9 de nov de 2017

William Waack no corredor polonês da mídia


Não vou julgar a infelicidade da declaração racista de William Waack.

Sei que sua imagem é antipática. Ele tem a arrogância das pessoas bem preparadas – e Waack é um intectual sólido, que se destaca ainda mais no mundo da TV. Por suas opiniões muito marcantes – parciais, diria – é respeitado e odiado. Provavelmente não chega a ser amado.

Vou contar sobre o William que conheci.

Tive dois episódios marcantes com ele, que me revelaram a marca do seu caráter.

Fui colega de Waack no curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

No 3º ano tivemos uma professora carne de pescoço. Provavelmente porque eu já trabalhava na época, na revista Veja – que dava aos seus jornalistas o status que a Globo daria depois aos seus -, a professora tratou de pegar no meu pé. Mas foi uma marcação tão cerrada que chegou aos ouvidos do então Secretário de Redação da Veja, o Edgard Catoira, que queria tirar satisfações com ela, julgando que fosse marcação com a Veja. Tive que demovê-lo, explicando que era problema meu.

Aliás, foram tão marcantes minhas brigas com ela que, no aniversário de 30 anos da ECA, fui convidado com outros pioneiros para falar da escola. Os alunos levantaram a ficha de cada um na escola. De mim, souberam que tinha o hábito de ficar tocando violão no Centro Acadêmico, acompanhando o Getúlio – um bedel baiano bom de samba; era campeão de pimbolim e tênis de mesa; e que tinha uma briga com a professora. Mas nada foi encontrado de positivo, nem que procurassem.

A professora colocou como trabalho de semestre a elaboração de um jornal laboratório. Montou 4 ou 8 grupos de alunos – um para cada página do jornal, que não me lembro se tinha 4 ou 8 páginas -, e o grupo indicou um editor. Fui indicado editor pelo meu grupo que tinha, entre outros, o Waack, então repórter esportivo de um jornal carioca, não me recordo se O Globo ou o JB.

No dia da avaliação do jornal, faltei na aula, viajando a serviço. Durante todo o período de preparação do jornal, a professora estimulou uma competição do óbvio Paulo Markun comigo. Na hora da avaliação, o Markun aproveitou minha ausência para descer a ripa não no grupo, mas no meu trabalho de editor. Foi interrompido pelo Waack, do alto de seus mais de 1,80 metros, que berrou:

- Se alguém falar mal do Nassif na sua ausência, quebro a cara!

O segundo momento foi quando ele se tornou editor do Jornal do Brasil. Minha seção “Dinheiro Vivo”, na Folha, ganhou repercussão, especialmente com o Plano Cruzado. E o JB passou a republicá-la também.

Já em guerra com a Folha, e com o Saulo Ramos, Ministro da Justiça, descobri uma jogada dele com o Ronald Levinsohn, ex-proprietário da Caderneta de Poupança Delfin, em liquidação extrajudicial. Saulo se especializara em montar jogadas com as massas falidas. Tentei publicar na Folha, e não consegui. Mandei então para o William, que publicou no JB.

Já preparado para ser demitido da Folha, tinha apresentado uma proposta para o JB para ser exclusivo da coluna, que seria ampliada. A proposta foi bem aceita pelo Marcos Sá Correa, na época diretor de redação.

Marquei a ida para o Rio, para assinar o contrato.

Chegando na redação, senti que a Mirian Leitão me evitava. Era a titular do Informe Econômico e começara no jornalismo econômico como minha repórter no programa Cash, produzido pela Abril Vídeo. O Waack passava maus bocados porque, muito competitiva, a Mirian tinha o hábito de todo dia fazer chegar à direção notícias que o Waack não tinha coberto no dia a dia da Editoria.

Fui até a mesa do Waack, que abriu o jogo.

- Acho que melou o seu contrato. O Levinsohn tinha negócios com a casa e eu não sabia.

Fui até o Marcos cumprir tabela. Lá ele me explicou que o jornal se desinteressara porque, na coluna, eu estimulava muito os leitores a recorrerem à justiça, e o carioca não tinha esse hábito. Ah, bom!

Fingi que acreditei e voltei para São Paulo de mãos abanando. Mas com a sensação revigorada de que o colega dos bancos da USP mantinha a espinha ereta. Certamente preservou o estilo, que acaba por se tornar incômodo para chefias que exigem o “yes, man”.

Agora, consegue o feito de se tornar uma unanimidade inédita: velha e nova imprensa se unem para tirar casquinha. Se fosse pequeno, não mereceria essa atenção.

Luís Nassif
No GGN

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