9 de nov de 2017

Lá e aqui

A operação Lava Jato e a campanha das mãos limpas na Itália se parecem em poucos pontos, mas são pontos fundamentais. As duas começaram com cavaleiros destemidos dispostos a combater a corrupção em seu país - o procurador Di Prieto lá, o juiz Moro aqui. Nos dois casos algumas leis foram, digamos, dribladas para tocar os processos. Moro levou ligeira vantagem sobre Di Prieto no quesito fins que justificam meios.

O terremoto provocado pelas revelações das mãos limpas, que derrubou partidos, carreiras politicas e reputações na Itália, não teve contrapartida exata na Lava Jato. Aqui os partidos ficaram de pé - só em crise de identidade, sem saber bem o que são e com quem podem se juntar - e carreiras políticas não apenas sobreviveram ao bombardeio da Lava Jato como estão conseguindo enfraquecê-la. Não demora e a faxina moral duradoura que a Lava Jato prometia ao País não passará de nostalgia. Lembra do Moro? E pensar que um juiz de província quase liquidou a República...

Na Itália, houve suicídios de envolvidos em escândalos denunciados pelas mãos limpas. Aqui o único suicídio provocado pela Lava Jato foi o de um inocente injustamente acusado. O que as mãos limpas e a Lava Jato tem indiscutivelmente em comum é que, na busca por uma moral absoluta, desnudaram mais do que esquemas de corrupção e de bandidagem corporativa, fizeram - sem querer - retratos de corpo inteiro do capitalismo de compadres em vigor nos seus países. Itália e Brasil têm a mesma história de sociedades dominadas por sistemas excludentes de poder que se fecham contra qualquer ameaça de mudança. Não cabe dizer que na Itália é pior porque lá tem o complicador da máfia. Nós também temos máfias, que só não ousam dizer seu nome.

Na confusão política e econômica deixada pelas mãos limpas na Itália, brotou, como um cogumelo venenoso, o Berlusconi. O Moro é o nosso Di Prieto, a frustração com as mãos limpas é a frustração com a nossa Lava Jato derrotada, o capitalismo viciado da Itália é o nosso capitalismo mafioso... Resta a grande questão: quem será o nosso Berlusconi?

Luís Fernando Veríssimo

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