22 de nov de 2017

13 anos do telefonema de Carlinhos Cachoeira e a baixaria de Paulo Ramos


TV Globo, São Paulo.

Um deputado estadual do Rio, não me lembro mais quem, havia passado para o Fantástico a gravação que incriminava Waldomiro Diniz, então assessor da Casa Civil do primeiro governo Lula.

O “furo” da Revista Época (leia-se Editora Globo), em fevereiro daquele ano, abriu caminho para a CPI dos Bingos, na Câmara Federal e excitou a mídia, que festejava a descoberta do caixa dois da campanha do PT à presidência.

De quebra, enfraquecia o principal artífice do projeto político ora no poder: José Dirceu.

Luiz Carlos Azenha e eu fomos incumbidos, em São Paulo, de produzir uma reportagem especial esmiuçando a gravação entre Cachoeira e Diniz a procura de desdobramentos.

Produzimos um vt de quase 8 minutos. A princípio seria para o JN (duvidávamos, por causa da longa duração), depois passaram para o Fantástico e, por fim, reeditamos para o Jornal da Globo, depois de cortes e mais cortes.

A certa altura da edição, toca o telefone na minha mesa. Pasmo, atendo, do outro lado da linha, Carlos Augusto Ramos, Carlinhos Cachoeira, o próprio. Pergunto aos meus botões: como foi que ele descobriu a produção da nossa reportagem? E mais, quem teria dado o meu ramal a ele?

Conversamos com franqueza e cordialidade. Ele desqualifica a reportagem que estamos fazendo e diz (numa tentativa de barganhar a seu favor) que tem como nos dar com exclusividade o caminho para o caixa dois do PSDB (seria uma isca?).

Digo a ele que não tenho poder para mudar o trabalho em curso, mas sugiro que me explique qual é a denúncia exatamente, para encaminhar à direção.

Ele me conta que o negócio de caça-níqueis, bingos e loterias deixou de ser rentável e que migrou para o ramo de medicamentos genéricos, mais “limpo” e atrativo. Estava disposto a contar “em off” como era o esquema na Anvisa para liberação das fórmulas.

Era denúncia grave. Envolvia o ex-ministro da Saúde e candidato derrotado à presidência, José Serra, e o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que, segundo meu interlocutor, teria até participado de um encontro com ele, Cachoeira, e outros na base aérea de Anápolis, quando de um evento da Aeronáutica.

Desligo o telefone, consulto o arquivo e bingo! Temos a imagem do então presidente desembarcando e sendo recebido na pista da base aérea de Anápolis, no dia apontado por Cachoeira. Peço para “descer” a imagem e conto para o Azenha.

Decidimos fazer uma menção discreta dentro da reportagem, para não chamar a atenção da nossa chefia, e que, indo ao ar, poderia servir de pista para repórteres investigativos, cujos veículos fossem mais isentos e independentes.

Diante desta nova bomba, que poderia equilibrar o jogo em favor do governo Lula que, àquela altura, estava imobilizado nas cordas, apanhando sem parar, apresentei um relatório à chefia e fui pessoalmente contar ao chefe de reportagens especiais, Luiz Malavolta, o que tínhamos em mãos.

“Pode esquecer”, disse o Mala. “Denúncia contra o Serra a casa não vai dar”. Dito e feito. Até hoje ninguém abriu a caixa preta da indústria farmacêutica dos genéricos.

Por isso, quando ouço falar de Carlinhos Cachoeira, Revista Época, Globo e congêneres já fico com uma preguiça danada.

Foi o que disse ao meu sobrinho dia desses: “Toda denúncia serve ao interesse de alguém.”

No caso desta última, envolvendo o senador por Goiás, a quem interessa?

Marco Aurélio Mello*

PS do Viomundo: Este texto foi publicado originalmente em 18 de março de 2012 no blog Doladodelá, desativado pelo autor*.

O “senador por Goiás” a que se refere o autor era Demóstenes Torres, parceiro de Cachoeira. O bicheiro Cachoeira, quando denunciava o PT, era chamado de “empresário” pela mídia.

O deputado citado é Paulo Ramos, então no PDT, expulso do Psol nos últimos dias por votar com o corrupto presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani.

A gravação de vídeo, feita pelo próprio Cachoeira, havia sido explorada apenas parcialmente pela mídia, focando no pedido de propina de Waldomiro Diniz, feito quando ele ainda não era assessor de José Dirceu. Mas, havia mais naquela gravação, muito mais.

Foi por conta daquele antigo contato com Paulo Ramos que, mais recentemente, Luiz Carlos Azenha recomendou a um colega repórter investigativo que falasse com o deputado sobre uma denúncia no Rio. Ramos, do Psol, atendeu gentilmente ao colega do Azenha.

Mais tarde, o repórter recebeu uma ligação de uma assessora da presidência da Casa, ocupada por Jorge Picciani. Ela sabia de todos os detalhes do que o colega do Azenha pretendia investigar e havia confidenciado a Ramos. Ou seja, o deputado Paulo Ramos repassou a Picciani todas as informações compartilhadas com ele confidencialmente pelo repórter. Um crápula.

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