1 de nov de 2017

Globo Rural: reportagem ou marketing?


“A reportagem, como bem disse a produtora, havia sido encomendada: ‘não vou mentir para os senhores, a reportagem foi encomendada pela CBA‘. Ou seja, não haveria a necessária imparcialidade que deve caracterizar o bom jornalismo”. (Nota assinada por 10 entidades que lutam pela preservação da Serra do Brigadeiro – BH, em 05/2017).

“A acusação seria ofensiva se não fosse ridícula. A Globo não faz reportagem por encomenda. Faz reportagens legítimas”. (Da Assessoria de Comunicação da Globo, em 30/05/2017).

No que pese a Rede Globo de Televisão, por meio de sua Comunicação Social, garantir que não faz reportagem por encomenda, o Globo Rural, na edição do domingo 23/10, a pretexto de falar da mineração em Minas Gerais, acabou fazendo lobby da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

A possibilidade de a Rede Globo apresentar um programa “encomendado” pela mineradora foi denunciada, em maio passado, através de uma nota assinada por dez entidade que defendem a preservação ambiental em torno da Serra do Brigadeiro, na Zona da Mata de Minas Gerais.

Frei Gilberto Rodrigues, ameaçado por ser contra a mineração 
(Foto reprodução da Internet).



A exploração da bauxita para a fabricação de alumínio na Zona da Mata mineira gera á tempos uma disputa entre a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do Grupo Votorantin, e os movimentos em defesa do meio ambiente. Nessa queda de braço, como já mostramos no Blog em O frei ameaçado pela bauxita (5/3/17) e O dilema mineiro: mineração ou preservação? (19/3/17), um dos líderes é o franciscano Frei Gilberto Teixeira, da Fraternidade Santa Maria dos Anjos.

Pároco da igreja de Santo Antônio, em Belisário, distrito de Muriaé, uma das cidades no entorno da Serra do Brigadeiro onde está uma considerável reserva do minério, ele chegou a ser ameaçado de morte por estar à frente deste movimento.

Cabe lembrar que a Serra do Brigadeiro, encravada na Zona da Mata mineira, é, ao mesmo tempo, conhecida por sua rica biodiversidade, com amplas áreas preservadas de Mata Atlântica, mas também uma região com algumas das maiores reservas de bauxita. É uma área de preservação ambiental. Nem assim, porém, está a salvo dos interesses da mineradora.

Resposta da Rede Globo às acusações das entidades.

Outra característica da região é a chamada agricultura familiar, com uma forte produção de olerícolas (legumes), café, frutas (como uvas orgânicas), além de ser um forte polo de produção leiteira. Os defensores da preservação da serra e suas matas destacam ainda a questão, cada dia mais fundamental, do fornecimento de água, pois ali estão nascentes importantes.

Ouvida à época em que as entidades divulgaram a nota (veja íntegra abaixo), a direção da Globo, através da assessoria de Comunicação, encaminhou ao Blog o comentário classificando como ridícula a acusação e rejeitando a hipótese de realizar reportagens “por encomenda

No mesmo tom foi a resposta encaminhada pela assessoria de imprensa da mineradora:
A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) respeita o direito à liberdade de imprensa e, de forma transparente e ética, adota o diálogo aberto como base dos seus relacionamentos. Desta forma, não procede qualquer menção ao seu nome em ações que não estejam em conformidade com as suas crenças e valores”.
Na época, o Blog ouviu ainda Fernando Gabeira, citado na nota, por conta de um dos seus programas na GloboNews. Mas, infelizmente, com o passar do tempo a conversa se perdeu  no WhatsApp. Ele, porém, de forma tranquila disse ter mantido isenção ao relatar a questão da disputa.

Certamente a emissora insistirá que a reportagem  Área de extração de bauxita em MG é recuperada com mata, café e pasto, que aborda a exploração de bauxita nas serras mineiras, foi correta. Trabalho profissional. Até abordou o lado negativo da questão.

O fez, é verdade, de forma superficial, com colocações que pareciam no ponto para serem rebatidas. Como o foram. Além de ouvirem basicamente só um lado da disputa, não esclarecendo aos telespectadores de quem se tratava.



A matéria jornalística, por exemplo, apresentou o professor Ivo Ribeiro da Silva, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), assegurando a possibilidade de recuperação de áreas degradadas pela mineração.

O que a reportagem da Globo não revelou, tal como fizemos ao abordar o assunto, em 19 de março, é que as pesquisas desenvolvidas pelo professor Ivo foram encomendadas pela própria CBA e por ela financiadas.

O professor Ivo Ribeiro da Silva, apresentado no programa 
Globo Rural é o mesmo que falou ao Blog em março passado. 
(Foto: Marcelo Auler)

A CBA, entre 2008 e fevereiro deste ano, investiu R$ 1.175.695,00 em três projetos:

1 – Avaliação das melhores práticas de manejo do solo nos processos de reabilitação das áreas mineradas, a cargo do professor Ivo;

2 – aplicação de bioindicadores de avaliação e monitoramento em áreas restauradas, coordenado pelo professor de ecologia e restauração de florestas, Sebastião Venâncio Martins;

3 – e, no mais recente, um estudo sistêmico de caracterização hidrológica do processo de extração de bauxita e recuperação da área minerada, sob s supervisão do professor Herly Carlos Teixeira Dias;

Do total investido, a maior parcela foi para o trabalho do professor Ivo: R$ 1.016.575. Tal investimento não deveria ter sido informado ao ouvinte?

Em nome da isenção, deve-se questionar também se não seria necessário apresentar o depoimento de outros professores, inclusive da mesma Universidade Federal de Viçosa (UFV), que contestam tais informações?

Na matéria que trouxemos ao público provocando o debate sobre o dilema da mineração, foram três opiniões divergentes: o engenheiro agrônomo e professor aposentado da UFV, Ivo Jucksch; Lucas Magno, professor de Geografia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais (Campus Muriaé); e a geógrafa Manuela Pereira de Almeida Pinto, diretora da Escola Família Agrícola Serra do Brigadeiro, no município de Ervália, Zona da Mata mineira. Dela, inclusive, é a frase que abriu a reportagem: “Está se pensando no umbigo de um só e não em um grupo social”.

A reportagem, queira ou não a Rede Globo, passou uma nítida posição favorável à mineração e, consequentemente, à poderosa a Companhia Brasileira de Alumínio, umbilicalmente ligada ao Grupo Votorantin. A maior prova dessa “defesa” está na página da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral – ABMP, onde ela registra:
“A apresentação do Globo Rural de ontem (22) coloca de forma clara e didática como a mineração, além de imprescindível, pode ser fator de desenvolvimento e melhoria de outros setores, até mesmo aqueles que inicialmente podem disputar e concorrer no mesmo espaço. Vejam a mineração de alumínio da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) na Zona da Mata de Minas Gerais”.
è fato que o assunto gera polêmica,uma vez que o alumínio, goste-se ou não do estrago que gera, faz parte do dia a dia da vida das pessoas. Sua extração causa danos ambientais cuja reparação além de demorada, é custosa. Nada fácil ao pequeno agricultor, menos ainda quem vive da agricultura familiar.

Um planejamento estratégico tem que ser feito para sua exploração, delimitando-se áreas onde possa ocorrer sem comprometimento da sobrevivência de quem vive da terra e sem risco ao meio ambiente. Notadamente as áreas de proteção ambiental e as nascentes. Para tal, é preciso que o governo federal – responsável direto pelas autorizações para a mineração – exerça seu papel. Mas, no Brasil atual, governo não há.

Marcelo Auler

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