19 de nov de 2017

O primeiro fósforo

Por mais pretensiosos que sejam, artistas não esperam que sua obra vá incendiar o mundo. Eles até pressupõem que, como o que fazem não é realidade, é apenas arte, têm uma liberdade tácita para serem extremados e irreverentes o quanto quiserem. Humoristas têm essa licença presumida mais do que outros porque a sua é a arte do exagero, duplamente separada do real, portanto duplamente isenta de maiores consequências. Podem ser combatidos por poderosos com medo do ridículo mas jamais se imaginariam afrontando todo um sistema de crenças e preconceitos. E de repente, como aconteceu com o ataque ao Charlie Hebdo na França e, mais recentemente no Brasil, com o escândalo causado por exposições que acabaram proibidas, artistas se descobrem premiados com esta dúbia distinção: sua arte atingiu um deus como se tocasse num nervo, e é comentada por uma nação inteira. 

A reação a charges como as que causaram o ataque ao Charlie Hebdo, e outras manifestações da revolta do Islã contra ofensas à sua fé surpreendeu em parte porque no Ocidente se perdeu o conceito de blasfêmia. Entre os sentimentos ambíguos que essa revolta do Islã provoca se poderia incluir a inveja dos outros monoteísmos, que não contaram com o mesmo fervor dos seus fiéis contra a secularização. A ideia secularista de que o avanço da civilização depende do declínio do sagrado é mais ou menos consensual, o que destaca o contraste entre o fanatismo islâmico e o pluralismo moderno.  

Mas existe uma civilização muçulmana que, resistindo ao fanatismo, não relativizou o sagrado. Uma civilização antiga que já foi mais avançada do que a europeia e foi, mesmo, corrida da Europa pelo fanatismo cristão. Ao mesmo tempo, em algumas das sociedades mais avançadas do mundo existem e prosperam crenças e seitas obscurantistas que representam o “sagrado” na sua forma mais primitiva, convivendo com a civilização.

Querendo dizer o que? Que não há um choque de civilizações nem um choque entre um mundo civilizado e um bárbaro. Há uma diferença entre um extremo do sentimento religioso para o qual a blasfêmia ainda é um mal absoluto e um extremo do pensamento secular que diz que nada deve ser sagrado, ou tudo pode ser gozado.

O caso das exposições proibidas mostra que o pensamento fascista não é mais uma ameaça no Brasil, é uma realidade, e está crescendo. Fogueiras para a “arte decadente”, como os nazistas chamavam a arte moderna, estão prontas, só esperando o primeiro fósforo.

Luís Fernando Veríssimo

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