22 de nov de 2017

O outro lado do marqueteiro de Temer


A vida do publicitário rio-pretense Elsinho Mouco, 58 anos, sempre foi uma gangorra, repleta de altos e baixos. Empresário bem-sucedido nos anos 1980, quebrou na década seguinte, deixando dívidas que beiram R$ 500 mil e o atormentam até hoje. Reinventou-se como publicitário, uniu-se aos caciques do PMDB e viveu o auge em 2016, quando tornou-se o marqueteiro oficial do amigo Michel Temer, recém-empossado presidente da República. Mas, na última semana, voltou ao seu inferno astral, acusado de receber dinheiro de propina da empresa JBS, como os R$ 300 mil em espécie, que Joesley Batista, um dos donos da empresa, disse ter entregado em mãos para o publicitário no ano passado, conforme o Diário revelou dia 20.

Elson Mouco Júnior nasceu na Capital em abril de 1959, mas cresceu em Rio Preto. É o mais velho de quatro irmãos, todos homens, filhos do comerciante Elson Mouco e de Ziza, dona de casa falecida há dois anos. Os Mouco eram uma típica família de classe média-alta. Elsinho, como ficou conhecido, estudou em bons colégios – primeiro o São José, depois o Anglo. São-paulino fanático, jogava futebol na rua com os amigos. “Nunca fui craque. Depois, tentei o tênis”, diz. Cursou direito, mas não chegou a exercer a advocacia. Seguiu os passos do pai e tornou-se comerciante. O ano de 1983 foi especial para ele. Em janeiro, casou-se com Maria Lucia Cabrera, prima do pecuarista Antonio Cabrera, que viria a ser ministro da Agricultura no governo Collor.

Em novembro, inaugurou, em sociedade com o pai Elson, sua própria grife de roupas, a Bonaparte, em plena avenida Alberto Andaló, ponto comercial mais nobre de Rio Preto – no fim da década, inauguraria outra loja no Riopreto Shopping. Do casamento, vieram duas filhas. Elsinho frequentava a alta sociedade rio-pretense e morava no condomínio de luxo Débora Cristina. Carismático e inteligente, gostava de reunir os amigos em longas sessões de pôquer, sua especialidade. Fumante, não é de dispensar um charuto, especialmente os cubanos. Mas chegou a década de 1990 e com ela tempos difíceis para a família. Em dezembro de 1993, Alfredo, irmão de Elsinho, morreu vítima de aids.

“A família sofreu muito, o Alfredo era uma pessoa muito querida. As circunstâncias da sua doença, hoje sem mistificação, nunca alterou o nosso amor por ele. Uma pessoa de caráter e muito criativo. Foi embora cedo demais, mas deixou uma lição de vida. Além de ter despertado em mim a vocação pelo marketing.” Paralelamente ao drama familiar, dívidas tributárias passaram a se acumular na Bonaparte. Em 1994, a Procuradoria da Fazenda do Estado ingressou com a primeira de várias ações de execução fiscal contra a Bonaparte e seus donos por dívidas de ICMS. Um oficial de Justiça foi até a loja e confiscou 14 ternos e 16 camisas de tricoline. As roupas foram a leilão, mas não houve interessados. O pai, ficou como depositário do material.

Atolada em dívidas, a Bonaparte fechou suas duas lojas. Em 1996, o shopping ingressou com ação judicial para cobrar aluguéis atrasados dos Mouco, pai e filho. Elsinho, a mulher e o pai mudaram-se para São Paulo em 1997. Como a Justiça não conseguia mais citá-los, o juiz Júlio Cesar Afonso Cuginotti chegou a decretar a prisão civil do pai de Elsinho, mas a decisão acabou revogada dias depois, quando o advogado dos Mouco informou o endereço da família na Capital. Em 2001, a Justiça encontrou um outro bem penhorável da família: um apartamento de 50 metros quadrados e duas vagas na garagem na rua Saldanha Marinho, Centro de Rio Preto, em nome de Elsinho e da mulher.

O imóvel foi avaliado pela Justiça em R$ 200 mil, valor da época. Mas o processo paralisou novamente porque a Justiça não conseguia localizar Elson e Elsinho na Capital. Em 2006, ocorreu uma cena inusitada: a oficial de Justiça foi até o apartamento e se deparou com um morador sem relação com os Mouco, que afirmou ser dono do imóvel. Apresentou a escritura em seu nome e disse ter arrematado o apartamento em um leilão, decorrente de ação judicial de cobrança de taxas do condomínio movida pelos donos dos outros apartamentos do edifício. O problema é que o shopping havia sugerido à Justiça a penhora desse mesmo imóvel para quitar o calote. A ação se arrastou na 5ª Vara Cível de Rio Preto por exatos 20 anos, até 2016, quando o shopping desistiu de reaver o dinheiro e o caso foi arquivado.

