14 de nov de 2017

E se William Waack fosse petista?

Há mais coisas do que uma década separando Marco Aurélio Garcia de William Waack.


Em 17 julho 2007, um terrível acidente ocorreu no aeroporto de Congonhas na cidade de São Paulo. Um avião da TAM não conseguiu frear e saiu da pista indo chocar-se contra um prédio da própria TAM do outro lado da avenida que margeia o aeroporto. Duzentas pessoas morreram.

Antes que qualquer investigação fosse feita, o governo Lula foi responsabilizado. Acusavam-no de descaso com a manutenção pista de pouso e a palavra “groove” saiu do meio musical e passou a frequentar as colunas de política. Todos tornaram-se, de repente, especialistas em construção aeroportuária.

“GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS” – assim, em caixa alta, decretava um colunista da Folha.

Dias depois, uma reportagem do Jornal Nacional trazia a informação que relativizava tudo: o avião estava voando com um defeito nos reversores dos motores. No dia anterior, quase sofrera outro acidente, mas a companhia continuou voando com ele mesmo assim. O inquérito da Aeronáutica não responsabilizaria a empresa, no entanto, e concluiria, anos depois, por falha humana como causa do acidente. O problema não estava na pista.

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Marco Aurélio Garcia – o já falecido assessor especial de Lula – assistia à reportagem em uma das dependências do Palácio do Planalto. Com ele, somente seu assessor de imprensa. Fez um gesto com as mãos dirigido aos acusadores do governo – ”foderam-se”. Estava próximo à janela e foi filmado pelo lado de fora.

O mundo veio abaixo. Foi chamado de obsceno. Acusaram-no de ser desrespeitoso com a dor dos parentes dos mortos.

Sobre o acontecido, Marco Aurélio em uma nota oficial alegou o óbvio: fora filmado em uma situação de intimidade e sem seu conhecimento. Jamais faria tal coisa em uma situação pública. E desculpou-se:

“Minha reação, absolutamente pessoal, … não expressa “satisfação”, “alívio” ou “felicidade”, como pretenderam setores da mídia…. o sentimento que extravasei, em privado, foi de repúdio àqueles que trataram sordidamente de aproveitar a comoção que o país vive, … Aos que possam, ainda assim, sentir-se atingidos por minha atitude, apresento minhas desculpas”.

O caso é bastante conhecido. Interessante, no entanto, recordamos como reagiu, então, a imprensa. Tomarei como exemplo o jornalista Reinaldo Azevedo. Mas poderia ser qualquer outro da chamada “grande imprensa”.

”Os nojentos – asquerosa! Deprimente! Revoltante! Vagabunda! Delinquente! A que outras palavras se pode recorrer para definir os gestos despudorados do velho Marco Aurélio Garcia …?  Marco Aurélio resolveu dar uma pequena entrevista se explicando, … Classificou as imagens de “clandestinas” e disse que, em público, não se comportaria daquela maneira. … Clandestinas? Ele estava no Palácio do Planalto… Ninguém invadiu a sua casa para flagrá-lo na intimidade. … O que ele esperava? Que o cinegrafista, vendo-o ali, desligasse por pudor a câmera? Talvez sim. Os indecorosos sempre esperam que os decorosos se intimidem. Contam com isso. Hoje o demiurgo [Lula] fala. … Se não der um pé no traseiro do Batman Gorducho… estará repetindo ele próprio o gesto de seus subordinados”.

No início de novembro de 2017 – uma década passada do acidente da TAM – as redes sociais fervem. William Waack – respeitado jornalista da Rede Globo é flagrado em um diálogo de cunho racista. As imagens eram de 2016 e haviam dormitado por um ano em algum lugar até que, de repente, vieram a público.

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Waack cobria a eleição de Donald Trump e se preparava para entrar no ar com um convidado. As câmeras já estavam ligadas, mas o programa ainda não havia começado e, incomodado com um buzinaço que vinha do lado de fora do local onde estavam, Waack comentou: “Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é.” E dirigindo-se ao convidado conclui em voz baixa: ”É preto. É coisa de preto”.

Sobre o acontecido, desconheço qualquer posicionamento oficial de William Waack, mas a Rede Globo declarou em uma nota, quando do afastamento do jornalista: “… Waack afirma não se lembrar do que disse, já que o áudio não tem clareza, mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação”.

O caso é bastante conhecido. Interessante, no entanto, é como reagiu a imprensa. Tomarei como exemplo o jornalista Reinaldo Azevedo. Mas poderia ser qualquer outro da chamada “grande imprensa”.

“O jornalista mais importante do pais não é racista – um desses cretinos ressentidos escreveu por aí: “Vamos ver se alguém tem a coragem de defender William Waack”. Eu tenho. E o faço, antes de mais nada, por uma obrigação moral. Não vou me sujeitar a uma ordem de coisas em que eu me veja proibido de dizer a verdade sobre um amigo, quando o vejo ser esmagado pela mentira… pelo oportunismo … pela deslealdade… pela vigarice…

Parto do princípio de que William falou o que dizem que falou …

Se disse aquilo, não o fez para que fosse ao ar. … Tratava-se de uma conversa privada. Ainda que a fala revelasse um juízo pessoal depreciativo… o que importa é o seu trabalho, é o que diz no ar, é a sua contribuição ao debate civilizado.

A acusação de racismo que colhe William o ofende gravemente, …  Ainda que tivesse cometido um pecado, uma falha, uma transgressão — ele se desculpou sinceramente se assim foi interpretado — o deslize, que não reconheço, não resumiria a sua vida. E explico por que não reconheço: eu me nego a submeter um gracejo expresso num ambiente privado a critérios com que se analisam questões públicas”.

Reinaldo vê William como o ofendido na questão. Interessante. Interessante também, mas não vou tratar aqui, o detalhe de Reinaldo Azevedo ter, no mesmo artigo, dito que Waack é alguém como que “mulatinho”. Tratou-se, por certo, de uma gentileza de um amigo para com outro. Não vem ao caso.

Mas comparando as duas posições tão antagônicas – em relação a Marco Aurélio Garcia e em relação a William Waack – para casos tão próximos – guardadas as devidas proporções – dada a tragédia como terrível pano de fundo, no primeiro caso –  foi me inevitável recorrer ao auxílio luxuoso da poesia:

“em vão lutando contra o metro adverso, só me saiu este pequeno verso: “mudou-se a noção de obscenidade ou mudei eu?”.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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