18 de nov de 2017

Porque o tal do mercado não despreza Bolsonaro


O namoro do tal do mercado com Bolsonaro obedece à palavra mágica: business.

Há tempos, o mercado se deu conta de que figuras histriônicas, acidentes da política, se prestam a grandes jogadas de negócio.

É o que explica o apoio a figuras desprezíveis, como Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco.

É o caso do Credit Suisse na Rússia. Recentemente, publicou um relatório sobre o problema da desigualdade na Rússia.

Mas quando se desmanchou a ex-URSS e teve início o desmonte perpetrado por Boris Yeltsin, o Credit Suisse foi o grande beneficiário.

Em 19923 criou o Credit Suisse da Rússia liderado por um jovem banqueiro americano, Boris Jordan, neto de russos brancos, que imigraram no início do século 20.

Jordan mantinha relacionamento estreito com os responsáveis pelas privatizações da ex-URSS. Na primeira onda de privatizações, foram distribuídos vouchers, para serem transformados em ações das empresas recém-privatizadas. Apenas o Credit Suisse de Jordan adquiriu 17 milhões de vouchers, ou 10% do total.

As duas conexões de Jordan, com apoio dos EUA, foram o primeiro-ministro Yegor Gaidar e Anatoly Chibais, cérebro do programa de terapia de choque que desorganizou a economia russa e criou a nova classe dos oligarcas e levou ao empobrecimento da população russa.

Em entrevistas concedida anos depois, Jordan admite que a criação dos vouchers visou garantir que o parlamento da Rússia não iria impedir as privatizações.

Houve todo tipo de jogada com os vouchers. A mais conhecida foi dos irmãos Chandler, atraindo vouchers para empresas russas super-avaliadas, diluindo assim o valor dos vouchers, e revendendo suas participações com grandes lucros.

Os irmãos Chandlers bancam o Instituto Legatum, um grupo de neocons com sede em Dubai, que se vale das redes sociais para uma guerrilha de informação contra o governo russo.

Essa terapia de choque, de 1992, resultou em 1998 na corrida contra o rublo que desorganizou mais ainda a economia russa. Acabou confiscando as economias das classes média e baixa, gerando um processo agudo de concentração de renda.

Segundo o Blog The Exilated, que publica análise sobre a economia russa, em 1994, Jordan concendeu uma entrevista à Forbes sobre um esquema que tentava emplacar junto a Yeltsin. Era o "empréstimos por ações", considerado o maior saque da história contra a economia russa. As principais empresas russas, óleo, gás, recursos naturais telecomunicações, bancos estaduais foram entregues a um grupo reduzido de banqueiro.

No final de 1995, Yeltsin anunciou leilões através dos quais os banqueiros emprestariam dinheiro ao governo em troca do controle "temporário" sobre os fluxos de receita das mais valiosas empresas russas.

Cada leilão foi manipulado pelo banco vencedor, que passou quase nada pelo controle. E ainda tiveram o benefício de passar a gerir folhas de salários e outros fundos públicos. Houve atrasos de salários por meses ou mesmo anos, quando se valiam dos fundos para especular ou para comprar ativos em leilões manipulados.

Quando os empréstimos por ações foram implementados, no final de 1995, Boris Jordan associou-se a um dos oligarcas, Vladimir Potanin, criando o seu próprio banco de investimentos, o Renaissance Capital. Criaram o primeiro fundo de private equity, a Sputnik Capital, tendo como investidores George Soros e a Universidade de Harvard.

Segundo o Blog, essa terapia de choque teve um custo imenso para a Rússia. Nos primeiros dois anos de terapia de choque e privatização de vouchers a inflação foi de 1.354% em 1992 e 896% em 1993, enquanto os rendimentos reais caíram 42% apenas em 1992. Os salários reais em 1995 foram reduzidos à metade do valor de 1990. E as pensões foram reduzidas a 25%.

Os investimentos em bens de capital cairam 85% na década. A produção de alimentos domésticos desabou para metade dos níveis durante a perestroika. Em 1999, metade dos russos se alimentavam em alimentos cultivados em seus próprios jardim, retornando à agricultura de subsistência.

A expectativa de vida masculina russa caiu de 68 anos durante a era soviética tardia, para 56 em meados da década de 1990, mesmo índice dos tempos do czar. E a taxa de mortalidade infantil bateu recordes mundiais. Mais de 6 milhões de russos morreram prematuramente durante as reformas de mercado.

Luís Nassif
No GGN

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