20 de nov de 2017

Como a Globo aderiu ao golpe na Conmebol para ficar com os direitos de longo prazo da Copa Libertadores

Golpe? É com a Globo. Desta vez na fonte inesgotável de propinas, a Conmebol
No livro O Lado Sujo do Futebol, finalista do Prêmio Jabuti, do qual sou co-autor com Tony Chastinet, Amaury Ribeiro Jr. e Leandro Cipoloni, esboçamos o quadro do gangsterismo no futebol brasileiro e internacional.

O capo João Havelange teve papel essencial, pois ao mesmo tempo em que investiu num terceiromundismo lubrificado por propinas, buscou grandes empresas para financiá-lo direta ou indiretamente.

Depois de fechar parceria com Horst Dassler, da Adidas, atraiu a Coca Cola. Além disso, Ricardo Teixeira é culpa de Havelange. Foi o sogro quem tramou colocar o genro numa entidade, a CBF, com grande potencial para extrair propinas.

Teixeira superou o sogro em voracidade. Trouxe a Nike para a CBF e fechou parceria com o homem que abriu caminho para a multinacional norte-americana no Brasil, Sandro Rosell, que depois se tornaria presidente do Barcelona.

Rosell, um mafioso de altíssimo escalão, deu o pulo-do-gato ao perceber que o futuro das propinas no futebol estava no Oriente Médio, farto em dinheiro e absolutamente blindado quando se trata de esconder as negociatas.

Os gângsters, como se sabe, estão sempre um passo adiante da polícia.

Como revelou o executivo Alejandro Burzaco, agora delator, ex-dono da empresa portenha Torneos, durante o julgamento de três cartolas em Nova York, dentre os quais o ex-presidente da CBF José Maria Marin, Teixeira era ‘inovador’ no ramo dos subornos: indicou até contas em nomes de chineses para receber dinheiro sujo.

QUEBRA-CABEÇAS

As 500 páginas do depoimento de Burzaco em Nova York (abaixo, em inglês) são leitura obrigatória para quem pretende entender os meandros da máfia que controla o futebol.

Como destacamos no livro O Lado Sujo, no topo da cadeia alimentar estão as emissoras de TV e os grandes patrocinadores. Os cartolas são meros office boys, que se acham no direito natural de receber “comissões” diante dos lucros espetaculares gerados pelo esporte.

Quando Teixeira respondeu a inquérito na Suiça, foi assim que argumentou a defesa dele: pagamentos por serviços prestados, não propinas; a FIFA, incrivelmente, sob o mafioso Joseph Blatter, foi na mesma linha.

A camorra, como se sabe, preza muito a proteção de seus pares.

O depoimento de Burzaco deixa absolutamente claro quem alimenta a quadrilha: emissoras de TV. No Brasil, a Globo.

Quando tentaram passar a perna nos contratos de J. Hawilla, da Traffic, com a Conmebol, ele fez o impensável: entrou com ação contra a Conmebol e a Torneos nos Estados Unidos.

Burzaco não acreditou: logo Hawilla, que pagara propina a vida toda, ameaçava o esquema!

Com a aquiescência de todas as partes, foi fechado um acordão e surgiu a Datisa, como nova fonte do pagamento de propinas. Hawilla retirou o processo e preservou parcialmente os contratos.

Como ele tinha boa parte dos negócios nos Estados Unidos, era o óbvio elo fraco para o FBI explorar: “cantou” bem antes que Burzaco, dando origem ao Fifagate.

A íntegra do que ele contou aos promotores norte-americanos ninguém ainda sabe.

Mas o promotor que conduz a acusação a Marin e outros dois cartolas em Nova York já deixou claro que tem um extenso powerpoint.

MARGEM DE LUCRO

A revelação mais importante de Alejandro Burzaco em Nova York não mereceu destaque na mídia, por ser pouco espetaculosa. O ex-executivo do Citibank era do ramo e sabia estruturar os negócios de maneira a permitir às emissoras de televisão que pagassem propina de maneira disfarçada.

Por isso, os contratos fechados pelas entidades do futebol subestimavam o preço de mercado dos direitos de transmissão. Com isso as emissoras, dentre as quais a Globo, a Televisa e a Fox, tinham margem para pagar as propinas exigidas pelos cartolas.

