25 de nov de 2017

Suspeito


- Chegamos à conclusão que ele é suspeito.

- Quem?

- Ele ...

- Suspeito de quê?

- Suspeito, e eu diria mais: Muito suspeito.

- Sim, mas o que ele fez?

- Não sabemos, mas é suspeito de ter feito.

- Ter feito o quê?

- O senhor pergunta demais, o importante é que chegamos à conclusão que ele é suspeito e vamos oferecer denúncia.

- Mas denúncia de quê, pelo amor de Deus.

- De que ele é suspeito.

- Mas não se pode denunciar alguém porque "é suspeito".

- Isto é parte da investigação. Sendo suspeito e sabendo que nós o achamos suspeito, ele vai incorrer em algum deslize e aí a suspeita se tornará certeza.

- Eu não estou entendendo, "deslize", "certeza" ... vocês têm algo ou não têm?

- Temos, ele é - com certeza - suspeito. Imagino até o desespero dele quando sair nos jornais: "fulano de tal: suspeito". Intensificamos a vigilância e pronto!

- Mas eu não posso aceitar denúncia só por que vocês acham - ele - suspeito. E eu nem sei suspeito de quê, exatamente.

- O senhor também é suspeito ...

- Eu??? Faça-me o favor ...

- Sim, só por não ver que ele é suspeito sua atitude já me parece muito suspeita ... talvez o senhor não QUEIRA ver ele como suspeito. E isto o torna suspeito ...

- Pare de dizer bobagens ... eu, suspeito. Tenha santa paciência ...

- Não achamos ele mais suspeito, o senhor não precisa fazer nada.

- Como assim? Vocês entraram aqui dizendo que ele era suspeito e querendo que eu aceitasse denúncia. Agora mudaram de opinião?

- O tempo todo era o senhor o suspeito. Estávamos apenas dando corda para o senhor se enrolar.

- Por favor, isto é idiotice em cima de idiotice. Não vou aceitar qualquer denúncia contra ele.

- Muito suspeito ...

- O quê?

- Sua atitude. É muito suspeita. De repente passa a defender ele. Assim, do nada.

- Não estou defendendo ninguém, apenas não vou aceitar a denúncia. Podem sair.

- "Muito obrigado" pelo seu tempo, meritíssimo. O senhor ajudou bastante o seu país hoje.

- Saiam!

* * *

- Então, a que devo a sua visita?

- Como eu lhe disse, meritíssimo. Temos convicção de que ele é suspeito. Ele e um colega seu, ambos suspeitos.

- Mas suspeitos exatamente do quê?

- É isto que estamos tentando descobrir. Mas definitivamente suspeitos eles são. Os dois ...

- Por favor eu não estou entendendo ...

- Meritíssimo, o senhor vai ou não vai aceitar a denúncia? Se não autorizar parecerá muito suspeito. Exatamente quando alguém de sua corporação está tão claramente imbricado. Afinal, só tem medo de ser investigado quem é suspeito, como dissemos desde o início ... não acha?

- Hummm, só investigação?

- Só. Nada mais.

- Então autorizo ...

- Sobre os dois? ou o senhor vai proteger um dos seus?

- Sobre os dois ... claro. Não quero defender ninguém. Sou justo e correto com todos. Mas são suspeitos de quê, eu posso saber?

- Claro, compre uma revista no final de semana, já está tudo lá...

Fernando Horta
No Esquerda Caviar

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