29 de nov de 2017

Porque Elena Landau não gostou do pré-plano do PSDB


As críticas da economista Elena Landau à tentativa do PSDB de montar um plano econômico são compreensíveis.

Primeiro, pelo pecado capital do plano não ter sua assinatura.

Segundo, fazer referências ao ex-governador Mário Covas, a última esperança da socialdemocracia do partido.

Landau, assim como outras "divas" do PSDB, como Maria Helena Guimarães, nunca teve como foco de atuação a melhoria da condição econômica, da competitividade sistêmica e menos ainda das condições sociais da população. Seu foco sempre foi preparar o terreno para o que fosse melhor para os compradores, ou prestadores de serviço, independentemente dos reflexos sobre o resultado final para o país. Como se a privatização fosse um fim, e não um meio.

No mesmo enfoque incorreu Maria Helena, cuja carreira na educação foi pautada pela adesão incondicional a princípios ideológicos rasos, sem nenhuma capacidade de análise sobre a estrutura a ser reformada.

O bom reformador é aquele que coloca o foco das mudanças no aumento da eficiência do setor que está sendo reformado. E que tem clareza sobre o objetivo a ser alcançado.

Na privatização, por exemplo, a grande estratégia teria consistido em montar um modelo que respeitasse as características de cada setor, ainda mais se sabendo que a integração comercial do país exigiria empresas competitivas internacionalmente.

O que esses gênios fizeram? Uma pulverização de siderurgias e de petroquímicas, comprometendo os ganhos de escala e o modelo tripartite anterior, que ajudou a criar grandes centrais petroquímicas.

Na telefonia, arrebentaram com a estrutura da Telebras, com os ganhos de escala, com a capacidade de pesquisa e desenvolvimento, enquanto a Telefonica, estatal espanhola, era preparada para competir no mercado privado, passando a dominar a telefonia na América Latina. Lançou-se no mundo com estrutura de gestão privada, mas tendo atrás de si os ganhos de escala de ser uma empresa pública no seu país.

Na privatização, no entanto, optou-se por um modelo pulverizado, bom para os negócios, inclusive com o uso abusivo de papéis podres, títulos da dívida pública sem validade. A lambança que ocorreu na telefonia, com Daniel Dantas, italianos, canadenses, espanhóis, jogadas jurídicas, manipulação de preços – como o esvaziamento da Oi-Telemar nos governos FHC e Lula – dá uma pálida ideia das distorções geradas pelo modelo.

Na educação, esse gerencialismo barato produziu efeitos similares.

Em São Paulo, as tais ferramentas gerenciais de Maria Helena se preocupavam em transformar diretores da escola em administradores de compras, deixando de lado o foco principal, que era o aprimoramento nas ferramentas pedagógicas. Mais ainda: em estruturas pulverizadas, seja um banco comercial, uma loja de varejos ou uma estrutura educacional, não se melhora a gestão sem se conquistar a ponta, os professores.

Mas, nesse país dos slogans vazios, vence quem manobra os bordões. E, no modelo Maria Helena, professor era custo.

Como assessora do ex-Ministro Paulo Renato de Souza, trabalhou em um conceito estapafúrdio: se o MEC se preocupasse com o ensino superior, dispersaria os esforços no ensino fundamental. O Banco Mundial disse que o ensino superior deveria ser pago ou ser privado. E os gênios do gerencialismo absorveram o ensinamento e disseram que o ensino superior não era mais problema do MEC. E essa maluquice pegou. Como se educação não fosse um projeto integrado.

Para se comprovar o sucesso dos bordões nesse país das palavras vazias, na outra ponta, o então petista radical Cristovam Buarque, governador do Distrito Federal, proibia o uso da  palavra qualidade nas suas secretarias, por ser um “termo neoliberal”.

Em São Paulo, Maria Helena conseguiu estagnar os avanços da educação, tratando os professores como adversários. A corporação é difícil, sim, tem associações aguerridas.

Mas o único Secretário de Educação que tentou romper com o imobilismo, Gabriel Chalita, abrindo as escolas às comunidades, abrindo o diálogo com os professores, foi massacrado pelos burocratas tucanos do ensino, que tratavam suas experiências como manobras populistas.

Depois de conseguir estagnar a educação no estado mais rico do país, Maria Helena se propõe a colocar em prática os conselhos do Banco Mundial para a educação superior, com a sutileza de um açougueiro destrinchando a carcaça de um boi.

O Banco Mundial detectou que o custo por aluno, em uma universidade pública brasileira, é três vezes maior que o de uma privada. Seria interessante comparar o custo na 9 de Julho e na USP. Será maior ainda. Só que 90% das pesquisas no país estão concentradas nas universidades – mais que isso, nas universidades públicas; pouco nas empresas; nada nas universidades privadas.

É evidente que há a necessidade de choques de gestão - no melhor sentido - nas universidades públicas. E pode-se e deve-se discutir modelos alternativos de financiamento.

Mas o que Maria Helena está fazendo é literalmente destruir as federais sem que se tenha nada para substituí-las no trabalho de pesquisa e formação de quadros técnicos.

É uma visão burra, de um atraso a toda prova, um desperdício de recursos, uma queima de ativos imprescindíveis ao desenvolvimento de um país.

Os quadros tucanos

Ao longo do governo FHC, dos governos Montoro e Mário Covas, o PSDB conseguiu revelar alguns grandes quadros e alguns blefes monumentais.

Independentemente das críticas atuais, Pedro Parente é um grande quadro; Maria Silvia Bastos Marques, que não conseguiu segurar a peteca no BNDES, uma gestora menor. O grupo tucano de inovação – Américo Pacheco, Brito Cruz, João Furtado – tem visão de futuro. E nenhum deles prescindiria do que é feito nas universidades paulistas. Paulo Renato, Maria Helena a visão dos slogans. Yoshiaki Nakano foi um gestor histórico na Fazenda paulista; Pedro Malan, um Ministro a reboque.

A mediocrização do partido faz com que os porta-vozes, em qualquer tema, sejam aqueles que saibam brandir factoides, palavras vazias, sem nenhuma ficha de trabalhos concretos, de resultados. Tendo os melhores quadros acadêmicos do país, tendo quadros preciosos na USP, quem José Serra colocou como reitor? Um troglodita megalomaníaco que arrebentou a USP com planos mirabolantes, mas que oferecia o que Serra mais apreciava: PM no lombo dos alunos.

Faz bem o senador José Aníbal em rascunhar uma tentativa de programa do PSDB. Faria melhor em montar uma equipe de especialistas com visão de futuro, não esse ideologismo barato. Pena que sua iniciativa chegue com 12 anos de atraso. E a um partido que, em lugar de Covas, tem Geraldo Alckmin como o grande farol em direção ao futuro.

Luís Nassif
No GGN

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