Em valor atualizado, o passivo chega a R$ 377 mil. Procurado na última semana, o shopping não se manifestou. A Bonaparte foi formalmente extinta na Receita Federal em 2008, mesmo ano em que Elsinho se divorciou da mulher – ele não se casaria novamente. No caso da dívida com o Estado, parte foi paga em 2007, mas um residual segue sendo cobrada na 1ª Vara da Fazenda. A Bonaparte também deve à Prefeitura por licenças de funcionamento não pagas. O valor atual da dívida ativa da empresa é de R$ 41,5 mil. Em relação a essas dívidas, Elsinho limitou-se a afirmar que estão sub judice e serão regularizadas “quando definido o valor devido no processo. Se houver”.

(…)

Se Elsinho não tem contrato com o governo federal, o seu irmão Gustavo Mouco, um dos donos da agência de publicidade Calia, criada em 2001, tem sido muito bem pago pelo governo federal. A empresa, de São Paulo, venceu licitação para cuidar da publicidade do Ministério da Saúde no fim de 2010, ainda na gestão Lula, mas o contrato formal foi assinado no dia 3 de janeiro de 2011, dois dias após a posse de Temer na vice-presidência. Os repasses de verbas à empresa do irmão de Elsinho cresceram ano após ano, de acordo com o Portal da Transparência do governo federal: de R$ 12,8 milhões em 2011, passaram a R$ 53 milhões no último ano.


Foi nessa época, com Temer já na presidência, que a Calia foi contratada para cuidar do marketing do Ministério dos Esportes – a empresa ficou em terceiro na disputa em que só as duas primeiras seriam vencedoras, mas a primeira colocada desistiu do contrato. Até agora, a empresa já recebeu R$ 230,6 milhões do governo federal. José Augusto Nigro, vice-presidente executivo da Calia e sócio de Gustavo, nega que haja relação entre a prosperidade da empresa no governo Temer e a amizade entre o presidente e Elsinho. “É pela qualidade do nosso trabalho. Não é fácil vencer uma licitação nessa área”, diz.

Na última semana Elsinho Mouco foi arrastado para o olho do furacão político provocado pelas delações da JBS. Joesley Batista, um dos donos da empresa, entregou à Procuradoria-Geral da República uma planilha com a inscrição “Julio Bono/Temer” ao lado da indicação de um pagamento R$ 2 milhões para a Pública em 2010. Julio Bono era um coronel aposentado da PM de São Paulo que por duas décadas foi o principal auxiliar de Temer. Ele morreu afogado em novembro de 2010, em Pernambuco. O problema é que não há nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pagamentos à Pública nas campanhas de Temer em 2010, o que pode configurar caixa dois.

Constam na planilha três pagamentos que somam R$ 3 milhões naquele ano. O primeiro foi em 10 de agosto para o “comitê financeiro DF nacional para pres. da República-PMDB”. Consta no TSE uma doação desse valor ao PMDB. Treze dias mais tarde, houve o segundo pagamento, de R$ 1 milhão, desta vez para a empresa Pública. O terceiro e último pagamento, no mesmo valor, teria ocorrido em 22 de setembro. Em depoimento gravado, Joesley deu detalhes desses pagamentos. O empresário disse que “atendendo a um primeiro pedido de Temer”, ele “concordou em pagar R$ 3 milhões em propinas, sendo R$ 1 milhão através de doação oficial e R$ 2 milhões” para a Pública.

Em nota, Elsinho disse que em 2010 foi contratado pela família Batista para cuidar da campanha de José Batista Júnior, irmão mais velho de Joesley, ao governo de Goiás. Junior Friboi, como é conhecido, acabou desistindo da disputa. Em 2016, disse que foi contratado novamente para fazer “monitoramento digital” nas redes sociais para a JBS durante o processo de impeachment de Dilma. O” objetivo era conter a guerrilha digital do PT. Tenho toda a documentação que comprova a realização do trabalho.” Neste ano, diz, ele voltou a ser contatado por Joesley. “Entendi que queria recontratar para combater os efeitos da Carne Fraca o mesmo serviço que havia financiado no ano anterior. Hoje, está claro que sua intenção era produzir provas para tornar sua delação mais ‘atraente’.”

Allan de Abreu
Do Diário da Região São José do Rio Preto
No GGN

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