12 de nov de 2017

Quem tem medo de vagina?

“Porque estamos escondendo essa parte do corpo? Qual é o medo em falar sobre ela?”, questiona a psicóloga Letícia Bahia

A vulva clara e rosada, sem pêlos, com pequenos lábios, além de remeter à infantilização e ter um caráter racista, é imposta como um padrão estético
Buceta, pombinha, pepeca, xoxota, as partes, Países Baixos, periquita, xana, perseguida, vulva. Independente do apelido usado, falar e retratar a vulva é um tabu.

Ela se desloca sem parada final entre as conotações sexuais e os estereótipos da depilação e pele clara, reforçados pela indústria de filmes pornográficos. Ela faz parte de mais da metade da população brasileira e está nas mesas de cirurgia para procedimentos cirúrgicos como a ninfoplastia.

No entanto, as bonecas vendidas são desprovidas de vulva. Uma boneca comercializada sem um braço ou uma perna é uma boneca que representa mulheres com alguma deficiência física. Mas bonecas sem vagina não são deficientes, é o padrão.

Pouquíssimas são as mulheres que sozinhas se aventuram na masturbação e descortinam seus prazeres sexuais. Também são recentes os poucos estudos sobre a genitália feminina. Uma campanha recente de conscientização de câncer genital, da The Eve Appeal, mostrou que, de mil mulheres entre 26 e 35 anos, metade não soube localizar a vagina - a parte interna da vulva, o canal vaginal.

No século XVIII, estava difundida a ideia, pelo médico Galeno de Pérgamo, que a vagina era um pênis invertido. Somente em 2009, um estudo publicado pelo The Journal of Sexual Medicine, mostrou que o clitóris é equivalente ao pênis, mas com 4 mil terminações nervosas a mais.

Letícia Bahia, psicóloga e diretora institucional da Revista AzMina, explica que a vagina ainda é pensada como um complemento ao pênis. Nesse sentido, “existem pouquíssimos estudos sobre a relação entre duas vulvas, por exemplo, uma relação afetiva sexual que acontece entre duas mulheres, como se dá a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Isso porque é a partir do pênis que se pensa a sexualidade”.

“Porque estamos escondendo essa parte do corpo? Qual é o medo em falar sobre vagina?”, questiona Bahia.

Procedimentos cirúrgicos

Segundo Halana Faria, ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, existe uma demanda relacionada à imagem de uma vulva
Apesar de não se falar abertamente sobre a vagina, os estereótipos que a cercam estão espalhados, por exemplo, nos filmes da indústria pornográfica, que movimenta anualmente mais de R$ 100 bilhões, segundo a organização Treasures.

A vulva clara e rosada, sem pêlos, com pequenos lábios, além de remeter à infantilização e ter um caráter racista, é imposta como um padrão estético.

Em 2016, o Brasil liderou o ranking mundial de procedimentos estéticos no corpo, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética). No total, foram mais de 500 mil cirurgias, cerca de 16% dos procedimentos do mundo todo. Em segundo lugar está os Estados Unidos e em terceiro, o México.

Um dos benefícios colocados como procedente da ninfoplastia ou labioplastia, a redução de pele dos lábios vaginais, é devolver à mulher sua sexualidade.

Porém, Bahia explica que a sexualidade não é algo que se possa devolver tanto à mulher quanto ao homem, pois é intrínseco ao indivíduo.

“A sexualidade é a dimensão humana sobre a função reprodutiva. Tudo o que se sobrepõe de cultura acima dela é a sexualidade”, afirma. E contínua, “não é algo que se pode devolver ou retirar de alguém. A pergunta é como cada um vive a sexualidade e como podemos buscar maneiras de viver as sexualidades de uma forma mais saudável”.

A questão que Bahia traz é a necessidade de procurar entender o porquê de tantas mulheres brasileiras procurarem procedimentos cirúrgicos para modificar suas vulvas. “E aí estamos falando novamente da necessidade de conversar sobre tudo isso”, conclui.

O tabu da vagina não é um atributo de um gênero específico. “O tabu é nosso”, diz Bahia. Diferentes são os efeitos para cada um. No entanto, na ponta desse sistema, está o homem que questiona do tamanho da vulva da esposa.

“Acho um equívoco a gente transformar isso num questão de homens que não conseguem lidar com a questão da vagina. Isso é nosso, de todos nós. Todos nós estamos produzindo, lidando com isso”.

Quando a ninfoplastia é necessária?

Segundo Halana Faria, ginecologista do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, existe uma demanda relacionada à imagem de uma vulva. “As mulheres muitas vezes não têm a percepção sobre a diversidade possível de forma e tamanho das vulvas. Então, mesmo sem problemas relacionados a lábios mais volumosos, começa a se questionar sobre a ‘normalidade da sua vulva’.

Faria, no entanto, lembra que a reconstrução genital nos casos de transgenitalização pode ser um caminho para as mulheres trans construírem sua identidade de gênero. Nesse sentido, “é preciso entender a diferença entre a medicalização excessiva do corpo das mulheres cis e o acesso a construção de um corpo possível às mulheres trans”.

Ainda assim, a psicóloga Letícia Bahia afirma que a sexualidade e as modificações genitais estão no campo da dimensão afetiva, o que torna complicado colocar esse aspecto somente sob a responsabilidade de “alguém que, em termos acadêmicos, não tem preparo para trabalhar nessa esfera”.

“Um cirurgião plástico tem treinamento para resolver um problema estético, mas não para resolver uma questão de cunho afetivo, que é uma questão de autoestima”, conclui Bahia.

Caroline Oliveira

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