para ajudar um outro ser humano é tão somente justiça.

Parece que acabou, mas não acabou, não. Lembra dos judeus cabalistas? Eles também foram mencionados na parte 1 de “Uma Contribuição ao Xadrez da Maçonaria no Brasil”. Pois, bem, tendo, de alguma maneira, influenciado o desenvolvimento da Maçonaria, ainda quando ela não tinha a formatação que tem atualmente, os judeus cabalistas, junto com os cátaros, fizeram uma “releitura” do Antigo Testamento (ou do Tanakh, no caso) pela qual o Deus bíblico era mau, pois atirava sua ira sobre os homens toda vez que era contrariado e, ainda, restringiu, barbaramente, a liberdade das pessoas ao estabelecer dez mandamentos que deveriam ser fielmente cumpridos.

Por essa leitura, haveria, um outro Deus, um Deus bom, mas para os cabalistas, esse Deus bom não era Jesus, como acreditavam os cátaros. O fato é que, independente do nome que ele tenha, os cabalistas acreditavam que esse Deus era bom porque permitiria aos homens liberdade para decidir entre aquilo que cada um julgasse que seria o bem e o mal. E ponto.

É certo que todas essas religiões ou doutrinas são também professadas por pessoas que não são maçons. Mas, é igualmente correto dizer que em nenhuma outra instituição, que não a Maçonaria, iremos encontrar um lugar onde as pessoas que professem qualquer uma das religiões citadas, e outras mais que existirem, possam conviver. Mesmo que algumas não saibam exatamente a religião das outras; o que ocorre, particularmente, na Maçonaria Regular, dado que nela é proibido discutir política e religião.

Mas a principal virtude da “Ordem Maçônica”, qual seja, a ideia de que “não se deve impor limites à liberdade”, é, a meu ver, o seu maior defeito, pois o fato de deixar a critério de cada um aquilo que ele pode fazer, tanto a nível individual, quanto coletivo, faz com que determinados princípios adotados por seus integrantes possam ser levados ao extremo.

Os maçons se orgulham de dizer que são “HOMENS LIVRES E DE BONS COSTUMES”. O problema é que eles acreditam que “bons costumes” são aqueles que eles mesmos estabelecem. Assim, se o maçom fizer alguma coisa que nos pareça errada, pra ele, se ele conseguir passar por essa situação sem que isso lhe traga maiores consequências, está tudo muito bem. Pois ele se julga livre pra fazer o que quiser, sabendo, é claro, que vai ter que assumir o risco. Se algo der errado e ele não conseguir se livrar do problema, “maktub”, já estava escrito que seria assim e pronto. “Parte pra outra, porque a luta continua”.

Em tese, isso é até bom. Torna o sujeito um cara empreendedor, sob todos os aspectos da vida de um cidadão comum. E tendo um suporte que o ajude, tanto para iniciar uma empreitada, quanto para recorrer, se algo der errado, isso torna as coisas ainda mais fáceis.

O problema é quando esse suporte está centrado em recursos públicos; seja através de financiamentos “de pai pra filho”, tipo BNDES e Caixa Econômica Federal; seja através da isenção ou do perdão para o pagamento de impostos e multas que a todos deveriam ser cobrados, indistintamente. Sem falar em vários outros tipos de relacionamento público-privado, que todos nós sabemos que existem.

Por hora é só.

Luiz Cláudio de Assis Pereira
No GGN

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Xadrez da Maçonaria no Brasil - uma contribuição — 123456

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