30 de nov de 2017

Por que Huck nos fará falta


O único cenário em que Lula poderia concorrer seria contra um candidato viável da direita – “o novo”. O novo era Huck. Com Alckmin candidato, Lula será impedido e, nesse caso, dá Bolsonaro.

No prazo de alguns dias, o PSDB se acertou. Vindo de uma crise interna causada pela intervenção de Aécio Neves contra Tasso Jereissati, de repente, se acomoda em torno do nome de Alckmin.

O próprio Tasso e Marconi Perillo desistem de se candidatar à presidência do partido e o cargo cai no colo de Alckmin. João Doria, a ambiciosa criatura de Alckmin, reflui de seu sonho presidencial. E o representante do “novo”, Luciano Huck, declara que foi mal entendido e que jamais teria se oferecido como candidato.

Tudo deu cero para Alckmin que deverá ser o candidato da direita.

Quem conhece o quanto o PSDB é divido e quem conhece Alckmin não nutre ilusões de que tal tenha se dado por um consenso dentro do partido ou por gravidade do poder de Alckmin. Não, o PSDB é o partido do mercado, do mesmo mercado que patrocinou o golpe de 2016. É de lá que partiu a ordem unida que sacramentou Alckmin.

Quem acompanhou as várias ações de Huck para viabilizar sua candidatura, a última uma manchete do jornal O Estado de São Paulo dando a Huck “60% de aprovação” – vitória no primeiro turno – não tem porque acreditar que sua desistência foi fruto de uma reflexão familiar. Recebeu ordem do patrão. A Globo é a porta-voz do mercado, do mesmo mercado que patrocinou o golpe de 2016.

Assim, o mercado bateu o martelo, vai de Alckmin.

Como consequência, o “novo” não virá nestas eleições.

E este é um dado significativo, porque estas eleições são típicas para o surgimento de um salvador da pátria. Tal qual foi Collor em cenário análogo nas eleições de 1989. Com o povo desencantado da política tradicional depois da tragédia do governo Sarney.

O novo seria Huck. Dória seria um “novo requentado”. Bolsonaro não é o novo. Joaquim Barbosa não é o novo. Marina Silva?

Assim, o quadro eleitoral se encaminha para ser frustrante para os que ansiavam por um candidato que mudasse “tudo isso que está aí”. E faltando menos de uma ano para as eleições presidenciais, é pouco factível que o “novíssimo” surja e se firme.

Aparentemente o mercado apostou na segurança do bom e velho Alckmin. Bom, velho e ruim de voto.

Com isso, o quadro ficaria com o campo da direita com três candidatos viáveis: Alckmin, Marina Silva e Bolsonaro.

E a esquerda viria com Ciro Gomes e Lula. Manuela D’Ávila, neste instante, não existe.

Claro, é sempre possível uma improvável coligação de Alckmin com a candidata do Banco Itaú. E de Lula com Ciro Gomes. Mas, não são mais do que isso: improváveis.

Ocorre que esse cenário nós já conhecemos – é 2006. Dá Lula. Até porque, Lula pode encarnar, se não a figura do novo, a figura do “de novo”.

O que restou do PMDB que está fora da cadeia ou lutando para não entrar nela, não deverá apresentar candidato e se dividirá nas coligações regionais. Lula leva vantagem aqui também.

De qualquer modo, não é o cenário ideal para uma situação de desencanto com a política. Por alguns motivos:
  • o eleitorado que está esperando “o novo” pode se tornar indiferente ou se desinteressar de vez com os destinos do país.
  • esse desinteresse pode disparar o “efeito Enéas” ou “efeito Tiririca” ou “efeito Cacareco” – só para enfatizar como esse fenômeno é comum entre nós – e nesse caso dá Bolsonaro.
  • isso porque, com esse cenário, como único recurso para garantir a vitória do campo da direita, Lula fatalmente seria impedido de concorrer.
  • Lula não concorrendo, tornaria ilegítimo qualquer candidato eleito, tanto mais um Bolsonaro eleito pelo “efeito Enéas”, mergulha o país na frustração e suas consequências e transfere a retomada da economia para 2022. Isso se restar país em 2022.
Tendo em vista que os senhores que decidiram apostar em Alckmin e viabilizá-lo eleitoralmente através do impedimento de Lula, são os mesmo que acreditavam que bastava tirar Dilma do poder que tudo se resolveria, temos muito o que lamentar a retirada de Huck.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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