7 de nov de 2017

Xadrez da Maçonaria no Brasil - uma contribuição — 1


Este artigo não tem a menor pretensão de encerrar um assunto que é cercado de tantos mistérios e, por isso, tão polêmico. A intensão é que ele possa, sim, contribuir com o debate iniciado pelo Xadrez da Maçonaria no Brasil no Jornal GGN em torno da atuação política da Maçonaria no Brasil.


Ao tentar fazer uma análise imparcial sobre tema de tamanha complexidade há que se considerar a grande dificuldade em se abordar uma instituição que, oficialmente, acaba de completar 300 anos de existência, e que possui inúmeros matizes, caracterizados não só pelos diversos ritos adotados, mas principalmente pelo livre pensar de seus integrantes. Além, é claro, do enorme secretismo que a rodeia. Fato real, concreto; infelizmente, porém, costumeiramente, negado pela mesma, que insiste em se dizer “discreta”, e não “secreta”.

Mas antes de iniciarmos esta jornada, vale dizer que, apesar de muitos de nós não gostarmos do modo de vida que as pessoas levam atualmente, de certo, não fosse a atuação persistente dos maçons no mundo ocidental, a liberdade de pensar e de agir que temos nos dias de hoje, tanto quanto o desenvolvimento das artes e da ciência que conseguimos alcançar, estariam seriamente comprometidos e seriam, certamente, em muito limitados.

No entanto, procuraremos aqui demonstrar que o que os maçons fazem hoje em dia é tão perverso quanto o que a Igreja Católica fazia na Idade Média. Há, porém, uma grande diferença, tanto na forma de atuação, quanto no conteúdo, pois, ao invés da aliança clara e transparente que havia entre as elites medievais (que se impunham pela força), e a Igreja Católica (que desejava manter o “monopólio da fé”), temos agora uma aliança oculta estabelecida entre governantes “democraticamente” eleitos e uma entidade que aceita as mais diferentes crenças religiosas.

E o que é pior: mesmo quando se quebra, como em 1964, ou se pretende quebrar, como agora, a “ordem democrática”, é ela, a Maçonaria, que está sempre à frente, ou, mais apropriadamente, por trás desse processo. (vide Peça 1 do Xadrez).

Detalhe: não foi só o general Mourão que deu palestra no Grande Oriente do Brasil. O próprio comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, igualmente fardado, esteve lá falando de forma mais amena, mas, ainda assim, dando uma interpretação muito peculiar sobre o artigo 142 da Constituição.

Veja o vídeo da fala do general Villas Bôas e a matéria da Folha de São Paulo no link abaixo:




Essa forma de atuação dissimulada facilita muito as coisas, tanto para a Maçonaria, quanto para os membros dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) a ela associados, pois, resulta numa relação “invisível” para a grande maioria da população; ao mesmo tempo, em que a aliança formada entre eles dispõe de um “olho que tudo vê” espalhado por todo canto.

Nesse contexto, denunciar a relação perniciosa que existe entre a Maçonaria e os poderes constituídos é tarefa das mais difíceis, até porque não se pode, pra isso, contar com a grande mídia, tendo em vista que a mesma é o principal pilar de sustentação de todo o esquema.

A questão central que se apresenta, e que iremos abordar nas próximas partes deste artigo, é: nossas vidas ainda precisam ser conduzidas por uma minoria que julga ser a única herdeira de tudo que foi conquistado ao longo de séculos de esforço e sofrimento de tantas pessoas? Teriam eles recebido algum dom divino para liderar os pobres mortais profanos?

Os avanços do mundo ocidental nos últimos séculos

Quem hoje vê a figura carismática do papa Francisco talvez não consiga nem imaginar que, muito antes do descobrimento da América, houve um tempo em que a cúpula da Igreja Católica perseguia e, não raro, punia severamente as pessoas que não pensassem como ela (ou como ela queria). Tudo com apoio incondicional da realeza da Europa da Idade Média.

Assim foi que, em 1209, por acreditarem na existência de dois deuses, pelo menos 7.000 cátaros, que habitavam o que hoje é o sul da França, foram brutalmente assassinados por tropas de um exército reunido pela Igreja Católica, no que ficou conhecido como o Massacre de Béziers, na única cruzada organizada contra cristãos, a Cruzada Albigense.

Curiosamente, os dois deuses do catarismo foram tirados da própria Bíblia. Os cátaros acreditavam que o Novo Testamento trazia a mensagem de um Deus bom, criador do reino espiritual, enquanto que o Antigo Testamento descrevia um Deus mau, criador do mundo físico. Eles rejeitavam o conceito de inferno, pois, para eles, o equivalente a este seria o próprio mundo em que vivemos. Assim, julgavam que as almas humanas eram almas de anjo sem sexo, aprisionadas dentro do corpo humano e condenadas à reencarnação até que alcançassem a salvação e, por essa razão, pregavam a pobreza, e até mesmo a castidade, e outros valores que ajudariam as pessoas a se distanciarem do mundo material.

Por mais de cem anos após o massacre de 1209, o movimento cátaro continuou sendo perseguido, mas ainda assim resistiu, devido à organização e à milícia armada que possuía.

Por conta da existência de muitos seguidores do catarismo (espalhados pelo que hoje é a França, Itália, Alemanha, Inglaterra e Catalunha), a Igreja Católica decidiu estabelecer os tribunais da Santa Inquisição, quando, então, os castigos impostos aos “hereges” tomaram proporção de extrema crueldade.

Alguns historiadores afirmam que a Inquisição Medieval, criada contra os cátaros, suspeitava da ligação entre estes e os judeus cabalistas (um ramo místico-esotérico do judaísmo), de quem teriam recebido influência. Outros, ainda, consideram que os cátaros tiveram contato direto com os Cavaleiros Templários, sendo uns influenciados pelos outros.

O fato é que durante a Santa Inquisição, tantos os cátaros, quanto os judeus (cabalistas ou não) e, mais adiante, os próprios Templários, foram duramente castigados, tendo muitos deles sido atirados em fogueiras e queimados vivos em praça pública. O mais reverenciado exemplo para os maçons, último grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários, Jacques de Molay, se tornou patrono da uma ordem iniciática para jovens do sexo masculino.

Pois bem, essa situação se manteve sem grandes alterações até que, finalmente, em outubro de 1517, ou seja, há exatos 500 anos, Martin Lutero conseguiu romper de vez o paradigma de não poder pensar diferente da Igreja Católica. Mas esta, ainda assim, permaneceu exercendo, até a Revolução Francesa, forte influência sobre a realeza em quase toda a Europa. Assim foi que, em 1542, como resposta ao avanço do protestantismo, a Igreja Católica criou uma versão ampliada da Inquisição Medieval.

É nesse cenário que a Maçonaria, tal como a conhecemos nos dias de hoje, se desenvolveu. Desse modo, não há por que se surpreender com o fato dela ter sido concebida como uma “sociedade secreta baseada nos ensinamentos da cabala judaica e em princípios que orientaram a criação do movimento cátaro, bem como, na experiência adquirida pelos Cavaleiros Templários, não só, mas em especial, quanto à gestão de um sistema bancário”.

O grande mérito da Maçonaria, portanto, foi justamente livrar a sociedade ocidental do cerceamento exercido pela Igreja Católica sobre todas as formas de pensamento e manifestação não só político-religiosa, como também, na ciência, nas artes, na cultura, etc. Não fosse isso, talvez ainda estivéssemos a pensar que a terra é o centro do sistema solar.

Luiz Claudio de Assis Pereira
No GGN

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