12 de nov de 2017

Pose

Quando eu era criança, há séculos, comprava-se cigarros iguais aos de verdade, mas com chocolate dentro em vez de fumo. Os falsos cigarros também serviam para a gente brincar de adulto. Antes de comê-los, “fumávamos” os cigarros, gesticulando com eles como gente grande, dizendo coisas pseudo-importantes e tragando e expelindo fumaça imaginária. Nada era mais invejável nos adultos do que a liberdade para fumar, e sonhávamos com o dia em que poderíamos assumir todas as poses de fumantes, fumando de verdade.

Tinha um ritual de fumantes que me fascinava. O homem tirava uma cigarreira - lembra cigarreira? - do bolso de dentro do paletó, abria a cigarreira, escolhia um dos cigarros enfileirados, fechava a cigarreira com um civilizado clic, depois batia com a ponta do cigarro no tampo da cigarreira, antes de guardá-la, colocar a ponta compactada do cigarro nos lábios e buscar o isqueiro em outro bolso do paletó. No dia em que eu pudesse fazer aquele pequeno teatro com naturalidade eu seria um homem e, mais do que isto, um homem auto-suficiente e elegante, um homem de dar inveja.

Um dia decidi que não ia esperar crescer para ficar adulto. Roubei um cigarro da minha mãe, peguei fósforos e fui para o fundo do quintal. Bati com a ponta do cigarro na caixa de fósforos. Acendi o cigarro. Traguei, me sentindo um ator de cinema (naquele tempo se fumava muito nos filmes), um Tyrone Power ou um Humphrey Bogart depois de acender o cigarro da moça (com um isqueiro que nunca falhava). Grande momento. Minha introdução no mundo da gente grande. O fim da inocência. O primeiro gosto do proibido.

A pose não durou muito. Foi interrompida por um acesso de tosse. Era horrível, encher a boca de fumaça daquele jeito. Nunca mais botei um cigarro na boca. Nem de chocolate. Mas, sei não. Às vezes penso que faltou uma cigarreira na minha vida.

Certo demais

Ela pediu:

- Carlinhos, me faz um favor?

- Claro.

- Não fala certo demais.

- O que?

- Quando a gente estiver com a turma. Os pronomes, por exemplo. Você sempre coloca os pronomes no lugar certo. Fica esquisito. O pessoal repara.

- Os pronomes? Não posso usá-los corretamente?

- Está vendo? Usar eles. Usar eles!

O Carlinhos ficou tão confuso que, junto com a turma, não falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram:

- Ó Carol, teu namorado é mudo?

Ele ia dizer “Não, é que, falando, sentir-me-ia vexado”, mas se conteve a tempo. Depois, quando estavam sozinhos, a Carol agradeceu, com aquela voz que ele gostava:

- Comigo, você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos.

Aquela voz de caramelo.

Luís Fernando Veríssimo

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