23 de nov de 2017

As próximas eleições e os perdões do PT


É natural que após a contabilização das enormes perdas políticas advindas do golpe clepto-midiático-neoliberal que defenestrou o PT do poder federal, e está impondo uma agenda de retrocessos econômicos e sociais para toda a nação, as esquerdas brasileiras pusessem-se a matutar sobre os erros cometidos e os acertos a se cometer.

Muito tem-se falado e escrito a respeito, e como não poderia deixar de ser as estratégias de alianças adotadas pelo PT nos últimos processos eleitorais e na própria condução de seus governos vem constituindo o centro de atenções.

Questões como presidencialismo de coalisão, indispensabilidade de alianças amplas, limites de governabilidade, formação de maioria parlamentar, etc., etc., têm sido amplamente consideradas, pelo que vou permitir-me passar ao largo, em benefício de um olhar mais focado em decisões que deverão ser tomadas já a médio prazo.

Ao meio desse bom e indispensável debate surgiram nos últimos dias indisfarçáveis incômodos com declarações dos ex-presidentes Lula e Dilma, o primeiro oferecendo perdão a golpistas que articularam e procederam o impeachment da Dilma, e essa oferecendo o perdão àqueles que, em boa fé, foram às ruas exigir seu impeachment.

Mil leituras podem ser feitas dessas declarações, algumas até entendendo-as consideradas as atuais circunstâncias, ainda que não as abonando. Vou procurar ater-me a aspectos concretos.

Em primeiro lugar, vamos consensuar sobre a indispensabilidade de amplas alianças para buscar vitórias eleitorais e condições de uma mínima governabilidade para avanços nas agendas econômica e social.

Ou seja, a tese de que as eleições somente devem servir às esquerdas para marcar posições não tem maior amparo e muito menos qualquer razoável justificativa. Não é essa a pureza que buscamos e necessitamos.

Em segundo lugar, impõe-se a indagação: com quem aliar-se, quais os limites aceitáveis para as alianças que devem ser buscadas?

E é justamente nesse ponto que as esquerdas devem mostrar que foram capazes de apreender a história política recente e com ela aprimorar sua capacidade de análise, bem como de distinguir o certo do errado.

A partir dessa abordagem de aprendizado, penso que seriam essas as condições limites para as desejadas alianças:

* ao menos razoável aderência programática nos quesitos econômicos e sociais;

* rechaço a qualquer forma de corrupção (ou seja, como princípio ético das esquerdas, não deve ser aceita aliança com quem nela veja a oportunidade de galgar cargos públicos para, de alguma forma, meter a mão do dinheiro público);

*compreensão e aceitação da magna importância dos movimentos sociais independentes no apoio, na pressão e na crítica aos governos constituídos;

*compromisso firmado com a democracia, com a tolerância, com a abominação de qualquer sorte de preconceito, com os princípios laicos e republicanos do Estado, com o respeito e a defesa das minorias;

*adesão aos preceitos da Conservação Ambiental e do resguardo da Natureza, entendendo essa como o mais importante patrimônio vital, econômico e cultural dos brasileiros.

Visto isso e à luz disso, como poderíamos considerar os perdões de Lula e Dilma?

Vejamos, o pessoal que gira em torno de Temer e que compõe ou sustenta seu governo, não somente prima pela cabotinice ética, mas, com especial destaque, pela decisão espontânea de acintosamente implementar projetos neoliberais com que nem FHC teria sonhado em seu reinado, seja na economia, seja na área social, na área cultural, na educação, na saúde…

É essa a corja que antes compunha o amplo arco de alianças do PT governo. A que preço, hoje sabemos.

Como nos aliarmos a essa gente? Acordemos, esses são justamente nossos inimigos!

Se hoje alguns deles se arrependeram do golpe e voltam, por razões eleitorais, a namorar os tempos de PT governo, danem-se.

Como apresentar ao povo alianças dessa natureza? Um crime colaborarmos para mais confundir a já atormentada cabeça da população brasileira.

Como será entendido nosso abraço a gente como Barbalho, Renan, Eunício, Sarney, etc.? Esses mais Temer, mais Padilha, mais Geddel, mais Cunha, mais Moreira Franco, mais Henrique Alves, mais Jucá, são o PMDB que está impingindo à nação o governo mais reacionário e entreguista que se tem conhecimento em nossa história, eles são os inimigos a derrotar.

Essa é uma verdade que não pode ser dissimulada diante da população.

Quem poderá crescer em seu entendimento e em sua participação política fora dessa verdade?

Claro deve ficar que se no PMDB e em alguns partidos de centro ainda subsistirem figuras como Requião, ou ao menos representativas daquela conjunção política histórica que tanto se contrapôs à ditadura e da qual resultou a Constituição Cidadã de 88, por óbvio serão alianças por tudo importantíssimas, mas alianças nominais, não partidárias.

Quanto ao perdão de Dilma a cidadãos eventualmente arrependidos por terem ido às ruas clamar pelo impeachment, cabe como disposição de diálogo, mas choca-se com a realidade.

Não nos iludamos, a grande maioria que foi às ruas nessas ocasiões representa o que de mais reacionário e preconceituoso existe na sociedade brasileira, foram às ruas à forra contra as esquerdas, contra o PT, contra o protagonismo político das camadas sociais mais pobres, contra os projetos sociais como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida.

Pouco se importavam se como resultado assumisse plenamente o poder a quadrilha do PMDB ou os “limpinhos” do PSDB, o que os importava era escorraçar do poder, e quiçá do país ou da própria vida, os petistas e toda a Esquerda. Negros, índios, LBGT juntos.

Prova é seu sumiço das ruas diante das bandalheiras do atual governo. A tarefa já foi cumprida. Companheira Dilma, menos, sem ilusões com essa gente.

Então, qual a aliança que interessa às esquerdas?

No arco político, uma chapa de Esquerda e Centro-esquerda liderada pelo PT, nitidamente diferenciada e identificada por seu programa de governo.

É preciso levar ao povo a informação clara de quem é quem, qual sua história e a que se propõe, cumprindo uma atitude francamente politizante.

Com a participação de partidos que adiram ao programa e aos princípios propostos, com a participação de políticos de partidos que não componham a aliança, mas que demonstre também aderência ao programa, com a participação de personalidades dos mais variados ramos de atividade, com a mais expressiva participação de movimentos sociais, com a participação de comitês populares e de categorias profissionais.

Finalmente, ir para as eleições para ganhá-las, para compor o futuro governo e implementar o programa vitorioso.

Com sabedoria e perspicácia, mas também com coerência e nitidez política. Mas também contar com a possiblidade de uma derrota eleitoral em que ganhos políticos de conscientização da população sejam contabilizados e alimentem o futuro.

Justamente por termos plena consciência que as transformações econômicas e sociais que compõem o ideário da Esquerda somente se consagrarão em um cenário de grande conscientização e participação popular.

Por princípio não aceitar outro resultado que não seja a vitória eleitoral é atitude que poderá nos conduzir a uma luta cega e acrítica pelo poder, condição em que ganham força insinuantes convites para a abdicação de atributos políticos e éticos essenciais em benefício de ilusórias espertezas de viés pragmático.

E a história recente em todo o mundo tem nos mostrado com enorme clareza que esse não é um bom caminho.

Unidade, Paixão e Coerência. Rumo à Vitória.

Álvaro Santos
No Viomundo

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