5 de nov de 2017

Redículo

Estávamos passeando em Belém do Pará. Tinham nos recomendado uma visita ao Museu Goeldi, mas o museu estava fechado. Ficamos caminhando pelo parque zoológico que tem em volta do museu. Vimos uma menininha com seus 3 ou 4 anos que olhava, fascinada, uma jaula cheia de pássaros. A menininha saiu correndo, entusiasmada, e gritou para a mãe, que se afastava:

— Mãe! Olha! Redículo! Ficamos sem saber o que a menininha tinha achado ridículo na jaula, ou se — o mais provável — ela tinha recorrido a um termo que só conhecia de ouvir os adultos falarem para descrever o que sentiam.

“Redículo” podia significar “maravilhoso”. Ou tão maravilhoso que nenhuma palavra sua conhecida faria justiça, só mesmo uma palavra especial, uma palavra de adulto, qualquer palavra de adulto.

Ou então a menininha encontrara uma perfeita descrição para o mistério que vira na jaula, a extrema estranheza da natureza, que nenhum vocabulário alcança. A vida na sua forma mais, assim, explícita, com penas coloridas e bicos extravagantes, a vida além das palavras certas. Redícula no sentido de... de... De redícula mesmo.

Ou então... Fiquei pensando em como “redículo” poderia ser adotado para descrever o que transcende o ridículo.

“Redículo” seria o ridículo extrapolado, o ridículo além do ridículo. Como a história improvável do Brasil nos últimos anos, e no que esta história vai dar se as projeções eleitorais para 2018 estiverem certas, e a decisão final seja entre Lula e Bolsonaro ou entre Bolsonaro e qualquer outro.

O golpe contra Dilma que não ousou dizer seu nome foi “redículo”. O Supremo Federal teve suas recaídas no “redículo”. O Gilmar Mendes é “redículo”. O Congresso Nacional foi repetidamente “redículo”. O Temer é cada vez mais “redículo”.

Diante de uma eleição como promete ser a próxima, não encontraremos a palavra certa ou reduziremos tudo a um “redículo” no pior sentido. Ou então, como a menininha de Belém diante do aviário, nos maravilharemos com o espetáculo.

Se houver eleição, apesar de tudo, será sinal de que nossa frágil democracia resistiu ao “redículo” terminal.

Luís Fernando Veríssimo

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