7 de nov de 2017

O deslumbrado vazio que "se decepcionou com a esquerda"


O tipo que "se decepcionou com a esquerda" é bem conhecido. É uma das personagens mais estranhas do mundo cão civilizatório, praticamente uma garrafa vazia, à deriva, sem rum e sem recado. Eu vos apresento o "deslumbrado vazio".

O deslumbrado vazio começou sua saga nos anos 80. Não lutou contra a ditadura, não fez nenhuma greve e até gostava de um general. Mas, um dia, ele se deparou com uma coisa chamada "esquerda". Ele não sabia o que era tampouco entendia seus princípios e pressupostos. Mas percebia que dava ibope. Viu-se, então, sob um dilema: se ele não aderisse àquilo, ele corria o risco de continuar desinteressante e solitário. Aderiu. Sorriu. Chegou mesmo a gritar coisas como “revolución”. Balbuciava "Marighela" em noites insones e, quando bêbado, arriscava pronunciar "Che Guevara" e "Lamarca". Lula, para ele, era a inspiração máxima. Nunca entendeu absolutamente nada sobre o que o metalúrgico dizia. Mas gostar de Lula naquela época dava um certo glamour intelectual.

O deslumbrado vazio achava que Lula era socialista. Em alguns churrascos, chegava a dizer "comunista". Mas, depois, ficava confuso e ia embora para não ter que se explicar. Quando algum intelectual de esquerda dos nichos acadêmicos chegava perto dele, ele ia logo se afastando. Não entendia nada do que eles diziam. Aprendeu a repetir as frases "hasta la vitoria", "hasta luego" e até "hasta la vista, baby", mas nunca realmente soube o que significavam. Achava que Trótski era Tólstoi, que Bakhtin era Bakunin e que matrioska era caipiroska. Jurava que Cuba Libre era um movimento revolucionário que mais tarde deu nome à bebida - chegou a convencer uma universitária do Mackenzie sobre isso, o que lhe rendeu a alcunha de "dopadão da revolução". Mas ia levando.
O deslumbrado vazio se sentia bem em "pertencer" à esquerda. Sentia-se "certo", do lado "lúcido" da história. Sentia-se até mais viril, mais assertivo e mais "aceitável". E, uma vez no nicho, sempre no nicho. Largar o osso àquela altura do campeonato, nem pensar. Seria a ruína até de seu casamento, afinal a Paulinha só aceitou sair com ele quando viu um livro do Leonardo Boff cirurgicamente jogado no banheiro de sua casa (ele jamais lera aquilo, apenas a orelha do Frei Betto e olhe lá).

Eis que, um belo dia, o deslumbrado vazio, eleitor contumaz de Lula, já acostumado com suas derrotas sucessivas, vê-se vitorioso. A esquerda, afinal, havia chegado ao poder. 2002. Ele bebeu tanto, que chegou a jurar que o Maradona tinha nascido no Brasil (em Santana do Livramento, que era no Uruguai). O deslumbrado vazio, enfim, estava feliz e realizado.

Mas, não se pode esquecer um detalhe importante do deslumbrado vazio: ele era deslumbrado, mas vazio. Sua cultura eram praticamente apenas as novelas da Globo e as crônicas que o Cony publicava no Jornal do Brasil. Não tinha lastro (nem sabia o que era lastro, achava que era "aquele troço que tinha no navio").

Veio o mensalão. Joaquim Barbosa. Começou uma nova moda: odiar a esquerda. Era bom e dava status. O glamour afrancesado dos anos 80 havia sido superado pelo status americanizado dos anos 2000. Ele aceitou essa realidade rapidinho. Começou a falar mal do PT, do Lula, de Deus e o mundo (não nessa ordem). Rifou seus discos do Chico Buarque - aquele "comunista enrustido" - e trocou os livros do Boff, do Darcy Ribeiro e do Sérgio Buarque por discos de vinil do Wilson Simonal (que ele começava a admirar pensando ser um delator da ditadura). Pobre deslumbrado vazio. Ficava cada vez mais confuso. Até o guarda noturno o ludibriava, dizendo que tinha que cobrar um adicional noturno em função de... Ah, deixa pra lá.

O fato nu e cru era que o nosso deslumbrado vazio estava em crise. A esquerda no poder não parecia aquela esquerda romântica à qual ele tinha devotado tanta fidelidade. Via toda aquela inclusão, aqueles dados estatísticos de que 40 milhões tinham saído da pobreza, de que a dívida externa estava paga, de que o Brasil havia emprestado 10 bi ao FMI e colocado mais 10 bi no banco dos Brics e não acreditava. Achava que eram dados comprados, falsos, mentirosos, mesmo sendo do IBGE, da FVG ou da ONU. Não importava. Era mentira e pronto. Ele sabia.

O deslumbrado vazio, finalmente repleto de ódio e de inconformismo - afinal, como ele poderia ter sido enganado durante tanto tempo "pelo PT, pela esquerda, por esses comunistas vermelhos larápios salafrários?" - sucumbiu em sua própria dor cognitiva. Era fato: ele fora traído! A partir daquele momento, costumava dizer: "Eu acreditei. Fui enganado. O sonho acabou". John Lennon morreu, Muhammad Ali morreu, Marx morreu, Fidel morreu e ele já não ia se sentindo muito bem. Decidiu bater panela. Fez check-in em manifestação – levando babá e o netinho Pablo a tiracolo (a babá de branco).

O deslumbrado vazio era, finalmente, um reacionário. Era a evolução natural. Socialmente falando, ele apenas seguia o curso natural das coisas e da história. Era uma peça de um quebra-cabeça complexo, basicamente sem vontade própria e sem capacidade de ação. Para que agir? O mundo não iria mudar. Uma gota no oceano, um grão de areia, um ponto fora da curva? Bobagem. Ele jamais fora um ponto fora da curva. Ele era uma reta, do começo ao fim.

Ao cabo de tantos devaneios narrativos, em noites solitárias e chuvosas, quando o deslumbrado vazio punha a cabeça no travesseiro e tentava pensar em tudo o que lhe acontecera, na paixão pela esquerda, pela solidariedade, pelo coletivismo, pelo semelhante e em toda a desilusão que tomara conta de seu ser mas que simplesmente não se apresentara como uma dimensão racional, ele simplesmente trocava o tema que martelava em sua cabeça pela imagem das misses peruanas denunciando o feminicídio ou da Beyoncé beijando o Obama na cerimônia de posse de seu segundo mandato. Era o máximo que ele conseguia fazer ou pensar. Basta. Não conseguia mais empenhar neurônios diante daquele dilema existencial e ideológico que lhe corroía a alma e a própria história.

Diante da insônia e da culpa, pegou seu celular emaranhado entre os lençóis, desenhou a senha na tela-touch - um quadrado simples - e acessou seu perfil na rede social. Latejava em seu feed de notícias uma imagem de Michel Temer, acompanhada de uma crítica tímida à reforma trabalhista redigida por um intelectual de esquerda. Piscou os olhos com dificuldade, rolou a barra do feed a contragosto, olhou para o seu travesseiro, para o ventilador de teto, para Paulinha e decidiu: nunca mais falaria de política na vida.

Gustavo Conde
No Esquerda Caviar

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