Abaixo das emissoras, no escalão intermediário dos negócios, ficavam as empresas de marketing: a Torneos, do próprio Burzaco, na Argentina, e a Traffic, de J. Hawilla, no Brasil, prestavam serviços de transmissão ou marketing mas eram, acima de tudo, veículos de intermediação para negociar, extrair e pagar as propinas.

Repetiam, em nível regional, o que a falida ISL, fundada pela Adidas, fez pelos cartolas da FIFA durante décadas.

GLOBO: O GOLPE NA CONMEBOL

Burzaco contou que recebeu repasses da Globo na Holanda, através da T&T, uma parceria que originalmente juntava a Torneos e a Traffic, e depois os repassou ao Papa, que era como ele chamava Julio Grondona, o mítico cartola argentino colocado na FIFA por João Havelange, em 1996.

Com a queda de Havelange e a ascensão de Blatter (colocado na FIFA, lá atrás, pela Adidas), cresceu o poder de Grondona: além de vice-presidente sênior, ele dirigia as finanças e palpitava na venda de direitos de televisão, o verdadeiro centro de poder da entidade.

Com os escândalos e as crescentes investigações envolvendo o futebol, os cartolas da FIFA decidiram acelerar o relógio para não perder as propinas e, sob aplauso das emissoras monopolistas, passaram a antecipar a venda dos eventos.

Foi por isso que a Globo, a Televisa e a Torneos pagaram U$ 15 milhões de propina a Grondona já pelos direitos das Copas de 2026 e 2030!

O mesmo golpe se pretendia aplicar na Conmebol, a Confederação Sul Americana, responsável por vender os direitos da Copa América, da Libertadores e da Copa Sulamericana.

Quando o uruguaio Eugenio Figueiredo assumiu interinamente a presidência, o paraguaio Juan Angel Napout passou a tramar para sucedê-lo na Conmebol.

Napout, hoje réu em Nova York, era ambicioso: estava de olho na FIFA.

Um grupo de presidentes de federações sulamericanas apoiava a pretensão de Napout. Assim que assumiu a CBF, Marco Polo Del Nero se juntou ao grupo.

Burzaco diz que Grondona estava em cima do muro, mas a Torneos e a Globo, através de Marcelo Campos Pinto, o preposto dos irmãos Marinho, apoiavam o golpe: Napout prometera renovar os direitos da Copa Libertadores a longo prazo, sem concorrência, como a FIFA fez com a Copa do Mundo.

Uma subsidiária da Fox, que a esta altura já controlava 75% da Torneos, apoiava o esquema para consolidar a marca de Rupert Murdoch na América do Sul, mas concordava em não mexer com os interesses da Globo no Brasil.

Depois da morte de Grondona, o golpe de Napout se consolidou: ele tomou o lugar de Figueiredo e foi reeleito.

Mas acabou preso em Zurique e extraditado para os Estados Unidos, antes de fazer na Conmebol o que se esperava dele.

A confederação, sob novos dirigentes, vendeu os direitos da Libertadores até 2022 para a britânica IMG, pelo valor mínimo de U$ 1,4 bilhão.

O OLHO GORDO DA FOX

Burzaco tinha jogo de cintura. Ele foi sócio do Clarín, a Globo da Argentina, no controle dos direitos de transmissão do futebol local. Quando Cristina Kirchner estatizou as transmissões, sobreviveu prestando serviços para o governo na segunda divisão.

Aos poucos, foi se aproximando de Grondona e turbinando os pagamentos de propina.

Mais tarde, farejou o dinheiro gordo da Fox e se associou à turma do Murdoch.

Integrantes do comitê executivo da FIFA, Grondona e Ricardo Teixeira tinham tratamento de chefes de Estado quando desembarcavam no Paraguai, sede da Conmebol.

Os dois estavam no topo da pirâmide da propina: Teixeira recebia 600 mil dólares anuais referentes aos contratos de transmissão da Libertadores e outros U$ 2 milhões por edição da Copa América.

O genro de Havelange é voraz: ele vendeu os direitos de transmissão dos amistosos da seleção brasileira em parceria com Sandro Rosell, num esquema que levou os dois a serem indiciados na Espanha.

Preso, Rosell é acusado de ter embolsado 6,5 milhões de euros na venda de 24 amistosos da seleção brasileira, dinheiro que lavou em Andorra. Teixeira teve a prisão decretada e está “refugiado” no Brasil.

