6 de nov de 2017

Nevoeiro

Uma estranha nuvem pairou sobre os deputados federais que barraram a investigação do Temer na última quarta-feira. Uma espécie de densa neblina que, na falta de uma correta definição meteorológica, se poderia chamar de neutralidade moral.

As razões declaradas para poupar Temer variavam das protelatórias (no fim do mandato ele se explica) às pragmático-utilitárias (a economia melhora, não é hora de abater o presidente) às francamente indecentes (compraram o meu “sim”, sim, e daí?). Dentro da nuvem, todas as razões a favor de Temer se misturavam, sem um contorno nítido.

Aos contra Temer só restou apelar para um sentimento básico de justiça — outra coisa que se perdeu no nevoeiro.

Curioso que a votação era para continuar ou estancar a investigação do presidente, mas todos os votos, pró e contra, foram para condená-lo ou absolvê-lo, como se a investigação já estivesse terminada.

Ninguém parecia ter dúvida de que a investigação, se autorizada pelos deputados e julgada pelo Supremo, fatalmente concluiria pela culpa de Temer. Nem seus apoiadores confiavam que ele saberia se defender. O empenho dos pró-Temer em evitar a investigação, mais do que qualquer outra coisa, provou como eram graves as acusações.

Os defensores de Temer acabaram sendo seus mais convincentes acusadores.

Temer fez o que pôde para ganhar na Câmara. Dizem que o ministro Henrique Meirelles foi ao Planalto quando soube que o presidente estava vendendo tudo para comprar votos a seu favor.

Meirelles ponderou que a gastança de Temer estava afetando a economia, que o programa de austeridade poderia ser prejudicado, que... Parou quando viu que Temer o olhava de uma maneira estranha.

— O que foi, presidente?

— Nada, nada. Eu só estava calculando quanto você vale no mercado...

Papo vovô

O pai do nosso neto Davi, de 5 anos, estava lhe ensinando as regras do futebol. Por exemplo: quando um jogador derruba um adversário, isso se chama “falta”. E o Davi: “De educação?”

Luís Fernando Veríssimo

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