15 de nov de 2017

Odeia a globalização?


Experimente o Localismo, não o nacionalismo

Não é preciso nem dizer, mas há mudanças em curso na economia política do mundo. Onde há globalização, há quem proteste contra a globalização. Isso não é nada novo, mas está se tornando convencional.

A antítese da globalização, o nacionalismo, e a busca dos interesses de seu próprio país em relação aos de todos os demais, efervesceu novamente na Europa. E não é apenas a Europa, claro. Nos EUA, o presidente Donald Trump está (entre outras iniciativas) reconsiderando o compromisso norte-americano com o livre comércio.

No restante do mundo, a experiência da globalização mostra que ela produz vencedores e perdedores. Isso varia geograficamente e em diferentes áreas econômicas, e aparece em diferentes aspectos de nossas vidas.

E assim, alguém em Londres pode descobrir que sua casa vale mais. À medida que o capital estrangeiro flui para comprar grandes faixas da capital do Reino Unido, ele aumenta sua riqueza, enquanto outros podem ser empurrados para fora do mercado. Em alguns setores do mercado, os salários podem estar em declínio como resultado da concorrência global, migração, precarização ou automação. Em última análise, no entanto, não é uma questão de saber se a globalização causa essas mudanças, mas é que as pessoas sentem que sim.

Paredes e lamentos 

A globalização não é, contudo, uma questão meramente de comércio, migração e terceirização estrangeira. Para muitos, a Grã-Bretanha parece estar à venda conforme uma proporção crescente de empresas do Reino Unido e ativos respondem a proprietários estrangeiros.

A teoria econômica sugere, portanto, que a nação será cada vez mais administrada em benefício do capital estrangeiro, ao invés dos cidadãos. Além disso, há o risco de o influxo de capital estrangeiro valorizar a taxa de câmbio, dificultando a exportação, reduzindo a produção industrial e reduzindo o emprego nos setores afetados.

Para protegê-los de forças além de seu controle, cidadãos em todo o mundo estão buscando cada vez mais a proteção pelo Estado-nação. Consequentemente, o surgimento do que é muitas vezes chamado de nacionalismo. Como Abraham Lincoln observou:

O objeto legítimo do governo é fazer por uma comunidade de pessoas o que elas precisam que seja feito, mas não podem fazê-lo, ou não podem fazê-lo bem, por si mesmos em suas capacidades separadas e individuais.

É evidente que nenhum indivíduo ou comunidade pode se opor às forças do capital global, e os governos ocidentais parecem avessos em dar à mão-de-obra os meios para se proteger, por exemplo, ao aumentar os direitos laborais e a sindicalização. No entanto, na busca por um governo forte para protegê-los, os cidadãos correm o risco de conceder ao Estado muito poder sobre suas vidas.

Não é de modo algum garantido que as políticas que se adequam a um governo doméstico forte serão melhores do que as que se adequam às corporações multinacionais de propriedade estrangeira. Além disso, a história indica que o medo do capital global pode ser cooptado por políticos inescrupulosos para o medo de outras nações ou medo de outros povos.

Pensar localmente

Em vez de nacionalismo, portanto, podemos recorrer ao localismo. No contexto do Reino Unido, isso pode ser a devolução com o poder real (financeiro) localizado, com esse poder implementado através do governo local e de negócios locais.

Uma economia de grandes empresas (operada em benefício de proprietários globais) é aquém do ideal para o indivíduo e a sociedade. Em contraste, uma sociedade de muitos pequenos negócios locais é mais resiliente, mais empoderadora e mais em consonância com o espírito do capitalismo e do mercado. Devemos também ter em mente que o aumento da concentração das empresas (em menor número, mas maiores) é um motor de crescente desigualdade. Se um negócio é muito grande para falhar (ou ser permitido a falhar), então o governo falhou em seu dever de manter os negócios pequenos.

A teoria econômica indica que aqueles sem participação em uma comunidade além da extração de lucro evitam sofrer efeitos adversos localizados, como desemprego, pobreza, escassez e desalojamento. A teoria econômica indica que aqueles que vivem e trabalham em uma comunidade têm uma participação maior em sua prosperidade.

O governo também pode considerar como podemos prevenir que aqueles que sequer moram no país possam elevar os preços do mercado imobiliário.

A proteção local contra a exploração por interesses globais requer a combinação correta de políticas globais e locais. E políticas do governo local requerem financiamento adequado. Por poder financeiro local não quero dizer impostos locais. Isso tem o potencial de fragmentar a nação, como tem, até certo ponto, na União Europeia (quer percebida correta ou incorretamente).

Se financiarmos a educação ou a assistência social com os impostos locais haverá, por exemplo, a tendência de um nivelamento por baixo, uma vez que as autoridades locais serão motivadas a terem um desempenho abaixo do esperado para incentivarem famílias vulneráveis a irem morar em outro lugar. Os impostos devem ser coletados a nível nacional e compartilhados proporcionalmente (com base no perfil demográfico) para as autoridades descentralizadas.

Não há espaço aqui para discutir em detalhes outras possíveis políticas de localismo, mas existem muitas maneiras de promover propriedade e empoderamento local. Isso poderia incluir moedas locais, estímulos para habitação social, propriedade de serviços públicos pela autoridade local ou apoio a lojas de rua de propriedade local. No entanto, não é uma combinação de políticas que sugiro, mas é uma ênfase.

Em última análise, a única alternativa viável à escolha atualmente disponível, a escolha de Estado Grande ou Negócios Grandes, é Estado Pequeno e Negócios Pequenos, ou mais apropriadamente Governo Local e Negócios Locais. A busca pelo localismo exigirá uma mudança sistêmica na forma como o governo nacional molda a sociedade, mas sugiro que não seja possível promover a justiça social em um contexto capitalista de nenhuma outra maneira.

Kevin Albertson, Professor de Economia na Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido). 

Este artigo foi originalmente publicado em The Conversation. Leia o original aqui.
No Politike

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