26 de nov de 2017

A desistência seria o gesto de maior sabedoria de Huck

As duas desistências saíram quase juntas, mas nada têm em comum. João Doria confirmou a sua, pouco depois da antecipação feita por Thais Bilenky na Folha. Luciano Huck nem precisaria confirmar a desistência de uma pretensão eleitoral que não saíra da indecisão.

Doria faz uma retirada melancólica, mesmo que se mostre como encenação efêmera, por exprimir um fracasso e nada influir na perspectiva da disputa pela Presidência. Para Huck, a desistência é ou seria o gesto de maior sabedoria no seu projeto de candidatura presidencial. Paradoxo com reflexos, sim, no quadro das pretendidas disputas de candidatos e de partidos.

Por mais motivos que Doria apresente para reduzir sua ambição presidencial à de sucessor de Alckmin, não há dúvida de que o potencial de Huck, demonstrado nas pesquisas, pesou muito.

Seriam duas candidaturas a disputar o mesmo eleitorado, uma precisando conquistar o que a TV já deu à outra. E a diferença de retaguardas, no apoio de TV e imprensa, só seria maior se Huck disputasse com Lula.

Mas a razão primeira do insucesso de Doria está nele, que não entende o que lhe aconteceu. Pensa que se tornou prefeito por ser quem e como é, e não por uma conjunção de fatores, locais e nacionais, que pouco ou nada lhe deveram. Por isso a sua precipitação: pressa e queda.

Quem não está ambientado com a vida política e administrativa não imagina o que é ser presidente. Vida pessoal insípida, com alegrias só para quem goste de honrarias efêmeras e bajulações falsas. Mais solenidades inúteis como obrigação do que tempo para as obrigações bem-resultantes.

Quem chegue à Presidência com mais do que ambição pessoal não sairá sem frustrações. E se faltar o gosto por disputa política minuto a minuto, um perde-e-ganha obsessivo, a vida presidencial só pode ser uma exasperação sem fim. Cá entre nós, desejar ser presidente é um sintoma.

A relação de Luciano Huck com tais exigências é desconhecida. Com a vida que tem, a meu ver, e contrariamente a muito do que se ouve, é positivo que tenha pensado em governar um país destroçado, sejam quais forem suas ideias de corrigi-lo. Para Doria, o que é exigido de um presidente e o que dele se esperaria não importam.

O açodamento com que se lançou à autopropaganda país afora, dando as costas aos eleitores, aos compromissos e à cidade que lhe davam a oportunidade de governá-los, é de quem está submetido ao carreirismo de suas ambições. Um tipo de político que não falta.

O Poderoso

Só agora, nas prisões mais recentes de companheiros de Sérgio Cabral, inclui-se o chefe da Casa Civil do último governo fluminense. O recebimento que lhe foi atribuído, para justificar a prisão, é inexpressivo no grupo: R$ 1,6 milhão. Régis Fichtner, no entanto, era considerado o mais poderoso abaixo do governador, não só pela autoridade ampla que lhe foi dada, como pela comum sujeição de Cabral às suas opiniões.

É tudo estranho na prisão do advogado e procurador Fichtner: a ocorrência mais de um ano depois da prisão de Cabral e de secretários, o valor invocado, a medida extrema sem fato novo a justificá-la. Só pode haver novidades guardadas. Bem, testas-de-ferro, ou laranjas, ainda não foram incomodados. No caso de Cabral como no de Aécio. E de São Paulo – ih, cala-te boca.

Janio de Freitas
No fAlha

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