Ainda não se sabe se, quanto e como Teixeira recebeu da Globo pelo monopólio de longo prazo no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil. Ele é íntimo de Marcelo Campos Pinto, o executivo que a Globo “afastou” dois dias depois de José Maria Marin ser extraditado para os Estados Unidos.

Quando investigou Teixeira na Suiça, o promotor Thomas Hildbrand concluiu que ele vendera sua influência sobre os direitos de TV da Copa do Mundo para uma certa emissora por propinas de U$ 9,5 milhões. Os pagamentos vinham da ISL para a conta de uma empresa de nome Sanud, em Liechtenstein.

Na Suiça, só os alvos de investigação são nomeados nos processos, de maneira que não dá para cravar que a ‘emissora’ a que Hildbrand se refere é a Globo. Tudo indica que seja.

Isso bate com o testemunho de Burzaco: os direitos eram vendidos abaixo do preço de mercado, com a eliminação da concorrência através do pagamento de propinas, dando margem às emissoras para pagar subornos milionários.

Mais recentemente, sócio minoritário da Fox, Burzaco trabalhava para eliminar os intermediários. Queria que a Conmebol firmasse um contrato diretamente com a Fox, cabendo a ele, Torneos, prestar todos os serviços de transmissão à empresa do magnata Murdoch.

Os executivos da Fox trabalhavam agressivamente numa aproximação com cartolas sulamericanos, inclusive os brasileiros, interessados em expandir seus canais exclusivos de esportes.

PROPINAS, TRAIÇÃO E ESPERTEZA

Trechos do depoimento de Burzaco são hilários.

Ele narra, por exemplo, que com endosso de Marcelo Campos Pinto, o executivo da Globo, acertou-se em Buenos Aires que as propinas antes destinadas a Teixeira seriam divididas entre Marin e Marco Polo Del Nero.

Inicialmente, 600 mil dólares anuais pelos direitos da Libertadores e da Copa Sul Americana.

Os dois argumentaram que era pouco para ser dividido. O valor foi elevado primeiro a 900 mil e depois a 1,2 milhão. Dólares.

Só que, quando este último acerto foi fechado, Del Nero procurou Burzaco pedindo que ele adiasse o primeiro pagamento.

É que Marin cumpria apenas mandato tampão na CBF e, quando assumisse o poder, Del Nero queria embolsar todo o butim, U$ 1,2 milhão, sem dividir com o ladrão de medalhas.

Marin fazia discursos formais de agradecimento quando os acordos da propina eram fechados, enquanto Del Nero sacava um caderno, onde anotava os acertos.

Na Comnebol, os presidentes das federações de seis países se revoltaram contra o fato de que as propinas se concentravam no topo, com Grondona e Teixeira, e resolveram se organizar.

A ‘revolta dos seis’ garantiu a cada um deles propinas nos direitos da Libertadores e da Copa América. A Fox topou emendar e majorar o valor do contrato e boa parte do que a Conmebol recebeu a mais foi destinado a saciar a sede dos cartolas.

O golpe de Ricardo Teixeira no Papa Julio Grondona talvez seja o ponto alto das tramas narradas no depoimento.

Ao lado de Sandro Rosell, Teixeira foi um dos principais responsáveis pela escolha do Qatar para sediar a Copa de 2022.

Sempre segundo o relato do delator, no dia da escolha da sede de 2022, em que o Qatar derrotou Estados Unidos, Austrália, Coreia do Sul e Japão, Teixeira se juntou a Grondona e, num banheiro, tratou de enquadrar outro cartola das antigas, Nicolás Leoz, o paraguaio ex-presidente da Conmebol, que estava reticente em votar no Qatar.

Leoz acabou votando, em troca de U$ 1,5 milhão em propinas, mesmo valor embolsado por Grondona.

Mas, o argentino ficou furioso quando descobriu que tinha sido passado para trás por Teixeira.

O capo brasileiro, descobriu Grondona, teria cobrado U$ 75 milhões em propina para ajudar o Qatar, quantia que teria dividido com Rosell.

1 Teixeira = 25 Grondonas. Isso sim é humilhação na máfia do futebol.

PS do Viomundo: O post original foi editado para acréscimos.





Luiz Carlos Azenha

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